Primavera árabe: ‘Há que se passar pela experiência do islamismo no poder’

Nesta entrevista ao ‘Le Monde’, o destacado analista libanês Gilbert Achcar comenta as dificuldades dos governos islâmicos que subiram ao poder no mundo árabe. Além disso, diz que a Turquia não é uma referência para esses países, pois lá o AKP turco se reconciliou com o laicismo, tornando-se a versão islâmica da democracia cristã europeia.

Christophe Ayad – Le Monde*

Personagem desta entrevista, Gilbert Achcar é professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e um dos mais respeitados analistas do mundo árabe contemporâneo. Nasceu em 1951 e deixou o Líbano em 1983.

Ensinou na Universidade de París VIII e no Centro Marc-Bloch de Berlim. O seu compromisso com as esquerdas e movimento pró-palestina nunca o impediu de dirigir um olhar severo sobre as ditaduras nacionalistas árabes. É autor de “Le peuple veut une exploration radicale du soulèvement arabe”, editora Actes Sud.

Como qualificar o que aconteceu no mundo árabe, desde 2011?
Escolhi a palavra “levante” como título para o meu livro. Mas, na introdução falo de um processo revolucionário a longo prazo. O que estava claro desde o princípio é que estávamos muito no início de uma explosão, e o que se pode prever com certeza é que será de longa duração.

Emmanuel Todd deu uma explicação demográfica do fenômeno. Você inclina-se mais para uma explicação marxista.
A fase durante a qual o mundo árabe se distinguia por uma demografia galopante acabou há vinte anos. Comecei com a análise da situação em vésperas da explosão, em 2010. Constata-se um bloqueio do desenvolvimento que contrasta com o resto do mundo; inclusivamente com a África subsariana. A expressão mais espetacular desse bloqueio é uma taxa de desemprego recorde, particularmente entre os jovens. Além disso, há uma modalidade específica do capitalismo na região: em diferentes níveis, todos os Estados são rentistas. A outra caraterística é um patrimonialismo no qual o clã dominante se apropria do Estado até ao ponto de o transmitir de forma hereditária.

As revoluções árabes traduziram-se em liberalizações políticas, mas não em grandes mudanças sociais. Por quê?
No Egito e na Tunísia, só foi quebrada a ponta do icebergue; quer dizer, os déspotas e o seu grupo próximo. Por outro lado, nesses dois países, o “Estado profundo”, a administração, os aparelhos de segurança, não mudaram. Neste momento, só na revolução Líbia se deu uma mudança radical: hoje, já não há Estado; já não há exército. Nesse país, o descalabro social foi mais profundo, porque o reduzido espaço privado que existia era ocupado pela família Gadafi.

No Ocidente estranhou-se o triunfo dos islamitas nas eleições, quando não foram eles a lançar essas revoluções…
As expectativas do Ocidente, esse romanticismo em volta da “primavera” e o “jasmim”, todo esse vocabulário orientalista, baseavam-se num desconhecimento da situação. Era evidente que os integristas iam apanhar as castanhas do fogo porque, desde finais dos anos 70, impuseram-se como uma força hegemónica no protesto popular. Encheram o vazio deixado pelo fracasso do nacionalismo árabe. Por outro lado, a principal razão pela qual os governos ocidentais apoiavam os despotismos árabes era o receio dos integristas. Crer que essa situação iria ser varrida pelos acontecimentos, era tomar os desejos por realidades. Com o apoio financeiro do Golfo e o apoio televisivo da Al Jazeera, não se podia esperar outra coisa que vitórias eleitorais integristas. O que é chamativo é que essas vitórias não tenham sido esmagadoras. No Eipto, desde as legislativas ao referendo sobre a Constituição, passando pelas presidenciais, estamos a ver a velocidade a que se desmorona o voto integrista. Na Tunísia, Ennahda consegue 40% numas eleições em que participaram metade das pessoas inscritas. E, na Líbia, a Irmandade Mulçumana local foi derrotada.

Surpeendem-lhe as atuais dificuldades dos islamistas no poder?
Em primeiro lugar, há que dizer que o regresso aos despotismos não é algo exequível. Há que passar pela experiência do islamismo no poder. As correntes integristas construíram-se como forças de oposição com um slogan simplista: o islão é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islamistas são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas. Chegaram aos postos de comando em condições que ninguém inveja e não têm nenhum programa econômico.

Pode-se confiar neles no momento de organizar escrutínios que os poderão expulsar do poder?
Esse é o argumento clássico: uma pessoa, um voto, mas uma só vez. Salvo que cheguem ao poder em posição de força. O povo aprendeu a “querer” sair à rua. Jamais um dirigente, na história do Egito, foi tratado com tanto desprezo pelo seu povo como atualmente Morsi…

Pode-se copiar o modelo turco para o mundo árabe?

Não, na Turquia não é a Irmandade Mulçumana que dirige o país, mas uma cisão modernista que se reconciliou com o princípio do laicismo. O AKP turco é a versão islâmica da democracia cristã europeia. A Irmandade Mulçumana não é isso. É uma organização integrista que milita pela Sharia e para quem a palavra laicismo é uma injúria. No terreno econômico, não tem nada a ver: o AKP encarna um capitalismo de pequenos industriais, enquanto a Irmandade Mulçumana participa numa economia rentista, fundada no lucro a curto prazo.

Pode descrever a influência do Qatar nestas revoluções?
É um enigma. Alguns dirigentes colecionam carros ou armas; o Emir do Qatar, por seu lado, joga na política externa. Apresentou-se como comprador da Irmandade Mulçumana da mesma forma que compraria uma equipe de futebol. Um homem que jogou um papel fundamental nesta nova aliança (que faz recordar a que houve entre Mohamed ben Abdel Wahab e a dinastia dos Saud no século XVIII) é o sheik Qaradhawi, chefe espiritual dos Irmandade Mulçumana, instalado desde há muito no Qatar, e que tem grande influência na Al Jazeera. Tudo isso acontece num país em que o Emir não tolera qualquer oposição.

Como explicar a complacência dos Estados Unidos para com a Irmandade Mulçumana?
É algo que começou sob a administração Bush. Para os neoconservadores, o despotismo nacionalista produziu o terrorismo e, portanto, havia que derrubar déspotas como Saddam Hussein para poder estender a democracia. Condoleezza Rice quis retomar a aliança com a Irmandade Mulçumana, que se deu nos anos 50 e 60. Mas a vitória do Hamas nas eleições palestinianas bloqueou o processo. A administração Obama, que herdou uma situação catastrófica no Médio Oriente, mostrou uma atitude indecisa e prudente. Quando tudo estalou, optou por tentar dar a impressão de acompanhar o movimento. A obsessão de Washington na região é a estabilidade e o petróleo. E a tradução desta obsessão, é a procura de aliados que disponham de uma base popular.

Por que é que a intervenção da OTAN foi possível na Líbia e não na Síria?
A Síria encontra-se perante um risco de caos tipo Líbia, mas num contexto regional bastante mais perigoso. Está também o apoio da Rússia e do Irão. Desde o começo, a OTAN disse que não queria intervir. A questão não é “porque é que o Ocidente não intervém na Síria?”, mas “porque é que impede a entrega de armas à rebelião?”. A razão profunda é o medo do movimento popular na Síria. E o resultado é que a situação está a apodrecer. O regime sírio acabará por cair, mas a que preço? A miopia dos governos ocidentais é alucinante: com o pretexto de não reproduzir os erros cometidos no Iraque, quer dizer, o desmantelamento do estado baasista, fazem algo pior. Hoje, os sírios estão persuadidos de que o Ocidente deixa que o seu país se auto-destrua para proteger Israel.

A esquerda anti-imperialista vê um complô americano nestas revoluções…
Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. Basta ver o aperto de Washington. É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.

Fonte: CartaMaior

PEPE ESCOBAR: GUERRA AO TERROR “FOREVER”. Ouro e Urânio por trás das “preocupações” ocidentais no Mali.

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23/1/2013, Pepe EscobarAsia Times Online – The roving eye

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
E o vencedor do Oscar de Melhor Sequência de 2013 vai para… A Guerra Global ao Terror [orig.Global War on Terror (GWOT)], produção do Pentágono. Abandonai toda a esperança, vós que pensastes que a coisa não passaria da conversa fiada sobre o passamento dessa p’ra melhor, de “Jerônimo”, codinome Osama bin Laden, já reduzido a reles figurante de Zero Dark Thirty, filme-aula de tortura.
Agora já é informação oficial – emitida pela boca do leão, Comandante do Estado-Maior dos Comandantes das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, e devidamente postado no site do AFRICOM, braço africano armado do Pentágono.
Sai de cena a al-Qaeda “histórica”, enfiada lá em algum buraco dos Waziristões, nas áreas tribais do Paquistão. Entra em cena a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig.al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)]. Nas palavras de Dempsey, a AQIM “é uma ameaça não só ao Mali, mas a toda a região. (…) E se não for contida, pode, de fato, converter-se em ameaça global”.
Com o Mali já elevado à categoria de “ameaça” global, comprova-se que a Guerra Global ao Terror é realmente sem fim. O Pentágono não distribui frases de efeito. Quando, no início dos anos 2000s, os guerreiros-de-poltrona cunharam a expressão “A Longa Guerra”, falavam, mesmo, de guerra muito, muito longa.
Mesmo com a doutrina do governo 2.0 do presidente Obama de “liderar pela retaguarda”, não resta qualquer dúvida de que o Pentágono caminha diretamente para guerra no Mali – e ninguém cogita de guerrear nas sombras. O general Carter Ham, comandante do AFRICOM, já opera sob o pressuposto de que os islamistas no Mali “atacarão interesses dos EUA”.
Portanto, nesse momento já estão sendo enviados os primeiros 100 “conselheiros” militares dos EUA rumo ao Niger, Nigéria, Burkina Faso, Senegal, Togo e Gana – os seis países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Oriental [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] que integrarão um exército africano que terá a tarefa (dada a eles por Resolução da ONU) de reconquistar (invadir?) as partes do Mali que estão sob controle do enxame de islamistas da AQIM, do MUJAO (grupo que se separou da AQIM) e da milícia Ansar ed-Dine. Claro: esse miniexército africano é pago pelo ocidente.
Quem estuda a Guerra do Vietnã logo lembrará que enviar “conselheiros” foi o primeiríssimo passo que os EUA deram na direção de afundarem-se completamente no pântano no qual só depois perceberam que se haviam metido. Ironia suprema nada Pentagônica à parte, os EUA já há vários anos sim, deram instrução e treinamento a tropas do Mali. Muitos desertaram logo depois de treinados. Um desses, que recebeu treinamento nos EUA, em Fort Benning, o capitão Amadou Haya Sanogo, não só comandou um golpe militar contra o governo eleito do Mali, como também criou as condições indispensáveis para o avanço dos islamistas.
Mas ninguém está prestando atenção a esses detalhes. O general Carter Ham está tão excitado com a possibilidade de o seu AFRICOM ganhar mais luzes e caixas de som que o Led Zeppelin nos grandes dias, com ele próprio apresentado pessoalmente ao mundo como salvador (o Carter da África?), que não toma nem tomará conhecimento de fato histórico algum.
O general parece ter esquecido que o AFRICOM – e, então, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN – deram total apoio (e armaram) os rebeldes-da-OTAN na Líbia, quando lutavam guerra cara à cara contra Muammar Gaddafi. O general sempre soube que a al-Qaeda no Maghreb Islâmico “tem muito dinheiro e muitas armas”.
Apesar disso, ainda diz que “mercenários pagos por Gaddafi” teriam desertado, deixado a Líbia e levados suas armas, “muitas das quais chegaram ao norte do Mali”.
Nã-nã-não, general! Nunca foram mercenários de Gaddafi; a maioria deles eram rebeldes pagos pela OTAN, os mesmos que atacaram o consulado dos EUA, que sempre foi base da CIA, em Benghazi; os mesmos que tomaram a direção da Síria; os mesmos que agora aparecem por todo o Sahel.
Assim sendo… como a Argélia entra nisso?
Na sequência, na imediata rabeira, o primeiro-ministro David Cameron seguiu a Voz do Mestre e anunciou que a intervenção no Mali durará anos, “talvez décadas”.
Nessa 3ª-feira, o crème de la creme do establishment da inteligência britânica reúne-se para planejar, nada mais nada menos, que uma guerra pan-Saara/Sahel, para a qual querem mais uma “coalizão de vontades” à moda Bush”. Para o momento, o envolvimento dos britânicos significa ainda mais “conselheiros” das categorias “cooperação militar” e “treinamento de segurança” de sempre, montanhas de dinheiro e, por fim mas nem por isso menos importante, Forças Especiais do tipo que fazem guerra nas sombras.
O cenário se completa com outro providencial “Jerônimo”: Mokhtar Belmokhtar, codinome “O Incapturável” (para a inteligência francesa), comandante do MUJAO e cérebro pensante por trás do raid contra o campo In Amenas de extração de gás na Argélia.
Já não vimos esse filme?! Claro que vimos. Mas agora – já é oficial – o Mali é o novo Afeganistão (como o jornal Asia Times Online já informou viaredecastorphoto em Queima, arde, padece o Afeganistão africano, 18/1/2013.
Eis o que disse Cameron: “Assim como tivemos de lidar com o Paquistão e o Afeganistão, agora o mundo tem de unir-se para lidar com essa ameaça na África do Norte”. Certo. Belmokhtar já está ensaiando para uma rápida intervenção, como figurante, no roteiro que está sendo redigido da continuação de Zero Dark Thirty.
Já está bem claro o pé em que ficam as “relações especiais” anglo-americano – Pentágono – AFRICOM / inteligência britânica com a França sob a presidência de François Hollande, reconvertido à função de senhor-da-guerra, na “liderança” (momentânea) rumo à Operação Beco-sem-saída Africano. Fato absolutamente crucial é que ninguém na União Europeia, exceto os Brits, é suficientemente doido para seguir as pegadas de Hollande, neossenhor-da-guerra.
Mas ainda não se sabe onde fica a Argélia, chave de toda a equação, do ponto de vista da Guerra Global Ocidental contra o Terror.
Fato número 1: o novo “Jerônimo”, Belmokhtar, e sua Brigada Mulathameen [“Os Mascarados”], da qual o Batalhão “Assinaturas de Sangue” que atacou na Argélia é um subgrupo, mantém laços próximos, íntimos, com o serviço secreto da inteligência da Argélia. Em certo sentido, vê-se aí um remix das relações que havia entre os Talibã – e a al-Qaeda “histórica” – e o serviço secreto da inteligência do Paquistão (ISI).
A reação ultra duríssima dos militares da Argélia ao raid dos islamistas era previsível (já reagiam assim nos anos 1990s durante a guerra interna contra a Frente de Salvação Islâmica). Não negociamos com terroristas: nós os matamos (mesmo que morram também muitos reféns). Fazemos tudo sozinhos, sem estrangeiros que metem o nariz em tudo. E, em seguida, descemos pesada cortina sobre qualquer tipo de informação ou noticiário.
Não surpreendentemente, esse modus operandi fez subir uma longa fieira de sobrancelhas em todo o campo do “relacionamento especial” anglo-norte-americano. Daí a “conclusão” a que chegaram Washington / Londres: não se pode confiar nos argelinos. Nossa Guerra Global ao Terror – capítulo Saara / Sahel – terá de ser lutada sem eles. Muito provavelmente, isso sim, contra eles.
Fator complicador grave é que os cerca de 40 islamistas (ou mais) entre os quais havia líbios, sírios e egípcios atravessaram 1.600 quilômetros, no mínimo, de alto deserto, vindos da Líbia, não do Mali. Não teriam chegado ao fim da viagem se não tivessem recebido efetiva “proteção” – algo como alguma potência estrangeira que forneceu informações de inteligência a gente importante de dentro do governo da Argélia. Reféns resgatados disseram que os sequestradores falavam “inglês com sotaque norte-americano” (entre os quais um canadense que a Reuters batizou de “Chedad”) e que sabiam exatamente onde encontrar os estrangeiros dentro do complexo da usina.
O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, fala de uma operação de forças da Argélia, mascarada como se fosse operação de grupos terroristas, que saiu pela culatra. Argel parece ter querido sinalizar para o ocidente que se a França se pusesse a bombardear o Mali haveria retaliação inevitável; mas durante o desenrolar dos eventos, Belmokhtar decidiu inverter completamente o jogo, porque se enfureceu quando a Argélia abriu seu espaço aéreo para a passagem dos aviões franceses que bombardeariam o Mali. Em mais de um sentido, é remix da revolta dos Talibã contra o ISI paquistanês.
A opinião pública na Argélia suspeita, para dizer o mínimo, dos motivos de praticamente todos os envolvidos, entre os quais também do governo da Argélia e sobretudo da França. No blog maghrebino The Moon Next Door lê-se uma amostra fascinante de o que e como os argelinos pensam hoje.
Vale a pena fazer aqui uma longa citação desse artigo, escrito por um professor de ciência política, porque aí se resume o modo como o pensamento local vê e expõe a “liderança” francesa, no novo capítulo da Guerra Global ao Terror.
Em entrevista ao diário Le Soir d’Algerie, o professor de ciência política, Ahmed Adimi descreve a intervenção como tentativa para “minar a Argélia” e “um passo no plano de instalar forças estrangeiras na região do Sahel”. A tese de Adimi é que a França trabalhou durante anos para desestabilizar o Sahel como modo de fortalecer a sua posição geopolítica.
Perguntado sobre se a operação francesa no Mali teria sido consistente com a Resolução n. 2.085 do Conselho de Segurança da ONU, Adimi diz que a resolução “não é problema grave. As potências ocidentais têm usado essas resoluções para justificar suas operações militares. Já aconteceu no Iraque. De fato, a operação francesa pode parecer legal, dado que foi empreendida a pedido do atual presidente do Mali. Mas deve-se lembrar que o atual governo chegou ao poder por golpe de Estado. Quanto à intervenção, era sem dúvida previsível, mas os franceses precipitaram as coisas. (…) Aqueles grupos terroristas estão sendo manipulados pelas potências estrangeiras”. Diz também que esses grupos tiveram “autorização” para andar na direção do sul, para Konna, para assim justificar a intervenção francesa.
Para Adimi, os algerianos “há tempo soam o alarme sobre a situação no Sahel em geral. Ahmed Barkouk e eu organizamos vários seminários sobre essa questão. Discutimos o papel da França e seu compromisso na região. A França esteve por trás da criação do movimento pelo Azawad. Falo é claro da organização política, não do povo do Azawad, que tem direitos como comunidade. Os franceses sabiam que sua intervenção na Líbia levaria os militares tuaregues pró-Gaddafi a retornarem ao Mali. Também planejaram a distribuição de muitas armas líbias entre os grupos do Sahel. A meta é converter a região num novo Afeganistão. É resultado de um longo planejamento”.
Tariq Ramadan, em artigo devastador, também desmascara Paris, expondo a conexão entre a tortuosa intervenção “humanitária” de Sarkozy na Líbia e ao atual ímpeto de Hollande para proteger “um país amigo” – e, isso, depois de anos de hipocrisia francesa que jamais deu qualquer atenção ao “povo sofredor” que sofria sob o tacão de incontáveis ditadores africanos.
Mas o Oscar para o Cenário mais Hipócrita vai, sem dúvida, para as atuais “graves preocupações” franco-norte-americanas sobre o Mali ser hoje o novo playground da al-Qaeda, quando já se sabe que os principais playgrounds são mesmo o norte da Síria, onde a al-Qaeda é apoiada pela OTAN (até a fronteira turca); o norte do Líbano e grandes partes do território líbio.
Sigam o ouro e sigam o urânio
Mesmo antes de que se possam analisar com alguma profundidade todas as muitas ramificações – algumas não previstas – da Guerra ao Terror expandida, há duas pistas a seguir atentamente no futuro próximo: o ouro e o urânio.
Seguindo o ouro. Várias nações têm montanhas de ouro depositadas no New York Federal Reserve. Dentre elas destaca-se, hoje crucial, a Alemanha. Recentemente, Berlim começou a pedir que seu ouro físico seja repatriado: 374 toneladas depositadas no Banco da França e 300 toneladas das 1.500 toneladas depositadas no New York Federal Reserve.
Franceses e norte-americanos imediatamente pensaram: “Ficaremos sem ouro algum!” A operação de repatriação do ouro se prolongará por sete anos, no mínimo. Resumo: Paris e Washington / New York têm de comparecer com ouro, de verdade, seja como for.
É onde o Mali encaixa-se belamente. O Mali – com Gana – é responsável por mais de 8% da produção global de ouro. Se você estiver desesperadamente carente do produto genuíno – ouro físico – é indispensável controlar o Mali. Imaginem se todo aquele ouro acaba em mãos da… China?!
Agora, sigamos o urânio. Como todos os que viveram de perto a saga do yellowcake [concentrado de urânio] do Niger antes da invasão do Iraque, o Niger é o quarto maior produtor mundial de urânio. O principal comprador é – adivinhem… – a França; metade da energia elétrica da França é produzida por energia nuclear. As minas de urânio no Níger   estão concentradas no noroeste do país, na face ocidental das montanhas Air, bem próximas da fronteira com o Mali – e uma das regiões que os franceses estão bombardeando.
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Região dos Tuaregs (hachurada) e ouro… e urânio…
A questão do urânio mantém íntima ligação com sucessivas rebeliões dos tuaregues; não se pode esquecer que, para os tuaregues, não há fronteiras nacionais no Sahel. Todas as recentes rebeliões tuaregues no Niger aconteceram em território de urânio – na província de Agadis, próxima da fronteira do Mali. Assim, do ponto de vista dos interesses franceses, imaginem o risco de os tuaregues passarem a controlar aquelas minas de urânio – e porem-se a fazer negócios diretamente com… a China?! E Pequim, por falar dela, já está presente naquela região.
Todo esse jogo crucial de poder estratégico – o “ocidente” enfrenta a China na África, com o AFRICOM dando “uma mão” a Hollande, neossenhor-da-guerra e assumindo a perspectiva da Longa Guerra – de fato é mais decisivo que a síndrome da retaliação. Não é crível nem pensável que os serviços de inteligência britânico, francês e dos EUA não tenham previsto os efeitos em cascata e eventuais efeitos da “guerra humanitária” da OTAN contra a Líbia. A OTAN é aliada muito íntima dos salafistas e dos Jihads salafistas – temporariamente apresentados como “combatentes da liberdade”. Eles sabiam que o Mali – e todo o Sahel – imediatamente depois, seria inundado de armas.
Não, não foi por acaso. A expansão da Guerra Global ao Terror para o Saara/Sahel foi construída passo a passo. Guerra Global ao Terror é maná que nunca acaba de chover sobre os interessados: o que mais poderia interessar ao complexo industrial-militar-segurança-midiático franco-britânico-USAmericano, que um novo teatro de guerra?
Oh, yes! Há também o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia. Muita gente daria um dedo – extraído à moda dos radicais – para saber como e quando virá o contragolpe de Pequim. 
Fonte (versão traduzida): Redecastorphohto

