2013: o que mudou de fato no mundo?

O mais importante foi a mudança de clima no cenário mundial. Desde o triunfo na guerra fria, os EUA militarizavam os conflitos. Não foi assim com Síria e Irã.

Por Emir Sader

Como sempre, se acumulam uma quantidade de fatos – entre mortes, eleições, sublevações, etc. – que se destacam jornalisticamente no mundo, mas dificultam a compreensão das alterações nas relações de poder, as que efetivamente contam na evolução da situação internacional.

No emaranhado de acontecimentos, o mais importante foi a mudança de clima no cenário internacional. Desde que triunfou na guerra fria, os EUA tem tido como postura diante dos conflitos internacionais, sua militarização. Transferir para o campo em que sua superioridade é manifesta, tem sido a característica principal da ação imperial dos EUA. Foi assim no Afeganistão, no Iraque, por forças intermedias na Líbia. E se encaminhava para ser assim nos casos da Síria e do Irã.

De repente, pegando ao Secretario de Estado norteamericano, John Kerry, pela palavra, o governo russo propôs ao da Síria um acordo, que desconcertou o governo norteamericano, até que não pôde deixar de aceitar. Isto foi possível porque Obama não conseguiu criar as condições políticas para mais uma ofensiva militar dos EUA. Primeiro o Parlamento britânico negou o apoio a Washington.
Depois, foi ficando claro que nem a opinião publica, nem o Congresso norteamericano, nem os militares dos EUA, estavam a favor da ofensiva anunciada ou do tipo de ofensiva proposta.

O certo é que os EUA foram levados a aceitar a proposta russa, o que abriu as portas para outros desdobramentos, entre eles, combinado com as eleições no Irã, para a abertura de negociações políticas também com esse país por parte dos EUA. No seu conjunto, se desativava o foco mais perigoso de novos conflitos armados.

Como consequência, Israel, a Arábia Saudita, o Kuwait, ficaram isolados nas suas posições favoráveis a ações militares contra a Síria e até contra o Irã. Foi se instalando um clima de negociações, convocando-se de novo uma Conferência na segunda quinzena de janeiro, em Genebra, para discutir um acordo de paz. Uma conferência que não coloca como condição a questão da saída do governo de Assad, como se fazia anteriormente.

A oposição teve que aceitar participar, mesmo nessas condições. E ainda teve a surpresa que os EUA e a Grã Bretanha suspenderam o fornecimento de apoio militar aos setores opositores considerados moderados, que foram totalmente superados pelos fundamentalistas, apoiados pela Arabia Saudita e pelo Kuwait.

Como dois pontos determinam um plano, as negociações sobre a Síria abriram campo para as negociações dos EUA com o Irã, aproveitando-se da eleição do novo presidente iraniano. Desenhou-se, em poucas semanas, um quadro totalmente diverso daquele que tinha imperado ao longo de quase todo o ano. Os EUA passaram da ofensiva à defensiva, a Rússia, de ator marginal, a agente central nas negociações de paz, a ponto que a Forbes, pela primeira vez, elegeu Vladimir Puttin como o homem mais forte do mundo, na frente de Obama. Isso se deve não ao poderio militar ou econômico da Russia, mas ao poder de iniciativa política e de negociação que o país passou a ter.

Fonte: CartaMaior

Vitórias da multipolaridade mundial

O que parecia impossível há 3 semanas, agora é uma realidade consolidada. O Conselho de Segurança da ONU aprovou o acordo da Rússia com os EUA para a crise síria.

O ultimo obstáculo foi superado, de forma favorável à Rússia, concedendo apenas formalmente aos EUA, à Grã Bretanha e à França. Foi incluído um capitulo do regulamento da ONU, que prevê ações armadas, caso o governo da Síria não obedeça as demandas do acordo. Mas a Rússia conseguiu o essencial para ela: só haveria uma ação armada produto de uma nova decisão, o que possibilitaria a Rússia de exercer o seu direito de veto.

A Russia e a China aprenderam do caso da Líbia – que poderia ter sido evitado, como o está sendo o da Siria -, quando os EUA, a Grã Bretanha e a França se valeram de uma vaga resolução do Conselho de Segurança, autorizando ações de “proteção da população civil”, para que a OTAN bombardeasse indiscriminadamente o país durante meses, até a queda do regime.

Desta vez a Rússia e a China se opuseram a algo similar, até que o governo russo pegou pela palavra do Secretaria de Estado John Kerry, formulou uma proposta de acordo e conseguiu o apoio do governo sírio.

A proposta prosperou porque Obama não conseguiu gerar as condições políticas para o bombardeio, com o qual já tinha se comprometido, com o apoio solitário da França. De repente, foi se consolidando um marco de negociação entre a Russia e os EUA – este, depois de suspender reunião de Obama com Puttin, pelo caso Snowden, teve que se dirigir, mesmo a contragosto, à reunião de Kerry com o Ministro de Relações Exteriores da Rússia.

Somado a essa grande vitória das soluções politicas, pacificas, negociadas – que o Brasil, entre outros países, sempre pregou -, está a retomada de relações entre os EUA e o Irã. Juntos, configuram um novo cenário internacional, com o avanço da multipolaridade, em detrimento das vias bélicas usadas pelos EUA.

Perdem Israel, a oposição síria, a Arábia Saudita, o Qatar. Ganham os que pregam o enfraquecimento da hegemonia norte-americana em favor da multipolaridade mundial.

Por Emir Sader

Fonte: CartaMaior

 

Primavera árabe: ‘Há que se passar pela experiência do islamismo no poder’

Nesta entrevista ao ‘Le Monde’, o destacado analista libanês Gilbert Achcar comenta as dificuldades dos governos islâmicos que subiram ao poder no mundo árabe. Além disso, diz que a Turquia não é uma referência para esses países, pois lá o AKP turco se reconciliou com o laicismo, tornando-se a versão islâmica da democracia cristã europeia.

Christophe Ayad – Le Monde*

Personagem desta entrevista, Gilbert Achcar é professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e um dos mais respeitados analistas do mundo árabe contemporâneo. Nasceu em 1951 e deixou o Líbano em 1983.

Ensinou na Universidade de París VIII e no Centro Marc-Bloch de Berlim. O seu compromisso com as esquerdas e movimento pró-palestina nunca o impediu de dirigir um olhar severo sobre as ditaduras nacionalistas árabes. É autor de “Le peuple veut une exploration radicale du soulèvement arabe”, editora Actes Sud.

Como qualificar o que aconteceu no mundo árabe, desde 2011?
Escolhi a palavra “levante” como título para o meu livro. Mas, na introdução falo de um processo revolucionário a longo prazo. O que estava claro desde o princípio é que estávamos muito no início de uma explosão, e o que se pode prever com certeza é que será de longa duração.

Emmanuel Todd deu uma explicação demográfica do fenômeno. Você inclina-se mais para uma explicação marxista.
A fase durante a qual o mundo árabe se distinguia por uma demografia galopante acabou há vinte anos. Comecei com a análise da situação em vésperas da explosão, em 2010. Constata-se um bloqueio do desenvolvimento que contrasta com o resto do mundo; inclusivamente com a África subsariana. A expressão mais espetacular desse bloqueio é uma taxa de desemprego recorde, particularmente entre os jovens. Além disso, há uma modalidade específica do capitalismo na região: em diferentes níveis, todos os Estados são rentistas. A outra caraterística é um patrimonialismo no qual o clã dominante se apropria do Estado até ao ponto de o transmitir de forma hereditária.

