Na Guatemala, Justiça derruba lei de anistia e condena ditador

Efraín Ríos Montt, o sanguinário ditador que aterrorizou a Guatemala no início dos anos oitenta, foi finalmente condenado pela Justiça de seu país, a 80 anos de prisão, por crime de genocídio e delitos contra a humanidade. Perdeu vigência, assim, a lei de anistia proclamada pelos militares na véspera de passar o poder aos civis, há dezessete anos.

Eric Nepomuceno

Mão de ferro, coração perverso, alma cruel, botas de chumbo: com esse instrumental Efraín Ríos Montt foi o sanguinário ditador de turno na Guatemala, entre março de 1982 e agosto de 1983. Dezessete meses para que o general da Bíblia incendiária e da palavra veemente deixasse sua contribuição indelével para o massacre de um país massacrado e para o genocídio metódico que arrasou etnias indígenas ao longo de décadas.

Um dos feitos mais extraordinários de Ríos Montt, um cristão fundamentalista de uma dessas seitas evangélicas desmesuradas, foi ter conseguido ser especialmente cruel numa era de extrema crueldade em seu país. Os indígenas, que formam a imensa maioria da população, padeceram bestialidades permanentes.

Não foi ele o único verdugo em décadas de sangue. Mas, vale recordar: soube se destacar pela fúria sangrenta. Apoiado veementemente por Ronald Reagan, recebeu armamento de Israel para apetrechar tropas cuja missão única era, com o pretexto de enfrentar a guerrilha, arrasar aldeias inteiras de diversas etnias maia, violando mulheres de todas as idades, assassinando homens, triturando anciãos. Durante seu reino de sombras os kaibiles mostram a face dupla de uma crueldade sem limites: eram as tropas que com mais sanha se lançavam contra aldeias indígenas. Amarga ironia: os kaibiles eram indígenas treinados para ser especialmente cruéis. Eram os mais desalmados contra seus iguais.

Pois agora esse ancião de 86 anos e olhar perdido conheceu o que sempre negou a quem perseguiu e aniquilou: justiça. No final, a sentença: 80 anos de prisão, por crime de genocídio e delitos contra a humanidade. Perdeu vigência, assim, a lei de anistia proclamada pelos militares na véspera de passar o poder aos civis, há dezessete anos. 

Agora, caberá à juiza de nome suave – Jazmín Barrios – convocar mais militares genocidas, mais assassinos perversos, para prestar contas.

A Guatemala padeceu quatro décadas de barbárie, desde o golpe implantado por Washington contra o governo progressista de Jacobo Árbenz, em 1954. Dois anos depois começou o massacre que só terminaria em 1996, com os acordos de paz assinados após um saldo macabro de pelo menos 250 mil mortos. Durante essas quatro décadas, os indígenas formaram a maioria das vítimas. Etnias foram dizimadas. Só no período de Ríos Montt, os maia-ixil perderam 33% de sua população. Foi um genocídio prolongado, que alcançou seu auge justamente com Ríos Montt.

A reação dos militares e dos empresários da direita mais recalcitrante ao julgamento do ancião genocida foi dura. Acusam o tribunal de perseguição política, e os advogados de Ríos Montt já avisaram que vão apelar. Aliás, dentro do próprio poder judiciário há correntes que defendam que, no julgamento da apelação, se decida por anular todo o processo e recomeçar do zero.

Não faltam, é claro, ameaças de que o julgamento pode ser o estopim para novos focos de violência. Fala-se em revanchismo e assegura-se que, nos quartéis, a sensação é de mal-estar e frustração. Fala-se que estão atropelando a lei de anistia.

Há, enfim, uma clima de tensa inquietação na Guatemala, e é natural que assim seja. O país não tem tradição alguma além de uma justiça sempre inclinada a proteger a impunidade dos poderosos e ignorar os direitos das vítimas, especialmente quanto se trata de camponeses e indígenas. Basta recordar que desde 1999 havia tentativas de julgar Ríos Montt pelas matanças dos maia-ixil na região do Quiché levadas a cabo pelo exército que obedecia a ele. Só em janeiro de 2012 foi possível começar o processo, que agora chegou ao fim.

Seu julgamento abriu espaço para que os indígenas fossem ouvidos pela primeira vez. E assim, pela primeira vez a Guatemala ouviu uma verdade que já era conhecida mas permanecia calada, ignorada: os relatos dos sobreviventes foram demolidores.

Ríos Montt ouviu tudo em silêncio. E quando falou, foi para dizer que na verdade ele não tinha poder algum: era apenas chefe de Estado. Suas únicas ações junto às tropas era ‘conceder condecorações e dar pensões’. Na tentativa de demonstrar sua impotência diante dos fatos, fez uma revelação importante: disse que até o embaixador dos Estados Unidos sabia mais do que ele, já que todas as operações militares eram pagas com dinheiro norte-americano. Nesse última parte, todo mundo acreditou. Na inocente impotência do genocida, não.

A mesma sentença determina que os três poderes guatemaltecos – executivo, legislativo e judiciário – deverão pedir perdão aos maia-ixil pelo massacre sofrido durante o período de Ríos Montt ditador. O tribunal esclarece que não se trata de um pedido de perdão do Estado guatemalteco, mas de reparação a ser propiciada pelos três poderes. Serão desenvolvidos programas sociais e culturais de apoio aos maia-ixil, e haverá marcos e centros populares de cultura relembrando o genocídio sofrido.

Tudo muito simbólico, é verdade. Mas num país tão dividido, com uma elite que continua reservando o mesmo desprezo boçal pelas comunidades indígenas e que continua querendo preservar a impunidade dos militares, não deixa de ser uma iniciativa de peso.

O que virá a seguir, ninguém sabe. Ir fundo nas investigações de altos mandos militares em massacres coletivos pode salpicar o próprio presidente Otto Pérez Molina, eleito pelo voto popular: ele é general da reserva, e foi especialmente ativo nas ditaduras.

É considerável, sim, o risco de uma reação mais dura dos militares e dos setores mais poderosos da economia contra a condenação de Ríos Montt. Mas não deixa de ser um julgamento histórico numa Guatemala que está longe de cicatrizar suas feridas.

Fonte: CartaMaior

Especial ONU Brasil sobre a Crise no Mali

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Entenda a crise

Localizado no coração da África Ocidental, Mali é um vasto país encravado na região do Sahel. A situação política e social havia melhorado durante a última década com eleições democráticas realizadas pacificamente desde 1992.

No entanto, a situação de segurança agora é volátil, com um golpe em março de 2012 e grupos armados controlando as três regiões mais ao norte: Kidal, Gao e Timbuktu. Isto causou movimentos populacionais dentro do Mali e também para países vizinhos.

O Mali enfrenta desafios significativos em setores-chave para o desenvolvimento e é o 175º colocado entre 187 países avaliados pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Cerca de 69% da população vive abaixo da linha de pobreza e mais de um quinto das crianças em idade escolar não frequentam aulas, três quartos das quais são meninas.

Mais de 80% da população rural depende da agricultura de subsistência e da criação de animais.

Limitada terra arável, clima imprevisível, desastres naturais (incluindo seca, infestações de gafanhotos e inundações), degradação ambiental e a flutuação de preços das matérias-primas levaram a numerosos desafios de segurança alimentar e saúde a essas populações.

As crianças são as mais afetadas por esses desafios. A prevalência de desnutrição global aguda entre as crianças com menos de 5 anos é de 15%, segundo a última pesquisa demográfica e de saúde no Mali.

Missão de Paz da ONU

O Conselho de Segurança da ONU autorizou no dia 20 de dezembro de 2012 o envio da Missão de Suporte Internacional liderada pela África no Mali (AFISMA). Com mandato inicial de um ano, prestará assistência às autoridades na recuperação de regiões controladas por rebeldes e na restauração da unidade do país. Clique aqui para ler a íntegra do comunicado e da resolução do Conselho.

