Esquerdas de Portugal e Grécia unem forças contra austeridade

O líder da coligação grega Syriza, Alexis Tsipras (foto), esteve nesta quinta-feira (25) em Portugal para encontro com o Bloco de Esquerda luso. Para ele, “unidade” será a “única resposta eficaz às insistências da Sra. Merkel em políticas de dividir para reinar, que forçaram a Zona Euro a posicionar-se à beira da ruina”. O coordenador do Bloco, João Semedo, defendeu que “só a democracia pode vencer a austeridade”.

Lisboa - “Em meados dos anos 70, Portugal, Grécia e Espanha eram admirados por toda a Europa como casos paradigmáticos de transição de situações de ditadura para a democracia. Quero assegurar-vos que, em breve, os nossos países voltarão a ser apontados como casos paradigmáticos de transição de situações de austeridade para a democracia”, afirmou Alexis Tsipras durante o Comício organizado pelo Bloco de Esquerda, que teve lugar esta quinta feira no Fórum Lisboa.

Citando Franklin Roosevelt, Alexis Tsipras salientou que “a única coisa de que temos de ter medo é do próprio medo”. Segundo o líder da Syriza, “separados seremos derrotados. Sairemos também a perder se nos fecharmos no isolamento econômico e se voltarmos às políticas do passado de desvalorizações competitivas das moedas nacionais”.

Por outro lado, “juntos e a uma só voz, podemos fazer inclinar os equilíbrios do poder político Europeu para o nosso lado” e derrotar a “ditadura Europeia e econômica que é imposta pelos mercados todo-poderosos”.

Reforçando a ideia de que “a nossa força reside na nossa unidade”, Tsipras referiu que “à medida que a recessão engole a Zona Euro, a austeridade está agora também a alarmar os mais vulneráveis no Norte” e que, nesse contexto, “a aliança anti memorando dos países do Sul deve também englobar as forças sociais do Norte que rejeitam a austeridade”. “Será uma aliança Europeia pela refundação democrática da união monetária”, avançou.

“Não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”
Lembrando que o próprio Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, já veio admitir que a austeridade “tinha chegado ao limite”, “talvez porque agora a recessão já chegou ao Norte da Europa”, Alexis Tsipras destacou que “não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”.

Para o representante da Syriza, só há uma saída para “a crise auto-alimentada da Zona Euro”. Essa solução terá que passar, conforme adiantou, pela anulação do Memorando de Entendimento e a “substituição das políticas recessivas de austeridade por políticas de redistribuição do rendimento”, a renegociação dos acordos firmados e subsequente anulação de uma parte significativa da dívida, e um ‘Novo Acordo para a Europa’, centrado em projetos de investimento públicos de dimensão Europeia.

O consenso da direita
O coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, acusou, durante a sua intervenção, Cavaco Silva de “dar luz verde à segunda vaga de austeridade e de cortes que o governo se prepara para anunciar”.

“Uma maioria de direita, um governo à direita e um presidente de fação que usou o 25 de Abril para dar a mão a um governo em queda livre. Este é o governo do presidente Cavaco Silva”, frisou o dirigente bloquista.

“O consenso de Cavaco é o mesmo de Paulo Portas e Pedro Passos Coelho, é o consenso para mais austeridade, o consenso para dar uma segunda vida a um governo moribundo. E sejamos muito claros, o consenso porque nos batemos é exatamente o oposto. É o consenso contra a austeridade, contra a dívida, contra a troika. É a nossa escolha, a nossa opção. Toda a esquerda, sobretudo o PS, está hoje desafiada a fazer a sua escolha”, alertou João Semedo.

Vivemos em plena era dos credores
Citando declarações de Miguel Portas, datadas de agosto de 2011, João Semedo afirmou que “vivemos em plena era dos credores” e que “Pedro Passos Coelho ou Antonis Samaras não são mais do que os cobradores às ordens dos credores: os bancos, os fundos internacionais, a troika. Não governam, não decidem, fazem o que os mandam fazer”.

“E das duas uma: ou nos livramos deles ou eles acabarão connosco, acabarão com Portugal e a Grécia como países soberanos, países livres e democráticos, em que o povo é que mais ordena”, alertou, sublinhando que “a liberdade e a democracia são também gorduras incômodas para os credores”.

“A austeridade liquida a democracia, austeridade ou democracia, só a democracia pode vencer a austeridade”, realçou.

Renegociar a dívida é a alternativa da esquerda socialista
Reforçando que “recusar a austeridade e recuperar os rendimentos perdidos é a resposta da esquerda socialista” João Semedo defendeu que “Portugal só evitará um segundo resgate se cortar nos juros e na dívida, se anular parte da dívida para valores compatíveis com o desenvolvimento econômico”.