As revoluções árabes traduziram-se em liberalizações políticas, mas não em grandes mudanças sociais. Por quê?
No Egito e na Tunísia, só foi quebrada a ponta do icebergue; quer dizer, os déspotas e o seu grupo próximo. Por outro lado, nesses dois países, o “Estado profundo”, a administração, os aparelhos de segurança, não mudaram. Neste momento, só na revolução Líbia se deu uma mudança radical: hoje, já não há Estado; já não há exército. Nesse país, o descalabro social foi mais profundo, porque o reduzido espaço privado que existia era ocupado pela família Gadafi.

No Ocidente estranhou-se o triunfo dos islamitas nas eleições, quando não foram eles a lançar essas revoluções…
As expectativas do Ocidente, esse romanticismo em volta da “primavera” e o “jasmim”, todo esse vocabulário orientalista, baseavam-se num desconhecimento da situação. Era evidente que os integristas iam apanhar as castanhas do fogo porque, desde finais dos anos 70, impuseram-se como uma força hegemónica no protesto popular. Encheram o vazio deixado pelo fracasso do nacionalismo árabe. Por outro lado, a principal razão pela qual os governos ocidentais apoiavam os despotismos árabes era o receio dos integristas. Crer que essa situação iria ser varrida pelos acontecimentos, era tomar os desejos por realidades. Com o apoio financeiro do Golfo e o apoio televisivo da Al Jazeera, não se podia esperar outra coisa que vitórias eleitorais integristas. O que é chamativo é que essas vitórias não tenham sido esmagadoras. No Eipto, desde as legislativas ao referendo sobre a Constituição, passando pelas presidenciais, estamos a ver a velocidade a que se desmorona o voto integrista. Na Tunísia, Ennahda consegue 40% numas eleições em que participaram metade das pessoas inscritas. E, na Líbia, a Irmandade Mulçumana local foi derrotada.

Surpeendem-lhe as atuais dificuldades dos islamistas no poder?
Em primeiro lugar, há que dizer que o regresso aos despotismos não é algo exequível. Há que passar pela experiência do islamismo no poder. As correntes integristas construíram-se como forças de oposição com um slogan simplista: o islão é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islamistas são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas. Chegaram aos postos de comando em condições que ninguém inveja e não têm nenhum programa econômico.

Pode-se confiar neles no momento de organizar escrutínios que os poderão expulsar do poder?
Esse é o argumento clássico: uma pessoa, um voto, mas uma só vez. Salvo que cheguem ao poder em posição de força. O povo aprendeu a “querer” sair à rua. Jamais um dirigente, na história do Egito, foi tratado com tanto desprezo pelo seu povo como atualmente Morsi…

Pode-se copiar o modelo turco para o mundo árabe?

Não, na Turquia não é a Irmandade Mulçumana que dirige o país, mas uma cisão modernista que se reconciliou com o princípio do laicismo. O AKP turco é a versão islâmica da democracia cristã europeia. A Irmandade Mulçumana não é isso. É uma organização integrista que milita pela Sharia e para quem a palavra laicismo é uma injúria. No terreno econômico, não tem nada a ver: o AKP encarna um capitalismo de pequenos industriais, enquanto a Irmandade Mulçumana participa numa economia rentista, fundada no lucro a curto prazo.

Pode descrever a influência do Qatar nestas revoluções?
É um enigma. Alguns dirigentes colecionam carros ou armas; o Emir do Qatar, por seu lado, joga na política externa. Apresentou-se como comprador da Irmandade Mulçumana da mesma forma que compraria uma equipe de futebol. Um homem que jogou um papel fundamental nesta nova aliança (que faz recordar a que houve entre Mohamed ben Abdel Wahab e a dinastia dos Saud no século XVIII) é o sheik Qaradhawi, chefe espiritual dos Irmandade Mulçumana, instalado desde há muito no Qatar, e que tem grande influência na Al Jazeera. Tudo isso acontece num país em que o Emir não tolera qualquer oposição.

Como explicar a complacência dos Estados Unidos para com a Irmandade Mulçumana?
É algo que começou sob a administração Bush. Para os neoconservadores, o despotismo nacionalista produziu o terrorismo e, portanto, havia que derrubar déspotas como Saddam Hussein para poder estender a democracia. Condoleezza Rice quis retomar a aliança com a Irmandade Mulçumana, que se deu nos anos 50 e 60. Mas a vitória do Hamas nas eleições palestinianas bloqueou o processo. A administração Obama, que herdou uma situação catastrófica no Médio Oriente, mostrou uma atitude indecisa e prudente. Quando tudo estalou, optou por tentar dar a impressão de acompanhar o movimento. A obsessão de Washington na região é a estabilidade e o petróleo. E a tradução desta obsessão, é a procura de aliados que disponham de uma base popular.

Por que é que a intervenção da OTAN foi possível na Líbia e não na Síria?
A Síria encontra-se perante um risco de caos tipo Líbia, mas num contexto regional bastante mais perigoso. Está também o apoio da Rússia e do Irão. Desde o começo, a OTAN disse que não queria intervir. A questão não é “porque é que o Ocidente não intervém na Síria?”, mas “porque é que impede a entrega de armas à rebelião?”. A razão profunda é o medo do movimento popular na Síria. E o resultado é que a situação está a apodrecer. O regime sírio acabará por cair, mas a que preço? A miopia dos governos ocidentais é alucinante: com o pretexto de não reproduzir os erros cometidos no Iraque, quer dizer, o desmantelamento do estado baasista, fazem algo pior. Hoje, os sírios estão persuadidos de que o Ocidente deixa que o seu país se auto-destrua para proteger Israel.

A esquerda anti-imperialista vê um complô americano nestas revoluções…
Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. Basta ver o aperto de Washington. É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.

Fonte: CartaMaior

PEPE ESCOBAR: GUERRA AO TERROR “FOREVER”. Ouro e Urânio por trás das “preocupações” ocidentais no Mali.