TRNN: “Intervenção da França no Mali viola resolução da ONU; Raízes da crise estão na marginalização do norte do Mali”

French Intervention in Mali Violates UN Resolution; Root of Crisis Marginalization of the North

Emira Woods: The French have violated the UN resolution as they defend their resource interests; Africans want a comprehensive aid and political package for Northern Mali

Bio:Emira Woods is a co-director of Foreign Policy In Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the Board of Africa Action and serves on the Board of the Association of Concerned Africa Scholars. She is also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative Africa Council.

Transcript

PAUL JAY, SENIOR EDITOR, TRNN: Welcome to The Real News Network. I’m Paul Jay in Baltimore.

France is sending more forces to Mali as the anticolonial forces (as many of them describe themselves) are pushing further south. The forces are made up of the Tuareg people and various extremists, some people say. Others call them militant Islamists or Jihadists. But one way or another, there are many outside forces either intervening in Mali or poised to do so.

Now joining us to talk about how we got here is Emira Woods. She’s codirector of Foreign Policy in Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the board of Africa Action and serves on the board of the Association of Concerned Africa Scholars. She’s also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative, Africa Council. And between 1992 and ’99 she worked for Oxfam, where she traveled around Africa extensively and spent a lot of time in Mali.

Thanks for joining us.

EMIRA WOODS, CODIRECTOR, FOREIGN POLICY IN FOCUS, IPS: A pleasure to be with you. Thanks for having me.

JAY: So give us a little bit of context, first of all. I know you can’t do the whole history of Mali in two minutes. But as quickly as you can, how did we get here?

WOODS: Well, the history for me begins centuries back. So the quick version is, you know, Mali has been the center of Islamic thought, of learning. It was the site of one of the oldest universities, Timbuktu, one of the oldest libraries in the world. You know, these centers of learning predated Harvard and Cambridge and Oxford. You know, Mali has been at the center not only of African life, but really of the world, in many ways, for centuries.

I think we have to understand, though, that Mali is—what’s happening in Mali is the direct result of an international intervention in Libya. The ousting of Muammar Gaddafi essentially unleashed these unintended consequences, where you had weapons flowing from Libya, weapons that—some of which were part of Gaddafi’s caches. Others were weapons brought by NATO and the NATO forces. But these weapons flowed from Libya across boarders, from Algeria into Mali, creating a real crisis situation, where longtime challenges in terms of the political process, the internal political process in Mali, where the northern part of the country, from the days of colonialism, the northern part was seen as marginalized economically, not enough development, marginalized politically, without sufficient political access. The north had been clamoring for greater rights, greater sovereignty, really, for decades, since the ’60s, or some say since the turn of the 20th century.

So I think in the midst of this ongoing conflict for self-determination and greater rights of the north, you enter these weapons, the heavy flow of weapons from Libya. And it’s just been a recipe for disaster.

So what happened? March 2012, you had a coup, essentially, launched by a U.S.-trained military officer, you know, Sanogo, who had come to the U.S. reportedly seven times in the last eight years, essentially launching a military coup one month before the elections in Mali, supposedly because there was a sense that the Malian government was not handling well the crisis in the north with this inflow of weapons coming forward. So the army launched a coup, and launched then a series of coups and countercoups that have gone on, really, since March, as recent as this past December. So what you have is a political crisis in Mali that’s now exacerbated by this heavy flow of weapons into the region.

JAY: Is there any suggestion that this coup, there was some American interest to have this coup? ‘Cause I thought the president that was overthrown by the coup was very friendly to the United States.

WOODS: Well, yes, the president did have relations, friendly relations with the U.S. But also you have a military that’s been armed and trained by the U.S. now for quite some time. And so that military takes the weapons and the training from U.S. taxpayer dollars and decides that they can do it better, and essentially skirts the democratic process and takes over power. So I think you have a political crisis that has now been exacerbated by a deteriorating security crisis in the north because of the massive inflow of weapons.

And so enter this situation now the French essentially deciding that the UN, which passed a Security Council resolution, you know, 20-85 back in December authorizing an African-led military intervention, coupled with political intervention to get at the root causes of the crisis—but the French essentially decided that the UN process, the UN sanction process was not happening in a fast enough clip and that they could take more direct action more quickly. So the French back a week ago or so, back on Friday, launched a military intervention, airstrikes in Northern Mali, and that has been followed by ground forces there from the French moving steadily throughout Northern Mali.

I think what we have to recognize is that, you know, often military intervention breeds greater challenges, unintended consequences. And so what we have created now is a situation where, you know, all the challenges internal to Mali have been exacerbated by people, extremists, coming—many foreign fighters coming from other countries into Mali to unseat the French, to offset Western colonial powers, and to assert their own image of what Mali should look like for the future. I think it is not only dangerous for Mali, but also for the neighboring countries, countries like Algeria that has now seen hostages taken at oil installations because of this, now, desire to combat the French and to stop the interventionists from the West.

JAY: Now, France has essentially violated the UN resolution, right? The UN resolution was quite specific: this needed to be an African force led by Africans. And that’s not what’s happening.

WOODS: Well, this is the thing. France essentially went to the UN to try to brief the UN, but there has been no new Security Council resolution. So what stands is the resolution passed, which calls for an Africa-led force. I think it is really important to underscore that the regional body the Economic Community of West African States echo us, as well as the African Union, have been calling for a comprehensive package.

Let’s not look to the military solution as the answer here. What will be needed for long-term peace and stability in Mali is a comprehensive package that pays attention to the underlying political crisis that created the situation that has unfolded in Mali.

But we also have a humanitarian crisis. Over 200,000 people have been forced out of their homes because of the conflicts in the northern part of Mali. And in addition to that, you have reports that just since Friday, in less than a week, 30,000 more people have been forced out of their homes, out of their communities. So you have a real humanitarian crisis that also needs attention from the international community.

So the regional bodies were essentially calling for a comprehensive package, and yet the focus of the international—particularly the French action now, is on sort of this military intervention.

JAY: Now, France is saying that the government of Mali is—be it what it is, asked them to come in. I mean, is that what we understand?

WOODS: Well, this is what France has said. I think we have to understand that this is a government that came to power by a coup, and, you know, the U.S. in particular has said explicitly that they cannot support particularly the government in Mali officially, because it is a government that came to power by coup.

So I think we have to question, really, the legitimacy of the government and understand that a government that comes to power through a coup that has—and led a series of coups and countercoups and ousted a civilian prime minister just as recent as December, that government is really lacking credibility in quite a number of ways. And so whether or not they have the credibility to call in the French, I think, is still up for discussion.

JAY: Okay. So the other argument we’re hearing from France and in the mass media is that the troops from the north, the insurgents from the north, were heading south and, you know, getting towards the capital, and that there was a lot of foreigners there, including French citizens and others, and that if the French didn’t move in quickly, you know, people’s lives would be in jeopardy, and that the African countries that were supposed to be putting together this force hadn’t acted quickly enough. What do you make of all of that?

WOODS: Well, I think, you know, there is always justification to push the military option as the first response, as opposed to a last resort. And I think what you have here is really a French justification for their actions. I think it is important to underscore that military actions will not bring resolution to the crisis in Mali.

I think there needs to be comprehensive efforts to address the root cause of this crisis, which is the marginalization of the North, people of the North feeling completely isolated politically and economically. I think we have to underscore that, you know, this is a region that is rich in gold, in oil, with oil exploration very actively underway throughout the region. It is also a region where land has been expropriated in what many call land grabs, you know, with land being taken by international investors for biofuels production.

So there are many underlying issues that have to be addressed to be able to get at the root causes of this conflict. And the military intervention, instead of addressing these multiple layers of challenges, the military intervention is actually going to exacerbate tensions, creating, really, a space where extremists from many different countries now, not only from Mali but from throughout the region, and even outside the region, are now anxious to get to Mali, to pick up arms to fight the colonial power, to fight the French. [snip] to continue to see the situation deteriorate because of this action.

JAY: Some people might call the French extremist. But there’s a question I have is: why is France willing or interested to do this? Where does this interest lie? I mean, there’s every reason to think that this is going to be a quagmire for them.

WOODS: Without a doubt. And I think, you know, many are really surprised to see a socialist government in France taking this action. You know? And there was a hope that the change in leadership in France would bring a different foreign policy. But unfortunately, you know, there is still this push towards foreign policy that’s set by more short-term, very narrowly defined strategic, quote-unquote, interests without looking at the longer-term relationships that need to develop to build a mutually beneficial set of policies that not only will benefit Mali and Africa but will bring benefit to the global economy [crosstalk]

JAY: Do you think this has to do with French interest in Libya? I mean, France led the charge to overthrow Gaddafi in Libya. There was a big conflict over oil issues. And especially we’ve done quite a few stories about the conflict or contradiction between the French and the Russians over who was going to control, through Gazprom versus Total and the Italian company Eni. I mean, are they worried that this Northern Mali, if it doesn’t get checked by the French, becomes a kind of base that they’re going to wind up having to deal with in Libya?

WOODS: Well, I think we cannot underestimate the role of oil and other vital natural resources. I think it is important to recognize that these are resource-rich countries, and so it isn’t by chance that, you know, there’s militarism, oil and militarism, whether it’s Iraq and Afghanistan, Libya, Algeria, or Mali, you know, that has this now very rich potential in exploration already underway in terms of its oil. You know. So I think the economic interests of countries, whether it’s France or the United States, particularly interests that are often directed, dictated by big oil companies, I think we cannot underestimate the role of those types of considerations in determining foreign policy.

I think clearly there is this notion of responsibility to protect that was invoked both in Libya and, you know, is also being invoked—to a lesser extent, but also being invoked in Mali, this notion of protecting civilians. But I think what we have to understand is that when there is aerial bombardment, it is often civilians that are paying the heaviest price [crosstalk]

JAY: But what do you say to the people of the South who do not want to be ruled by the people of the North, and if the army in the South is in such disarray, it may not be able to prevent that without some kind of intervention or support?

WOODS: I think we have to—you know, we cannot underestimate the power of political negotiations for longer-lasting peace. And in this instance in Mali what we have seen is that the political process, the negotiations process, has actually brought results. The Tuaregs who initially started with their quest for a separate homeland, a separate state, you know, that would bring all the Tuaregs together from all the neighboring countries, that demand has been dropped largely because of political negotiations where traditional leaders, faith-based leaders, peace activists, are actively trying to bring about a negotiated settlement to the crisis.

And so I think we have to continue to amplify the actions of those that are the true warriors for peace, those that are fighting for a political process that will address the root causes of the conflict and will bring longer-term stability. I think we have to recognize what gains have been made through those processes and continue to demand that those processes be a part of a comprehensive approach by the international community, as well as by the regional actors.