Sob o Capítulo VII da Carta da ONU, que permite o uso da força diante de ameaça à paz ou agressão, o Conselho incumbiu a AFISMA de contribuir com a reconstrução das forças de segurança e defesa do país, assim como na redução de ameaças impostas por grupos terroristas. A Missão será liderada pela União Africana e pela Comunidade Econômica do Estados da África Ocidental (ECOWAS), com apoio logístico e financiamento da ONU.

A Missão será responsável por apoiar as autoridades na proteção de civis e na criação de um ambiente seguro para o envio de assistência humanitária liderado por civis, além do regresso voluntário de deslocados e refugiados. O Conselho também instou as autoridades de transição do Mali a finalizarem o roteiro de transição por meio de amplo e inclusivo diálogo político, restaurar totalmente a ordem constitucional e a unidade nacional, também pela realização de eleições pacíficas, inclusivas e críveis até abril de 2013 ou tão logo seja tecnicamente possível. O órgão também exigiu que os rebeldes cortem os vínculos com grupos terroristas e pediu que as autoridades de transição iniciem negociações com os que romperem tais laços.

Fonte: http://www.onu.org.br/mali/

Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?

Três anos depois do início de intensos protestos de rua, Tunísia e Egito estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isso vai parar. Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas isso não é definitivo.

Immanuel Wallerstein*

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Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões “modelares” das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.

Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa – e, até certo ponto, no mundo.

O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos — local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.

O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.

Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.

Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana – Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.

Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de “linha dura” em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados “moderados”, que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.

As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.

Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.

Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.

Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.

Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.

Fonte: CartaMaior

Síria: Liga Árabe pede à ONU para impor cessar-fogo obrigatório

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Brasília – A Liga Árabe pediu hoje (14) ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para impor um cessar-fogo obrigatório a todas as partes envolvidas no conflito na Síria.

O apelo faz parte de um relatório sobre a situação dos refugiados sírios que o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Al Arabi, distribuiu aos ministros da Saúde árabes reunidos hoje no Cairo, Egito.

O texto pede ao Conselho de Segurança para intervir de forma firme na Síria, de acordo com os instrumentos de que dispõe conforme a Cláusula 7ª da Carta das Nações Unidas.

A Cláusula 7ª permite “o uso de todas as medidas necessárias para restaurar a paz e a segurança internacionais”, o que inclui uma intervenção militar.

As tréguas negociadas durante o conflito pelos mediadores internacionais foram violadas tanto pelas tropas de Damasco como pelas forças rebeldes.

O relatório da Liga Árabe pede também à comunidade internacional que assuma responsabilidades e aumente a ajuda aos refugiados sírios que ultrapassam já 1 milhão de pessoas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A organização reunida no Cairo recordou ainda que os Estados vizinhos da Síria, membros do organismo, como o Líbano, a Jordânia e o Iraque necessitam de apoio econômico para ajudarem os refugiados.

Para apoiar os países que fazem fronteira com a Síria, os ministros da Saúde árabes decidiram doar US$ 800 mil para assistência médica de urgência destinada aos refugiados.

Na sexta-feira (15), completam dois anos do conflito sírio que deu origem a uma guerra civil que já causou mais de 70 mil mortes.

 

Fonte: Agência Brasil

As aporias do sistema geopolítico mundial na era nuclear

Desde os tratados de Westfália no século XVII que o sistema internacional esteve governado segundo uma peculiar aporia: primeiro, em tese, nada se sobrepõe à soberania dos Estados na relação com os outros Estados; segundo, na prática do direito internacional, a soberania de um Estado está sujeita à violação pela força superior de seus eventuais oponentes na promoção do que definem como seus interesses soberanos. Esse segundo princípio foi formalizado por Clausewitz (“Da Guerra”) pelo enunciado de que a guerra é um instrumento racional dos Estados para a promoção de seus interesses.

O sistema vigorou por 300 anos até a Segunda Guerra Mundial quando, ao fim dela, um novo sistema internacional começou a ser configurado pela explosão da bomba atômica pelos Estados Unidos e, quatro anos depois, pela União Soviética. Já a Guerra Fria indicava que a guerra “quente” não podia ser considerada um instrumento “racional” para uma solução de força dos conflitos de interesse entre potências nucleares. O fim da Guerra Fria, não tendo sido o fim da era nuclear, mas sua dispersão, apenas acentuou esse pressuposto.

O mundo tem hoje cinco potências nucleares plenas e declaradas (com capacidade de lançar mísseis intercontinentais e por submarinos), duas potências nucleares de segunda ordem (Índia e Paquistão), uma potência nuclear encoberta (Israel) e dois candidatos a potência nuclear (Irã e Coreia do Norte). Os demais países não nuclearizados aparentemente se conformam com essa situação, quando menos por temor explícito ou implícito de retaliações econômicas por parte do clube nuclear no âmbito do Tratado de Não Proliferação.

Tal sistema, por mais assimétrico, injusto e instável que pareça, no âmbito das  potências nucleares leva à paz, não à guerra. Na vigência do virtual duopólio de poder da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética teriam ido à guerra (no mínimo naval, mas ninguém sabe como acabaria) em face da crise dos mísseis em Cuba, ou mesmo por motivos ideológicos, não fossem elas potências nucleares. Pelo mesmo motivo a União Soviética não se meteu diretamente na Guerra do Vietnã e os Estados Unidos não se imiscuíram diretamente quando da invasão do Afeganistão pela União Soviética.

Se uma paradoxal estabilidade instável prevaleceu, conforme esses exemplos, no período de extremo conflito ideológico da Guerra Fria, muito maior é a razão para que prevaleçam a partir dela. Enquanto sistemas de Estados soberanos, e não de sistemas sociais conduzidos por ideologias  radicalizantes, não temos mais um bloco ocidental nem um bloco oriental rígidos no campo ideológico: são Estados governados cada um por seus interesses particulares, e em grau maior ou menor controlados por processos democráticos internos, onde dificilmente surgiria um demagogo propagandeando a guerra externa com objetivos políticos internos.

Contudo, nada impede guerras na periferia do clube nuclear conduzidas ou não por potências nucleares, como é o caso das guerras do Afeganistão, do Iraque, da Chechênia, de Óstia do Sul, ou a miríade de guerras civis desde a Síria aos deserdados países africanos. O que não se concebe são guerras diretas entre potências nucleares. A Índia e o Paquistão, que haviam travado três guerras depois da descolonização, só não travaram a quarta, justificada pelo atentado terrorista de Bombai, porque são potências atômicas, mesmo que de segunda linha.

O poder nuclear, portanto, revelou-se que não é para ser usado, mas para ser manobrado como instrumento de pressão e de dissuasão. Esta última se aplica sobretudo às próprias potências nucleares entre si. Nesse caso a guerra já não é mais a continuação da política por outros meios, como em outro enunciado de Clausewitz, mas a política passa a ser o instrumento absolutamente exaustivo das relações internacionais no âmbito de potências nucleares. É uma novidade histórica que requer, certamente, uma também nova filosofia da guerra.

Voltemos a Clausewitz e à parte mais relevante de seu primeiro enunciado:  “a guerra é um instrumento racional dos Estados”. Onde estaria a racionalidade de uma guerra nuclear que se arrisca a generalizar-se? Fora os conceitos dos filósofos que consideram a história um ente em si, movido por forças abstratas impessoais, a guerra, na prática, é uma decisão de governo. Em essência, de elites governamentais que, em algum grau, e sobretudo nas democracias, têm de prestar contas de seus atos ao povo.

Claro, uma guerra nuclear não começa necessariamente como guerra nuclear: pode ser o fim de uma escalada de guerra convencional. Isso, porém, não elimina a dissuasão interna em relação aos atos daqueles que conduzem as decisões políticas: nenhum governante com algum grau de responsabilidade perante o povo iniciaria uma escalada bélica convencional contra outra potência nuclear sabendo que ela não se renderia  ao ponto de entregar-lhe seus arsenais atômicos na hipótese de uma derrota “convencional”.