“Há hoje muitas razões para olhar com cepticismo o futuro da Europa. Mas nós não desistimos de lutar por uma outra Europa, uma Europa para os cidadãos, para a coesão econômica e social, uma economia forte que assegure trabalho para todos, uma Europa de iguais que respeite a soberania dos povos e dos estados, uma Europa de paz”, avançou o deputado, referindo que o Bloco recusa “a tese de que a defesa do Euro exige uma Europa federal e que sem federalismo europeu o fim do euro é inevitável”.

“Sabemos que pode haver euro sem troika, sem austeridade e por isso resistimos à chantagem da defesa do euro para nos impor mais austeridade”, avançou ainda João Semedo, reafirmando que “a alternativa não é sair do euro, é cortar na dívida e por fim à austeridade”.

É preciso derrubar o governo
“Para mudar a política nacional, para tirar o país da crise, é necessário derrubar o governo”, garantiu o coordenador do Bloco de Esquerda, frisando que “o agravamento da crise econômica e social acabará por impor a demissão do governo”.

“O Bloco de Esquerda recusa qualquer outra solução que não seja realizar eleições. Confiamos que esta é a hora da esquerda governar. Pela nossa parte estamos disponíveis e prontos para fazer parte da solução. Um governo de esquerda que rejeite a austeridade, ponha termo ao memorando da troika e imponha aos credores uma renegociação da dívida”, adiantou João Semedo.

A eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias denunciou o feroz ataque à democracia a que temos vindo a assistir. “Todas as decisões importantes para as nossas vidas estão a ser retiradas das mãos dos cidadãos. É como se a democracia, a cidadania, a participação popular fossem um adereço ou qualquer coisa que está a mais no quadro institucional europeu”, lamentou a eurodeputada. “A voz da democracia é: é o povo quem mais ordena”, frisou Marisa Matias.

“A dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos”

Segundo a dirigente bloquista Joana Mortágua, “a dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos, porque ela nasce de uma relação de forças desigual, porque pode interminavelmente consumir a riqueza da força de trabalho de um povo inteiro, e porque, nas palavras de Eduardo Galeano, ‘a dívida constrói uma estrutura de humilhação sucessiva que começa nos mercados financeiros e acaba na casa de cada um e de cada uma de nós’”.

“Mudar a estrutura da dívida significa, na chamada ‘era dos credores’ desferir um golpe profundo sobre o capitalismo financeiro, mas significa também ensinar à chanceler Merkel e aos eurocratas alguma coisa sobre democracia, sobre solidariedade e sobre europeísmo”, avançou Joana Mortágua.

Fonte:CartaMaior

Porque a Venezuela está tão dividida

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Caracas, Venezuela (CNN) - Como se na sugestão, Ermelinda Briceno entrou no santuário improvisado de Hugo Chávez e derramou uma lágrima. Este lugar de reverência ao “El Comandante”, o presidente da Venezuela há 14 anos, apareceu neste bairro pobre depois da morte de Chávez no mês passado.

Briceno disse que sua devoção a Chávez é inabalável. Mas ela entende porque mesmo alguns que apoiaram o falecido presidente estavam relutantes em votar para o seu sucessor escolhido a dedo, Nicolas Maduro.
“Eu acho que muita gente não conhecia Maduro, e não votaram (nele), mas aqui estamos, foi muita apertada [a votação]“, disse Briceno.

Para este país de 29 milhões de habitantes, lutando economicamente, a eleição foi talvez demasiado concorrida para ser confortável.

Pelo menos sete pessoas foram mortas e 61 ficaram feridas na violência pós-eleitoral em toda a Venezuela, informou a mídia estatal nesta terça-feira, citando o mais famoso promotor da Venezuela. Enquanto o governo afirma que esses ataques foram contra partidários do governo, a CNN não conseguiu verificar independentemente os relatórios.

Maduro garantiu 50,8% dos votos na eleição de domingo, enquanto o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski ganhou 49%, conforme disse o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela.

À medida que a crise continua, a economia manca junto. Até mesmo as previsões do governo da Venezuela indicam que o país poderia ver a inflação atingir 30% este ano, uma das taxas mais altas do mundo.

E depois há a escassez de alimentos. Restrições monetárias e controles de preços tem comprometido a economia, há escassez de produtos básicos, como farinha, açúcar, arroz, farinha de milho, e mesmo um grampeador venezuelano.

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Fomos a uma padaria no centro de Caracas, onde o proprietário nos disse que ele estava trabalhando com seus últimos três sacos de farinha. A padaria está limitando a compra de pão para quatro pães por compra pessoal até que o fornecimento de farinha seja estabilizado.

É uma situação que é difícil de entender considerando Venezuela é uma petro-Estado com as maiores reservas provadas de petróleo do planeta.