Mali_france-war-on-mali-for-uranium_Latuff

23/1/2013, Pepe EscobarAsia Times Online – The roving eye

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
E o vencedor do Oscar de Melhor Sequência de 2013 vai para… A Guerra Global ao Terror [orig.Global War on Terror (GWOT)], produção do Pentágono. Abandonai toda a esperança, vós que pensastes que a coisa não passaria da conversa fiada sobre o passamento dessa p’ra melhor, de “Jerônimo”, codinome Osama bin Laden, já reduzido a reles figurante de Zero Dark Thirty, filme-aula de tortura.
Agora já é informação oficial – emitida pela boca do leão, Comandante do Estado-Maior dos Comandantes das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, e devidamente postado no site do AFRICOM, braço africano armado do Pentágono.
Sai de cena a al-Qaeda “histórica”, enfiada lá em algum buraco dos Waziristões, nas áreas tribais do Paquistão. Entra em cena a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig.al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)]. Nas palavras de Dempsey, a AQIM “é uma ameaça não só ao Mali, mas a toda a região. (…) E se não for contida, pode, de fato, converter-se em ameaça global”.
Com o Mali já elevado à categoria de “ameaça” global, comprova-se que a Guerra Global ao Terror é realmente sem fim. O Pentágono não distribui frases de efeito. Quando, no início dos anos 2000s, os guerreiros-de-poltrona cunharam a expressão “A Longa Guerra”, falavam, mesmo, de guerra muito, muito longa.
Mesmo com a doutrina do governo 2.0 do presidente Obama de “liderar pela retaguarda”, não resta qualquer dúvida de que o Pentágono caminha diretamente para guerra no Mali – e ninguém cogita de guerrear nas sombras. O general Carter Ham, comandante do AFRICOM, já opera sob o pressuposto de que os islamistas no Mali “atacarão interesses dos EUA”.
Portanto, nesse momento já estão sendo enviados os primeiros 100 “conselheiros” militares dos EUA rumo ao Niger, Nigéria, Burkina Faso, Senegal, Togo e Gana – os seis países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Oriental [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] que integrarão um exército africano que terá a tarefa (dada a eles por Resolução da ONU) de reconquistar (invadir?) as partes do Mali que estão sob controle do enxame de islamistas da AQIM, do MUJAO (grupo que se separou da AQIM) e da milícia Ansar ed-Dine. Claro: esse miniexército africano é pago pelo ocidente.
Quem estuda a Guerra do Vietnã logo lembrará que enviar “conselheiros” foi o primeiríssimo passo que os EUA deram na direção de afundarem-se completamente no pântano no qual só depois perceberam que se haviam metido. Ironia suprema nada Pentagônica à parte, os EUA já há vários anos sim, deram instrução e treinamento a tropas do Mali. Muitos desertaram logo depois de treinados. Um desses, que recebeu treinamento nos EUA, em Fort Benning, o capitão Amadou Haya Sanogo, não só comandou um golpe militar contra o governo eleito do Mali, como também criou as condições indispensáveis para o avanço dos islamistas.
Mas ninguém está prestando atenção a esses detalhes. O general Carter Ham está tão excitado com a possibilidade de o seu AFRICOM ganhar mais luzes e caixas de som que o Led Zeppelin nos grandes dias, com ele próprio apresentado pessoalmente ao mundo como salvador (o Carter da África?), que não toma nem tomará conhecimento de fato histórico algum.
O general parece ter esquecido que o AFRICOM – e, então, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN – deram total apoio (e armaram) os rebeldes-da-OTAN na Líbia, quando lutavam guerra cara à cara contra Muammar Gaddafi. O general sempre soube que a al-Qaeda no Maghreb Islâmico “tem muito dinheiro e muitas armas”.
Apesar disso, ainda diz que “mercenários pagos por Gaddafi” teriam desertado, deixado a Líbia e levados suas armas, “muitas das quais chegaram ao norte do Mali”.
Nã-nã-não, general! Nunca foram mercenários de Gaddafi; a maioria deles eram rebeldes pagos pela OTAN, os mesmos que atacaram o consulado dos EUA, que sempre foi base da CIA, em Benghazi; os mesmos que tomaram a direção da Síria; os mesmos que agora aparecem por todo o Sahel.
Assim sendo… como a Argélia entra nisso?
Na sequência, na imediata rabeira, o primeiro-ministro David Cameron seguiu a Voz do Mestre e anunciou que a intervenção no Mali durará anos, “talvez décadas”.
Nessa 3ª-feira, o crème de la creme do establishment da inteligência britânica reúne-se para planejar, nada mais nada menos, que uma guerra pan-Saara/Sahel, para a qual querem mais uma “coalizão de vontades” à moda Bush”. Para o momento, o envolvimento dos britânicos significa ainda mais “conselheiros” das categorias “cooperação militar” e “treinamento de segurança” de sempre, montanhas de dinheiro e, por fim mas nem por isso menos importante, Forças Especiais do tipo que fazem guerra nas sombras.
O cenário se completa com outro providencial “Jerônimo”: Mokhtar Belmokhtar, codinome “O Incapturável” (para a inteligência francesa), comandante do MUJAO e cérebro pensante por trás do raid contra o campo In Amenas de extração de gás na Argélia.
Já não vimos esse filme?! Claro que vimos. Mas agora – já é oficial – o Mali é o novo Afeganistão (como o jornal Asia Times Online já informou viaredecastorphoto em Queima, arde, padece o Afeganistão africano, 18/1/2013.
Eis o que disse Cameron: “Assim como tivemos de lidar com o Paquistão e o Afeganistão, agora o mundo tem de unir-se para lidar com essa ameaça na África do Norte”. Certo. Belmokhtar já está ensaiando para uma rápida intervenção, como figurante, no roteiro que está sendo redigido da continuação de Zero Dark Thirty.
Já está bem claro o pé em que ficam as “relações especiais” anglo-americano – Pentágono – AFRICOM / inteligência britânica com a França sob a presidência de François Hollande, reconvertido à função de senhor-da-guerra, na “liderança” (momentânea) rumo à Operação Beco-sem-saída Africano. Fato absolutamente crucial é que ninguém na União Europeia, exceto os Brits, é suficientemente doido para seguir as pegadas de Hollande, neossenhor-da-guerra.
Mas ainda não se sabe onde fica a Argélia, chave de toda a equação, do ponto de vista da Guerra Global Ocidental contra o Terror.
Fato número 1: o novo “Jerônimo”, Belmokhtar, e sua Brigada Mulathameen [“Os Mascarados”], da qual o Batalhão “Assinaturas de Sangue” que atacou na Argélia é um subgrupo, mantém laços próximos, íntimos, com o serviço secreto da inteligência da Argélia. Em certo sentido, vê-se aí um remix das relações que havia entre os Talibã – e a al-Qaeda “histórica” – e o serviço secreto da inteligência do Paquistão (ISI).
A reação ultra duríssima dos militares da Argélia ao raid dos islamistas era previsível (já reagiam assim nos anos 1990s durante a guerra interna contra a Frente de Salvação Islâmica). Não negociamos com terroristas: nós os matamos (mesmo que morram também muitos reféns). Fazemos tudo sozinhos, sem estrangeiros que metem o nariz em tudo. E, em seguida, descemos pesada cortina sobre qualquer tipo de informação ou noticiário.
Não surpreendentemente, esse modus operandi fez subir uma longa fieira de sobrancelhas em todo o campo do “relacionamento especial” anglo-norte-americano. Daí a “conclusão” a que chegaram Washington / Londres: não se pode confiar nos argelinos. Nossa Guerra Global ao Terror – capítulo Saara / Sahel – terá de ser lutada sem eles. Muito provavelmente, isso sim, contra eles.