Isso pode parecer kantiano, e de alguma forma o é. Kant, idealisticamente,  argumentava que a paz perpétua só poderia ser atingida quando todos os países fossem repúblicas, no suposto de que o poder republicano responderia ao povo, não à vontade das elites aristocráticas ou de outra natureza. A questão em tempos de democracia de cidadania ampliada, no que se refere à guerra nuclear, é, pois, essencialmente de informação. Bem informado das consequências catastróficas de uma guerra nuclear, o “povo” há de dissuadir a aventura das elites.

Creio que, no contexto da sociedade de informação, mesmo que elites aventureiras ou demagógicas tenham a sua mão instrumentos clássicos de manipulação da opinião pública, estes são virtualmente inócuos no que diz respeito à guerra nuclear: ninguém a deseja ou justifica emocional ou racionalmente, e o líder que tentasse justificá-la por motivos de honra, de prestígio ou mesmo de interesses econômicos  correria o risco de uma rebelião interna. É que o uso do poder nuclear infunde terror público, independentemente de quem o proponha.

Por certo que podem acontecer guerras convencionais aéreas diretas entre potências nucleares, seguindo algum código de prevenção de uso de poder nuclear. Houve exercícios de guerra nesse sentido durante a Guerra Fria, inclusive por Herman Kahn. Isso, entretanto, é tão racionalmente implausível quanto a própria guerra nuclear. Possibilidades existem, porém, de guerras convencionais indiretas entre potências nucleares em territórios de outros países, como aconteceu de fato no Vietnã e no Afeganistão, mas neste caso envolvendo sobretudo motivos ideológicos. De qualquer modo, isso será discutido adiante.

Uma vez feitas essas ponderações quanto à inviabilidade da guerra nuclear entre potências nucleares, voltemos ao tema realmente crucial das relações internacionais contemporâneas: o uso do poder nuclear como instrumento de pressão contra nações não nucleares. Note-se que não é necessário poder nuclear para subjugar outras nações: basta superioridade em força militar convencional. A novidade é que o poder nuclear constitui um sistema de proteção para aliados militarmente fracos de potências nucleares concorrentes.

O sistema internacional, depois do fim da União Soviética, está assumindo rapidamente uma configuração similar á do século XIX no que diz respeito ao estabelecimento de alianças multipolares e áreas de influência, em diferentes graus de prioridade, em torno dos países nucleares. É uma espécie de contrapartida dialética do processo de globalização das últimas três décadas. Uma diferença é que, ao contrário do sistema de alianças do século XIX que levou a várias guerras, o sistema atual, por causa do poder nuclear, parece tender à paz.

O primeiro indicador desse processo é o cuidadoso respeito a áreas de influência que os países nucleares consideram vitais. Na guerra imposta pela Rússia a Óstia do Sul, considerada vital para Moscou por causa da presença de uma grande população russa no país, alguns dirigentes da direita europeia ensaiaram uma intervenção da OTAN, o que foi fulminantemente abortado pelos Estados Unidos pela óbvia razão de que aquilo representava o risco de um confronto direto com a Rússia, ainda uma potência nuclear de primeira linha.

Os russos, por sua vez, toleraram de má vontade as intervenções da OTAN nas revoluções da Primavera Árabe, já que eram países que de maneira alguma representavam áreas de interesse vital para ela; mas nenhuma potência ocidental se meteu com a guerra civil em curso na Síria, aliada estratégica de russos e chineses, pelo menos por enquanto. Da mesma maneira a França pode jogar sua economia em crise na guerra civil do Mali pois isso não confronta nenhum interesse relevante de outras potências nucleares.

A guerra externa, portanto, está se tornando um instrumento obsoleto da política internacional. Trata-se de efeito direto do poder nuclear. Os Estados Unidos começaram a aprender isso na Coreia e no Vietnã, tiveram um breve gosto de vitória no Iraque, e se enterraram virtualmente no Afeganistão – de onde Obama, com dificuldade, ensaia uma maneira honrosa de dar o fora. Isso não significa que se deve  descartar, de antemão, um surto de guerras externas neocolonialistas sob o escudo nuclear. É apenas improvável.

É nesse contexto que se deve considerar as tentativas da Coreia do Sul e, supostamente, do Irã de ter acesso a tecnologia nuclear bélica. Em termos dos tratados de Westfalia, eles têm todo o direito de construir a bomba. É uma prerrogativa de sua soberania. Contudo, no âmbito desses mesmos tratados, sua vontade pode ser confrontada por um poder militar mais forte. Mas esse poder, ao menos formalmente, está institucionalizado numa instância superior à soberania dos Estados, o Conselho de Segurança da ONU.

Essa instância foi, em termos conceituais, a grande novidade do pós-guerra. Contudo, no ambiente da Guerra Fria, ela se revelou inteiramente ineficaz quando os Estados Unidos empreenderam à margem de decisões do Conselho a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã e outros guerras de menor dimensão (inclusive a extraordinária “conquista” de Granada, uma minúscula ilha-nação do Caribe, pelo Governo Reagan). Também a União Soviética ignorou o Conselho ao se meter, via Cuba, em guerras civis em desenvolvimento na África e no Afeganistão.

No ambiente internacional contemporâneo, a força do Conselho de Segurança reside justamente no seu poder de “congelar” alianças no sentido definido acima. Isso ocorre, porém, de forma contraditória, não por sua capacidade de tomar decisões, mas pelo inverso, ou seja, pela capacidade de veto do seu núcleo permanente. Assim, uma guerra “legitimada” contra a Coreia do Norte ou contra o Irã sob a justificativa de impedir que tenham acesso pleno ao poder nuclear só seria tecnicamente possível com a concordância da Rússia e da China.

Isso não impede, porém, que os Estados Unidos e as demais potências ocidentais, assegurando por via política a neutralidade da Rússia e da China, se decidam a promover  uma outra guerra da Coreia e uma primeira contra o Irã. Os Estados Unidos, apelando ao conceito da segurança mundial, poderiam fazê-lo unilateralmente mesmo sem essa neutralidade sob o estímulo de Israel. Nos dois casos, a questão passa ao nível técnico: qual a viabilidade de guerras contra esses dois países e qual seria seu custo em termos humanos e materiais?

Nos dois casos, entraria em jogo, como justificação subjetiva da guerra, o conceito de ameaça à segurança mundial. E nisso há substanciais diferenças entre Coreia do Norte e Irã. A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo, submetido a uma ditadura familiar,  de cujas relações com a sociedade interna pouco se sabe no ocidente, inclusive quanto ao grau de responsabilidade da elite dirigente em relação aos próprios cidadãos (se, realmente, existe cidadania no país). Diante disso, é controverso falar em responsabilidade internacional.

Evidentemente que, nessas circunstâncias, fazer a guerra à Coreia para desarmá-la preventivamente do poder atômico depende sobretudo de julgamentos subjetivos sobre o comportamento internacional de suas elites. Aqui não se trata de uma questão ideológica, mas de evidências concretas: o que se pode deduzir subjetivamente das ações efetivas da elite dirigente da Coreia do Norte em relação à comunidade internacional, a começar pela Coreia do Sul e o Japão?  E, sobretudo: poderia a Coreia do Norte, dados os precedentes de sua retórica, comportar-se como uma nação suicida?

O terrorismo suicida foi o segundo elemento, junto com o poder nuclear, que introduziu um novo paradigma nas relações internacionais no pós-guerra. A combinação de poder nuclear e terrorismo suicida materializaria uma ameaça real à segurança do mundo. Antes, o poder nuclear apenas podia efetivar-se se houvesse vetores capazes de transportá-lo a longas distâncias por submarinos ou mísseis. Agora, como se viu nos atentados de 11 de setembro, o terrorista vai junto com a bomba. E mesmo uma bomba nuclear “suja” poderia causar estragos catastróficos.