“Eu não tenho ideia de quando vou ter mais farinha e, geralmente, eu tenho cerca de 50 sacos em estoque para o mês”, disse o dono da padaria, que não quis ser identificado por medo de represálias do governo.

O medo parece estar aumentando entre os venezuelanos, não importa quem eles votaram. Ameaças do governo contra a oposição são mais ameaçadoras a cada hora.

“Você não vai para o centro de Caracas para preenchê-lo com sangue e morte”, Maduro advertiu a oposição, dizendo que os protestos eram ilegais. Ele acrescentou que ele acreditava que os Estados Unidos estavam financiando e incentivando os protestos.

Henrique Capriles respondeu com um apelo à calma, outra demanda para uma recontagem dos votos, e mais importante ainda, um apelo para os manifestantes de ignorar seus apelos anteriores para protestar nesta quarta-feira e ficar em casa . Ele disse temer que o governo iria incitar a violência com o que ele esperava ser uma manifestação pacífica.

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“O governo quer usar a violência para que nós não falemos sobre o assunto que nos trouxe a este ponto”, Capriles disse em uma conferência de imprensa na terça-feira.
De volta ao snatuário de Chávez, onde ele já é conhecido como “Santo Hugo Chávez,” um santo, parece haver pouco interesse em acompanhar a disputa entre o governo e a oposição. As pessoas estavam voltando para o trabalho e para a escola, fazendo seu caminho para os ônibus suburbanos lotados que serpenteiam através dos bairros pobres.

Mas essa não é a “inspiração divina” que Chávez tinha a esperança de dar à Venezuela após a preparação de seu sucessor antes de sua morte. Maduro tinha uma vantagem de dois dígitos sobre a oposição após a morte de Chávez, mas que evaporou em uma campanha curta, de 10 dias. Mesmo a oposição disse à CNN que considerou este um “milagre”.

O que sugere uma certa perda de entusiasmo do movimento chavista-socialista da Venezuela – ou pelo menos de seu líder fundador.

Fonte: CNN

Chavismo vence eleição apertada e tensa na Venezuela

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Por uma margem mais apertada do que qualquer pesquisa de opinião, e a maioria dos analistas independentes, poderia prever, o candidato chavista à Presidência da Venezuela, Nicolás Maduro, venceu as primeiras eleições do país na era pós-Chávez, de acordo com anúncio do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na madrugada desta segunda-feira – fim da noite de domingo em Caracas.

Com 99% dos votos apurados, Maduro obteve 50,6% dos votos válidos, contra 49% de seu rival, Henrique Capriles Radonski, no resultado eleitoral mais positivo para a oposição desde 1999.

Após a divulgação dos resultados, diversas salvas de fogos foram ouvidas na abastada zona leste de Caracas, reduto da oposição.

Maduro recebeu 685 mil votos a menos do que o total obtido em outubro pelo então presidente Hugo Chávez – cuja morte em março provocou a nova votação – na eleição presidencial contra Capriles.

De acordo com o CNE, até o momento do anúncio, Maduro havia obtido pouco mais de 7,5 milhões de votos e Capriles, cerca de 7,3 milhões.

O avanço de Capriles foi proporcional aos votos perdidos por Maduro – o opositor obteve 680 mil votos a mais desta vez do que em outubro.

Votaram na eleição deste domingo 78,71% dos quase 19 milhões de venezuelanos registrados, um percentual de comparecimento semelhante ao das eleições passadas.

Tensão

A demora do CNE em divulgar as estatísticas da votação gerou incertezas em relação ao andamento da apuração. O órgão não divulga boletins parciais, apenas resultados irreversíveis.

A presidente do conselho, Tibisay Lucena, havia dito que esperava divulgar os resultados cerca de três horas após o fechamento das urnas – o anúncio demorou mais de cinco horas para ser feito.

“Em vista desses resultados tão próximos, conversamos com os candidatos”, disse Lucena, referindo-se a uma prática do CNE em outras eleições.

“Esses são os resultados irreversíveis que o povo da Venezuela decidiu com este processo eleitoral.”

Por volta das 20h30 (horário local), um comentário de Capriles no microblog Twitter deixou intrigados os jornalistas, ao sugerir irregularidades.

“Alertamos o país e o mundo a intenção de querer mudar a vontade expressada pelo povo”, afirmou Capriles. Entretanto, o opositor não deu detalhes sobre a suposta ameaça.

O governo argumentou que seu sistema eleitoral, eletrônico, gera rechecagens automáticas em uma grande proporção de urnas, e que os dois partidos e cidadãos comuns têm mecanismos de monitorar a apuração nas seções.

“Queremos dizer aos candidatos, às organizações políticas, aos comandos: agora é o momento de ir para suas casas, e transmitir aos seus seguidores e seguidoras a tranquilidade que o povo merece”, disse a presidente do CNE.