Fonte: The Real news Network

Exército libanês sai às ruas e promete reprimir conflitos em Beirute

Em comunicado, Forças Armadas afirmam que país “está passando por momentos muito críticos”

 
O exército libanês saiu às ruas nesta segunda-feira (21/10) com o objetivo de controlar o caos nas ruas de Beirute. Desde a última sexta-feira, com a morte do chefe da Inteligência da Polícia, Wisan al-Hassan, durante um atentado, diversos conflitos foram registrados na capital do país.

As Forças Armadas do Líbano prometem reprimir “qualquer ação” que afete a paz no país

Em nota, o comando das Forças Armadas avisou que reprimirá qualquer ação para preservar a paz civil. “Pedimos aos dirigentes de todas as forças políticas que expressem suas opiniões com cuidado, porque o destino da nação está em jogo. É necessário se comprometer a manter a paz.”

O comunicado acrescenta que “os eventos que aconteceram nas últimas horas demonstraram que o país está passando por momentos muito críticos e os incidentes em algumas partes chegaram a níveis sem precedentes”.

No domingo, durante o funeral de Al-Hassan, o ex-primeiro-ministro Fouad Siniora pediu a renúncia do chefe de governo, Najib Mikat. Pouco depois, um grupo de jovens tentou invadir a sede do Executivo, o que desencadeou choques com as forças da ordem. Nas últimas horas, ao menos três pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.

As ações das Forças Armadas ocorrerão iniciaram “especialmente nas regiões onde há atritos sectários e confessionais, para evitar que o Líbano se transforme no terreno de um acerto de contas regionais e evitar a exploração do assassinato do mártir Hassan”.

Os soldados foram alvo de disparos quando tentavam abrir as ruas bloqueadas por manifestantes no bairro de maioria sunita Tariq Yadid, palco de um tiroteio ontem à noite.

O atentado – no qual, além de Al-Hassan, faleceram outras duas pessoas e 126 ficaram feridas – aumentou a tensão no Líbano, dividido entre partidários e opositores do regime de Bashar Al-Assad. Al-Hassan dirigiu as investigações que, em agosto, desvendaram a trama na qual estavam envolvidos o ex-ministro libanês Michel Samaha e o chefe da segurança síria, Ali Mamluk, acusados de planejar atentados contra líderes políticos e religiosos contra sírios.

Fonte: OperaMundi

Leia outras notícias sobre a Líbia.

Ministro das Relações Exteriores do Brasil critica desempenho do Conselho de Segurança na questão da Síria, Líbia e Irã

Entrevista ao Jornal O Estado de S. Paulo

O Ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota, conversou com os jornalistas Lisandra Paraguassu e Roberto Simon, na sede do jornal, em 14 de setembro.

Fonte: Canal do Ministério das relações Exteriores no Youtube

E veja também:

Da Agência Brasil

Brasil condena qualquer tipo de intervenção militar na Síria, diz ministro

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O governo do Brasil condena qualquer tipo de intervenção militar na Síria, disse hoje (18) o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Ao participar do seminário Os desafios da Política Externa Brasileira em um Mundo de Transição, na Câmara dos Deputados, o chanceler disse que a crise que ocorre na Síria não pode ser solucionada militarmente.

Nos preocupa o que ocorre na Síria. Já temos repetido isso, que não há solução militar para esse tipo de situação. Isso é [para nós] uma espécie de mantra”, disse Patriota, lembrando que há uma série de dificuldades no Iraque e no Afeganistão pelo fato de esses países terem sido alvos de intervenção militar. “O componente militar não apresentou soluções [nesses locais]”, disse.

A onda de violência na Síria leva um ano e meio, tendo matado mais de 25 mil pessoas, segundo organizações não governamentais. A violência provoca também a fuga em massa de sírios que procuraram refúgio nos países vizinhos.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas está dividido internamente em relação às medidas que devem ser implementadas na Síria. Para um grupo de países, liderados pelos Estados Unidos, a intervenção é a alternativa. Mas os governos da Rússia e da China rejeitam a proposta. Sem consenso, não há como adotar medidas por meio do conselho.

Patriota disse que situação considerada também “preocupante” ocorre na Líbia, país que, no ano passado, sofreu intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e, atualmente, dispõe de um elevado arsenal de armas e munições. Além disso, a situação do país afeta toda a região. “Há contaminação dos países vizinhos pela Líbia”, destacou o chanceler.

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Governo brasileiro rechaça intervenção externa devido ao programa nuclear do Irã | Agência Brasil 

Renata Giraldi

Repórter da Agência Brasil

Brasília – O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, rechaçou hoje (18) a possibilidade de intervenção externa no Irã na tentativa de encerrar o impasse em torno do programa nuclear desenvolvido no país. Patriota disse que ‘preocupa muito’ as autoridades brasileiras as manifestações favoráveis a esse tipo de ação. O Irã sofre uma série de sanções por parte da comunidade internacional, que teme a fabricação de armas atômicas.

O governo do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, nega o uso não pacífico da tecnologia de energia nuclear desenvolvida no país. Segundo as autoridades iranianas, o programa nuclear será utilizado, entre outras áreas, na de saúde.

Patriota, que participar do seminário Os desafios da Política Externa Brasileira em um Mundo de Transição, na Câmara dos Deputados, também mencionou a questão da busca pela paz entre israelenses e palestinos. O chanceler disse que, até o final do ano, visitará Israel e a Palestina. Segundo ele, é fundamental buscar uma solução pacífica para acabar com os conflitos que ultrapassam séculos na região.

‘É muito importante lembrarmos de um acordo de paz de médio e longo prazo. É nesse sentido que mostra o perfil pacífico do Brasil, que é a vontade de dialogar com ambos os lados, uma vocação brasileira de convívio pacífico. Pretendo ir a Israel e a Palestina, também para retomada do tema pelas instâncias multilaterais’, disse o chanceler.

A presidenta Dilma Rousseff participa, no próximo dia 25, da 67ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Será uma das primeiras a discursar e, a exemplo do que ocorreu no ano passado, ela pretende mencionar a necessidade de intensificar os esforços em busca da paz, citando israelenses e palestinos, por meio do diálogo.

Fonte: Agência Brasil

Pepe Escobar: Como o Mal se tornou o Bem e agora voltou a ser o Mal

O tiro pela culatra que se levanta em Bengasi

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online

Muçulmanos paquistaneses queimam bandeira dos Estados Unidos durante manifestação em Quetta. (Foto: Banaras Khan / AFP Photo)

“Papai, o que é um tiro pela culatra?”

Aqui está uma fábula para contar às crianças, junto ao fogo, em um não tão distante e distópico futuro apocalíptico.

Era uma vez, durante a “guerra ao terror” de George “Dubya” Bush, as Forças do Bem no Afeganistão capturaram (e devidamente torturaram ) um terrorista maligno, Abu Yahia al-Libi.

Abu Yahia al-Libi era, com certeza, líbio. Foi submetido por três anos nas entranhas da prisão de Bagram, perto de Kabul, mas de alguma maneira conseguiu escapar daquela supostamente inexpugnável fortaleza em julho de 2005.

Por então, as Forças do Bem se davam muito bem na cama com o Coronel Gadaffi da Líbia, cujos serviços de espionagem (para o deleite da administração de Bush) estavam dando o que tinham de mais repugnante para exterminar, ou ao menos isolar, aos jihadistas-salafistas do tipo Al-Qaeda, no estilo de al-Libi.

No entanto, em 2011, as Forças do Bem, agora sob nova administração, decidiram que era hora de enterrar a já tão passada “guerra ao terror” e dançar conforme uma nova moda, mais popular: a intervenção humanitária, também caracterizada como “ação militar cinética”.

Daí que al-Libi retornou dos mortos (agora, lutando ao lado das Forças do Bem para destituir – e oportunamente eliminar – o “maligno” Coronel Gadaffi). Al-Libi tinha se tornado um “guerreiro da liberdade”, apesar de que ele conclamasse abertamente que a Líbia deveria se tornar um Emirado Islâmico.

A lua de mel não durou muito.

Em setembro de 2012, pela primeira vez em três meses, o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, conhecido como O Cirurgião, divulgou um vídeo especial de 42 minutos para “celebrar” o 11º aniversário do 11 de setembro, admitindo finalmente a eliminação de seu número dois.

Seu número dois não era outro que Abu Yahya al-Libi, que tinha sido alvejado no Waziristão em 4 de junho por um dos drones adorados pelo presidente Barack Obama.

Um efeito imediato do vídeo de al-Zawahiri foi que uma turba furiosa, conduzida pelo grupo islamista Ansar al Sharia, incendiou o consulado dos EUA em Bengasi. O embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto. Não importou o fato de que Stevens tinha sido um heroi dos “rebeldes da OTAN” que haviam “libertado” a Líbia – notoriamente salpicados com jihadistas-salafistas do tipo de al-Libi.

Stevens foi recompensado por Washington com o posto de embaixador tão somente depois de que o “maligno” Gadaffi finalmente tivesse sido sodomizado, linchado e assassinado por (o que mais) uma turba furiosa.

Assim que, por fim, a serpente pôde morder sua própria cauda.

Terror, terror, terror

O que ocorreu em Bengasi pode ter sido apenas um protesto fora de controle contra um filme amador grosseiro feito na Califórnia, produzido e dirigido por um corretor de imóveis estadunidense-israelense que é um comprovado islamófobo (agora, dizem que sua identidade era um disfarce), financiado com US$ 5 milhões de doadores judeus não identificados, o qual apresentava o Islã como “um câncer” e o Profeta Maomé como um mulherengo, pedófilo e, acima de tudo, uma fraude.  O filme foi devidamente propagandeado pelo pastor da Flórida, demente e fanático queimador de Alcorões, Terry Jones.

Porém, o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia é apenas o prato de entrada do que pode ocorrer na Síria, onde vintenas de “guerreiros da liberdade” apoiados pela CIA, pelos turcos e pela Casa de Saud estão vinculados a Al-Qaeda, seja por meio do supostamente reformista Grupo de Luta Islâmico Líbio (LIFG) ou por gangues terceirizadas como a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) ou Al-Qaeda no Magreb (AQIM).

Então, como Washington vai “submeter os perpetradores à justiça” da Líbia? Afinal, esta é a mesma gangue que foi saudada como “herois” quando eles sodomizaram, lincharam e eliminaram o “maligno” Gadaffi.

Asia Times Online vem alertando por mais de um ano sobre tiros pela culatra na Líbia – e potencialmente na Síria, onde sheiks sauditas medievais freneticamente emitem fátuas legitimando a matança em larga escala de “infieis”alauítas.

Tudo isso é uma reprise do mesmo velho filme sobre a jihad no Afeganistão na década de 1980; primeiro, eles são chamados de “guerreiros da liberdade”, mas, quando eles nos atacam, voltam a se tornar “terroristas”.

Agora temos jihadistas-salafistas armados pela OTAN na Líbia, e jihadistas-salafistas financiados pela Casa de Saud e pela Turquia na Síria – empregando métodos “terroristas”, tais como homens-bombas, para derrocar o regime de Assad – todos ligados e prontos para agir. Isso certamente dá um novo significado à expressão “ação cinética” de Obama.

O tiro pela culatra – como no Afeganistão – poderia ter demorado anos para vir. Desta vez, ele ergueu sua feia cabeça após apenas alguns meses. E isso é tão somente o começo.

E agora? A quem vocês vão bombardear? A quem vão matar com os drones? Que tal bombardear Bengasi um ano depois de condenar Gadaffi à morte porque ele teria ameaçado… bombardear Bengasi?

Perguntem à Secretária de Estado Hillary (“Viemos, vimos, ele morreu”) Clinton, que alega falar em nome do “povo da Líbia”. Talvez ela venha com uma política de alinhamento retroativo dos EUA com Gadaffi.

E, já que estamos em ano eleitoral, por que não perguntamos ao próprio invisível ex-presidente Bush? Afinal, ele proclamou em 20 de setembro de 2001 que: “ou vocês estão conosco, ou estão com os terroristas”.

Bem, O Sr. Tiro-pela-culatra poderia dizer: tenha cuidado com o que recebe quando vai para a cama com terroristas.

Fonte: Viomundo

Embaixador americano na Líbia é vítima de duelo de fanáticos

Horas depois de uma manifestação na embaixada dos Estados Unidos no Egito, um violento ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, matou o embaixador dos EUA, Chris Stevens, e outros três americanos. Há poucos detalhes sobre a morte de Stevens, que pode ter sido vítima de uma explosão provocada por uma granada lançada por foguete contra a representação diplomática ou da brutalidade dos manifestantes. A única certeza é o fato de que a violência no Egito e na Líbia é resultado da intolerância religiosa professada por fanáticos no mundo muçulmano e também nos Estados Unidos.

Imagem de 7 de junho mostra o embaixador Chris Steven (à esq.) cumprimentando o líder do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia, Mustafa Abdel Jalil. Stevens era conhecido por seu firme apoio aos rebeldes que derrubaram Muamar Kadafi.

A ordem dos acontecimentos em Benghazi não está clara. O jornal Lybia Herald divulgou versões conflitantes de testemunhas. Uma delas afirmou que o protesto era pacífico e se tornou violento quando a polícia local tentou repelir os manifestantes. A outra dá conta de uma ofensiva violenta por parte dos manifestantes desde o início. Segundo a Al-Jazeera, Stevens teria morrido sufocado pela fumaça gerada pela explosão de granadas. O Guardian afirma que o embaixador teria sido atacado na manhã desta quarta-feira 12, quando chegou ao consulado para verificar os danos do ataque. Uma foto publicada pelo jornal Corriere della Sera mostra o que seria o corpo de Stevens, arrastado pelas ruas de Benghazi.

Se há dúvidas quanto à forma como Stevens e os outros americanos morreram, é clara a justificativa para o ataque. Como ocorreu no Egito, os manifestantes líbios atacaram a representação americana por conta de manifestações anti-Islã divulgadas recentemente. Uma delas é o “Dia Internacional do Julgamento de Maomé”, organizado pelo pastor evangélico Terry Jones, um radical religioso da Flórida conhecido por queimar cópias do Corão, o livro sagrado do Islã. “O ataque à embaixada no Cairo indica ainda mais a falta de respeito do Islã por qualquer outra religião”, disse Jones ao jornal Orlando Sentinel. “O Islã é totalmente incompatível com a sociedade livre ocidental”.

A outra justificativa é o filme Innocence of Muslims, uma produção divulgada no YouTube que retrata Maomé, o profeta muçulmano, como filho bastardo, bissexual, violento e pedófilo. AoWall Street Journal, o diretor do filme, Sam Bacile, afirmou que produziu o longa com 5 milhões de dólares arrecadados com 100 doadores judeus. “Este é um filme político, não religioso. O Islã é um câncer”, disse.

O fanatismo religioso de Jones e Bacile encontra eco entre a fração mais radical dos muçulmanos. No Egito, os protestos de terça-feira foram convocados por Wesam Abdel-Warethpor, um líder salafita, grupo conservador ultrarradical. Na Líbia, tudo indica que salafitas também participaram dos protestos, incluindo a milícia islâmica Ansar Al-Sharia. Antes da Primavera Árabe, os salafitas classificavam a política como algo proibido e condenavam a participação de seus seguidores em qualquer tipo de debate público. Após as derrubadas de ditadores, os salafitas formaram partidos e mostraram sua popularidade, em particular no Egito, onde obtiveram 25% dos votos nas eleições para o Parlamento (hoje dissolvido). Nem todos os salafitas são violentos, mas a maioria dos grupos muçulmanos que pregam e usam a violência, como a rede terrorista Al-Qaeda, têm base salafita. Esses grupos não estão acostumados a conviver com a divergência, mesmo entre versões diferentes do Islã, e são obstinados em sua luta por fazer todo o mundo muçulmano, e a humanidade, adotarem o mesmo estilo de vida que Maomé tinha no século VII. São, como a maioria dos árabes e muçulmanos, anti-americanos.

Os salafitas se notabilizaram, também, por convocar protestos ruidosos pelo mundo árabe. Essas manifestações, muitas vezes, acabam atraindo grupos violentos não religiosos. No Cairo, a bandeira dos Estados Unidos foi retirada do mastro principal da embaixada, aparentemente, por torcedores organizados de futebol, sempre presentes na linha de frente de protestos. Na Líbia, o protesto também tinha a presença de setores seculares.

Ocorre que o discurso religioso serve para insuflar os ânimos. O que torna o duelo de fanáticos ainda mais perigoso é o fato de ambos não conseguirem matizar as diferenças entre religião, sociedade e política. Como faz Terry Jones, para quem o ataque à embaixada americana no Egito é prova de intolerância religiosa, os salafitas são incapazes de diferenciar uma iniciativa de um pastor evangélico daquela do governo americano. Foi esta a “lógica” que contribuiu para matar o embaixador Chris Stevens e os outros americanos. É o mesmo raciocínio de Osama Bin Laden que, em sua sanha de atacar os Estados Unidos, promoveu um ataque em 11 de setembro de 2001 e deixou mais de três mil civis inocentes mortos.