Isso acentua a questão da responsabilidade das elites dirigentes e, também, o efetivo controle delas quanto ao (não) uso de armas nucleares que venham a possuir. A  simples possibilidade de que um Estado ditatorial, como a Coreia do Norte, com sua retórica belicista, venha a disponibilizar tecnologia nuclear “caseira” para grupos terroristas representa óbvios riscos de segurança sobretudo para os Estados Unidos. Assim, é pouco provável que os Estados Unidos deixem de usar seu poder militar para dissuadir a Coreia do Norte de ter a bomba exceto se a Coreia do Norte evoluir para um sistema mais aberto e democrático.

Note-se que em circunstâncias muito mais complexas da Guerra Fria, no confronto com o único poder militar que poderia equiparar-se ao seu, os Estados Unidos praticamente impuseram a “glasnost” à União Soviética como preliminar de tratados mais abrangentes de redução de arsenais nucleares. Agora, confrontando um poder muito menor como a Coreia do Norte, os Estados Unidos certamente empreenderão todos os esforços políticos para se assegurar da neutralidade russa e chinesa em seus esforços para impedir a bomba coreana e, caso não consiga essa neutralidade, tomarão provavelmente uma decisão unilateral.

A questão iraniana é mais complexa. Trata-se de uma república regida por códigos democráticos formais sob autoridade última religiosa. O braço executivo do Governo nega que esteja construindo a bomba. Os aiatolás, o grande conselho moral e político do país, asseguram que a interpretação do Islã veda a busca do poder nuclear. Em termos históricos, algo que o ocidente se nega a reconhecer, o Islã, em suas guerras santas, tinha um protocolo de guerra que vedava o assassinato de mulheres, crianças e camponeses desarmados, assim como a destruição de colheitas – tudo isso incompatível com a arma nuclear.

Nessa mesma época histórica de ascensão do Islã, a Guerra Santa dos cruzados levava ao massacre indiscriminado de crianças, idosos e mulheres na Palestina, ao incêndio de cidades inteiras, à prática de torturas e a toda sorte de crueldades contra presos. No ocidente, sob o patrocínio da Igreja, instituiu-se a Inquisição como forma de controle de consciências pela fogueira, a caça às bruxas, ao terror contra seitas alternativas (cátaros), à conversão forçada de judeus. É claro que, com esses currículos, os islâmicos pareceriam bem mais civilizados e humanos que os ocidentais. Em outras palavras, fariam melhor (não) uso da bomba atômica.

Entretanto, por trás da questão nuclear iraniana está Israel. E Israel, única potência nuclear do Oriente Médio, coloca-se numa posição radical contra o acesso do Irã à bomba, por óbvias razões geopolíticas, e, entre outros motivos, porque a elite dirigente iraniana expressa publicamente a retórica irrealista de que Israel deve ser destruído. A esse respeito, trata-se de uma banalidade demagógica para efeito interno, de péssima repercussão internacional: como disse a então secretária de Estado Hillary Clinton, se o Irã atacar Israel para destruí-lo os Estados Unidos “deletam” o Irã!

Por sua parte, é possível que o Irã não vise mesmo a construir a bomba num primeiro momento, mas, sim, afirmar sua soberania no sentido de poder fazê-la quando quiser, haja vista a capacidade nuclear existente de seu principal inimigo, Israel. O exercício efetivo desse direito implica três situações: primeiro, da inserção efetiva do Irã no sistema de alianças russo-chinês; segundo, como consequência disso, da capacidade norte-americana de convencer politicamente a Rússia e a China a ajudá-los a dissuadir o Irã de fazer a bomba e submeter-se  ao sistema de fiscalização da AIEA; terceiro, em vista do fracasso dessa iniciativa, da vontade norte-americana de submeter-se a pressão de Israel e de fazerem, ambos, uma guerra aérea de destruição das instalações nucleares iranianas.

Essa terceira situação, que remete ao foco principal deste ensaio, coloca complexidades ainda maiores que a questão coreana. As instalações nucleares coreanas são muito mais vulneráveis a um ataque aéreo, inclusive por mísseis, do que as iranianas. Um relatório de um ex-agente de informação vazado na imprensa norte-americana deu conta de que as principais instalações nucleares iranianas estão enterradas a 10 a 12 metros de profundidade e são invulneráveis a ataques aéreos convencionais – ao gosto daqueles feitos por Israel em suas guerras, e inclusive no ataque nos anos 80 a instalações nucleares do Iraque.

Além disso, o poderio antiaéreo iraniano, já considerável tendo em vista anos de preparação para uma eventual guerra, seria, no caso de uma guerra decidida fora do âmbito do Conselho de Segurança, certamente reforçado, em termos materiais e humanos, por russos e chineses, seus supridores de equipamentos bélicos.  Nesse caso, teríamos um confronto convencional de potências nucleares numa guerra aérea em terceiro país. (A invasão por terra, claro, seria fora de propósito em função de perdas humanas dos agressores: Irã não é Iraque.) Até que ponto isso poderia desencadear uma escalada de forma a estabelecer um confronto direto entre as próprias potências nucleares? Não sabemos, mas podemos inferir.

O risco é suficientemente alto para o destino da humanidade para que nos recusemos a especular sobre ele. Portanto, tentemos estabelecer um curso ideal para reduzir o risco. O primeiro passo seria estabelecer, com o concurso de Rússia e China, um processo que leve ao reconhecimento da boa fé dos iranianos quando afirmam que não têm intenção de construir a bomba. Isso chegou a ser iniciado com o concurso de Brasil e Turquia no Governo Lula (irresponsavelmente criticado por parte da grande mídia brasileira, por certo inspirada pela inteligência norte-americana), mas foi recusado, depois de previamente combinado com ele, pelo Governo Obama. Como poderia ser retomada iniciativa similar?

Há uma preliminar concreta: a questão iraniana não pode ser dissociada da questão palestina. Portanto, o primeiro passo caberia aos Estados Unidos no sentido de pressionar Israel a voltar à mesa de negociações. Nesse contexto, seria proposto à elite dirigente iraniana que retirasse de sua retórica a destruição do Estado de Israel. Considerando, por outro lado, que a política interna iraniana em nível de governo é extremamente instável, com diferentes correntes disputando o poder (e a busca da construção da bomba, mais do que seus riscos, acaba sendo objeto de pregação demagógica), seria exigido do Conselho Supremo de aiatolás, o poder supremo efetivo do país, um posicionamento formal dirigido à comunidade internacional de que o país renuncia ao propósito de construção da bomba atômica, preservando seu direito de desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos sujeito à fiscalização da AIEA.

É claro que essa pauta é um exercício idealista. Contudo, é racional. Se se pensou a guerra convencional como instrumento racional de promoção de interesses dos Estados é porque se tratava de racionalização de processos reais. O processo real, como acontece no momento, tem a dimensão contraditória do racional e do irracional: um nos leva à relativa estabilidade nas relações internacionais; outro, ao possível desastre para toda a humanidade. Um segue a um paradigma em construção, instrumentalizado pela negociação e a cooperação entre os povos; outro, ao paradigma clausewitziano do século XIX anterior à existência do poder nuclear. O mundo, por suas elites dirigentes, não terá como deixar de fazer a escolha.

J. Carlos de Assis é eEconomista, professor de Economia e Política Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.

 

Fonte: RUMOSDOBRASIL

Justiça da Argentina julga Videla e outros repressores por Plano Condor

Plano articulou regime totalitários numa máquina de inteligência, sequestro e assassinato de militantes de esquerda

Os ditadores argentinos Jorge Rafael Videla e Reynaldo Benito Bignone voltam ao banco dos réus nesta terça-feira (05/03) em Buenos Aires com outros 23 repressores para responder pelo desaparecimento de 106 pessoas perseguidas pela Operação Condor dentro e fora do país. De acordo com o diário Página 12, a maioria das vítimas desse caso é uruguaia, mas também há argentinos, paraguaios, chilenos e um peruano. Três deles desapareceram no Brasil.