“Que vão para suas casas tranquilamente, pacificamente e como sempre, com a solidariedade que nos caracteriza como venezuelanos e venezuelanas.”

Incógnita

Observadores e analistas acompanharão com interesse um novo governo de Maduro, previsto para começar no próximo dia 19.

Durante os dez dias de campanha, ele não se afastou da linha conservadora de repetir que executará exatamente o que Chávez planejou para a Venezuela para o período 2013-2019.

Chegou mesmo a brincar, afirmando que fala com o mentor bolivariano através de um passarinho.

Maduro é aliado de Chávez desde 1992, ano em que o então tenente-coronel do Exército liderou um fracassado golpe contra o então presidente Carlos Andrés Pérez.

Ele e a sua esposa, a ex-presidente da Assembleia venezuelana e procuradora-geral do país, Cília Flores, atuavam pela libertação de Chávez, que ficou preso até 1994 após a quartelada.

Neste domingo, ele disse que ficou até as 4h da manhã conversando com Flores sobre “as voltas que a vida dá”.

“Cilia e eu, uma mulher e um homem, que unimos nossos destinos e nossas famílias, nunca pensamos estar hoje aqui”, disse Maduro.

“Fiz minha vida nos últimos 21 anos ao redor do sonho de um homem, de um gigante, e hoje, quando amanheceu, amanheci com seu pensamento, canto e obra”, afirmou.

“Jamais pensei que estaria aqui, mas estou, batalhando com um povo em democracia.”

À sombra de Chávez

O representante do chavismo também deu os primeiros sinais do que pode ser o “estilo Maduro”. Respondendo à pergunta de uma jornalista sobre se iria iniciar um diálogo de unificação nacional, afirmou que, se vencer, não pretende fazer “pacto com a burguesia” e nem com as “elites”.

“A palavra diálogo vinculada ao velho conceito da democracia representativa, esse é o pacto das elites. O pacto com a burguesia se acabou”, disse Maduro.

“Aqui não haverá pacto com a burguesia, haverá diálogo com a classe operária, com os empresários patriotas, com os estudantes secundaristas, universidades, professores, diálogos bolivarianos com todos”, prosseguiu.

“Na Venezuela há uma revolução e esta criou novos valores da democracia. Um deles foi acabar com o pacto das elites e o coleguismo.”

Essa foi, em geral, a linha radical de Chávez, que se elegeu após o colapso de um regime de dois partidos que se alternavam no poder.

Mas há observadores da política venezuelana que acreditam existir uma chance de que, no poder, Maduro seja mais aberto e flexível que Chávez.

Eles lembram seu passado de chanceler e seu caráter de civil, em contraste com o militarismo de seu mentor.

No início de dezembro, quando anunciou a indicação de Maduro como seu sucessor, em uma transmissão emotiva nas TVs venezuelanas, Chávez o definiu como “um dos líderes jovens de maior capacidade para continuar (a governar na sua ausência)”.

Entre as qualidades de Maduro que o ex-presidente destacou estavam “sua mão firme, seu olhar, seu coração de homem do povo”.

“Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que, nesse cenário que obrigaria a convocação de eleições presidenciais, vocês o elejam como presidente”, recomendou na ocasião.

Fonte: BBC Brasil

Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?

Três anos depois do início de intensos protestos de rua, Tunísia e Egito estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isso vai parar. Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas isso não é definitivo.

Immanuel Wallerstein*

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Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões “modelares” das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.

Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa – e, até certo ponto, no mundo.

O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos — local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.

O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.

Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.

Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana – Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.

Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de “linha dura” em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados “moderados”, que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.

As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.

Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.

Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.

Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.

Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.

Fonte: CartaMaior

Morre o presidente da Venezuela Hugo Chávez

charge-latuff-hugo-chavezO presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu nesta terça-feira em Caracas, após sofrer “complicações” devido ao agravamento de uma infecção respiratória adquirida durante seu tratamento contra o câncer.

O anúncio foi feito em rede nacional de televisão pelo vice-presidente, Nicolás Maduro.

“Estávamos recebendo informações e estávamos acompanhando suas filhas, seu irmão, sua família [no hospital] e aí recebemos as notícias mais trágicas e mais difíceis que jamais transmitiremos ao nosso povo. Às 16h25 [18h25 em Brasília], de hoje, dia 5 de março, o comandante Hugo Chávez Frías morreu”, disse com a voz embargada e visivelmente emocionado.

Mais cedo, o governo havia culpado as potências ocidentais pelo câncer que acometeu o líder, e expulsou o adido militar da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, David del Mónaco, alegando suspeitar que ele planejava angariar apoio dos militares para lançar um golpe no país. O diplomata tem 24 horas para deixar a Venezuela.