Fator complicador grave é que os cerca de 40 islamistas (ou mais) entre os quais havia líbios, sírios e egípcios atravessaram 1.600 quilômetros, no mínimo, de alto deserto, vindos da Líbia, não do Mali. Não teriam chegado ao fim da viagem se não tivessem recebido efetiva “proteção” – algo como alguma potência estrangeira que forneceu informações de inteligência a gente importante de dentro do governo da Argélia. Reféns resgatados disseram que os sequestradores falavam “inglês com sotaque norte-americano” (entre os quais um canadense que a Reuters batizou de “Chedad”) e que sabiam exatamente onde encontrar os estrangeiros dentro do complexo da usina.
O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, fala de uma operação de forças da Argélia, mascarada como se fosse operação de grupos terroristas, que saiu pela culatra. Argel parece ter querido sinalizar para o ocidente que se a França se pusesse a bombardear o Mali haveria retaliação inevitável; mas durante o desenrolar dos eventos, Belmokhtar decidiu inverter completamente o jogo, porque se enfureceu quando a Argélia abriu seu espaço aéreo para a passagem dos aviões franceses que bombardeariam o Mali. Em mais de um sentido, é remix da revolta dos Talibã contra o ISI paquistanês.
A opinião pública na Argélia suspeita, para dizer o mínimo, dos motivos de praticamente todos os envolvidos, entre os quais também do governo da Argélia e sobretudo da França. No blog maghrebino The Moon Next Door lê-se uma amostra fascinante de o que e como os argelinos pensam hoje.
Vale a pena fazer aqui uma longa citação desse artigo, escrito por um professor de ciência política, porque aí se resume o modo como o pensamento local vê e expõe a “liderança” francesa, no novo capítulo da Guerra Global ao Terror.
Em entrevista ao diário Le Soir d’Algerie, o professor de ciência política, Ahmed Adimi descreve a intervenção como tentativa para “minar a Argélia” e “um passo no plano de instalar forças estrangeiras na região do Sahel”. A tese de Adimi é que a França trabalhou durante anos para desestabilizar o Sahel como modo de fortalecer a sua posição geopolítica.
Perguntado sobre se a operação francesa no Mali teria sido consistente com a Resolução n. 2.085 do Conselho de Segurança da ONU, Adimi diz que a resolução “não é problema grave. As potências ocidentais têm usado essas resoluções para justificar suas operações militares. Já aconteceu no Iraque. De fato, a operação francesa pode parecer legal, dado que foi empreendida a pedido do atual presidente do Mali. Mas deve-se lembrar que o atual governo chegou ao poder por golpe de Estado. Quanto à intervenção, era sem dúvida previsível, mas os franceses precipitaram as coisas. (…) Aqueles grupos terroristas estão sendo manipulados pelas potências estrangeiras”. Diz também que esses grupos tiveram “autorização” para andar na direção do sul, para Konna, para assim justificar a intervenção francesa.
Para Adimi, os algerianos “há tempo soam o alarme sobre a situação no Sahel em geral. Ahmed Barkouk e eu organizamos vários seminários sobre essa questão. Discutimos o papel da França e seu compromisso na região. A França esteve por trás da criação do movimento pelo Azawad. Falo é claro da organização política, não do povo do Azawad, que tem direitos como comunidade. Os franceses sabiam que sua intervenção na Líbia levaria os militares tuaregues pró-Gaddafi a retornarem ao Mali. Também planejaram a distribuição de muitas armas líbias entre os grupos do Sahel. A meta é converter a região num novo Afeganistão. É resultado de um longo planejamento”.
Tariq Ramadan, em artigo devastador, também desmascara Paris, expondo a conexão entre a tortuosa intervenção “humanitária” de Sarkozy na Líbia e ao atual ímpeto de Hollande para proteger “um país amigo” – e, isso, depois de anos de hipocrisia francesa que jamais deu qualquer atenção ao “povo sofredor” que sofria sob o tacão de incontáveis ditadores africanos.
Mas o Oscar para o Cenário mais Hipócrita vai, sem dúvida, para as atuais “graves preocupações” franco-norte-americanas sobre o Mali ser hoje o novo playground da al-Qaeda, quando já se sabe que os principais playgrounds são mesmo o norte da Síria, onde a al-Qaeda é apoiada pela OTAN (até a fronteira turca); o norte do Líbano e grandes partes do território líbio.
Sigam o ouro e sigam o urânio
Mesmo antes de que se possam analisar com alguma profundidade todas as muitas ramificações – algumas não previstas – da Guerra ao Terror expandida, há duas pistas a seguir atentamente no futuro próximo: o ouro e o urânio.
Seguindo o ouro. Várias nações têm montanhas de ouro depositadas no New York Federal Reserve. Dentre elas destaca-se, hoje crucial, a Alemanha. Recentemente, Berlim começou a pedir que seu ouro físico seja repatriado: 374 toneladas depositadas no Banco da França e 300 toneladas das 1.500 toneladas depositadas no New York Federal Reserve.
Franceses e norte-americanos imediatamente pensaram: “Ficaremos sem ouro algum!” A operação de repatriação do ouro se prolongará por sete anos, no mínimo. Resumo: Paris e Washington / New York têm de comparecer com ouro, de verdade, seja como for.
É onde o Mali encaixa-se belamente. O Mali – com Gana – é responsável por mais de 8% da produção global de ouro. Se você estiver desesperadamente carente do produto genuíno – ouro físico – é indispensável controlar o Mali. Imaginem se todo aquele ouro acaba em mãos da… China?!
Agora, sigamos o urânio. Como todos os que viveram de perto a saga do yellowcake [concentrado de urânio] do Niger antes da invasão do Iraque, o Niger é o quarto maior produtor mundial de urânio. O principal comprador é – adivinhem… – a França; metade da energia elétrica da França é produzida por energia nuclear. As minas de urânio no Níger   estão concentradas no noroeste do país, na face ocidental das montanhas Air, bem próximas da fronteira com o Mali – e uma das regiões que os franceses estão bombardeando.
Tuareg_area
Região dos Tuaregs (hachurada) e ouro… e urânio…
A questão do urânio mantém íntima ligação com sucessivas rebeliões dos tuaregues; não se pode esquecer que, para os tuaregues, não há fronteiras nacionais no Sahel. Todas as recentes rebeliões tuaregues no Niger aconteceram em território de urânio – na província de Agadis, próxima da fronteira do Mali. Assim, do ponto de vista dos interesses franceses, imaginem o risco de os tuaregues passarem a controlar aquelas minas de urânio – e porem-se a fazer negócios diretamente com… a China?! E Pequim, por falar dela, já está presente naquela região.
Todo esse jogo crucial de poder estratégico – o “ocidente” enfrenta a China na África, com o AFRICOM dando “uma mão” a Hollande, neossenhor-da-guerra e assumindo a perspectiva da Longa Guerra – de fato é mais decisivo que a síndrome da retaliação. Não é crível nem pensável que os serviços de inteligência britânico, francês e dos EUA não tenham previsto os efeitos em cascata e eventuais efeitos da “guerra humanitária” da OTAN contra a Líbia. A OTAN é aliada muito íntima dos salafistas e dos Jihads salafistas – temporariamente apresentados como “combatentes da liberdade”. Eles sabiam que o Mali – e todo o Sahel – imediatamente depois, seria inundado de armas.
Não, não foi por acaso. A expansão da Guerra Global ao Terror para o Saara/Sahel foi construída passo a passo. Guerra Global ao Terror é maná que nunca acaba de chover sobre os interessados: o que mais poderia interessar ao complexo industrial-militar-segurança-midiático franco-britânico-USAmericano, que um novo teatro de guerra?
Oh, yes! Há também o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia. Muita gente daria um dedo – extraído à moda dos radicais – para saber como e quando virá o contragolpe de Pequim. 
Fonte (versão traduzida): Redecastorphohto