Videla (à esquerda) e Bignone (centro), durante julgamento por crimes cometidos durante a ditadura militar argentina

Os 25 acusados serão julgados por sua participação local na Operação Condor. Iniciada extraoficialmente em 1975, em Santiago, no Chile, a iniciativa articulou os regime totalitários do Cone Sul numa máquina de inteligência, sequestro e assassinato de militantes de esquerda que se opunham às ditaduras na região. Cerca de 450 testemunhas serão ouvidas pela Justiça argentina e o julgamento deve durar dois anos.

“A denúncia avançou devido ao conceito de ‘crime continuado’”, explicou ao jornal argentino o promotor Miguel Angel Osorio, que conduz as acusações. “Quando uma pessoa foi sequestrada e não é possível saber o que aconteceu com ela, se morreu ou continua viva, é como se o crime continuasse ocorrendo. Daí não é possível indultar nem anistiar os responsáveis. O Estado tem obrigação de interromper o delito. Depois, pode até anistiar. Mas, antes, tem de julgá-lo.”

Dos 25 repressores acusados, 23 estão sendo processados por associação ilícita e privação ilegal de liberdade. Não responderão por tortura ou assassinato, embora em muitos casos, diz o Página 12, esteja comprovado que as vítimas foram transladadas para outros países e mortas. “A Operação Condor eliminou as formalidades que costumam permear as relações internacionais para sequestrar pessoas”, explica Pablo Ouviña, promotor que elaborou as acusações.


“Há argentinos e chilenos sequestrando e torturando juntos.” Para Miguel Ángel Osorio, a nacionalidade de vítimas e repressores não importa tanto. “Importa se realmente atuaram executando esse plano de coordenação repressiva em nível continental ou mundial, porque também atuaram na Europa e nos Estados Unidos.”

Videla, de 87 anos, já foi condenado a duas penas de prisão perpétua e a uma de 50 anos, enquanto Bignone, de 85 anos, último ditador antes da transição democrática, tem uma condenação perpétua, outra de 25 anos e uma terceira de 15 anos, por graves violações aos direitos humanos. No banco dos réus se sentará também o ex-general Luciano Benjamín Menéndez, de 85 anos, que acumula sete sentenças de prisão perpétua por torturas, homicídios e desaparecimentos.

Bomba

Nesta segunda-feira (04/03), a Secretaria de Direitos Humanos da Argentina recebeu ameaças de bomba feitas, de acordo com comunicado emitido pelo órgão, pelo “Comando Patriótico”, cujo objetivo era exigir o fim dos julgamentos de repressores da ditadura no país.

“Não é uma coincidência que essas ameaças coincidam com o início do julgamento de delitos de lesa humanidade vinculados ao Plano Condor, que implicou na participação conjunta das ditaduras da Bolívia, Chile, Uruguai, Peru, Paraguai, Brasil e Argentina em uma coordenação repressiva nos anos 70 e 80″, afirma o documento.

Fonte: OperaMundi

PEPE ESCOBAR: GUERRA AO TERROR “FOREVER”. Ouro e Urânio por trás das “preocupações” ocidentais no Mali.

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23/1/2013, Pepe EscobarAsia Times Online – The roving eye