A resposta do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao ocorrido na Líbia foi exemplar. “Os Estados Unidos rejeitam esforços para denegrir as crenças religiosas dos outros, mas todos devemos nos opor inequivocamente a este tipo de violência sem sentido que tirou as vidas desses funcionários públicos”. Da mesma forma, o primeiro-ministro da Líbia, Abdurrahim el-Keib, pediu desculpas a “todo o povo americano e ao governo, e também a todo o mundo” pelo que chamou de “ato criminoso covarde”.

A semana do 11º aniversário do 11 de setembro mostrou que a Primavera Árabe foi capaz apenas de libertar diversas forças políticas em sociedades que passaram décadas sob uma dura opressão, muitas vezes patrocinada pelos Estados Unidos. A Primavera, sozinha, não vai gerar democracias de forma espontânea. A semana deixou claro, também, que a questão religiosa é central para o futuro do mundo árabe. As ações de Jones e Bacile podem ser criticadas e condenadas, mas não criminalizadas. A violência por parte de grupos salafitas, e de criminosos que usam questões religiosas como justificativa, entretanto, deve ser combatida a todo custo. Após décadas de opressão, o mundo árabe precisa reconhecer que, atualmente, este tipo de violência, gerada internamente, é o maior risco para o futuro da região.

Fonte: CartaCapital

Leia outras notícias sobre a Líbia.

Advogados dizem que filho de Khadafi é vítima de maus tratos na Líbia

Saif Al-Islam Khadafi

Os advogados responsáveis pela defesa de Saif Al-Islam Khadafi no Tribunal Penal Internacional (TPI) disse que ele está sendo vítima de maus tratos na prisão na Líbia.

Em um comunicado, os advogados disseram que Khadafi está sendo mantido em isolamento quase completo por uma milícia e que foi espancado.

Eles também afirmaram que os promotores haviam sido avisados de que o filho do ex-líder líbio seria julgado por crimes menores envolvendo uma licença para ter um camelo e irregularidades em uma criação de peixes.

O governo da Líbia e o Tribunal estão disputando quem irá julgar Saif Khadafi.

O Conselho Nacional de Transição, órgão que governa o país, insiste que ele deveria ser julgado na Líbia, mas o TPI diz que os líbios devem entregá-lo para o tribunal de crimes de guerra em Haia, na Holanda.

Fonte: BBC BRASIL

Para entender o mundo. Pepe Escobar: “Alteram-se as tendências, na disputa por recursos na disputa por recursos vitais””

Pepe Escobar: “Alteram-se as tendências, na disputa por recursos vitais”