TRNN: “Intervenção da França no Mali viola resolução da ONU; Raízes da crise estão na marginalização do norte do Mali”

French Intervention in Mali Violates UN Resolution; Root of Crisis Marginalization of the North

Emira Woods: The French have violated the UN resolution as they defend their resource interests; Africans want a comprehensive aid and political package for Northern Mali

Bio:Emira Woods is a co-director of Foreign Policy In Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the Board of Africa Action and serves on the Board of the Association of Concerned Africa Scholars. She is also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative Africa Council.

Transcript

PAUL JAY, SENIOR EDITOR, TRNN: Welcome to The Real News Network. I’m Paul Jay in Baltimore.

France is sending more forces to Mali as the anticolonial forces (as many of them describe themselves) are pushing further south. The forces are made up of the Tuareg people and various extremists, some people say. Others call them militant Islamists or Jihadists. But one way or another, there are many outside forces either intervening in Mali or poised to do so.

Now joining us to talk about how we got here is Emira Woods. She’s codirector of Foreign Policy in Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the board of Africa Action and serves on the board of the Association of Concerned Africa Scholars. She’s also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative, Africa Council. And between 1992 and ’99 she worked for Oxfam, where she traveled around Africa extensively and spent a lot of time in Mali.

Thanks for joining us.

EMIRA WOODS, CODIRECTOR, FOREIGN POLICY IN FOCUS, IPS: A pleasure to be with you. Thanks for having me.

JAY: So give us a little bit of context, first of all. I know you can’t do the whole history of Mali in two minutes. But as quickly as you can, how did we get here?

WOODS: Well, the history for me begins centuries back. So the quick version is, you know, Mali has been the center of Islamic thought, of learning. It was the site of one of the oldest universities, Timbuktu, one of the oldest libraries in the world. You know, these centers of learning predated Harvard and Cambridge and Oxford. You know, Mali has been at the center not only of African life, but really of the world, in many ways, for centuries.

I think we have to understand, though, that Mali is—what’s happening in Mali is the direct result of an international intervention in Libya. The ousting of Muammar Gaddafi essentially unleashed these unintended consequences, where you had weapons flowing from Libya, weapons that—some of which were part of Gaddafi’s caches. Others were weapons brought by NATO and the NATO forces. But these weapons flowed from Libya across boarders, from Algeria into Mali, creating a real crisis situation, where longtime challenges in terms of the political process, the internal political process in Mali, where the northern part of the country, from the days of colonialism, the northern part was seen as marginalized economically, not enough development, marginalized politically, without sufficient political access. The north had been clamoring for greater rights, greater sovereignty, really, for decades, since the ’60s, or some say since the turn of the 20th century.

So I think in the midst of this ongoing conflict for self-determination and greater rights of the north, you enter these weapons, the heavy flow of weapons from Libya. And it’s just been a recipe for disaster.

So what happened? March 2012, you had a coup, essentially, launched by a U.S.-trained military officer, you know, Sanogo, who had come to the U.S. reportedly seven times in the last eight years, essentially launching a military coup one month before the elections in Mali, supposedly because there was a sense that the Malian government was not handling well the crisis in the north with this inflow of weapons coming forward. So the army launched a coup, and launched then a series of coups and countercoups that have gone on, really, since March, as recent as this past December. So what you have is a political crisis in Mali that’s now exacerbated by this heavy flow of weapons into the region.

JAY: Is there any suggestion that this coup, there was some American interest to have this coup? ‘Cause I thought the president that was overthrown by the coup was very friendly to the United States.

WOODS: Well, yes, the president did have relations, friendly relations with the U.S. But also you have a military that’s been armed and trained by the U.S. now for quite some time. And so that military takes the weapons and the training from U.S. taxpayer dollars and decides that they can do it better, and essentially skirts the democratic process and takes over power. So I think you have a political crisis that has now been exacerbated by a deteriorating security crisis in the north because of the massive inflow of weapons.

And so enter this situation now the French essentially deciding that the UN, which passed a Security Council resolution, you know, 20-85 back in December authorizing an African-led military intervention, coupled with political intervention to get at the root causes of the crisis—but the French essentially decided that the UN process, the UN sanction process was not happening in a fast enough clip and that they could take more direct action more quickly. So the French back a week ago or so, back on Friday, launched a military intervention, airstrikes in Northern Mali, and that has been followed by ground forces there from the French moving steadily throughout Northern Mali.

I think what we have to recognize is that, you know, often military intervention breeds greater challenges, unintended consequences. And so what we have created now is a situation where, you know, all the challenges internal to Mali have been exacerbated by people, extremists, coming—many foreign fighters coming from other countries into Mali to unseat the French, to offset Western colonial powers, and to assert their own image of what Mali should look like for the future. I think it is not only dangerous for Mali, but also for the neighboring countries, countries like Algeria that has now seen hostages taken at oil installations because of this, now, desire to combat the French and to stop the interventionists from the West.

JAY: Now, France has essentially violated the UN resolution, right? The UN resolution was quite specific: this needed to be an African force led by Africans. And that’s not what’s happening.

WOODS: Well, this is the thing. France essentially went to the UN to try to brief the UN, but there has been no new Security Council resolution. So what stands is the resolution passed, which calls for an Africa-led force. I think it is really important to underscore that the regional body the Economic Community of West African States echo us, as well as the African Union, have been calling for a comprehensive package.

Let’s not look to the military solution as the answer here. What will be needed for long-term peace and stability in Mali is a comprehensive package that pays attention to the underlying political crisis that created the situation that has unfolded in Mali.

But we also have a humanitarian crisis. Over 200,000 people have been forced out of their homes because of the conflicts in the northern part of Mali. And in addition to that, you have reports that just since Friday, in less than a week, 30,000 more people have been forced out of their homes, out of their communities. So you have a real humanitarian crisis that also needs attention from the international community.

So the regional bodies were essentially calling for a comprehensive package, and yet the focus of the international—particularly the French action now, is on sort of this military intervention.

JAY: Now, France is saying that the government of Mali is—be it what it is, asked them to come in. I mean, is that what we understand?

WOODS: Well, this is what France has said. I think we have to understand that this is a government that came to power by a coup, and, you know, the U.S. in particular has said explicitly that they cannot support particularly the government in Mali officially, because it is a government that came to power by coup.

So I think we have to question, really, the legitimacy of the government and understand that a government that comes to power through a coup that has—and led a series of coups and countercoups and ousted a civilian prime minister just as recent as December, that government is really lacking credibility in quite a number of ways. And so whether or not they have the credibility to call in the French, I think, is still up for discussion.

JAY: Okay. So the other argument we’re hearing from France and in the mass media is that the troops from the north, the insurgents from the north, were heading south and, you know, getting towards the capital, and that there was a lot of foreigners there, including French citizens and others, and that if the French didn’t move in quickly, you know, people’s lives would be in jeopardy, and that the African countries that were supposed to be putting together this force hadn’t acted quickly enough. What do you make of all of that?

WOODS: Well, I think, you know, there is always justification to push the military option as the first response, as opposed to a last resort. And I think what you have here is really a French justification for their actions. I think it is important to underscore that military actions will not bring resolution to the crisis in Mali.

I think there needs to be comprehensive efforts to address the root cause of this crisis, which is the marginalization of the North, people of the North feeling completely isolated politically and economically. I think we have to underscore that, you know, this is a region that is rich in gold, in oil, with oil exploration very actively underway throughout the region. It is also a region where land has been expropriated in what many call land grabs, you know, with land being taken by international investors for biofuels production.

So there are many underlying issues that have to be addressed to be able to get at the root causes of this conflict. And the military intervention, instead of addressing these multiple layers of challenges, the military intervention is actually going to exacerbate tensions, creating, really, a space where extremists from many different countries now, not only from Mali but from throughout the region, and even outside the region, are now anxious to get to Mali, to pick up arms to fight the colonial power, to fight the French. [snip] to continue to see the situation deteriorate because of this action.

JAY: Some people might call the French extremist. But there’s a question I have is: why is France willing or interested to do this? Where does this interest lie? I mean, there’s every reason to think that this is going to be a quagmire for them.