O líder da “revolução bolivariana” comandava a Venezuela há 13 anos e havia sido reeleito em 2012 para ocupar o cargo até 2019. Em julho de 2011, autoridades do país anunciaram que ele começava a ser tratado de um câncer na região pélvica. Detalhes da doença, porém, nunca foram esclarecidos pelo governo venezuelano.

O mandatário vinha fazendo viagens regulares a Havana para receber tratamento. Na última delas, em dezembro de 2012, já temendo o pior, reconheceu a precariedade de seu estado de saúde e apontou seu vice, Nicolás Maduro, como principal sucessor político.

Ele foi submetido à quarta cirurgia relacionada ao câncer no dia 11 de dezembro. Poucas informações foram divulgadas sobre o procedimento, exceto que durou seis horas e o presidente perdeu muito sangue. A operação foi considera “exitosa”, mas desde então Chávez não foi mais visto publicamente.

Porém, o quadro de saúde do presidente se agravou, evoluindo para uma insuficiência respiratória. Autoridades do país abandonaram o tom otimista que vinham usando nos comunicados anteriores sobre a saúde de Chávez e pediram orações da população.

Uma crise política tomou forma em Caracas com a aproximação do dia 10 de janeiro – a data marcada para que Chávez tomasse posse de seu próximo mandato. A oposição fez pressão para que a Presidência fosse cedida ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello – que deveria organizar um novo pleito, segundo a Constituição.

A maioria chavista venceu o embate e a posse fosse adiada indefinidamente.

Nesta terça-feira, o governo convocou os venezuelanos para rezarem por Chávez em frente ao hospital onde o mandatário estava internado. No início da noite, o vice-presidente Nicolas Maduro discursou confirmando a morte de Chávez.

Sucessor

Uma vez que a Justiça autorizou a continuidade do governo chavista mesmo sem a posse oficial do presidente, ainda não está claro como ocorrerá a sucessão na Venezuela.

Diferentemente de Chávez, Maduro não foi eleito, logo oposicionistas podem exigir a realização de novas eleições. Maduro foi chanceler da Venezuela por pouco mais de seis anos, até ser escolhido por Chávez para vice-presidente – substituindo Elisas Jaua, que deixou o governo para concorrer nas eleições regionais.

Segundo analistas, o processo de sucessão pode sofrer influência do setor militar do país. “Aqui há uma revolução militar que deve ser permanente e não pode ser detida”, disse Maduro no último dia 28.

A oposição no país permanece fragmentada. O candidato mais provável para enfrentar o chavismo em um novo pleito é Henrique Capriles, reeleito no ano passado governador do Estado de Miranda.

Porém, parte da oposição o critica, dizendo que não teve força para assumir a liderança e não possui carisma suficiente para enfrentar os partidários de Chávez. Essa fragmentação abre a possibilidade para que outros oposicionistas disputem com Capriles uma eventual candidatura presidencial.

Mas isso também é sintomático de outro grande problema que impediu a oposição de levantar a cabeça: há partidos sem postulantes, e postulantes sem partidos.Ou seja, a oposição venezuelana segue sendo uma grande massa disforme de agremiações e pessoas disputando cotas de poder ou mera influência.

 

Fonte: BBC Brasil

Primavera árabe: ‘Há que se passar pela experiência do islamismo no poder’

Nesta entrevista ao ‘Le Monde’, o destacado analista libanês Gilbert Achcar comenta as dificuldades dos governos islâmicos que subiram ao poder no mundo árabe. Além disso, diz que a Turquia não é uma referência para esses países, pois lá o AKP turco se reconciliou com o laicismo, tornando-se a versão islâmica da democracia cristã europeia.

Christophe Ayad – Le Monde*

Personagem desta entrevista, Gilbert Achcar é professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e um dos mais respeitados analistas do mundo árabe contemporâneo. Nasceu em 1951 e deixou o Líbano em 1983.

Ensinou na Universidade de París VIII e no Centro Marc-Bloch de Berlim. O seu compromisso com as esquerdas e movimento pró-palestina nunca o impediu de dirigir um olhar severo sobre as ditaduras nacionalistas árabes. É autor de “Le peuple veut une exploration radicale du soulèvement arabe”, editora Actes Sud.

Como qualificar o que aconteceu no mundo árabe, desde 2011?
Escolhi a palavra “levante” como título para o meu livro. Mas, na introdução falo de um processo revolucionário a longo prazo. O que estava claro desde o princípio é que estávamos muito no início de uma explosão, e o que se pode prever com certeza é que será de longa duração.