27/12/2011, Pepe Escobar (entrevistado por Lars Schall), Consortium News

Shifting Ground for Vital Resources

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
A disputa por petróleo, água e outros recursos intensifica-se, as relações globais mudam, criando o pano de fundo para uma cadeia de conflitos, do Iraque à Líbia. Pepe Escobar, jornalista nascido no Brasil e um dos mais sensíveis analistas dessas tendências, fala aqui, em entrevista ao jornalista alemão Lars Schall.
Lars Schall: Pepe Escobar, dada sua experiência nesse campo, qual, em sua opinião, o principal mal-entendido que se constata na opinião pública em geral, relacionado à chamada “Guerra ao Terror”?
Pepe Escobar: A “Guerra ao Terror” foi história-de-capa e cobertura para um “Choque de Civilizações” e uma guerra fria oculta, mas que talvez ‘esquente’, entre os EUA e seus dois concorrentes estratégicos, China e Rússia. Os EUA não poderiam atacar diretamente nenhum desses dois países membros do grupo BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os países emergentes].
Lembremos que antes da “Guerra ao Terror” e depois da queda do Muro de Berlim, os norte-americanos tentavam definir quem seria seu próximo inimigo. Fazia falta um inimigo externo pré-fabricado – antes, foram a União Soviética, a Cortina de Ferro e o demônio do comunismo. Depois que o demônio foi derrotado pela realpolitik – OK, quem é o próximo?
Primeiro, pensaram na China, mas disseram “não, não podemos tomar a China, é uma grande potência, tem armas nucleares. Com a Rússia, a mesma coisa. E os russos estão agindo bem, há lá um fantoche, no Kremlin, Boris Yeltsin, privatizando tudo feito louco e saqueando os recursos da Rússia, hipoteticamente a favor das corporações ocidentais”. Foi assim, até que [Vladimir] Putin virou tudo isso de ponta cabeça.
Assim, a “Guerra ao Terror” pareceu perfeita, porque o Islã pôde ser rotulado como o inimigo. E o 11/9 não poderia ter sido mais conveniente, porque então, embora o conceito já existisse desde antes, havia o “fator Pearl Harbor”. A “Guerra ao Terror” foi conceito que pôde ser vendido não só ao público norte-americano, mas, também, à opinião pública mundial. Mas a agenda oculta, por baixo da “Guerra ao Terror” global, que o Pentágono chama de “A Longa Guerra” – guerra infinita – é, de fato, a emergência de duas potências que são ameaça real e grave aos EUA, Rússia e China.
A Rússia, basicamente porque tem armas atômicas. Naquele momento, sequer pensavam na Rússia como grande exportador de petróleo e gás – foi antes de Putin ter reorganizado a Gazprom, que viria a tornar-se a principal empresa internacional de petróleo e gás.
E a China, a qual, naquele momento, há 10 anos, os americanos viam como ainda desorganizada, talvez enfrentando alguma revolta camponesa, sabe-se lá! Fato é que os EUA não pensavam na China, naquele momento, como concorrente de peso. Hoje, claro, a China tem 3,2 trilhões de dólares norte-americanos nas suas reservas, além dos papéis do Tesouro do EUA etc.
11/9 foi pretexto perfeito, mas, por baixo, oculta, intensificou-se a disputa para chegar às reservas de energia do Golfo Persa e da Ásia Central. E os EUA tinham o plano máster dos neoconservadores. É o mesmo plano que – por difícil que seja acreditar –, está sendo implantado hoje. Esse plano implica desestabilizar esse “Arco de Instabilidade” – expressão cunhada, claro, pelo Pentágono –, do Maghreb pelo norte da África pelo Oriente Médio e direto até a Ásia Central via Afeganistão/Paquistão – que é a intersecção entre a Ásia Central e o Sul da Ásia – até a fronteira da China, em Xinjiang.
Eles precisavam implantar sua estratégica, que foi concebida em sua forma final, depois do 11/9. É a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” do Pentágono, tema sobre o qual você jamais lerá na imprensa dominante nos EUA ou na Europa.
Desde 2002, a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” é doutrina oficial do Pentágono. É intrinsecamente ligada à Segurança Nacional dos EUA: temos de ser principal potência, não só em terra, mar e ar, mas também no ciberespaço e no espaço sideral. Essa é a essência da doutrina da doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”.  [Ver, por exemplo, GARAMONE, Jim (American Forces Press Service): “Joint Vision 2020 Emphazises Full Spectrum Dominance”, 2/6/2000, Departamento de Defesa dos EUA].
Está sendo aplicada agora, depois da “Primavera Árabe”. E é inacreditável que ninguém, absolutamente, fale sobre isso. Todos se puseram a falar de uma “Primavera Árabe”, que é termo impreciso, porque faz crer que os árabes tenham estado adormecidos ao longo dos últimos cem anos, e estivessem ‘despertando’ – o que não é verdade. A palavra “Primavera” não é a palavra certa. Eu diria que estamos assistindo a um processo de maior consciência das classes trabalhadoras e classes médias na Tunísia, no Egito, no Bahrain e também em outras partes do Oriente Médio.
E, em seguida, veio a contrarrevolução, e esse processo contrarrevolucionário está levando diretamente à implantação de outras etapas da doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”. Adiante, podemos voltar a falar sobre isso.
O que estou querendo dizer, basicamente, é que a contrarrevolução, orquestrada pelos EUA e, especialmente, pela Casa de Saud, reinstrumentalizou o que aconteceu na Tunísia e no Egito. Dispararam a contrarrevolução no Golfo Persa e hoje tentam subornar a ditadura militar no Egito para mantê-la lá como ditadura militar. Já deram quase 4 bilhões de dólares à junta militar chefiada por Tantawi, e mais dinheiro virá da Arábia Saudita. Enquanto isso, os EUA, na Ásia Central, tentam reorganizar-se, porque se deram conta de que estão perdendo terreno – e para quem seria? – para China e Rússia.
Isso está acontecendo ao ritmo de novos negócios de petróleo e gás que estão sendo construídos entre China e Rússia, entre o Turcomenistão e a China, e também entre todos esses atores e o Irã – Rússia e China já mantêm cooperação bem próxima com o Irã nos campos de petróleo e gás. Então, disseram os americanos, “OK. Como, então, reorganizamos a coisa toda?”
Do modo como o Pentágono vê o mundo, a “Guerra ao Terror” está mais ou menos acabada para todas as suas finalidades práticas. E volta a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro”: “os EUA têm de controlar tudo”. Significa controlar o Mar Mediterrâneo como “lago da OTAN”, projeto que já implementaram na Líbia e hoje tentam implementar na Síria; controlar o resto da África, enviar tropas para Uganda, como Obama fez há poucas semanas. Mas não se trata só de Uganda; trata-se de todo o coração da África Central, Uganda, Sudão do Sul, República Centro-Africana e Congo – muito petróleo, muitos minérios, muitas terras raras, todos esses recursos extremamente valiosos.
O Ocidente não pode estar ausente, e os EUA têm de manter-se no controle (“esqueçam a China”). Tudo isso implica ampliar o Comando dos EUA na África (AFRICOM), cuja sede está ainda em Stuttgart, Alemanha, mas logo, provavelmente, será transferida para Benghazi, Líbia.
Há poucos dias, conversei com gente da União Europeia em Bruxelas, dissidentes inteligentes que não concordam com o que está sendo feito lá. Disseram-me off the Record que, sim, haverá uma base militar na Líbia; e que o plano sempre foi esse, desde o início.
Haverá muitos “coturnos em terra”, coturnos europeus, turcos, do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos, aqueles mercenários que estão sendo treinados pela empresa Blackwater – hoje, empresa Xe – nos Emirados Árabes Unidos. Todos esses farão parte daquela base, que será a base que a OTAN e o AFRICOM desejavam implantar no norte da África.
Em minha opinião, a principal resposta à sua pergunta é: a “Guerra ao Terror” foi cortina de fumaça que durou mais ou menos dez anos. Hoje, todos eles – o Pentágono, a CIA, o FBI, a Agência de Segurança Nacional, o governo Obama, todos eles – já dizem aos quatro ventos: “a al-Qaeda está operacionalmente desativada” (palavras deles).
Praticamente morreram todos, exceto al-Zawahiri e o novo chefe nomeado para o comando militar, mas nem lembro seu nome, e muda a cada semana. Morreram praticamente todos, já não estão no Afeganistão, têm poucos instrutores nas áreas tribais nos Waziristões, não estão operativos no resto do mundo. Mas, sim, estão no poder, hoje, em Trípoli, porque foram usados pelo ocidente. O pessoal de Benghazi foi treinado num campo militar ao norte de Kabul.
Estive lá no início de 2001; havia muitos líbios. E, sim, aqueles líbios são o Grupo de Combatentes Líbios Islâmicos [orig. Libyan Islamic Fighting Group, LIFG]. Foram treinados naquele campo ao norte de Kabul (e nem foi difícil chegar até lá). Hoje, estão no poder na Líbia. O comandante militar de Trípoli, Abdelhakim Belhadj, e seus homens, muito bem armados, militarmente muito bem treinados, não arredarão pé de lá. Esses jihadis ligados à al-Qaeda deixaram-se manipular pelo ocidente, sem oferecer qualquer resistência.
Você diria que a al-Qaeda, hoje um fantasma da força real que teve ‘nos bons velhos tempos’, foi usada como instrumento da política exterior dos EUA?
Pepe Escobar: Sim, sem dúvida foi! Foi a desculpa perfeita, porque não se afastaram do plano para tentar implementar a doutrina da “Dominação de Pleno Espectro” em todos os pontos nos quais conseguissem implementá-la. Estiveram muito ativos na Ásia Central – até há cerca de dois anos –, desde o governo Bush.
Não esqueça que Cheney visitava a Ásia Central a cada dois, três meses, naquela época. Os EUA tentaram negociar diretamente com os cazaques, com os turcomanos e, especialmente, com o Azerbaijão – a elite do Azerbaijão tem muitos laços com os Republicanos nos EUA. Dick Cheney esteve lá muitas vezes.
E o embaixador especial do governo Bush, que ainda trabalha para o governo Obama, Richard Morningstar, “embaixador do petróleo”, a serviço de Washington na Ásia Central, conhece muito bem todos os personagens. Os EUA tentaram pressioná-los para que não negociassem com os russos, nem com a China, para que deixassem de lado o Irã e negociassem com os norte-americanos. E está acontecendo o quê? Eles negociaram com a Rússia, negociaram com a China, não deixaram de lado o Irã e absolutamente não estão negociando com os EUA.
Em geral, as pessoas esperam, se você faz guerra, que você deseje vencer a guerra. Mas não é o que se vê na Ásia Central, cenário de guerras perpétuas. Manter esse cenário naquela região traria algumas vantagens para o “complexo petróleo-militar” (expressão do economista James K. Galbraith), em relação a China e Rússia?[Sobre a expressão “complexo petróleo-militar”, ver GALBRAITH, James K., “Unbearable Costs of Empire”, orig. The American Prospect magazine, Nov. 2002, inThird World Travelor].
Pepe Escobar: Sim, mas o problema é que o “complexo” não conhece os atores com os quais está lidando. O ‘complexo’ não considera fatores culturais, esquece, por exemplo, que os turcomanos são muito independentes e sempre preferirão negociar com interlocutores que falem a língua deles – o russo. Se Medvedev vai a Ashgabat, para conversar com o presidente Berdimuhamedov, e fala russo, a probabilidade de que se fechem negócios é muito maior.
Quanto aos chineses, vão a Ashgabat e dizem: construiremos qualquer coisa que vocês queiram que seja construída; construímos, nós mesmos, os gasodutos e oleodutos. Façam-nos um bom preço pelo gás de vocês e amanhã nós construiremos esse gasoduto, do leste do Turcomenistão ao oeste da China. Foi exatamente o que já fizeram e, há dois anos, o gasoduto já foi inaugurado. Aplica-se também aos africanos: a China negocia sem pré-condições e sem qualquer interferência na política interna dos outros países.
Durante algum tempo, os norte-americanos tentaram essa via, como com o Uzbequistão e aquele presidente que cozinha o próprio povo, Islam Karimov. Estiveram em negociações bem íntimas, com o governo Bush, e os EUA tiveram uma base militar em Karimabad, cidade próxima da fronteira afegã, e que foi muito útil para os norte-americanos. Mas depois se puseram a criticar os direitos humanos no Uzbequistão. O que disseram os uzbeques? Adeus base militar! Os uzbeques são parte do óleo-gasoduto que vai do Turcomenistão à China, via Uzbequistão. Os EUA mudaram um pouco de tática, mas, no fim, perderam a disputa.
Até que, afinal, os EUA começaram a perceber que perderam terreno para a Rússia e para a China, para ambos os países, na Ásia Central. Então trataram de se reposicionar no Golfo Persa, no norte da África e também dentro da África. A Líbia terá grande serventia para novas explorações de gás e petróleo. Os líbios dizem que manterão os contratos vigentes com os italianos – há um oleoduto do norte da Líbia até a Sicília, e há o óleo exportado para a Itália. Mas os novos contratos irão todos para a empresa Total, para a British Petroleum (BP) e para os norte-americanos, não para russos e chineses.
A Líbia foi, é e continuará a ser muito lucrativa para as majors ocidentais, as empresas ocidentais gigantes da energia. Na Ásia Central, a única esperança dasmajors é o Azerbaijão, porque as majors mais ou menos controlam os negócios de energia no Azerbaijão e, como já disse, as elites do Azerbaijão operam, basicamente, como satrapias de Washington. O problema é que as majors não controlam o Turcomenistão.
Estão pressionando o Turcomenistão, para construir o oleogasoduto Nabucco. Mas Nabucco custará uma fortuna, cerca de 20 bilhões de euros, e ninguém sabe de onde virá esse dinheiro, sobretudo agora, com a crise europeia.
Os turcomanos dizem que podem fornecer gás suficiente, mas ninguém sabe se eles têm de fato todo esse gás, porque estão fornecendo gás ao Irã, vendem muito gás para a China e continuam a vender gás pelo velho gasoduto soviético. Nabucco precisará de muito gás, e ninguém sabe se o Turcomenistão terá tanto gás. E os turcomanos dizem: vocês têm de provar que já reuniram os financiamentos necessários para o gasoduto, que pode ser construído nos próximos três ou quatro anos; enquanto não mostrarem o dinheiro, não podemos comprometer, nesse gasoduto, as nossas reservas de gás.
Isso significa que, se o Turcomenistão não tiver gás suficiente, os europeus terão de buscar o gás noutro lugar, e não poderá ser no Azerbaijão, a menos que gastem mais de 22 bilhões de dólares em novos investimentos.
Enquanto todos estão emperrados em negociações difíceis, os russos já construíram dois oleogasodutos: o North Stream e o South Stream. Putin está vencendo a guerra contra o projeto Nabucco, porque começou antes e negociou antes com os governos de Gerhard Schröder na Alemanha, para a construção doNorth Stream; e com o governo de Silvio Berlusconi na Itália, para a construção do South Stream. Esses dois oleogasodutos, um no norte e outro no sul, estão derrotando o projeto Nabucco, para o qual o dinheiro ainda não apareceu; não se sabe de onde poderá vir; não se sabe se o projeto encontrará todo o gás de que precisa para ser comercialmente rentável; e não se sabe onde encontrarão esse gás, se não for nem no Turcomenistão nem no Azerbaijão. A Turquia também quer para ela boa parte do gás, além dos impostos que poderá arrecadar pelo trânsito do gás por território turco. A confusão é completa, por ali.
Continuo a ler os pronunciamentos oficiais sobre Nabucco (o consórcio tem sede em Viena). A cada um, dois meses, aparece novo comunicado: que vai começar, que já têm os 20 bilhões de euros, que estará construído em 2017, a construção começará no próximo ano, mas é o mesmo que dizem há cinco anos, se não me engano com as datas.
Outro problema central é o tráfico de ópio/heroína no Afeganistão. O que você tem observado, o que pensa desse problema? Quem são os principais players desse comércio? Você também entende que todo esse caso é uma vergonha para o ocidente?
Pepe Escobar: Ah, sim. Um dos principais players nesse comércio sempre foi Ahmed Ali Karzai, irmão do presidente Hamid Karzai do Afeganistão. Encontrei-o depois do 11/9 em Quetta – ele sempre viveu em Quetta, sua base perfeita. Quetta é cidade fascinante. Costumo dizer que é a capital do contrabando e do tráfico de drogas de todo o oriente – e não é dizer pouco, porque Quetta compete com Hong Kong; de fato, compete com todos, com os russos, com a máfia ucraniana.
Em Quetta há uma máfia de transportes, uma máfia de heroína e, a partir de Quetta todas aquelas redes começam a diversificar-se. Uma rede atravessa o norte do Paquistão e chega ao Tadjiquistão; outra rede bifurca-se no Tadjiquistão e avança na direção da Ásia Central e, dali, avança até a Turquia.
E há as redes do ópio paquistanesas/afegãs e outra rede no Tadjiquistão que só cuida do refino. Todos, na região, sabem que essa é a rede da CIA. O que ainda não se conhece precisamente é o traçado, a trajetória, dessa rede. O mais provável é que parta do Afeganistão pelo Uzbequistão para chegar à Turquia, ou, talvez parta do Uzbequistão. Naquela parte do mundo, cada grupo tem sua rede de tráfico.
Que eu saiba, as máfias chinesas não têm rede no Afeganistão, mas, provavelmente, logo terão. Mas esse já é um problema terrível para os russos. Se se pergunta a funcionários russos qual o principal problema em relação ao Afeganistão, todos dizem a mesma coisa: a droga está em guerra contra nós; a origem dessa guerra é o ópio afegão. O número de russos mortos por causas associadas à heroína já é maior que as baixas que os russos sofreram na guerra do Afeganistão, nos anos 1980s.
Pepe Escobar: Você tem toda a razão. Os russos falam muito sobre isso na Organização de Cooperação de Xangai. Não se trata só de manter as bases norte-americanas fora daquela área – como os chineses também desejam manter. Os russos precisam também encontrar um modo de desmontar essas máfias do ópio, de drogas. É grave problema para a Rússia – como, aliás, também é grave problema para o Irã.
Para o Irã, por causa dos refugiados afegãos. Os refugiados afegãos moveram-se para o leste do Irã, basicamente. Se você vai a Mashhad, no leste do Irã, e visita os subúrbios de Mashhad… Ali é o centro do ópio; é o centro do contrabando do ópio. Atravessam o Afeganistão, via Herat, de Herat a Mashhad, hoje as estradas são excelentes, uma viagem de no máximo sete horas; e de Mashhad distribuem o ópio por todo o Irã. O problema das drogas também é grave no Irã. O Irã já é membro observador da Organização de Cooperação de Xangai e uma das principais razões pelas quais o Irã interessou-se pela OCX é tentar criar um mecanismo regional capaz de combater eficazmente o tráfico de drogas, uma real guerra ao tráfico naquela região. Aqueles países estão sofrendo terrivelmente.
Sendo assim, a heroína já está sendo processada no Afeganistão, não apenas plantada e colhida ali. Uma pergunta que sempre faço a mim mesmo: e quem fornece os materiais químicos necessários ao refino e processamento? Que eu saiba, não há fábricas de anidrido acético no Afeganistão, há?
Pepe Escobar: Honestamente, não sei. Mas acho que, sim, pode haver, provavelmente há, ajuda externa envolvida nessa produção. É verdade. No Afeganistão o refino é simplesmente impossível. As refinarias costumavam ser instaladas no Tadjiquistão ou no Paquistão, em Quetta, por exemplo, ou em Dushanbe no Tadjiquistão. O povo do vale do Panjshir tem contato com o tráfico, tudo está concentrado em Dushanbe, 40 minutos ao norte do Afeganistão, por helicóptero (e eles têm seus próprios helicópteros). Portanto, sim, eu diria que recebem ajuda externa. E, claro, a especulação sempre aparece: o ocidente estará ali, ajudando o tráfico?
Não é acaso, que tantos especulem na mesma direção: onde há recursos energéticos e/ou tráfico de drogas ilícitas (p.ex. América do Sul, Ásia Central, Sudeste Asiático), os militares e a inteligência dos EUA nunca estão longe…
Pepe Escobar: É, estão, sim, por toda a parte. Embora, hoje, já não possam andar como antes pela América do Sul, em função do que acontece por lá, digamos, desde 2002.
Foi um terremoto geopolítico, de fato: os sul-americanos, pela primeira vez na história do continente (depois da eleição, primeiro do presidente Chávez na Venezuela, e depois do presidente Lula no Brasil em 2002, depois no Equador e até no Uruguai e até com a eleição de Kirschner na Argentina), afinal decidiram. “OK. Agora, vamos agir juntos, agora que tantos governos eleitos por aqui são de centro-esquerda ou são, pelo menos nominalmente, governos progressistas.
Vamos pôr “ordem na casa”, disseram os sul-americanos; “vamos nos organizar através da UNASUL, por exemplo, a União dos Países Sul-Americanos; e do MERCOSUL, que é uma união de trocas e comércio regional. E vamos tentar resistir diretamente à interferência dos norte-americanos”. E isso, precisamente, é o que hoje se vê. Lembre que, em 2002, o presidente Chávez da Venezuela escapou de um golpe, organizado diretamente de Washington (e há muitas provas disso, até na Internet. Eva Golinger, advogada venezuelana-norte-americana, escreveu livros excelentes sobre aquele golpe). Em 2007, os EUA tentaram desestabilizar a Bolívia; e houve mais um golpe fracassado no Equador, há pouco mais de um ano.
Quero dizer: não está acontecendo como acontecia antes na América do Sul, porque agora, ali, há unidade política, econômica e geopolítica.
Mas que ninguém duvide: se o Pentágono encontrar uma abertura pela qual possa outra vez tentar intervir diretamente na Venezuela, eles tentarão de novo. O problema é que, agora, há especialistas russos na Venezuela, há empresários e especialistas chineses, e iranianos com interesses locais, na Venezuela. A Venezuela deixou de ser país que só negociava na América do Sul, embora, sim, tenham muitos negócios com Brasil, Argentina etc. Mas hoje a Venezuela vende também ao outro lado do mundo; e negocia diretamente com os dois principais concorrentes estratégicos dos EUA, além de o presidente Chávez ser amigo muito ativo da nêmesis dos EUA, o Irã. São mudanças muito significativas, que explicam muita coisa.
Desde 2002, a América do Sul está transformada em problema gigante para o Pentágono. Não surpreende que aqueles doidos que disputam a indicação a candidato dos Republicanos, tenham dito, no último debate televisionado, que o Hamás e o Hezbollah estão infiltrados por todos os cantos na América do Sul; que os EUA têm de precaver-se contra a América do Sul, porque os EUA já esqueceram que há muitos comunistas e terroristas na América do Sul. Mas o quadro mudou muito na América Latina, e não há nada de novo no que os EUA dizem.
Lars Schall: Mas você diria que é coincidência, essa conexão histórica entre recursos energéticos e drogas ilícitas? Por exemplo, na guerra do Vietnã.
Pepe Escobar: É verdade, com a Air America. A Air America não estava só defendendo civis no Laos e no Vietnã. Basicamente, foi uma operação de contrabando de heroína, que a CIA dirigia. – Mas a coisa não é necessariamente assim.
Eu lembraria o caso da Colômbia, que foi completamente diferente. A Colômbia foi um caso de cartéis locais, que lutavam entre eles, pelo monopólio de exportar cocaína para os EUA. Nesse caso, eu diria que havia poucos interesses norte-americanos envolvidos nisso – vender equipamento e armas, sim, mas os norte-americanos não estavam à frente da batalha contra os cartéis. E quando os cartéis se fragmentaram, espalharam-se por todos os cantos. Agora, nos últimos três ou quatro anos, são peruanos que controlam a distribuição de cocaína na América do Sul, já não são os colombianos.
Deslocalizaram-se, por exemplo, também para o Brasil, como centro de refino e de exportação. Eu diria que, semana a semana, aumenta a apreensão de cocaína no Aeroporto Internacional de São Paulo, por exemplo. Se você multiplica isso pelo que realmente entra por ali, é incrível. Hoje, o aeroporto de São Paulo é um dos principais portos de embarque de cocaína para a América do Norte e para a Europa. Antes, foi a heroína que vinha da Ásia Central via Europa, e que desembarcava também no Brasil.
Engraçado: houve um tempo, nos anos 1980s, lembro bem, que havia uma conexão italiana: as pessoas traziam heroína de Milão para São Paulo, e levavam cocaína de São Paulo para Milão (risos). Isso há quase trinta anos.
O caso da Colômbia é muito diferente. Não há relação direta entre drogas e energia. E o mesmo acontece na Venezuela: ali, o único jogo em andamento tem a ver com energia: é uma batalha por energia. Hugo Chávez – e pense-se o que se pensar sobre ele – tem agido com muita inteligência, porque [pensou ele]… OK. Minha saída é negociar com outros players. E a Venezuela fez logo negócio gigante com a China. Hoje, é um dos maiores fornecedores de petróleo para a China.
Em breve estarão vendendo 1 milhão de barris de petróleo por dia, à China. E podem aumentar para dois milhões, facilmente, se os chineses investirem na região do Orenoco, explorando novos campos, o que os chineses farão. Não é prioridade agora, porque, no momento, os chineses estão concentrados na Sibéria, Ásia Central e África. Mas os chineses ainda têm esse plano C ou D para eles: a Venezuela.
E contam com o Brasil, como exportador de petróleo?
Pepe Escobar: Sim, com toda a certeza, por causa dos depósitos do pré-sal, no Brasil, que são uma espécie de “benção” complexa, de fato. A Petrobrás é vista em todo o mundo como das mais competentes empresas estatais de petróleo. O problema é que a Petrobrás tem de desenvolver tecnologia específica para perfurar a camada de sal, para extrair o petróleo. É operação extremamente complexa e extremamente cara. Dizem que a extração começará em 2017, mas duvido.
O último número que vi, em termos do investimento necessário, faz alguns meses, era algo como 220 a 240 bilhões de dólares de investimentos ao longo de poucos anos, para começar a extrair o petróleo do pré-sal. Todos querem participar. A Chevron já está lá, a Exxon Mobil, a Gazprom quer vir e, claro, os chineses. E tenho certeza de que, quando os brasileiros começarem a lançar projetos, os chineses estarão na primeira fila, com todas as suas empresas, CNPC,CNOOC, todas elas.
Mas é projeto de longo prazo para os chineses, é claro, porque, se se analisa a coisa com realismo, não haverá petróleo do pré-sal antes de 2019/2020. Os chineses estão pensando à frente.
Ouvimos falar muito dos BRICS. Você entende que seja só um bom nome, inventado por Goldman Sachs, ou há mais sob esse nome, uma estratégia abrangente, alguma coisa desse tipo?
Pepe Escobar: Ainda não há uma estratégia abrangente. Foi só um bom nome, em 2001/2002. Agora já é mais que isso, porque eles se reúnem com regularidade, não só no encontro oficial anual, mas os ministros de Relações Exteriores trabalham juntos, os vice-ministros encontram-se, como encontraram-se recentemente em São Petersburgo. Todos têm interesses semelhantes. Para Rússia e China, trata-se de manter os EUA longe de seus quintais, quer dizer, basicamente, longe da Ásia Central e das ex-repúblicas soviéticas.
Ao Brasil, o que interessa é manter os norte-americanos fora da América do Sul, o mais que seja humanamente possível, considerando que Brasil e EUA mantêm relações muito, muito próximas, e os EUA ainda vêem o Brasil como aliado-chave na América Latina. O jogo das relações exteriores entre Brasil e EUA é extremamente complicado.
À Índia, o que interessa é manter-se no mesmo grupo das demais nações emergentes, sem antagonizar demais os EUA. A Índia também tem de jogar um jogo difícil.
A África do Sul só foi incluída, basicamente, porque os demais precisavam dar um salto continental, queriam estar representados em três continentes. Do ponto de vista dos BRICS, eu diria – e, de fato, já discutiram isso em Brasília, no ano passado – que o quinto BRIC seria a Turquia, seria o grupo BRICT. Mas, no último momento, incluíram a África do Sul. Entenderam que precisavam acrescentar ao grupo a maior economia da África, e porque Brasil, África do Sul e Índia já comerciavam entre eles, muito mais, nos últimos quatro anos, que nos 400 anos anteriores. Brasil e África do Sul estão-se integrando muito bem. E a África do Sul é a ponte entre o Brasil e a Índia. Encaixava-se bem aos outros trêsplayers.
Mas acho que, em breve, os BRICS talvez incluam – digo “talvez”, porque começaram a discutir, mas ainda não sabem como fazer, em termos formais – a Turquia, a Indonésia e a Coreia do Sul. Que são candidatos naturais, não há dúvidas. Dois na Ásia e um no Oriente Médio, na intersecção entre Europa e Ásia.
Começaram a conversar sobre maior integração em termos das suas economias, trocas culturais, todo esse blá-blá-blá. Agora, estão pensando: OK. Temos de dar um soco no mesa, mesmo que, no começo, seja um soco soft. Já agiram juntos no caso da Líbia, quando se abstiveram de votar a Resolução UN 1.973 – o que já foi um grande passo. Foram condenados por isso, mas sem alarido, por europeus e pelos EUA. Mas raciocinaram que aquela não podia ser uma linha vermelha; no máximo uma suave linha amarela. Nenhum deles pode antagonizar muito os EUA.