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
E o vencedor do Oscar de Melhor Sequência de 2013 vai para… A Guerra Global ao Terror [orig.Global War on Terror (GWOT)], produção do Pentágono. Abandonai toda a esperança, vós que pensastes que a coisa não passaria da conversa fiada sobre o passamento dessa p’ra melhor, de “Jerônimo”, codinome Osama bin Laden, já reduzido a reles figurante de Zero Dark Thirty, filme-aula de tortura.
Agora já é informação oficial – emitida pela boca do leão, Comandante do Estado-Maior dos Comandantes das Forças Armadas dos EUA, general Martin Dempsey, e devidamente postado no site do AFRICOM, braço africano armado do Pentágono.
Sai de cena a al-Qaeda “histórica”, enfiada lá em algum buraco dos Waziristões, nas áreas tribais do Paquistão. Entra em cena a al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig.al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)]. Nas palavras de Dempsey, a AQIM “é uma ameaça não só ao Mali, mas a toda a região. (…) E se não for contida, pode, de fato, converter-se em ameaça global”.
Com o Mali já elevado à categoria de “ameaça” global, comprova-se que a Guerra Global ao Terror é realmente sem fim. O Pentágono não distribui frases de efeito. Quando, no início dos anos 2000s, os guerreiros-de-poltrona cunharam a expressão “A Longa Guerra”, falavam, mesmo, de guerra muito, muito longa.
Mesmo com a doutrina do governo 2.0 do presidente Obama de “liderar pela retaguarda”, não resta qualquer dúvida de que o Pentágono caminha diretamente para guerra no Mali – e ninguém cogita de guerrear nas sombras. O general Carter Ham, comandante do AFRICOM, já opera sob o pressuposto de que os islamistas no Mali “atacarão interesses dos EUA”.
Portanto, nesse momento já estão sendo enviados os primeiros 100 “conselheiros” militares dos EUA rumo ao Niger, Nigéria, Burkina Faso, Senegal, Togo e Gana – os seis países-membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Oriental [orig. Economic Community of West African States (ECOWAS)] que integrarão um exército africano que terá a tarefa (dada a eles por Resolução da ONU) de reconquistar (invadir?) as partes do Mali que estão sob controle do enxame de islamistas da AQIM, do MUJAO (grupo que se separou da AQIM) e da milícia Ansar ed-Dine. Claro: esse miniexército africano é pago pelo ocidente.
Quem estuda a Guerra do Vietnã logo lembrará que enviar “conselheiros” foi o primeiríssimo passo que os EUA deram na direção de afundarem-se completamente no pântano no qual só depois perceberam que se haviam metido. Ironia suprema nada Pentagônica à parte, os EUA já há vários anos sim, deram instrução e treinamento a tropas do Mali. Muitos desertaram logo depois de treinados. Um desses, que recebeu treinamento nos EUA, em Fort Benning, o capitão Amadou Haya Sanogo, não só comandou um golpe militar contra o governo eleito do Mali, como também criou as condições indispensáveis para o avanço dos islamistas.
Mas ninguém está prestando atenção a esses detalhes. O general Carter Ham está tão excitado com a possibilidade de o seu AFRICOM ganhar mais luzes e caixas de som que o Led Zeppelin nos grandes dias, com ele próprio apresentado pessoalmente ao mundo como salvador (o Carter da África?), que não toma nem tomará conhecimento de fato histórico algum.
O general parece ter esquecido que o AFRICOM – e, então, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN – deram total apoio (e armaram) os rebeldes-da-OTAN na Líbia, quando lutavam guerra cara à cara contra Muammar Gaddafi. O general sempre soube que a al-Qaeda no Maghreb Islâmico “tem muito dinheiro e muitas armas”.
Apesar disso, ainda diz que “mercenários pagos por Gaddafi” teriam desertado, deixado a Líbia e levados suas armas, “muitas das quais chegaram ao norte do Mali”.
Nã-nã-não, general! Nunca foram mercenários de Gaddafi; a maioria deles eram rebeldes pagos pela OTAN, os mesmos que atacaram o consulado dos EUA, que sempre foi base da CIA, em Benghazi; os mesmos que tomaram a direção da Síria; os mesmos que agora aparecem por todo o Sahel.
Assim sendo… como a Argélia entra nisso?
Na sequência, na imediata rabeira, o primeiro-ministro David Cameron seguiu a Voz do Mestre e anunciou que a intervenção no Mali durará anos, “talvez décadas”.
Nessa 3ª-feira, o crème de la creme do establishment da inteligência britânica reúne-se para planejar, nada mais nada menos, que uma guerra pan-Saara/Sahel, para a qual querem mais uma “coalizão de vontades” à moda Bush”. Para o momento, o envolvimento dos britânicos significa ainda mais “conselheiros” das categorias “cooperação militar” e “treinamento de segurança” de sempre, montanhas de dinheiro e, por fim mas nem por isso menos importante, Forças Especiais do tipo que fazem guerra nas sombras.
O cenário se completa com outro providencial “Jerônimo”: Mokhtar Belmokhtar, codinome “O Incapturável” (para a inteligência francesa), comandante do MUJAO e cérebro pensante por trás do raid contra o campo In Amenas de extração de gás na Argélia.
Já não vimos esse filme?! Claro que vimos. Mas agora – já é oficial – o Mali é o novo Afeganistão (como o jornal Asia Times Online já informou viaredecastorphoto em Queima, arde, padece o Afeganistão africano, 18/1/2013.
Eis o que disse Cameron: “Assim como tivemos de lidar com o Paquistão e o Afeganistão, agora o mundo tem de unir-se para lidar com essa ameaça na África do Norte”. Certo. Belmokhtar já está ensaiando para uma rápida intervenção, como figurante, no roteiro que está sendo redigido da continuação de Zero Dark Thirty.
Já está bem claro o pé em que ficam as “relações especiais” anglo-americano – Pentágono – AFRICOM / inteligência britânica com a França sob a presidência de François Hollande, reconvertido à função de senhor-da-guerra, na “liderança” (momentânea) rumo à Operação Beco-sem-saída Africano. Fato absolutamente crucial é que ninguém na União Europeia, exceto os Brits, é suficientemente doido para seguir as pegadas de Hollande, neossenhor-da-guerra.
Mas ainda não se sabe onde fica a Argélia, chave de toda a equação, do ponto de vista da Guerra Global Ocidental contra o Terror.
Fato número 1: o novo “Jerônimo”, Belmokhtar, e sua Brigada Mulathameen [“Os Mascarados”], da qual o Batalhão “Assinaturas de Sangue” que atacou na Argélia é um subgrupo, mantém laços próximos, íntimos, com o serviço secreto da inteligência da Argélia. Em certo sentido, vê-se aí um remix das relações que havia entre os Talibã – e a al-Qaeda “histórica” – e o serviço secreto da inteligência do Paquistão (ISI).
A reação ultra duríssima dos militares da Argélia ao raid dos islamistas era previsível (já reagiam assim nos anos 1990s durante a guerra interna contra a Frente de Salvação Islâmica). Não negociamos com terroristas: nós os matamos (mesmo que morram também muitos reféns). Fazemos tudo sozinhos, sem estrangeiros que metem o nariz em tudo. E, em seguida, descemos pesada cortina sobre qualquer tipo de informação ou noticiário.
Não surpreendentemente, esse modus operandi fez subir uma longa fieira de sobrancelhas em todo o campo do “relacionamento especial” anglo-norte-americano. Daí a “conclusão” a que chegaram Washington / Londres: não se pode confiar nos argelinos. Nossa Guerra Global ao Terror – capítulo Saara / Sahel – terá de ser lutada sem eles. Muito provavelmente, isso sim, contra eles.
Fator complicador grave é que os cerca de 40 islamistas (ou mais) entre os quais havia líbios, sírios e egípcios atravessaram 1.600 quilômetros, no mínimo, de alto deserto, vindos da Líbia, não do Mali. Não teriam chegado ao fim da viagem se não tivessem recebido efetiva “proteção” – algo como alguma potência estrangeira que forneceu informações de inteligência a gente importante de dentro do governo da Argélia. Reféns resgatados disseram que os sequestradores falavam “inglês com sotaque norte-americano” (entre os quais um canadense que a Reuters batizou de “Chedad”) e que sabiam exatamente onde encontrar os estrangeiros dentro do complexo da usina.
O professor Jeremy Keenan, da Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres, fala de uma operação de forças da Argélia, mascarada como se fosse operação de grupos terroristas, que saiu pela culatra. Argel parece ter querido sinalizar para o ocidente que se a França se pusesse a bombardear o Mali haveria retaliação inevitável; mas durante o desenrolar dos eventos, Belmokhtar decidiu inverter completamente o jogo, porque se enfureceu quando a Argélia abriu seu espaço aéreo para a passagem dos aviões franceses que bombardeariam o Mali. Em mais de um sentido, é remix da revolta dos Talibã contra o ISI paquistanês.
A opinião pública na Argélia suspeita, para dizer o mínimo, dos motivos de praticamente todos os envolvidos, entre os quais também do governo da Argélia e sobretudo da França. No blog maghrebino The Moon Next Door lê-se uma amostra fascinante de o que e como os argelinos pensam hoje.
Vale a pena fazer aqui uma longa citação desse artigo, escrito por um professor de ciência política, porque aí se resume o modo como o pensamento local vê e expõe a “liderança” francesa, no novo capítulo da Guerra Global ao Terror.
Em entrevista ao diário Le Soir d’Algerie, o professor de ciência política, Ahmed Adimi descreve a intervenção como tentativa para “minar a Argélia” e “um passo no plano de instalar forças estrangeiras na região do Sahel”. A tese de Adimi é que a França trabalhou durante anos para desestabilizar o Sahel como modo de fortalecer a sua posição geopolítica.
Perguntado sobre se a operação francesa no Mali teria sido consistente com a Resolução n. 2.085 do Conselho de Segurança da ONU, Adimi diz que a resolução “não é problema grave. As potências ocidentais têm usado essas resoluções para justificar suas operações militares. Já aconteceu no Iraque. De fato, a operação francesa pode parecer legal, dado que foi empreendida a pedido do atual presidente do Mali. Mas deve-se lembrar que o atual governo chegou ao poder por golpe de Estado. Quanto à intervenção, era sem dúvida previsível, mas os franceses precipitaram as coisas. (…) Aqueles grupos terroristas estão sendo manipulados pelas potências estrangeiras”. Diz também que esses grupos tiveram “autorização” para andar na direção do sul, para Konna, para assim justificar a intervenção francesa.
Para Adimi, os algerianos “há tempo soam o alarme sobre a situação no Sahel em geral. Ahmed Barkouk e eu organizamos vários seminários sobre essa questão. Discutimos o papel da França e seu compromisso na região. A França esteve por trás da criação do movimento pelo Azawad. Falo é claro da organização política, não do povo do Azawad, que tem direitos como comunidade. Os franceses sabiam que sua intervenção na Líbia levaria os militares tuaregues pró-Gaddafi a retornarem ao Mali. Também planejaram a distribuição de muitas armas líbias entre os grupos do Sahel. A meta é converter a região num novo Afeganistão. É resultado de um longo planejamento”.
Tariq Ramadan, em artigo devastador, também desmascara Paris, expondo a conexão entre a tortuosa intervenção “humanitária” de Sarkozy na Líbia e ao atual ímpeto de Hollande para proteger “um país amigo” – e, isso, depois de anos de hipocrisia francesa que jamais deu qualquer atenção ao “povo sofredor” que sofria sob o tacão de incontáveis ditadores africanos.
Mas o Oscar para o Cenário mais Hipócrita vai, sem dúvida, para as atuais “graves preocupações” franco-norte-americanas sobre o Mali ser hoje o novo playground da al-Qaeda, quando já se sabe que os principais playgrounds são mesmo o norte da Síria, onde a al-Qaeda é apoiada pela OTAN (até a fronteira turca); o norte do Líbano e grandes partes do território líbio.
Sigam o ouro e sigam o urânio
Mesmo antes de que se possam analisar com alguma profundidade todas as muitas ramificações – algumas não previstas – da Guerra ao Terror expandida, há duas pistas a seguir atentamente no futuro próximo: o ouro e o urânio.
Seguindo o ouro. Várias nações têm montanhas de ouro depositadas no New York Federal Reserve. Dentre elas destaca-se, hoje crucial, a Alemanha. Recentemente, Berlim começou a pedir que seu ouro físico seja repatriado: 374 toneladas depositadas no Banco da França e 300 toneladas das 1.500 toneladas depositadas no New York Federal Reserve.
Franceses e norte-americanos imediatamente pensaram: “Ficaremos sem ouro algum!” A operação de repatriação do ouro se prolongará por sete anos, no mínimo. Resumo: Paris e Washington / New York têm de comparecer com ouro, de verdade, seja como for.
É onde o Mali encaixa-se belamente. O Mali – com Gana – é responsável por mais de 8% da produção global de ouro. Se você estiver desesperadamente carente do produto genuíno – ouro físico – é indispensável controlar o Mali. Imaginem se todo aquele ouro acaba em mãos da… China?!
Agora, sigamos o urânio. Como todos os que viveram de perto a saga do yellowcake [concentrado de urânio] do Niger antes da invasão do Iraque, o Niger é o quarto maior produtor mundial de urânio. O principal comprador é – adivinhem… – a França; metade da energia elétrica da França é produzida por energia nuclear. As minas de urânio no Níger   estão concentradas no noroeste do país, na face ocidental das montanhas Air, bem próximas da fronteira com o Mali – e uma das regiões que os franceses estão bombardeando.
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Região dos Tuaregs (hachurada) e ouro… e urânio…
A questão do urânio mantém íntima ligação com sucessivas rebeliões dos tuaregues; não se pode esquecer que, para os tuaregues, não há fronteiras nacionais no Sahel. Todas as recentes rebeliões tuaregues no Niger aconteceram em território de urânio – na província de Agadis, próxima da fronteira do Mali. Assim, do ponto de vista dos interesses franceses, imaginem o risco de os tuaregues passarem a controlar aquelas minas de urânio – e porem-se a fazer negócios diretamente com… a China?! E Pequim, por falar dela, já está presente naquela região.
Todo esse jogo crucial de poder estratégico – o “ocidente” enfrenta a China na África, com o AFRICOM dando “uma mão” a Hollande, neossenhor-da-guerra e assumindo a perspectiva da Longa Guerra – de fato é mais decisivo que a síndrome da retaliação. Não é crível nem pensável que os serviços de inteligência britânico, francês e dos EUA não tenham previsto os efeitos em cascata e eventuais efeitos da “guerra humanitária” da OTAN contra a Líbia. A OTAN é aliada muito íntima dos salafistas e dos Jihads salafistas – temporariamente apresentados como “combatentes da liberdade”. Eles sabiam que o Mali – e todo o Sahel – imediatamente depois, seria inundado de armas.
Não, não foi por acaso. A expansão da Guerra Global ao Terror para o Saara/Sahel foi construída passo a passo. Guerra Global ao Terror é maná que nunca acaba de chover sobre os interessados: o que mais poderia interessar ao complexo industrial-militar-segurança-midiático franco-britânico-USAmericano, que um novo teatro de guerra?
Oh, yes! Há também o tal “movimento de pivô” em direção à Ásia. Muita gente daria um dedo – extraído à moda dos radicais – para saber como e quando virá o contragolpe de Pequim. 
Fonte (versão traduzida): Redecastorphohto