WOODS: Without a doubt. And I think, you know, many are really surprised to see a socialist government in France taking this action. You know? And there was a hope that the change in leadership in France would bring a different foreign policy. But unfortunately, you know, there is still this push towards foreign policy that’s set by more short-term, very narrowly defined strategic, quote-unquote, interests without looking at the longer-term relationships that need to develop to build a mutually beneficial set of policies that not only will benefit Mali and Africa but will bring benefit to the global economy [crosstalk]

JAY: Do you think this has to do with French interest in Libya? I mean, France led the charge to overthrow Gaddafi in Libya. There was a big conflict over oil issues. And especially we’ve done quite a few stories about the conflict or contradiction between the French and the Russians over who was going to control, through Gazprom versus Total and the Italian company Eni. I mean, are they worried that this Northern Mali, if it doesn’t get checked by the French, becomes a kind of base that they’re going to wind up having to deal with in Libya?

WOODS: Well, I think we cannot underestimate the role of oil and other vital natural resources. I think it is important to recognize that these are resource-rich countries, and so it isn’t by chance that, you know, there’s militarism, oil and militarism, whether it’s Iraq and Afghanistan, Libya, Algeria, or Mali, you know, that has this now very rich potential in exploration already underway in terms of its oil. You know. So I think the economic interests of countries, whether it’s France or the United States, particularly interests that are often directed, dictated by big oil companies, I think we cannot underestimate the role of those types of considerations in determining foreign policy.

I think clearly there is this notion of responsibility to protect that was invoked both in Libya and, you know, is also being invoked—to a lesser extent, but also being invoked in Mali, this notion of protecting civilians. But I think what we have to understand is that when there is aerial bombardment, it is often civilians that are paying the heaviest price [crosstalk]

JAY: But what do you say to the people of the South who do not want to be ruled by the people of the North, and if the army in the South is in such disarray, it may not be able to prevent that without some kind of intervention or support?

WOODS: I think we have to—you know, we cannot underestimate the power of political negotiations for longer-lasting peace. And in this instance in Mali what we have seen is that the political process, the negotiations process, has actually brought results. The Tuaregs who initially started with their quest for a separate homeland, a separate state, you know, that would bring all the Tuaregs together from all the neighboring countries, that demand has been dropped largely because of political negotiations where traditional leaders, faith-based leaders, peace activists, are actively trying to bring about a negotiated settlement to the crisis.

And so I think we have to continue to amplify the actions of those that are the true warriors for peace, those that are fighting for a political process that will address the root causes of the conflict and will bring longer-term stability. I think we have to recognize what gains have been made through those processes and continue to demand that those processes be a part of a comprehensive approach by the international community, as well as by the regional actors.

Fonte: The Real news Network

Exército libanês sai às ruas e promete reprimir conflitos em Beirute

Em comunicado, Forças Armadas afirmam que país “está passando por momentos muito críticos”

 
O exército libanês saiu às ruas nesta segunda-feira (21/10) com o objetivo de controlar o caos nas ruas de Beirute. Desde a última sexta-feira, com a morte do chefe da Inteligência da Polícia, Wisan al-Hassan, durante um atentado, diversos conflitos foram registrados na capital do país.

As Forças Armadas do Líbano prometem reprimir “qualquer ação” que afete a paz no país

Em nota, o comando das Forças Armadas avisou que reprimirá qualquer ação para preservar a paz civil. “Pedimos aos dirigentes de todas as forças políticas que expressem suas opiniões com cuidado, porque o destino da nação está em jogo. É necessário se comprometer a manter a paz.”

O comunicado acrescenta que “os eventos que aconteceram nas últimas horas demonstraram que o país está passando por momentos muito críticos e os incidentes em algumas partes chegaram a níveis sem precedentes”.

No domingo, durante o funeral de Al-Hassan, o ex-primeiro-ministro Fouad Siniora pediu a renúncia do chefe de governo, Najib Mikat. Pouco depois, um grupo de jovens tentou invadir a sede do Executivo, o que desencadeou choques com as forças da ordem. Nas últimas horas, ao menos três pessoas morreram e dezenas ficaram feridas.

As ações das Forças Armadas ocorrerão iniciaram “especialmente nas regiões onde há atritos sectários e confessionais, para evitar que o Líbano se transforme no terreno de um acerto de contas regionais e evitar a exploração do assassinato do mártir Hassan”.

Os soldados foram alvo de disparos quando tentavam abrir as ruas bloqueadas por manifestantes no bairro de maioria sunita Tariq Yadid, palco de um tiroteio ontem à noite.

O atentado – no qual, além de Al-Hassan, faleceram outras duas pessoas e 126 ficaram feridas – aumentou a tensão no Líbano, dividido entre partidários e opositores do regime de Bashar Al-Assad. Al-Hassan dirigiu as investigações que, em agosto, desvendaram a trama na qual estavam envolvidos o ex-ministro libanês Michel Samaha e o chefe da segurança síria, Ali Mamluk, acusados de planejar atentados contra líderes políticos e religiosos contra sírios.

Fonte: OperaMundi

Leia outras notícias sobre a Líbia.

Ministro das Relações Exteriores do Brasil critica desempenho do Conselho de Segurança na questão da Síria, Líbia e Irã

Entrevista ao Jornal O Estado de S. Paulo

O Ministro das Relações Exteriores, Antonio de Aguiar Patriota, conversou com os jornalistas Lisandra Paraguassu e Roberto Simon, na sede do jornal, em 14 de setembro.

Fonte: Canal do Ministério das relações Exteriores no Youtube

E veja também:

Da Agência Brasil

Brasil condena qualquer tipo de intervenção militar na Síria, diz ministro

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O governo do Brasil condena qualquer tipo de intervenção militar na Síria, disse hoje (18) o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Ao participar do seminário Os desafios da Política Externa Brasileira em um Mundo de Transição, na Câmara dos Deputados, o chanceler disse que a crise que ocorre na Síria não pode ser solucionada militarmente.

Nos preocupa o que ocorre na Síria. Já temos repetido isso, que não há solução militar para esse tipo de situação. Isso é [para nós] uma espécie de mantra”, disse Patriota, lembrando que há uma série de dificuldades no Iraque e no Afeganistão pelo fato de esses países terem sido alvos de intervenção militar. “O componente militar não apresentou soluções [nesses locais]”, disse.

A onda de violência na Síria leva um ano e meio, tendo matado mais de 25 mil pessoas, segundo organizações não governamentais. A violência provoca também a fuga em massa de sírios que procuraram refúgio nos países vizinhos.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas está dividido internamente em relação às medidas que devem ser implementadas na Síria. Para um grupo de países, liderados pelos Estados Unidos, a intervenção é a alternativa. Mas os governos da Rússia e da China rejeitam a proposta. Sem consenso, não há como adotar medidas por meio do conselho.

Patriota disse que situação considerada também “preocupante” ocorre na Líbia, país que, no ano passado, sofreu intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e, atualmente, dispõe de um elevado arsenal de armas e munições. Além disso, a situação do país afeta toda a região. “Há contaminação dos países vizinhos pela Líbia”, destacou o chanceler.

————–

Governo brasileiro rechaça intervenção externa devido ao programa nuclear do Irã | Agência Brasil 

Renata Giraldi

Repórter da Agência Brasil

Brasília – O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, rechaçou hoje (18) a possibilidade de intervenção externa no Irã na tentativa de encerrar o impasse em torno do programa nuclear desenvolvido no país. Patriota disse que ‘preocupa muito’ as autoridades brasileiras as manifestações favoráveis a esse tipo de ação. O Irã sofre uma série de sanções por parte da comunidade internacional, que teme a fabricação de armas atômicas.