Depois, veio a mais recente proposta para que o Conselho de Segurança da ONU votasse o caso da Síria. Os BRICS imediatamente perceberam que “não, não, isso não pode ser: aí está a linha vermelha”. E isso, por várias razões. Porque Rússia e China têm muitos bons negócios com a Síria. Brasil e Síria são muito próximos. Milhões de sírios vivem no Brasil, além de sírio-libaneses. No Brasil se diz sírio-libaneses. São quase indistinguíveis para muitos brasileiros, porque começaram a chegar nos anos 1920s, 1930s e também depois da II Guerra Mundial. Todos vivem perfeitamente integrados na sociedade brasileira, e há muitos negócios entre Brasil e Síria. Essas razões são algumas das que explicam também porque todos aqueles países têm posição comum.
Quanto à África do Sul, é evidente. Na primeira votação, da Resolução da ONU, foram pressionados por Obama. Obama telefonou ao presidente Zuma, falaram por duas horas, e Obama disse: você tem de votar conosco, ou vão ter problemas. Zuma votou contra vontade. Adiante, participou da delegação da União Africana para tentar negociar a paz entre Gaddafi e os “rebeldes”. Gaddafi aceitou tudo; os “rebeldes” disseram não. Por quê? Porque a OTAN mandou que dissessem não. Quer dizer, a África do Sul também tinha seus motivos.
A Síria é a linha vermelha. Por isso estão agora começando a organizar a abordagem conjunta, do grupo, em relação ao ocidente atlanticista, de modo muito mais bem coordenado. E em termos econômicos, estão pressionando o Fundo Monetário Internacional, para que dê mais peso aos votos do Brasil e da China.
O FMI tem três nomes na posição de diretores regionais com direito a voto, e China e Brasil dizem, há anos, que precisam de mais diretores, para que seus votos pesem mais. Tudo isso está em discussão. Lembre que o ministro das finanças (Fazenda) do Brasil disse “e se, talvez, encontrássemos um meio para ajudar as economias europeias?” Foi como dizer: “O problema é do FMI. Nós queremos participar, queremos ter mais votos, mais peso nas votações. Depois, decidiremos se vamos ajudar ou não. Mas terá de ser feito pelo mecanismo do FMI”.
Não há dúvidas de que, sim, estão agindo de modo muito mais coordenado do que há, digamos, dois anos. Não demorará, e os BRICS serão BRICTS, BRICTIISS, BRICS expandidos. Mas hoje o grupo está configurado como um contrapoder, em termos geopolíticos, em termos de atrair o mundo em desenvolvimento; porque os BRICS exercem enorme fascínio sobre o Movimento dos Não Alinhados [orig.Non-Aligned Movement, NAM], por exemplo; e sobre outros países latino-americanos, vários países do Oriente Médio, vários países do Sudeste Asiático, um fascínio imenso… E contra uma “liga” atlanticista, EUA-OTAN (é praticamente uma coisa só, porque os EUA controlam a OTAN).
A OTAN aliou-se às monarquias do Golfo Persa, ultrarreacionárias e ultrarrepressivas. O realinhamento do tabuleiro de xadrez é algo hoje muito suspeito, porque hoje esses países, especialmente o Qatar e os Emirados Árabes Unidos são subseitas da OTAN. Escrevi recentemente que começava a considerar a possibilidade de falar sempre de OTANCCG ou CCGOTAN. CCG é o Conselho de Cooperação do Golfo, que costumo chamar de Clube Contrarrevolucionário do Golfo, porque é o que o que é. [23/11/2011, Pepe Escobar, “A pedregosa estrada de Damasco” (Asia Times Online), em português].
De fato, a fusão entre OTAN e CCG já é total, hoje. Se se inclui a fusão entre o complexo industrial-militar ocidental nos EUA, e o sistema de defesa dos sauditas, que também já é fusão total, pode-se dizer que o Pentágono e o CCG já são uma e a mesma coisa.
Os BRICS veem tudo isso. E para alguns daqueles países é extremamente complicado. Para a China, por exemplo, porque seu principal fornecedor de petróleo é a Arábia Saudita. Atualmente, a Arábia Saudita está ultrapassando Angola. A Venezuela já está entre os cinco maiores. A Líbia não estava entre esses cinco maiores fornecedores, motivo pelo qual disseram ‘OK, agora, não. Quem sabe, adiante.’ Mas como eles organizam o relacionamento entre Pequim e Riad? Os chineses veem que Riad está completamente alinhada com a agenda do Pentágono. E, ao mesmo tempo, os chineses dependem do petróleo dos sauditas. Isso explica, dentre outros fatores, por que os chineses estão tão ansiosos para conseguir depender cada vez menos no petróleo do Oriente Médio.
Tudo isso implica mais negócios com o Irã. Meu palpite, mais ou menos bem informado, é que, em breve, os chineses irão a Teerã e perguntarão: ‘De quanto dinheiro vocês precisam para ampliar muito suas instalações de gás e petróleo? Nós pagamos, desde que vocês negociem conosco.’
Isso explica o oleogasoduto do Turcomenistão à China; isso explica os dois oleogasodutos da Sibéria à China; e isso explica a China estar em Angola e também na África Central; e isso explicará que a China chegue ao Brasil e diga: De quanto dinheiro vocês precisam? A relação sauditas-China é muito complicada para Pequim, o que significa que, por hora, a China não pode antagonizar a Arábia Saudita em nenhum campo.
Ainda sobre os BRICS: você observou o fato de que os bancos centrais da Rússia, da China e da Índia, e também alguns bancos centrais da América do Sul, estão comprando muito ouro?
Pepe Escobar: Sim, claro! Estão agora comprando ouro, e ainda têm o Plano B, que é uma cesta de moedas, em termos de um sistema internacional de moedas. Os russos e chineses querem, os brasileiros querem, e a cesta incluirá provavelmente o dólar, o euro, o yuan, talvez o rublo e também o real, talvez o yen, mas os japoneses não entraram, até agora, na conversa. Por enquanto, se trata, é claro, de comprar ouro, inclusive os que não estão no jogo, mas estão conectados a ele, como a Venezuela. Não esqueça que a Venezuela está repatriando todo o ouro que o país tinha depositado em bancos europeus. Uma primeira remessa de ouro repatriado já está em Caracas.
Você acredita que possa vir a haver algum tipo de conexão, entre a cotação do petróleo e do ouro, no futuro próximo?
Pepe Escobar: Sinceramente, não sei. E sabe por quê? Eu diria que essa conexão dependerá de um movimento ligado a abandonar o petrodólar. É movimento que já começou há alguns anos. O Irã quer muito fazer, hoje como antes. A Rússia já disse que quer. A Venezuela já disse, na América do Sul, sim, nós também queremos. Mas acho que é solução “bomba atômica”. Pergunto: você consegue imaginar o dia em que os grandes produtores de petróleo dentro da OPEP digam: “Chega de petrodólar. A partir de agora negociaremos com nossas próprias moedas ou com as moedas de uma cesta de moedas”?. Basicamente, é o fim da hegemonia dos EUA.
O país que tentar, estará frito.
Pepe Escobar: É. O mundo todo estará frito. Vejo essa opção como opção ‘bomba atômica’. Há poucos anos, quando o Irã estava implantando uma Bolsa de Energia, de fato, a ideia já estava presente lá, desde 2008 [18/2/2008 “Oil Bourse Opens in Kish”, Fars News Agency, em inglês].   Lembro que, em 2005, entrevistei o sujeito encarregado de organizar e implantar essa Bolsa de Energia em Teerã. Foi uma entrevista fantástica. E, logo depois, tive uma briga terrível com o então editor de Asia Times, porque ele disse “Se publicarmos isso, amanhã os EUA bombardeiam nosso website.
Os iranianos disseram: é nosso primeiro passo, para que as pessoas comecem a comprar contratos de petróleo aqui, na nossa Bolsa, não em New York ou em Londres. E eu disse a ele: E vocês sabem o que estão fazendo, se a coisa evoluir? Dia seguinte os EUA bombardeiam Teerã. E ele me disse: “Sabemos dos riscos. O homem que está construindo esse mecanismo para nós é um ex-corretor que operava em Londres.” Foi negócio extremamente complicado, essa é a verdade.
Depois da minha entrevista, ainda se passaram três anos. Como você disse, a Bolsa só foi implantada em 2008. É uma Bolsa muito pequena, mas, do ponto de vista dos iranianos, é só um começo. Eles gostam dessa Bolsa. Começaram só com petroquímicos e querem, no futuro, negociar petróleo e gás. Estavam especialmente interessados em atrair compradores do mundo em desenvolvimento, além de Rússia e China, que poderão comprar produtos da energia iraniana diretamente do Irã. Tenho certeza de que Rússia e China também adoraram a ideia. Mas, no momento, é só um embrião de algo muito maior, que virá depois.
Você usa as expressões “Oleodutostão  do Grande Oriente Médio” e “Grande Jogo 2.0” na Ásia Central. É útil conhecer o bom velho Halford Mackinder (geógrafo britânico, chamado de “o pai da geopolítica”), para pensar o “Oleodutostão”?
Pepe Escobar: Não. Quem conhece bem Mackinder é a turma de Brzeziński e o pessoal das agências de segurança nacional em Washington. Só eles acham que podem “aplicar” Mackinder e vencer (risos). Os russos e os chineses diriam: “Não na nossa região, caríssimos. Aqui, a coisa é diferente. Nós temos os recursos. A Rússia é potência continental. A China, sozinha, é um reino e uma civilização. Aqui não admitimos interferência externa, vocês nunca controlarão nossa parte da Eurásia. Podem controlar a parte “euro” da Eurásia, mas ela acaba no Bósforo. À direita do Bósforo, a Turquia tem ambições regionais, o Irã tem ambições regionais, nós temos nossas ex-repúblicas soviéticas, que ainda vemos como nossos satélites.”
O sudeste da Ásia está hoje ligado à China, em termos de comércio, negócios. Eu diria até que partes do sudeste da Ásia já se estão convertendo em subseitas da China.
Lembre que, durante o Milagre Asiático, quando o Banco Mundial lançou aquele famoso livro, em 1993, O Milagre Asiático, o Japão estava à frente, com os quatro tigres asiáticos atrás, depois os subtigres, e a China estava muito atrás, na fila. Hoje, em 2011, a coisa inverteu-se completamente: a China vem à frente, imensíssima, e atrás da China vêm os ‘sub’, tentando manter o passo e obter negócios. A diáspora chinesa é essencial em todos aqueles países.
Eles controlam a maior parte da economia na Indonésia, controlam quase toda a economia na Tailândia, casamentos mistos, tai-chineses, controlam quase toda a economia nas Filipinas, controlam grande parte da economia na Malásia, controlam toda a economia em Cingapura. Tigres? Não. Minigansos. A coisa está completamente invertida.
Por tudo isso, não vejo como se possa “aplicar” Mackinder. Pensaram nisso, no governo Bush, tomado de húbris, e porque diziam, lembra-se, diziam isso dia sim, dia também: “Nós criamos nossa própria realidade e vocês, resto do mundo, que nos acompanhem.” Supuseram que conseguiriam implementar sua estratégia de grande jogo na Ásia Central, construindo aquele oleogasoduto no Afeganistão, o TAPI – Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão, Índia, contornando o Irã, a Rússia e a China.
Supuseram que pudessem forçar os turcomanos a vender gás a empresas ocidentais, não à China, ou a ligarem-se à rede russa de oleogasodutos. Estavam ainda embriagados pelo sucesso que obtiveram com o oleogasoduto BTC (Baku-Tbilisi-Ceyhan) e diziam que seria o começo de vários dutos que contornariam o Irã.
Mas tudo isso foi no começo do governo Bush até 2003/2004, depois do “sucesso” da guerra do Iraque. Hoje, poucos anos depois, como já conversamos, os americanos já não conseguem ganhar coisa alguma. De fato, a Organização de Cooperação de Xangai, que é mecanismo para conter essa proliferação de iniciativas dos EUA na Ásia Central, fortalece-se dia a dia.
Em termos de negócios de energia, a Rússia, o Irã, a China, o Turcomenistão, todos estão negociando entre eles. Obviamente, há espaço com a Europa, mas eles não podem negociar com a Europa, no caso do Irã, por causa das sanções; e no caso do Turcomenistão, porque construir um oleogasoduto como Nabucco, de mais de 20 bilhões de dólares, é inexequível. Para dar-lhe uma ideia, o custo do BTC, 4,5 bilhões de dólares naquele tempo, e naquele tempo todos diziam: é ridículo construir um oleogasoduto como esse, quando podemos ter rota mais curta a partir do Irã, que custará dez vezes menos que aquilo. E constroem, mesmo assim. Hoje, já é 500% mais caro que o BTC.
Verdade é que os EUA não estão vencendo coisa alguma; no Afeganistão, estão atirando no próprio pé, porque agora já antagonizaram não só o Paquistão, o que fizeram ao bombardear o país, nos últimos anos, na guerra dos drones; já antagonizaram os próprios afegãos, que realmente queriam acertar alguma coisa com os americanos. Os líderes tribais já diziam “vamos conversar com os norte-americanos sobre o tipo de base que querem depois que se retirarem, em 2014”. Queriam discutir o assunto.
Hoje? Esqueça, porque o Paquistão não quer mais discutir, estão fartos; e o Paquistão e a China estão cada vez mais próximos, mais próximos. Os chineses vão explorar essa ravina entre Washington e Islamabad. No Afeganistão, a confusão será total. Eles não querem saber de bases norte-americanas, tenho certeza, depois de 2014. O Pentágono, assim, tem de impor as bases, contra o Afeganistão; não se conhece ainda o mapa do caminho, tampouco, para fazer isso.
Assim sendo, se você analisa em termos de sucessos do novo grande jogo ao estilo dos EUA na Eurásia, já depois de quatro ou cinco anos, não se vê grande coisa (risos).
Se consideramos a questão: “Por que as guerras acontecem?”, você diria que o fato de os bancos estarem no topo da lista dos que se beneficiam com as guerras é parte importante da resposta, por exemplo, até agora?
[Nota do editor: para conhecer o contexto, ver J.S. Kim:“Inside The Illusory Empire Of The Banking Commodity Con Game”, in The Underground Investor, 19/10/ 2010, em inglês”:
O Federal Reserve dos EUA cria dinheiro para financiar a guerra e empresta o mesmo dinheiro ao governo americano. O governo americano, por sua vez, tem de pagar juros pelo dinheiro que toma emprestado do Banco Central para custear a guerra. Quanto maiores as apropriações de guerra, maiores os lucros dos banqueiros.”]
Pepe Escobar: Concordo, mas só se houvesse grandes apropriações de guerra, se o butim fosse alto. No Iraque não foi. O butim a ganhar no Iraque seria o petróleo que pagaria a guerra e, mais que isso, garantiria fornecimento de petróleo para os EUA pelos próximos mil anos, o novo Reich Americano, baseado no petróleo do Iraque. Não funcionou.
O que aconteceu no Iraque foi uma fascinante lição histórica. No começo, os neoconservadores pensavam, obviamente, porque nada sabem, absolutamente nada, sobre o Oriente Médio, sequer viajam, não conhecem; mas pensaram: “Ora, vai-nos custar praticamente nada; faremos os iraquianos pagar por tudo; e depois, quando o petróleo começar a chegar, pagarão o que não tiverem pagado antes”. Lembre-se do que diziam: “Somos a nova OPEC”. Isso, no final de 2002, começo de 2003. Também não funcionou.
Hoje, vemos uma variante, digamos, do modelo: guerras pagas por potências estrangeiras. A China está financiando as guerras no Iraque, no Afeganistão, parte da guerra na Líbia (não custou muito, mas, de qualquer modo, sim, a guerra na Líbia), a guerra na Somália, a guerra no Iêmen, a próxima guerra em Uganda ou no Sudão, que os EUA resolvam começar. Basicamente, todas essas guerras são financiadas pelos chineses, quando compram bônus do Tesouro americano. É uma variante do modelo.
Em artigo para a al-Jazeera [“Why the US won't leave Afghanistan”,Al Jazeera, 12/7/2011, em inglês]  , você citou um estudo sobre o custo da Guerra ao Terror, publicado pelo projeto Eisenhower da Brown University. Lembra?
Pepe Escobar: Sim, lembro.
E o custo era quatro bilhões?
Pepe Escobar: Era, dependendo das variáveis do cálculo, dependendo dos custos médicos para tratar nos EUA os veteranos feridos, que só aumenta, e aumenta sempre, porque eles ainda têm de pagar pensões a eles. O custo varia hoje entre quatro e seis trilhões de dólares. Quer dizer: o que os EUA ganharam desses de quatro a seis trilhões de dólares, até agora? Até agora, pode-se dizer, só ganharam a Líbia, que não é, exatamente, prioridade para os EUA.
Era parte do plano original dos neoconservadores – começaria com o Iraque, depois Líbano, Síria, especialmente o Irã. Mas, até aqui, só ganharam a Líbia.
Por isso, precisamente, a Síria é tão importante: porque a Síria é passagem para o Irã, e isso ainda é o mesmo que diziam os neoconservadores em 2002, e ainda é parte da doutrina da Dominação de Pleno Espectro. Volta-se sempre aos mesmos temas, porque esses são os temas básicos do que vemos hoje.
Lars Schall: Você acha que a guerra na Líbia deve ser incluída entre as Guerras por Recursos, não só por causa do petróleo e, talvez, também, por causa da moeda-ouro que Gaddafi queria lançar, mas também por causa do projeto Grande Rio Feito pelo Homem [orig.Great Man Made River]?
Pepe Escobar: Sim, sim, eu ia falar exatamente sobre isso. Já é Guerra pela Água. Já é. Há alguns meses, comecei a escrever uma longa matéria sobre as futuras guerras pela água. Mas vi que já não são “futuras guerras”: já estão aí, já são presentes. Se se examina bem, a guerra da Líbia foi a primeira grande guerra pela água. Haverá muitas outras no Oriente Médio, no sul da Turquia, Israel-Palestina. Mas a guerra da Líbia foi a primeira. E é terrível, por causa do ProjetoGreat Man Made River – mais de 20 bilhões de dólares, financiados integralmente pelo estado líbio de Gaddafi, com muita tecnologia canadense.
E nem um vintém do Fundo Monetário Internacional.
Pepe Escobar: Isso, sobretudo! Nem um vintém do FMI, nem um vintém daqueles esquemas do Banco Mundial, pelos quais você é condenado a pagar juros até morrer, vezes três. Gaddafi construiu o projeto com recursos líbios, importou toda a tecnologia de que precisou, e os dutos lá estão, enterrados no subsolo do deserto do sul, para levar a água, do subsolo do deserto, até as áreas habitadas no litoral da Líbia. É projeto e realização absolutamente fantásticos, porque há reservas gigantescas de água potável no subsolo do sul do deserto líbio, suficiente para mil anos, segundo estimativas. Mil anos de água potável. Imagine!
O projeto não está totalmente completo; mas acho que 80% já está pronto. As três gigantes da água no planeta são empresas francesas. Em minha opinião, aí estão 99% dos motivos pelos quais os franceses envolveram-se na guerra da Líbia: querem privatizar, só para eles, aqueles mil anos de água potável e, depois, revenderão a água. E lá estão Sarkozy e os interesses do complexo industrial-militar francês: queremos mais gás e mais petróleo para a Total. Eles reclamam há muito tempo. Sempre quiseram a parte do leão das exportações de energia da Líbia.
Há uma aliança entre o Qatar, o complexo industrial-militar na França e Sarkozy – que não passa de lacaio; e o Qatar queria sua parte nos negócios e no comércio no norte da África. E havia também os interesses da OTAN e do AFRICOM, que queriam fixar uma cabeça de praia. Havia ali muitos interesses! Gaddafi não teve qualquer chance de vencer, em disputa contra tantos interesses, o eixo do Pentágono, a OTAN, países europeus chaves, França e Inglaterra, as monarquias do Qatar, Emirados Árabes Unidos e a Casa de Saud… que também queriam derrubar Gaddafi, de fato, desde 2002, quando Gaddafi e o rei Abdullah desentenderam, antes da invasão do Iraque.
Gaddafi não teria meios para derrotar todas essas forças, todos esses poderosos interesses que se mobilizaram contra ele. Queriam renegociar contratos, queriam novos contratos de gás e petróleo, só para as empresas europeias e norte-americanas, talvez também algumas empresas turcas, e absolutamente nada para os países BRICS. Gaddafi foi entrevistado por jornalistas alemães dois ou três dias antes da resolução “humanitária” ser aprovada. E disse claramente: “Se vocês nos atacarem, todos os futuros contratos irão para os países BRICS”. Resultado? Três dias depois, a Líbia foi atacada. Resultado óbvio.
Você também citou, também muito importante: o dinar de ouro, de Gaddafi. Porque o dinar de ouro poderia vir a ser uma moeda africana, poderia financiar projetos de desenvolvimento na África Subsaariana. Gaddafi já estava trabalhando nisso, financiando muitos projetos em países subsaarianos. E já deixara para trás, completamente, o sistema de Bretton Woods. Do ponto de vista de Washington, do Banco Internacional de Compensações [Bank of International Settlements], essa gangue toda… Decidiram que nada daquilo era admissível. Gaddafi foi condenado ali. E não esqueçamos que Saddam também já estava vendendo petróleo em euros no Iraque, no final de 2002. Essa foi das principais causas da invasão do Iraque.
Você acha que os “rebeldes” de Benghazi acertaram, ao criar um banco central em harmonia com os bancos centrais ocidentais?
Pepe Escobar: Era o que queriam fazer. Aquele pessoal do Conselho Nacional de Transição, de fato um saco de gatos – oportunistas, ex-funcionários de Gaddafi, islamistas ligados à al-Qaeda da Cirenaica, exilados que viviam no estado de Virginia, nos EUA. Tenham a santa paciência! Aquilo lá é uma trágica, sangrenta piada. E, claro, desde o início houve uma conexão-Qatar: um dos conselheiros de Sheika Moza, esposa do Emir do Qatar, fazia a ligação entre o Qatar e o Conselho Nacional de Transição.
Por isso o Qatar conseguiu esse banco central independente em Benghazi. Claro que houve influência do Qatar, porque queriam pôr um pé no sistema financeiro no norte da África: estão expandindo seus negócios. O Qatar é um mini-império em rápida expansão. É muito, muito impressionante. Lembro de Doha, há dez anos, era outra coisa. Lembro muito bem. Costumava ir ao Iraque, via Qatar. Vi o Qatar crescer, ano após ano. Hoje, quando se chega em Doha, é como chegar a uma mini Hong Kong.
E estenderam seus tentáculos por todo mundo: na Europa, nos EUA, no Oriente Médio e, claro, também no norte da África, e comerciam pesado com a Ásia. Hoje, já lançam seus olhos para o Brasil. É muito impressionante. O avanço do Qatar no norte da África é muito impressionante. Já estão no norte da África e, em pouco tempo, como esperam, estarão em toda a África: “queremos comerciar com todos, temos ótimo sistema bancário, vendemos gás a quem queira comprar”. Mini império em formação.
O que se deve esperar, no próximo ano, em relação a Síria e Irã? São aliados, não são?
Pepe Escobar: São. E essa é a pergunta de multitrilhões de dólares. Tenho planos de ir ao Irã, logo que seja possível. O difícil é conseguir o visto de jornalista. Desde o Movimento Verde, em 2009, está muito difícil. Esse visto de jornalista é indispensável, porque, sem ele, não se consegue falar, por exemplo, com militares do Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos, nem com gente do governo. Vou tentar novamente, porque quero muito conversar com comandantes dos Guardas Revolucionários, com gente da indústria do petróleo e, claro, quero falar também com iranianos médios, com “a rua”, como sempre fiz, porque gosto de fazer.
Ao norte de Teerã, você pensa que está na Califórnia. Ao sul de Teerã, você volta ao “núcleo duro” do Oriente Médio. Há dois universos, na mesma cidade e é espantosa a amplidão do espectro de opiniões que se recolhe, numa corrida de táxi de 40 minutos. Fala-se com gente que diz que esfolaria Rafsanjani no instante em que se encontrem; e gente que defende apaixonadamente os aiatolás mais duros; e gente que acredita que, sem o Movimento Verde, o mundo se acaba. Teerã é um universo.
Os ecos que recebo de amigos que vivem lá, e de iranianos que me mandam notícias e comentários são claros: as pessoas continuam consumindo, vivendo a vida normalmente, a inflação aumenta, os preços subiram muito, mas todos querem sair, tentar comprar seus iPads contrabandeados da China, querem o melhor carro europeu novo que consigam comprar, querem continuar a comer carne – o que é engraçado, porque a carne que importam do Brasil é mais barata, nos açougues em Teerã, que a carne iraniana, veja só!
Mas, ao mesmo tempo, eles sabem que alguma coisa está para acontecer. Pode acontecer de Israel atacar o país. Talvez o ataque venha de EUA-Israel. Há risco de as instalações nucleares serem atacadas. Mas muita gente teme que o ataque vise também a infra-estrutura civil. “Vejam o que aconteceu no Iraque”, dizem vários deles. No Iraque, atacaram instalações e prédios civis. É verdade. Vi lá, eu mesmo, que a infra-estrutura civil do país foi reduzida a ruínas.
As pessoas estão esperando o pior. Tentam manter a atitude, mas todos logo reconhecem que há uma disputa de poder dentro do regime, entre o grupo de Ahmadinejad e o grupo ultra linha-dura dos guardas revolucionários, que se opõem a Ahmadinejad, porque Ahmadinejad não se opõe a algum tipo de entendimento com o ocidente. O pessoal da Guarda Revolucionária quer o confronto.
É situação potencialmente muito perigosa. Por quê? Porque o Supremo Líder, o aiatolá Khameinei, apóia os Guardas Revolucionários, contra Ahmadinejad. O aiatolá quer que o Irã seja respeitado pelo que é – República Democrática Islâmica. Pode-se concluir que não se opõe ao confronto. É situação extremamente perigosa, porque qualquer incidente que haja por lá pode ser imediatamente usado como casus belli e resultar em ataque israelense-anglo-americano, digamos assim.
Os iranianos estão bem cientes desse risco, e preocupam-se com essa disputa dentro da cúpula do regime. Ao mesmo tempo, em 2012 haverá eleições parlamentares; e em 2013, eleição presidencial. Até o momento, pelo menos, o candidato favorito dos eleitores é Larijani, ex-negociador da questão nuclear, amigo íntimo e protegido de Khamenei. Tudo isso sugere que os linha-dura estão firmes no poder. Por incrível que pareça, Ahmadinejad, nesse momento, está mais ou menos marginalizado. Os linha-dura o veem como moderado, excessivamente conciliador, na relação com o ocidente.
Por tudo isso, a situação interna no Irã é muito preocupante. E eles sabem o que pode acontecer na Síria; sabem que a Síria é uma espécie de atalho, o caminho mais curto até o Irã. Mas, ao mesmo tempo, dizem, segundo a avaliação feita pela linha mais dura do regime, que a Síria não será atacada. O que dizem é que o ocidente não precisa do ‘atalho’ sírio: podem perfeitamente atacar diretamente o Irã. Por isso, preparam-se para enfrentar essa ameaça. Tudo, ali, é extremamente preocupante.
Você vê quadro semelhante também em Israel?
Pepe Escobar: Não sei. Tenho muitos amigos judeus na América do Sul, nos EUA, na Europa, que vão e vêm, visitam Israel muito frequentemente, e, quando voltam, dizem: as pessoas estão desorientadas, em Israel. Não sabem como lidar com a Primavera Árabe, o governo não sabe o que fazer com a Primavera Árabe, não sabem sequer o que fazer com a não-primavera na Síria. Parece que em Israel as pessoas temem que o que venha depois de Assad seja ainda pior do que o que se vê hoje. Por exemplo, um governo da Fraternidade Muçulmana na Síria. Israel está numa situação de não-não.
Preferem continuar a enfrentar o demônio conhecido, que é demônio hoje enfraquecido, o regime Assad. Há movimento da sociedade civil em Israel, considerável, contra a corrupção, a inflação, a carestia, e movimento também antiguerra e antigoverno.
Além disso, Israel está sendo governado por um grupo que é refém daquele terrível lobby de colonos fundamentalistas. São de extrema direita, imigrantes ucranianos à Lieberman, são horríveis. Há uma esquerda progressista em Israel, ouve-se falar deles, vez ou outra, pela imprensa, mas estão marginalizados. Mesmo dentro dos EUA: os judeus progressistas nos EUA também estão mais ou menos marginalizados, porque todos os discursos são controlados pelo AIPAC.
Se se ouve rádio, se se leem os jornais da mídia dominante, ou pela televisão, é um release do AIPAC depois do outro. Não se ouve uma voz de judeu progressista que diga “o que vocês estão fazendo é loucura. Temos de sentar e conversar sobre a Palestina, sobre as colinas do Golan, sobre o Irã.” Essa posição é absolutamente minoritária.
E a maioria é apoiada também pelos evangélicos e cristãos novos, nos EUA, que temem o Armaggedon.
Pepe Escobar: Exatamente. A maioria do establishment quer um Eretz Israel, uma Israel maior. E há os religiosos doidos, que dizem: “OK. Para apressar o Armaggedon, a melhor solução é declarar guerra a todos os vizinhos”.
Os doidos administram o hospício.
Pepe Escobar: É uma loucura. Eu diria que, digamos, desde o início da Primavera Árabe, o ano de 2011 foi o ano em que os doidos assumiram completamente a administração do hospício. E por isso, acho eu, 2012 será ano realmente terrível em todo aquele arco: norte da África, Oriente Médio e Ásia Central. Na Ásia Central, basicamente o Af-Pak, porque a situação ali, no Af-Pak tem tudo para degenerar completamente, muito depressa.
Qual sua avaliação do recente ataque ao Paquistão, pelas tropas da OTAN? [Ver “'Mistakes made': Pentagon 'regrets' slaughter of 24 Pakistani troops”, in Russia Today, 22/12/2011, em inglês].