TRNN: “Intervenção da França no Mali viola resolução da ONU; Raízes da crise estão na marginalização do norte do Mali”

French Intervention in Mali Violates UN Resolution; Root of Crisis Marginalization of the North

Emira Woods: The French have violated the UN resolution as they defend their resource interests; Africans want a comprehensive aid and political package for Northern Mali

Bio:Emira Woods is a co-director of Foreign Policy In Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the Board of Africa Action and serves on the Board of the Association of Concerned Africa Scholars. She is also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative Africa Council.

Transcript

PAUL JAY, SENIOR EDITOR, TRNN: Welcome to The Real News Network. I’m Paul Jay in Baltimore.

France is sending more forces to Mali as the anticolonial forces (as many of them describe themselves) are pushing further south. The forces are made up of the Tuareg people and various extremists, some people say. Others call them militant Islamists or Jihadists. But one way or another, there are many outside forces either intervening in Mali or poised to do so.

Now joining us to talk about how we got here is Emira Woods. She’s codirector of Foreign Policy in Focus at the Institute for Policy Studies. Ms. Woods is chair of the board of Africa Action and serves on the board of the Association of Concerned Africa Scholars. She’s also a member of the American Bar Association Rule of Law Initiative, Africa Council. And between 1992 and ’99 she worked for Oxfam, where she traveled around Africa extensively and spent a lot of time in Mali.

Thanks for joining us.

EMIRA WOODS, CODIRECTOR, FOREIGN POLICY IN FOCUS, IPS: A pleasure to be with you. Thanks for having me.

JAY: So give us a little bit of context, first of all. I know you can’t do the whole history of Mali in two minutes. But as quickly as you can, how did we get here?

WOODS: Well, the history for me begins centuries back. So the quick version is, you know, Mali has been the center of Islamic thought, of learning. It was the site of one of the oldest universities, Timbuktu, one of the oldest libraries in the world. You know, these centers of learning predated Harvard and Cambridge and Oxford. You know, Mali has been at the center not only of African life, but really of the world, in many ways, for centuries.

I think we have to understand, though, that Mali is—what’s happening in Mali is the direct result of an international intervention in Libya. The ousting of Muammar Gaddafi essentially unleashed these unintended consequences, where you had weapons flowing from Libya, weapons that—some of which were part of Gaddafi’s caches. Others were weapons brought by NATO and the NATO forces. But these weapons flowed from Libya across boarders, from Algeria into Mali, creating a real crisis situation, where longtime challenges in terms of the political process, the internal political process in Mali, where the northern part of the country, from the days of colonialism, the northern part was seen as marginalized economically, not enough development, marginalized politically, without sufficient political access. The north had been clamoring for greater rights, greater sovereignty, really, for decades, since the ’60s, or some say since the turn of the 20th century.

So I think in the midst of this ongoing conflict for self-determination and greater rights of the north, you enter these weapons, the heavy flow of weapons from Libya. And it’s just been a recipe for disaster.

So what happened? March 2012, you had a coup, essentially, launched by a U.S.-trained military officer, you know, Sanogo, who had come to the U.S. reportedly seven times in the last eight years, essentially launching a military coup one month before the elections in Mali, supposedly because there was a sense that the Malian government was not handling well the crisis in the north with this inflow of weapons coming forward. So the army launched a coup, and launched then a series of coups and countercoups that have gone on, really, since March, as recent as this past December. So what you have is a political crisis in Mali that’s now exacerbated by this heavy flow of weapons into the region.

JAY: Is there any suggestion that this coup, there was some American interest to have this coup? ‘Cause I thought the president that was overthrown by the coup was very friendly to the United States.

WOODS: Well, yes, the president did have relations, friendly relations with the U.S. But also you have a military that’s been armed and trained by the U.S. now for quite some time. And so that military takes the weapons and the training from U.S. taxpayer dollars and decides that they can do it better, and essentially skirts the democratic process and takes over power. So I think you have a political crisis that has now been exacerbated by a deteriorating security crisis in the north because of the massive inflow of weapons.

And so enter this situation now the French essentially deciding that the UN, which passed a Security Council resolution, you know, 20-85 back in December authorizing an African-led military intervention, coupled with political intervention to get at the root causes of the crisis—but the French essentially decided that the UN process, the UN sanction process was not happening in a fast enough clip and that they could take more direct action more quickly. So the French back a week ago or so, back on Friday, launched a military intervention, airstrikes in Northern Mali, and that has been followed by ground forces there from the French moving steadily throughout Northern Mali.