O governo do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, nega o uso não pacífico da tecnologia de energia nuclear desenvolvida no país. Segundo as autoridades iranianas, o programa nuclear será utilizado, entre outras áreas, na de saúde.

Patriota, que participar do seminário Os desafios da Política Externa Brasileira em um Mundo de Transição, na Câmara dos Deputados, também mencionou a questão da busca pela paz entre israelenses e palestinos. O chanceler disse que, até o final do ano, visitará Israel e a Palestina. Segundo ele, é fundamental buscar uma solução pacífica para acabar com os conflitos que ultrapassam séculos na região.

‘É muito importante lembrarmos de um acordo de paz de médio e longo prazo. É nesse sentido que mostra o perfil pacífico do Brasil, que é a vontade de dialogar com ambos os lados, uma vocação brasileira de convívio pacífico. Pretendo ir a Israel e a Palestina, também para retomada do tema pelas instâncias multilaterais’, disse o chanceler.

A presidenta Dilma Rousseff participa, no próximo dia 25, da 67ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Será uma das primeiras a discursar e, a exemplo do que ocorreu no ano passado, ela pretende mencionar a necessidade de intensificar os esforços em busca da paz, citando israelenses e palestinos, por meio do diálogo.

Fonte: Agência Brasil

Pepe Escobar: Como o Mal se tornou o Bem e agora voltou a ser o Mal

O tiro pela culatra que se levanta em Bengasi

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online

Muçulmanos paquistaneses queimam bandeira dos Estados Unidos durante manifestação em Quetta. (Foto: Banaras Khan / AFP Photo)

“Papai, o que é um tiro pela culatra?”

Aqui está uma fábula para contar às crianças, junto ao fogo, em um não tão distante e distópico futuro apocalíptico.

Era uma vez, durante a “guerra ao terror” de George “Dubya” Bush, as Forças do Bem no Afeganistão capturaram (e devidamente torturaram ) um terrorista maligno, Abu Yahia al-Libi.

Abu Yahia al-Libi era, com certeza, líbio. Foi submetido por três anos nas entranhas da prisão de Bagram, perto de Kabul, mas de alguma maneira conseguiu escapar daquela supostamente inexpugnável fortaleza em julho de 2005.

Por então, as Forças do Bem se davam muito bem na cama com o Coronel Gadaffi da Líbia, cujos serviços de espionagem (para o deleite da administração de Bush) estavam dando o que tinham de mais repugnante para exterminar, ou ao menos isolar, aos jihadistas-salafistas do tipo Al-Qaeda, no estilo de al-Libi.

No entanto, em 2011, as Forças do Bem, agora sob nova administração, decidiram que era hora de enterrar a já tão passada “guerra ao terror” e dançar conforme uma nova moda, mais popular: a intervenção humanitária, também caracterizada como “ação militar cinética”.

Daí que al-Libi retornou dos mortos (agora, lutando ao lado das Forças do Bem para destituir – e oportunamente eliminar – o “maligno” Coronel Gadaffi). Al-Libi tinha se tornado um “guerreiro da liberdade”, apesar de que ele conclamasse abertamente que a Líbia deveria se tornar um Emirado Islâmico.

A lua de mel não durou muito.

Em setembro de 2012, pela primeira vez em três meses, o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, conhecido como O Cirurgião, divulgou um vídeo especial de 42 minutos para “celebrar” o 11º aniversário do 11 de setembro, admitindo finalmente a eliminação de seu número dois.

Seu número dois não era outro que Abu Yahya al-Libi, que tinha sido alvejado no Waziristão em 4 de junho por um dos drones adorados pelo presidente Barack Obama.

Um efeito imediato do vídeo de al-Zawahiri foi que uma turba furiosa, conduzida pelo grupo islamista Ansar al Sharia, incendiou o consulado dos EUA em Bengasi. O embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto. Não importou o fato de que Stevens tinha sido um heroi dos “rebeldes da OTAN” que haviam “libertado” a Líbia – notoriamente salpicados com jihadistas-salafistas do tipo de al-Libi.

Stevens foi recompensado por Washington com o posto de embaixador tão somente depois de que o “maligno” Gadaffi finalmente tivesse sido sodomizado, linchado e assassinado por (o que mais) uma turba furiosa.

Assim que, por fim, a serpente pôde morder sua própria cauda.

Terror, terror, terror

O que ocorreu em Bengasi pode ter sido apenas um protesto fora de controle contra um filme amador grosseiro feito na Califórnia, produzido e dirigido por um corretor de imóveis estadunidense-israelense que é um comprovado islamófobo (agora, dizem que sua identidade era um disfarce), financiado com US$ 5 milhões de doadores judeus não identificados, o qual apresentava o Islã como “um câncer” e o Profeta Maomé como um mulherengo, pedófilo e, acima de tudo, uma fraude.  O filme foi devidamente propagandeado pelo pastor da Flórida, demente e fanático queimador de Alcorões, Terry Jones.

Porém, o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia é apenas o prato de entrada do que pode ocorrer na Síria, onde vintenas de “guerreiros da liberdade” apoiados pela CIA, pelos turcos e pela Casa de Saud estão vinculados a Al-Qaeda, seja por meio do supostamente reformista Grupo de Luta Islâmico Líbio (LIFG) ou por gangues terceirizadas como a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) ou Al-Qaeda no Magreb (AQIM).

Então, como Washington vai “submeter os perpetradores à justiça” da Líbia? Afinal, esta é a mesma gangue que foi saudada como “herois” quando eles sodomizaram, lincharam e eliminaram o “maligno” Gadaffi.

Asia Times Online vem alertando por mais de um ano sobre tiros pela culatra na Líbia – e potencialmente na Síria, onde sheiks sauditas medievais freneticamente emitem fátuas legitimando a matança em larga escala de “infieis”alauítas.

Tudo isso é uma reprise do mesmo velho filme sobre a jihad no Afeganistão na década de 1980; primeiro, eles são chamados de “guerreiros da liberdade”, mas, quando eles nos atacam, voltam a se tornar “terroristas”.

Agora temos jihadistas-salafistas armados pela OTAN na Líbia, e jihadistas-salafistas financiados pela Casa de Saud e pela Turquia na Síria – empregando métodos “terroristas”, tais como homens-bombas, para derrocar o regime de Assad – todos ligados e prontos para agir. Isso certamente dá um novo significado à expressão “ação cinética” de Obama.

O tiro pela culatra – como no Afeganistão – poderia ter demorado anos para vir. Desta vez, ele ergueu sua feia cabeça após apenas alguns meses. E isso é tão somente o começo.

E agora? A quem vocês vão bombardear? A quem vão matar com os drones? Que tal bombardear Bengasi um ano depois de condenar Gadaffi à morte porque ele teria ameaçado… bombardear Bengasi?

Perguntem à Secretária de Estado Hillary (“Viemos, vimos, ele morreu”) Clinton, que alega falar em nome do “povo da Líbia”. Talvez ela venha com uma política de alinhamento retroativo dos EUA com Gadaffi.

E, já que estamos em ano eleitoral, por que não perguntamos ao próprio invisível ex-presidente Bush? Afinal, ele proclamou em 20 de setembro de 2001 que: “ou vocês estão conosco, ou estão com os terroristas”.