Pepe Escobar: 
Essa questão é extremamente complexa, porque acho que há algum motivo oculto, por trás daquele ataque, que ainda não sabemos qual seja. Talvez o ataque tenha sido provocado por algum paquistanês, talvez a própria OTAN tenha criado uma provocação, para ter melhor pretexto para aprofundar a campanha de demonização do Paquistão, tentar provocar um golpe militar, e conseguir pôr no poder, no Paquistão, a facção dos generais pró-EUA. A situação ali ainda está muito nebulosa.
Seja como for, há pelo menos um detalhe, por trás daquele ataque, que não faz sentido algum: a OTAN conhece perfeitamente a localização de todos os pontos de passagem que os paquistaneses controlam nas áreas tribais. A OTAN tem todos os mapas, todas as coordenadas. É absolutamente inverossímil que bombardeiem um posto paquistanês de fronteira, porque sabem exatamente onde está cada posto. A situação ali é completamente diferente de bombardearem, por erro, um casamento pashtun, numa casa de tijolos de barro, que não está perfeitamente mapeada. Nessas circunstâncias, o satélite vê uma casa, e a inteligência diz “casa cheia de al-Qaedas”, e o drone, bum!, põe abaixo a casa. No ataque da OTAN ao posto paquistanês, a situação foi completamente diferente. Nossos contatos e jornalistas na Índia e no Paquistão absolutamente não estão convencidos da veracidade da versão oficial. Mas não há ainda como afirmar que é falsa. Essa história terá de ser mais bem contada.
Mas é problema, porque Paquistão e China já mantêm relações as mais amistosas.
Pepe Escobar: Sim, e qualquer coisa que aconteça no Paquistão, daqui em diante, empurra Islamabad cada vez para mais perto de Pequim, o que é absolutamente inevitável. A opinião pública paquistanesa está absolutamente farta da interferência dos EUA. Estão fartos daquela incansável guerra dos drones  e de agressões à soberania do Paquistão, se é que, algum dia, o Paquistão foi estado soberano.
Os chineses, claro, reagem à moda chinesa: mantiveram-se calados, não se moveram, à espera de que o comando político de Islamabad corra até Pequim e peça ajuda. Talvez nem demore muito, se os EUA continuarem a agir como têm agido até aqui. Washington só faz reafirmar, todos os dias, que ‘se fodam’ os civis paquistaneses  – e perdoe-me a expressão. Washington só sabe pensar na “Guerra ao Terror”, para exterminar a al-Qaeda.
Hoje dizem abertamente e on the record, que, morto bin Laden, a al-Qaeda foi desmantelada – se era bin Laden ou não, é questão ainda aberta a especulações, mas, para Washington, mataram a al-Qaeda. Assim sendo… O que estão fazendo, ainda, no Af-Pak? Ah, mas há um problema, o Paquistão é muito instável, é hoje o coração do movimento terrorista no mundo, não é mais o Afeganistão… E se as armas atômicas do Paquistão caírem em mãos de terroristas?
Só isso interessa. Farão de tudo para encontrar um pretexto para intervir no Paquistão e pôr as mãos no arsenal nuclear do Paquistão. É objetivo ainda distante, é claro, mas é o que o Pentágono quer poder fazer. Essa é a agenda do Pentágono.
No Paquistão, toda a elite política é corrupta – exceto, eu diria, Imran Khan. Imran Khan não é corrupto, e tem reunido centenas de milhares de pessoas, cada vez que fala publicamente, no Paquistão, porque começa a ser visto como alternativa. O que ele diz? “Vamos nos livrar dos norte-americanos, vamos nos livrar dessa elite corrupta, que os militares voltem aos quartéis, queremos autêntico governo civil, queremos desenvolvimento, para combater a desigualdade social”. É cada dia mais popular, por isso. E, sim, pode vencer as próximas eleições. Mas, basicamente, a sociedade civil paquistanesa está farta de tudo, do atual estado de coisas.
Para os norte-americanos, é péssima notícia, porque tudo o que desejam é manter o controle sobre os militares, que continuem a fazer o que o Pentágono os mande fazer. E que deixem os norte-americanos continuar a fazer a tal “Guerra ao Terror”, como bem entendam, nas bases norte-americanas em território do Paquistão, como na base Samsi, no Baloquistão, e tocar como bem entendam a sua guerra de drones nos Waziristões.
Minha opinião é que isso tudo acabou. As coisas ali nunca mais serão como antes. Os chineses estão só esperando. Acho que o Paquistão será admitido como membro da Organização de Cooperação de Xangai, pode acontecer no próximo ano. Com isso, o Paquistão já estará incluído num mecanismo que implica cooperação militar com a China.
O problema é que os militares paquistaneses não são organização monolítica, há camadas, gente indicada por Musharraf, vários pashtuns no oficialato de nível médio que são simpáticos ao Talibã no Paquistão e, alguns, simpáticos à al-Qaeda; e há fissuras em toda essa construção. Acho que, hoje, o relacionamento entre os militares paquistaneses e o Pentágono complica-se cada vez mais, dia a dia, sobretudo depois do último ataque da OTAN. Afinal, dessa vez, a OTAN atacou o próprio exército paquistanês – atacaram um posto militar. Até para os mais fiéis aliados do Pentágono, já foi um pouco demais.
O antiamericanismo está crescendo em todo o mundo.
Pepe Escobar: Só não cresce no Golfo Persa (risos).
Não lhe parece trágico, se se pensa na cordialidade do povo, dos norte-americanos comuns?
Pepe Escobar: É verdade. Viajo desde menino, vai e volta, aos EUA. Conheço bem, no mínimo, 40 estados. Já morei nas duas costas, tenho muitos amigos nos EUA, muita gente que lê meus artigos e sabe que sou brasileiro. Mas também tenho muitos leitores que me acusam de ser Talibã-comunista-apocalíptico-antiamericano blá-blá-blá – o discurso completo. Continuam sem entender.
Uma coisa é gostar do país, da cultura norte-americana pop, dos mestres norte-americanos do entertainment, dos gênios norte-americanos na música, na literatura, no cinema, na arquitetura, na arte etc. E outra coisa é ver e criticar a política exterior dos EUA. Quem, como eu, foi criado no Brasil e na Europa durante os anos 1960-70s, não esquece que a ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 (eu tinha dez anos), foi golpe construído pelos EUA.
É verdade.
Pepe Escobar: Aqui na América do Sul, aprendemos sem que ninguém precisasse ensinar o que significa viver sob uma ditadura militar patrocinada pelos EUA. Quando falamos, sabemos do que falamos. Evidentemente, os povos do Oriente Médio também sabem do que falam. Na Ásia, alguns também sabem do que falam, os sul-coreanos, por exemplo, também viveram sob regime militar apoiado pelos EUA, antes de alcançarem a democracia.
É trágico, também, que, mesmo depois da Primavera Árabe, tanta gente no Golfo Persa ainda não consiga ver que, ali, vivem sobre regimes extremamente autoritários, autocráticos, que vivem como vassalos, satrapias do império norte-americano, que não vejam que, de fato, não contam com os próprios governos, de fato, para nada, nem para defender alguma mínima soberania.
Quando se veem movimentos pró-democracia autóctones no Bahrain ou na região leste da Arábia Saudita, veem-se respostas. No Egito, onde dizem ‘afinal, temos de nos livrar de todo esse sistema, de uma vez por todas –, ainda não se livraram do sistema, a serpente continua lá. E a serpente está sendo mantida viva com financiamentos da Arábia Saudita.
Ainda não houve revolução no Egito. Só começará, talvez, se se livrarem da junta Tantawi. Isso é o que querem as massas na Praça Tahrir, a geração Google e os trabalhadores no Egito. Mas o problema, ali, é o exército que, no Egito, controla toda a economia. Os números variam, mas alguma coisa ente 25% e 40% da economia egípcia é controlada por militares e famílias da alta hierarquia do exército. Eles não vão desistir disso tudo. Só sairão de lá se forem arrancados de lá, por revolução será fatalmente sangrenta. E os EUA não querem que aqueles militares saiam de onde estão.
Como analista de geopolítica, você diria que o futuro da Alemanha está no leste da Eurásia (Rússia e China) mais do que em New York e Londres?
Pepe Escobar: Aí está uma pergunta que eu adoraria que você me respondesse! Meu palpite é que a Alemanha deseja integrar-se mais com os russos.
Sim. Mas… as elites econômicas e políticas aqui [na Alemanha] continuam alinhadas com os EUA.
Pepe Escobar: É. É isso.
Esse ano, Angela Merkel, chanceler, recebeu a mais alta condecoração civil dos EUA, em Washington DC, a “Medalha da Liberdade”. Pelo menos, já tem alguma coisa em comum com Duke Ellington, condecorado em 1969. Mas é evento significativo.
Pepe Escobar:  É. O problema da Alemanha é que é atlanticista, mas não sabe o que o futuro lhe reserva em termos de matérias primas e commodities de que o país carece. E que pode obter da Rússia. O mundo inteiro pode ser mercado para o que a Alemanha produz, e já é. Mas a Alemanha é uma fabulosa potência exportadora, que não precisa deixar subjugar-se, limitar-se, pela aliança ocidental. É claro que não precisa. Mas você disse corretamente: as elites em Berlin e Frankfurt ainda são muito americanizadas.
Gostei de saber, como jornalista e como alemão, que você conhece bem o meu alemão favorito de todos os tempos, Heinrich Heine…
Pepe Escobar: Heine!
… Que também foi jornalista.
Pepe Escobar: Infelizmente, só o leio em inglês e espanhol, traduções maravilhosas. Não leio alemão, mas meus amigos alemães dizem que o alemão de Heine é fantástico.
É. Heine é o máximo, como Nietzsche, Schopenhauer e Goethe.
Pepe Escobar: Fui fã apaixonado de Nietzsche durante alguns anos. Um dos meus melhores professores de filosofia, um francês, Gerard Lebrun, era especialista em Nietzsche. Foi dos grandes especialistas franceses em Nietzsche. Aprendi muito com ele. Nietzsche, para mim, ainda é boa companhia
E também foi fã da poesia de Heine.
Pepe Escobar: É. Gostava da poesia de Heine, é verdade.
De um ponto de vista jornalístico, você acha que o jornalismo está em profunda crise no ocidente?
Pepe Escobar: Ah, está. Dou-lhe dois exemplos pessoais. Uma das razões pelas quais quis ser jornalista foi Watergate. Estava na universidade, tinha 19 anos, e ainda não decidira o que queria fazer. Pensava em artes plásticas, e sempre gostei muito de literatura, mas achava que não conseguiria ganhar a vida com literatura.
Depois, decidi ser jornalista, e Watergate foi como um modelo para a profissão. Depois, antes do jornalismo digital, trabalhei para grandes jornais nacionais impressos. E vi como opera a indústria jornalística. Um grande jornal nacional é uma grande empresa e todas as grandes empresas jornalísticas operam mais ou menos do mesmo modo, em todo o mundo.
Rapidamente, a coisa começou a me desencantar. No início, foi desencanto. A coisa virou horror, mesmo, do jornalismo que há, só depois do início da “Guerra ao Terror” e antes da invasão do Iraque, porque aí, sim, a imprensa dominante em todo o mundo, perdeu completamente toda a credibilidade.
Se se vê o New York Times exibindo mentiras em manchete de primeira página, todos os dias, durante meses, para mim, aquilo foi o fim do jornalismo-empresa que é, hoje, a imprensa dominante no mundo. E o Le Monde, que eu lia sempre, desde o ginásio, convertido em cópia mal feita, americanizada, do New York Times e, às vezes, até mais reacionário. Pena que eu não conheça jornais alemães, porque, pelo menos as seções culturais, ainda são as melhores do mundo.
O moderno “Feuilleton” alemão foi, mais ou menos, inventado por Heinrich Heine…
Pepe Escobar: Eu lia muito jornais ingleses, mas às vezes já não se pode mais acreditar nem no “padrão ouro” da imprensa inglesa, como o Guardian ou oIndependent, que, historicamente, foram jornais do centro “forte”, de esquerda, progressistas.  Na última década, afinal, meu desencanto tornou-se total. É preciso recorrer à internet, se você quer informação que realmente faça sentido, em que os pontos se liguem. Hoje, só a internet. A imprensa-empresa dominante em todo o mundo, já não oferece isso. E meus amigos que ainda trabalham em grandes jornais, me contam que é impossível discutir com os editores, sobre o que se deve e não se deve publicar. Isso acabou.
Você acha que o modo como se trataram todas as questões relacionadas ao 11/9 ajudou a impulsionar a mídia alternativa?
Pepe Escobar: Ajudou, porque se, depois do 11/9, você quisesse saber o que realmente estava acontecendo… só se esquecesse todos os jornais e televisões empresas, em todo o planeta. Só se encontrava informação confiável na internet – observadores e analistas independentes, que se davam o trabalho de investigar, pesquisar, localizar documentos. Na mídia dominante, não se achava nada.
Atualmente, alguns desses observadores e analistas também já estão sendo filtrados, mas ainda se encontra alguma coisa, aqui e ali, fagulhas. Todo o discurso dominante, o próprio discurso, já é monolítico. Não há alternativa. E realmente não há alternativa, porque só se ouvem as vozes de repetição, de gente que diz exatamente a mesma coisa, há décadas.
É. E a maioria dos especialistas e os veículos juntam-se todos em mesas redondas como o Royal Institute of International Affairs, oCouncil on Foreign Relations, a Trilateral Commission, o ClubeBilderberg
Pepe Escobar: Exatamente. Todos trabalham para os mesmos think tanks. E outros veículos também têm problemas de credibilidade. Recorre-se ao canal chinês em inglês, CCTV9, porque se precisa de, pelo menos, um mínimo de debate, mas não há debate algum. Gosto do que faz o canal RT, Russia Today. Trabalho com eles. Mas eles não criticam a Rússia. Problema grave.
Trabalho também para a rede al-Jazeera, o que é ótimo, porque tenho meios para chegar a pessoas e obter respostas que, sem a rede, não conseguiria alcançar, por exemplo, na África. Mas também tem grave problema de credibilidade, pelo modo como cobriram a Tunísia, o Egito e a Líbia, comparado à cobertura do que se passa no Golfo Persa. Não podem criticar eles mesmos e absolutamente não podem – esqueça, é totalmente proibido – criticar a Casa de Saud, por causa das íntimas relações que ligam a Casa de Saud e o Emir do Qatar. Tudo é muito complicado, se se navega nesse universo.
Vivemos muito felizes, todos nós, que trabalhamos e escrevemos para o Asia Times porque é realmente independente e todos somos respeitados por isso. O jornal publica opinião dos sionistas, da extrema direita, da extrema esquerda, mostramos o meio, falam os iranianos, os paquistaneses, os russos, os chineses. Temos até um norte-coreano que escreve para nós. Estão todos lá.
Não temos linha editorial especificada, não, o jornal é aberto a todos. Por isso, exatamente, todos nos respeitam. Mas é jornal muito raro. E enfrentamos terríveis problemas financeiros. Tive de trabalhar nisso nos últimos meses e foi uma dor de cabeça. Queremos crescer, mas não queremos perder o controle do jornal. É equação difícil de acertar.
Desejo-lhe sucesso nessa empreitada!
Pepe Escobar: Obrigado!
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*Pepe Escobar nasceu em 1954 no Brasil, e desde 1985 trabalha como correspondente estrangeiro. Trabalhou em Londres, Milão, Los Angeles, Paris, Cingapura e Bangkok. A partir do final dos anos 1990s, passou a cobrir questões geopolíticas do Oriente Médio à Ásia Central, escrevendo do Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irã, repúblicas da Ásia Central, EUA e China. Atualmente, trabalha para o jornal Asia Times que tem sedes em Hong Kong/Tailândia, como “The Roving Eye”; é analista-comentarista do canal de televisão The Real News, em Washington DC, e colaborador das redes Russia Today Al Jazeera. É autor de três livros: Globalistan. How the Globalized World is Dissolving into Liquid WarRed Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge eObama does Globalistan.
Fonte (em português) : Rede Castor Photo
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Clube Cosy ou a espada da justiça? Uma prisão na Líbia, uma mudança de guarda no topo, e uma grande decisão sobre o Quênia vão marcar momentos iminentes de verdade para o Tribunal Penal Internacional