Emmanuel Todd deu uma explicação demográfica do fenômeno. Você inclina-se mais para uma explicação marxista.
A fase durante a qual o mundo árabe se distinguia por uma demografia galopante acabou há vinte anos. Comecei com a análise da situação em vésperas da explosão, em 2010. Constata-se um bloqueio do desenvolvimento que contrasta com o resto do mundo; inclusivamente com a África subsariana. A expressão mais espetacular desse bloqueio é uma taxa de desemprego recorde, particularmente entre os jovens. Além disso, há uma modalidade específica do capitalismo na região: em diferentes níveis, todos os Estados são rentistas. A outra caraterística é um patrimonialismo no qual o clã dominante se apropria do Estado até ao ponto de o transmitir de forma hereditária.

As revoluções árabes traduziram-se em liberalizações políticas, mas não em grandes mudanças sociais. Por quê?
No Egito e na Tunísia, só foi quebrada a ponta do icebergue; quer dizer, os déspotas e o seu grupo próximo. Por outro lado, nesses dois países, o “Estado profundo”, a administração, os aparelhos de segurança, não mudaram. Neste momento, só na revolução Líbia se deu uma mudança radical: hoje, já não há Estado; já não há exército. Nesse país, o descalabro social foi mais profundo, porque o reduzido espaço privado que existia era ocupado pela família Gadafi.

No Ocidente estranhou-se o triunfo dos islamitas nas eleições, quando não foram eles a lançar essas revoluções…
As expectativas do Ocidente, esse romanticismo em volta da “primavera” e o “jasmim”, todo esse vocabulário orientalista, baseavam-se num desconhecimento da situação. Era evidente que os integristas iam apanhar as castanhas do fogo porque, desde finais dos anos 70, impuseram-se como uma força hegemónica no protesto popular. Encheram o vazio deixado pelo fracasso do nacionalismo árabe. Por outro lado, a principal razão pela qual os governos ocidentais apoiavam os despotismos árabes era o receio dos integristas. Crer que essa situação iria ser varrida pelos acontecimentos, era tomar os desejos por realidades. Com o apoio financeiro do Golfo e o apoio televisivo da Al Jazeera, não se podia esperar outra coisa que vitórias eleitorais integristas. O que é chamativo é que essas vitórias não tenham sido esmagadoras. No Eipto, desde as legislativas ao referendo sobre a Constituição, passando pelas presidenciais, estamos a ver a velocidade a que se desmorona o voto integrista. Na Tunísia, Ennahda consegue 40% numas eleições em que participaram metade das pessoas inscritas. E, na Líbia, a Irmandade Mulçumana local foi derrotada.

Surpeendem-lhe as atuais dificuldades dos islamistas no poder?
Em primeiro lugar, há que dizer que o regresso aos despotismos não é algo exequível. Há que passar pela experiência do islamismo no poder. As correntes integristas construíram-se como forças de oposição com um slogan simplista: o islão é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islamistas são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas. Chegaram aos postos de comando em condições que ninguém inveja e não têm nenhum programa econômico.

Pode-se confiar neles no momento de organizar escrutínios que os poderão expulsar do poder?
Esse é o argumento clássico: uma pessoa, um voto, mas uma só vez. Salvo que cheguem ao poder em posição de força. O povo aprendeu a “querer” sair à rua. Jamais um dirigente, na história do Egito, foi tratado com tanto desprezo pelo seu povo como atualmente Morsi…

Pode-se copiar o modelo turco para o mundo árabe?

Não, na Turquia não é a Irmandade Mulçumana que dirige o país, mas uma cisão modernista que se reconciliou com o princípio do laicismo. O AKP turco é a versão islâmica da democracia cristã europeia. A Irmandade Mulçumana não é isso. É uma organização integrista que milita pela Sharia e para quem a palavra laicismo é uma injúria. No terreno econômico, não tem nada a ver: o AKP encarna um capitalismo de pequenos industriais, enquanto a Irmandade Mulçumana participa numa economia rentista, fundada no lucro a curto prazo.

Pode descrever a influência do Qatar nestas revoluções?
É um enigma. Alguns dirigentes colecionam carros ou armas; o Emir do Qatar, por seu lado, joga na política externa. Apresentou-se como comprador da Irmandade Mulçumana da mesma forma que compraria uma equipe de futebol. Um homem que jogou um papel fundamental nesta nova aliança (que faz recordar a que houve entre Mohamed ben Abdel Wahab e a dinastia dos Saud no século XVIII) é o sheik Qaradhawi, chefe espiritual dos Irmandade Mulçumana, instalado desde há muito no Qatar, e que tem grande influência na Al Jazeera. Tudo isso acontece num país em que o Emir não tolera qualquer oposição.