Bem, O Sr. Tiro-pela-culatra poderia dizer: tenha cuidado com o que recebe quando vai para a cama com terroristas.

Fonte: Viomundo

Embaixador americano na Líbia é vítima de duelo de fanáticos

Horas depois de uma manifestação na embaixada dos Estados Unidos no Egito, um violento ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, matou o embaixador dos EUA, Chris Stevens, e outros três americanos. Há poucos detalhes sobre a morte de Stevens, que pode ter sido vítima de uma explosão provocada por uma granada lançada por foguete contra a representação diplomática ou da brutalidade dos manifestantes. A única certeza é o fato de que a violência no Egito e na Líbia é resultado da intolerância religiosa professada por fanáticos no mundo muçulmano e também nos Estados Unidos.

Imagem de 7 de junho mostra o embaixador Chris Steven (à esq.) cumprimentando o líder do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia, Mustafa Abdel Jalil. Stevens era conhecido por seu firme apoio aos rebeldes que derrubaram Muamar Kadafi.

A ordem dos acontecimentos em Benghazi não está clara. O jornal Lybia Herald divulgou versões conflitantes de testemunhas. Uma delas afirmou que o protesto era pacífico e se tornou violento quando a polícia local tentou repelir os manifestantes. A outra dá conta de uma ofensiva violenta por parte dos manifestantes desde o início. Segundo a Al-Jazeera, Stevens teria morrido sufocado pela fumaça gerada pela explosão de granadas. O Guardian afirma que o embaixador teria sido atacado na manhã desta quarta-feira 12, quando chegou ao consulado para verificar os danos do ataque. Uma foto publicada pelo jornal Corriere della Sera mostra o que seria o corpo de Stevens, arrastado pelas ruas de Benghazi.

Se há dúvidas quanto à forma como Stevens e os outros americanos morreram, é clara a justificativa para o ataque. Como ocorreu no Egito, os manifestantes líbios atacaram a representação americana por conta de manifestações anti-Islã divulgadas recentemente. Uma delas é o “Dia Internacional do Julgamento de Maomé”, organizado pelo pastor evangélico Terry Jones, um radical religioso da Flórida conhecido por queimar cópias do Corão, o livro sagrado do Islã. “O ataque à embaixada no Cairo indica ainda mais a falta de respeito do Islã por qualquer outra religião”, disse Jones ao jornal Orlando Sentinel. “O Islã é totalmente incompatível com a sociedade livre ocidental”.

A outra justificativa é o filme Innocence of Muslims, uma produção divulgada no YouTube que retrata Maomé, o profeta muçulmano, como filho bastardo, bissexual, violento e pedófilo. AoWall Street Journal, o diretor do filme, Sam Bacile, afirmou que produziu o longa com 5 milhões de dólares arrecadados com 100 doadores judeus. “Este é um filme político, não religioso. O Islã é um câncer”, disse.

O fanatismo religioso de Jones e Bacile encontra eco entre a fração mais radical dos muçulmanos. No Egito, os protestos de terça-feira foram convocados por Wesam Abdel-Warethpor, um líder salafita, grupo conservador ultrarradical. Na Líbia, tudo indica que salafitas também participaram dos protestos, incluindo a milícia islâmica Ansar Al-Sharia. Antes da Primavera Árabe, os salafitas classificavam a política como algo proibido e condenavam a participação de seus seguidores em qualquer tipo de debate público. Após as derrubadas de ditadores, os salafitas formaram partidos e mostraram sua popularidade, em particular no Egito, onde obtiveram 25% dos votos nas eleições para o Parlamento (hoje dissolvido). Nem todos os salafitas são violentos, mas a maioria dos grupos muçulmanos que pregam e usam a violência, como a rede terrorista Al-Qaeda, têm base salafita. Esses grupos não estão acostumados a conviver com a divergência, mesmo entre versões diferentes do Islã, e são obstinados em sua luta por fazer todo o mundo muçulmano, e a humanidade, adotarem o mesmo estilo de vida que Maomé tinha no século VII. São, como a maioria dos árabes e muçulmanos, anti-americanos.

Os salafitas se notabilizaram, também, por convocar protestos ruidosos pelo mundo árabe. Essas manifestações, muitas vezes, acabam atraindo grupos violentos não religiosos. No Cairo, a bandeira dos Estados Unidos foi retirada do mastro principal da embaixada, aparentemente, por torcedores organizados de futebol, sempre presentes na linha de frente de protestos. Na Líbia, o protesto também tinha a presença de setores seculares.

Ocorre que o discurso religioso serve para insuflar os ânimos. O que torna o duelo de fanáticos ainda mais perigoso é o fato de ambos não conseguirem matizar as diferenças entre religião, sociedade e política. Como faz Terry Jones, para quem o ataque à embaixada americana no Egito é prova de intolerância religiosa, os salafitas são incapazes de diferenciar uma iniciativa de um pastor evangélico daquela do governo americano. Foi esta a “lógica” que contribuiu para matar o embaixador Chris Stevens e os outros americanos. É o mesmo raciocínio de Osama Bin Laden que, em sua sanha de atacar os Estados Unidos, promoveu um ataque em 11 de setembro de 2001 e deixou mais de três mil civis inocentes mortos.

A resposta do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao ocorrido na Líbia foi exemplar. “Os Estados Unidos rejeitam esforços para denegrir as crenças religiosas dos outros, mas todos devemos nos opor inequivocamente a este tipo de violência sem sentido que tirou as vidas desses funcionários públicos”. Da mesma forma, o primeiro-ministro da Líbia, Abdurrahim el-Keib, pediu desculpas a “todo o povo americano e ao governo, e também a todo o mundo” pelo que chamou de “ato criminoso covarde”.

A semana do 11º aniversário do 11 de setembro mostrou que a Primavera Árabe foi capaz apenas de libertar diversas forças políticas em sociedades que passaram décadas sob uma dura opressão, muitas vezes patrocinada pelos Estados Unidos. A Primavera, sozinha, não vai gerar democracias de forma espontânea. A semana deixou claro, também, que a questão religiosa é central para o futuro do mundo árabe. As ações de Jones e Bacile podem ser criticadas e condenadas, mas não criminalizadas. A violência por parte de grupos salafitas, e de criminosos que usam questões religiosas como justificativa, entretanto, deve ser combatida a todo custo. Após décadas de opressão, o mundo árabe precisa reconhecer que, atualmente, este tipo de violência, gerada internamente, é o maior risco para o futuro da região.

Fonte: CartaCapital

Leia outras notícias sobre a Líbia.

Advogados dizem que filho de Khadafi é vítima de maus tratos na Líbia

Saif Al-Islam Khadafi

Os advogados responsáveis pela defesa de Saif Al-Islam Khadafi no Tribunal Penal Internacional (TPI) disse que ele está sendo vítima de maus tratos na prisão na Líbia.

Em um comunicado, os advogados disseram que Khadafi está sendo mantido em isolamento quase completo por uma milícia e que foi espancado.

Eles também afirmaram que os promotores haviam sido avisados de que o filho do ex-líder líbio seria julgado por crimes menores envolvendo uma licença para ter um camelo e irregularidades em uma criação de peixes.

O governo da Líbia e o Tribunal estão disputando quem irá julgar Saif Khadafi.

O Conselho Nacional de Transição, órgão que governa o país, insiste que ele deveria ser julgado na Líbia, mas o TPI diz que os líbios devem entregá-lo para o tribunal de crimes de guerra em Haia, na Holanda.

Fonte: BBC BRASIL