Em 22 de novembro Luis Moreno-Ocampo, promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), voou em Tripoli em, talvez, a última corda bamba de sua carreira. Ele e seu vice, Fatou Bensouda, um advogado da Gâmbia, começaram a discutir sobre o destino de dois homens que são procurados em mais de um lugar: Saif al-Islam, filho do falecido ditador líbio Muammar Kadafi, que acaba de ser preso ao tentar a fugir para o Níger (acima), e Abdullah al-Senoussi, um ex-espião líbio.

Na rua da Líbia há um desejo palpável para ver os dois homens enforcados. As novas autoridades da Líbia estão insistindo que eles são capazes de encenar um julgamento justo. Sr. Moreno-Ocampo, no início, argumentou que a reclamação anterior pertencia ao TPI, que emitiu mandados de prisão para os dois Qaddafis e Senoussi deputado a pedido das Nações Unidas do Conselho de Segurança em junho. Mas em 23 de novembro, embora duvidando se o senhor Senoussi realmente havia sido preso, ele aceitou que os tribunais da Líbia poderiam dar ao Qaddafi mais jovens uma audiência decente. Ele acrescentou que o ICC, na qualidade de um tribunal de última instância, iria ajudar se necessário.

Do ponto de vista dos suspeitos, um inquérito deliberada pelo TPI, em Haia, com a chance de se defender e não pena de morte no livro estátua, seria preferível a um julgamento na atmosfera vingativa em casa. Mas um julgamento do TPI teria limitações. As acusações formuladas pelo Sr. Moreno-Ocampo dizem respeito apenas aos crimes cometidos desde fevereiro deste ano, quando a guerra civil e escalou a ONU chamou na corte como um dos muitos instrumentos projetados para frustrar o regime Kadafi. A ONU poderia, em teoria autorizar uma ampla investigação, mas o tribunal nunca pode olhar para qualquer coisa que aconteceu antes das suas portas abertas em 2002. Assim, um julgamento em Haia não poderia investigar a queda em 1988 de um avião de passageiros americano sobre a Escócia, ou a morte de 1.200 detentos em uma prisão da Líbia em 1996.

Alguns interesses institucionais estão em jogo. Um caso líbio teria impulso do tribunal no último para a ribalta, confirmando seu papel como o lugar onde as vítimas dos piores crimes, crimes que poderiam ficar impunes, podem buscar a restituição. Situado contra as previsões utópicas feitas em 1998, quando o Estatuto de Roma prevê a corte foi assinado, o registro até agora tem sido bastante decepcionante. O tribunal estava destinado, disse um militante para a sua criação, a Claro, a sua existência pode ter feito alguns pretensos traficantes da morte segurar “salvar milhões de seres humanos do sofrimento da morte indescritivelmente horrível e desumana.”, Mas tais afirmações extravagantes são difíceis de sustentar.

A coisa mais ambiciosa que o ICC tem feito é para indiciar Omar Hassan al-Bashir, o presidente do Sudão, em uma carga folhas que inclui genocídio na região de Darfur. Mas ele permanece firmemente no escritório e parece livre para viajar para um bom número de países. A acusação não tem provocado o banho de sangue que alguns temiam, mas não fez muita coisa boa tanto, deixando intocado, por exemplo do aparelho militar e de inteligência do estado sudanês.

O tribunal enfrenta um ponto de viragem no próximo mês, quando os Estados membros conferem, em Nova York. Um novo promotor será escolhido entre quatro candidatos, incluindo Ms Bensouda. Seis dos 18 juízes também serão substituído, em escrutínio precedido por uma rodada de negociação indecorosa e prospecção. Regras governam a escolha de juízes: os sexos deve ser equilibrado, e cada uma das principais regiões do mundo deve ser igualmente representados. Mas os candidatos não precisam ter sido juízes em casa, um membro japonês da corte tem sido um professor de direito e diplomata. Dos 19 corredores, em escrutínio do próximo mês, quatro parecem não qualificados, afirma uma equipe de especialistas jurídicos, mas eles ainda podem ser votadas na graças a diplomáticas back-scratching. O campo, pelo menos, parece melhor do que ele fez em setembro, quando o prazo teve de ser prorrogado por falta de nomes adequados.

Aconteça o que acontecer, o tribunal pode ser menos que um clube acolhedor do que tem sido até aqui, como dizem. Um punhado de indivíduos estavam intimamente envolvidos nas negociações para configurá-lo, e muitos deles tomaram os postos mais importantes. Escolhas do próximo mês vão ajudar a determinar se a instituição desenvolve uma vida robusta própria, ou simplesmente torna-se mais um vagão no trem da alegria da ONU.

Muitos esperam que o tribunal vai ampliar o seu âmbito geográfico, embora qualquer tal movimento terá de enfrentar enormes obstáculos políticos. Nenhum membro do Conselho de Segurança da ONU já foi na mira do tribunal, na verdade apenas dois membros permanentes do conselho, a Grã-Bretanha e França, pertencem a ela. Todos os cinco países onde os vilões são esperados para ir para Haia (ver tabela) estão na África. Este ano, o tribunal tornou-se também envolvida na Côte d’Ivoire e na Líbia. Em três casos, os próprios países chamados no tribunal, mas este foco estreito fez com que muitos governos Africanos suspeitem de um corpo que tem muitos Estados-Membros-119 e subindo, mas ausentes grandes, dos Estados Unidos para a Índia para a maioria dos países do Oriente Médio.

Fonte: The Economist