Como explicar a complacência dos Estados Unidos para com a Irmandade Mulçumana?
É algo que começou sob a administração Bush. Para os neoconservadores, o despotismo nacionalista produziu o terrorismo e, portanto, havia que derrubar déspotas como Saddam Hussein para poder estender a democracia. Condoleezza Rice quis retomar a aliança com a Irmandade Mulçumana, que se deu nos anos 50 e 60. Mas a vitória do Hamas nas eleições palestinianas bloqueou o processo. A administração Obama, que herdou uma situação catastrófica no Médio Oriente, mostrou uma atitude indecisa e prudente. Quando tudo estalou, optou por tentar dar a impressão de acompanhar o movimento. A obsessão de Washington na região é a estabilidade e o petróleo. E a tradução desta obsessão, é a procura de aliados que disponham de uma base popular.

Por que é que a intervenção da OTAN foi possível na Líbia e não na Síria?
A Síria encontra-se perante um risco de caos tipo Líbia, mas num contexto regional bastante mais perigoso. Está também o apoio da Rússia e do Irão. Desde o começo, a OTAN disse que não queria intervir. A questão não é “porque é que o Ocidente não intervém na Síria?”, mas “porque é que impede a entrega de armas à rebelião?”. A razão profunda é o medo do movimento popular na Síria. E o resultado é que a situação está a apodrecer. O regime sírio acabará por cair, mas a que preço? A miopia dos governos ocidentais é alucinante: com o pretexto de não reproduzir os erros cometidos no Iraque, quer dizer, o desmantelamento do estado baasista, fazem algo pior. Hoje, os sírios estão persuadidos de que o Ocidente deixa que o seu país se auto-destrua para proteger Israel.

A esquerda anti-imperialista vê um complô americano nestas revoluções…
Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. Basta ver o aperto de Washington. É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.

Fonte: CartaMaior

Uma terrível normalidade: os massacres e as aberrações da História

Nós precisamos nos esforçar de toda forma possível pelo desenrolar revolucionário, uma revolução de democracia.

Ao longo de boa parte da história, o anormal tem sido a norma, Este é o paradoxo que vamos examinar. Aberrações, tão abundantes que formam uma terrível normalidade própria, caem sobre nós com uma consistência medonha.

A quantidade de massacres na história, por exemplo, é quase maior do que nós podemos nos lembrar. Houve o holocausto do Novo Mundo, que consistiu no extermínio de povos indígenas americanos nativos por todo o hemisfério ocidental, estendendo-se por quatro ou mais séculos e continuando até tempos recentes na região amazônica.

Foram séculos de escravidão cruel nas Américas e em outros lugares, seguidas por um século inteiro de linchamentos a da segregação de Jim Crow nos Estados Unidos, e pelos numerosos assassinatos e prisões da juventude negra pela polícia atualmente.

Não nos esqueçamos do extermínio de 200 mil filipinos pelo exército dos Estados Unidos no começo do século 20, o massacre genocida de 1.5 milhão de armênios pelos turcos em 1915, e a matança em massa dos africanos pelos colonialistas ocidentais, incluindo as 63 mil vítimas do genocídio de hererós e namaquas, no sudoeste africano alemão, em 1904, e a brutalização e escravização de milhões de belgas do Congo desde o final dos anos 1880 até a sua emancipação em 1960 – seguida pelos anos de exploração do livre-comércio neocolonial e pela repressão no que era o Zaire de Mobutu.

Os colonizadores franceses mataram 150 mil argelinos. Mais tarde, muitos milhões faleceram em Angola e Moçambique ao lado de outros 5 milhões na impiedosa região hoje conhecida como a República Democrática do Congo.

O século vinte nos deu – além de outros horrores – mais de 16 milhões de vidas perdidas e de 20 milhões de feridos ou mutilados na Primeira Guerra Mundial, seguidos pelos estimados 62 a 78 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial, incluindo 24 milhões de militares e civis soviéticos, 5.8 milhões de judeus europeus, e somados como um todo, muitos milhões de sérvios, poloneses, ciganos, homossexuais e uma porção de outras nacionalidades.

Linchamento público de Henry Smith, negro norte-americano morto por espancamento em 1893 em Paris, Texas

Nas décadas depois da Segunda Guerra Mundial, muitos, se não a maioria, dos massacres e guerras foram abertamente ou secretamente patrocinados pelo estado de segurança nacional dos Estados Unidos. Isso inclui os mais ou menos dois milhões deixados mortos ou desaparecidos no Vietnã, ao lado dos 250 mil cambojanos, 100 mil laosianos e 58 mil americanos.

Em boa parte da África, Ásia Central, e no Oriente Médio, hoje, existem guerras “menores”, cheias de atrocidades de todos os tipos. A América Central, a Colômbia, a Ruanda e outros lugares numerosos demais para listar sofreram massacres e extermínios em massa de centenas de milhares, uma constância de horrores violentos. No México, uma “guerra contra as drogas”, tirou a vida de 70 mil pessoas e deixou 8 mil desaparecidas.