I think what we have to recognize is that, you know, often military intervention breeds greater challenges, unintended consequences. And so what we have created now is a situation where, you know, all the challenges internal to Mali have been exacerbated by people, extremists, coming—many foreign fighters coming from other countries into Mali to unseat the French, to offset Western colonial powers, and to assert their own image of what Mali should look like for the future. I think it is not only dangerous for Mali, but also for the neighboring countries, countries like Algeria that has now seen hostages taken at oil installations because of this, now, desire to combat the French and to stop the interventionists from the West.

JAY: Now, France has essentially violated the UN resolution, right? The UN resolution was quite specific: this needed to be an African force led by Africans. And that’s not what’s happening.

WOODS: Well, this is the thing. France essentially went to the UN to try to brief the UN, but there has been no new Security Council resolution. So what stands is the resolution passed, which calls for an Africa-led force. I think it is really important to underscore that the regional body the Economic Community of West African States echo us, as well as the African Union, have been calling for a comprehensive package.

Let’s not look to the military solution as the answer here. What will be needed for long-term peace and stability in Mali is a comprehensive package that pays attention to the underlying political crisis that created the situation that has unfolded in Mali.

But we also have a humanitarian crisis. Over 200,000 people have been forced out of their homes because of the conflicts in the northern part of Mali. And in addition to that, you have reports that just since Friday, in less than a week, 30,000 more people have been forced out of their homes, out of their communities. So you have a real humanitarian crisis that also needs attention from the international community.

So the regional bodies were essentially calling for a comprehensive package, and yet the focus of the international—particularly the French action now, is on sort of this military intervention.

JAY: Now, France is saying that the government of Mali is—be it what it is, asked them to come in. I mean, is that what we understand?

WOODS: Well, this is what France has said. I think we have to understand that this is a government that came to power by a coup, and, you know, the U.S. in particular has said explicitly that they cannot support particularly the government in Mali officially, because it is a government that came to power by coup.

So I think we have to question, really, the legitimacy of the government and understand that a government that comes to power through a coup that has—and led a series of coups and countercoups and ousted a civilian prime minister just as recent as December, that government is really lacking credibility in quite a number of ways. And so whether or not they have the credibility to call in the French, I think, is still up for discussion.

JAY: Okay. So the other argument we’re hearing from France and in the mass media is that the troops from the north, the insurgents from the north, were heading south and, you know, getting towards the capital, and that there was a lot of foreigners there, including French citizens and others, and that if the French didn’t move in quickly, you know, people’s lives would be in jeopardy, and that the African countries that were supposed to be putting together this force hadn’t acted quickly enough. What do you make of all of that?

WOODS: Well, I think, you know, there is always justification to push the military option as the first response, as opposed to a last resort. And I think what you have here is really a French justification for their actions. I think it is important to underscore that military actions will not bring resolution to the crisis in Mali.

I think there needs to be comprehensive efforts to address the root cause of this crisis, which is the marginalization of the North, people of the North feeling completely isolated politically and economically. I think we have to underscore that, you know, this is a region that is rich in gold, in oil, with oil exploration very actively underway throughout the region. It is also a region where land has been expropriated in what many call land grabs, you know, with land being taken by international investors for biofuels production.

So there are many underlying issues that have to be addressed to be able to get at the root causes of this conflict. And the military intervention, instead of addressing these multiple layers of challenges, the military intervention is actually going to exacerbate tensions, creating, really, a space where extremists from many different countries now, not only from Mali but from throughout the region, and even outside the region, are now anxious to get to Mali, to pick up arms to fight the colonial power, to fight the French. [snip] to continue to see the situation deteriorate because of this action.

JAY: Some people might call the French extremist. But there’s a question I have is: why is France willing or interested to do this? Where does this interest lie? I mean, there’s every reason to think that this is going to be a quagmire for them.

WOODS: Without a doubt. And I think, you know, many are really surprised to see a socialist government in France taking this action. You know? And there was a hope that the change in leadership in France would bring a different foreign policy. But unfortunately, you know, there is still this push towards foreign policy that’s set by more short-term, very narrowly defined strategic, quote-unquote, interests without looking at the longer-term relationships that need to develop to build a mutually beneficial set of policies that not only will benefit Mali and Africa but will bring benefit to the global economy [crosstalk]

JAY: Do you think this has to do with French interest in Libya? I mean, France led the charge to overthrow Gaddafi in Libya. There was a big conflict over oil issues. And especially we’ve done quite a few stories about the conflict or contradiction between the French and the Russians over who was going to control, through Gazprom versus Total and the Italian company Eni. I mean, are they worried that this Northern Mali, if it doesn’t get checked by the French, becomes a kind of base that they’re going to wind up having to deal with in Libya?

WOODS: Well, I think we cannot underestimate the role of oil and other vital natural resources. I think it is important to recognize that these are resource-rich countries, and so it isn’t by chance that, you know, there’s militarism, oil and militarism, whether it’s Iraq and Afghanistan, Libya, Algeria, or Mali, you know, that has this now very rich potential in exploration already underway in terms of its oil. You know. So I think the economic interests of countries, whether it’s France or the United States, particularly interests that are often directed, dictated by big oil companies, I think we cannot underestimate the role of those types of considerations in determining foreign policy.

I think clearly there is this notion of responsibility to protect that was invoked both in Libya and, you know, is also being invoked—to a lesser extent, but also being invoked in Mali, this notion of protecting civilians. But I think what we have to understand is that when there is aerial bombardment, it is often civilians that are paying the heaviest price [crosstalk]

JAY: But what do you say to the people of the South who do not want to be ruled by the people of the North, and if the army in the South is in such disarray, it may not be able to prevent that without some kind of intervention or support?

WOODS: I think we have to—you know, we cannot underestimate the power of political negotiations for longer-lasting peace. And in this instance in Mali what we have seen is that the political process, the negotiations process, has actually brought results. The Tuaregs who initially started with their quest for a separate homeland, a separate state, you know, that would bring all the Tuaregs together from all the neighboring countries, that demand has been dropped largely because of political negotiations where traditional leaders, faith-based leaders, peace activists, are actively trying to bring about a negotiated settlement to the crisis.

And so I think we have to continue to amplify the actions of those that are the true warriors for peace, those that are fighting for a political process that will address the root causes of the conflict and will bring longer-term stability. I think we have to recognize what gains have been made through those processes and continue to demand that those processes be a part of a comprehensive approach by the international community, as well as by the regional actors.

Fonte: The Real news Network

Pepe Escobar: “O estupro da Síria será a maior tragédia geopolítica de 2013″

Escobar: Rape of Syria will be top geopolitical tragedy of 2013

Syria has reportedly opened the New Year with a horrifying discovery of dozens of corpses in the capital Damascus. Some of the bodies were decapitated and bore traces of torture. They have not yet been identified. This comes amid widespread doubt there will be any major breakthrough in Syria’s bloody civil stand-off any time soon. Asia Times Correspondent Pepe Escobar predicts that the conflict could follow the Lebanese Civil War scenario and continue for another fifteen years

Fonte: Russia Today

Guerra contra a Democracia

Vamos aproveitar o momento delicado na Venezuela para assistir a um documentário que traz uma visão um pouco diferente daquilo que é veiculado pela grande mídia internacional.

The War on Democracy” é um documentário de 2007 dirigido por Christopher Martin e Jonh Pilger.

O documentário se centra na intromissão dos EUA nos assuntos políticos da América Latina, grande parte da temática se desenvolve ao redor da figura de Hugo Chávez na Venezuela.

Igualmente se descreve a participação da CIA nos golpes de estado contra Jacobo Arbenz na Guatemala e Salvador Allende no Chile.

Também se aborda o tema da situação econômica no Chile depois da ditadura de Augusto Pinochet e a ascensão de Evo Morales na Bolívia.

A publicação dos vídeos pelo NECCINT serve para que o leitor possa se inteirar das diversas faces da moeda e decidir qual o papel de Chavez na construção da democracia venezuelana bem como o papel dos Estados Unidos da América no continente Sul-Americano.