Houve a chacina de mais de meio milhão de indonésios socialistas ou nacionalistas democráticos pelo exército indonésio patrocinado pelos Estados Unidos em 1965, que terminou seguida pelo extermínio de 100 mil timorenses do leste pelo mesmo exército apoiado pelos Estados Unidos.

Considere os 78 dias de destruição aérea da Iugoslávia pela OTAN, completada com [armas de] urânio empobrecido, e o bombardeio e invasão do Panamá, Granada, Somália, Líbia, Iêmen, Paquistão Ocidental, Afeganistão, e agora a guerra devastadora do atrito intermediado contra a Síria. Enquanto eu escrevo (no começo de 2013) sanções patrocinadas pelos Estados Unidos contra o Irã estão plantando severas dificuldades para a população civil daquele país.

Tudo o que foi citado acima faz parte de uma muito incompleta lista da injustiça feia e violenta no mundo. Um inventário completo encheria volumes. Como nós registramos os outros incontáveis abusos que marcam vidas, os muitos milhões que sobreviveram a guerras e massacres, mas seguem para sempre com corpos e espíritos quebrados, condenados a uma vida de sofrimento e privações sem dó, refugiados que não têm comida ou remédios ou água e serviços sanitários em países como Síria, Haiti, o sul do Sudão, Etiópia, Somália e Mali?

Pense nas milhões de mulheres e crianças ao redor do mundo e ao longo dos séculos que foram traficadas de maneiras impronunciáveis, e os milhões em cima de milhões presos em uma armadilha de exploração, sejam eles escravos, servos, ou trabalhadores mal pagos. O número de empobrecidos está agora crescendo em uma taxa que supera a população mundial. Some a isso os incontáveis atos de repressão, encarceramento, tortura e outros abusos criminosos que se abateram sobre o espírito humano em todo o mundo e todos os dias.

Não deixemos passar batidas a onipresente corrupção corporativa e as massivas fraudes financeiras, a pilhagem dos recursos naturais e o envenenamento industrial de regiões inteiras, o deslocamento forçado de populações inteiras, as catástrofes intermináveis de Chernobyl e Fukushima e outros desastres iminentes esperando o envelhecimento de muitos reatores nucleares.

As mais horrorosas aberrações do mundo são tão comuns e implacáveis que elas deixam de ser extremas e nós nos tornamos acostumados ao horror de tudo. “Quem hoje se lembra dos armênios?”, é uma pergunta que Hitler teria feito enquanto planejava sua “solução final” para os judeus. Quem hoje se lembra dos iraquianos e da morte e destruição que eles sofreram em larga escala pela invasão norte-americana de suas terras? William Blum nos faz lembrar que mais da metade da população do Iraque está ou morta, ou ferida, traumatizada, presa, deslocada ou exilada, enquanto seu meio-ambiente é saturado com urânio empobrecido (do armamento estadunidense) provocando horrorosos defeitos de nascimento nos bebês.

Padrões

O que será feito disso tudo? Primeiro, nós não podemos atribuir essas aberrações ao acaso, a confusões inocentes e a consequências não intencionais. Nem deveríamos acreditar nas justificativas comuns sobre espalhar a democracia, lutar contra o terrorismo, promover resgates humanitários, proteger os interesses nacionais dos Estados Unidos e outras palavras de ordem gritadas pelas elites dominantes e seus porta-vozes.

Os padrões repetitivos de atrocidade e violência são tão persistentes que nos convidam a suspeitar que eles geralmente sirvam a interesses reais; eles são estruturais e não incidentais. Toda essa destruição e chacina deu altíssimos lucros aos plutocratas que buscam a expansão econômica, a aquisição de recursos, o domínio de territórios e a acumulação financeira.

Os interesses dominantes estão bem servidos por sua superioridade em armas de fogo e força de ataque. A violência é do que nós estamos falando aqui, não apenas a do tipo selvagem e arbitrária, mas a persistente e bem organizada. Como um recurso político, a violência é o instrumento da autoridade suprema. A violência permite a conquista de terras inteiras e das riquezas que elas contêm, enquanto se aproveita de trabalhadores deslocados e outros escravos.

Os governantes da plutocracia acham necessário maltratar ou exterminar multidões inquietas para fazer com que elas morram de fome enquanto os frutos de suas terras e o suor de seu trabalho enriquecem os círculos sociais privilegiados.

Assim, nós tivemos uma lei imperial regida pelo lucro que ajudou a causar a grande fome no norte da China, entre 1876-1879, resultando na morte de por volta de 13 milhões de pessoas. Mais ou menos ao mesmo tempo, a fome de Madras, na Índia, levou as vidas de nada menos que 12 milhões enquanto as forças coloniais enriqueceram ainda mais. E noventa anos antes, a Grande Fome na Irlanda levou a um milhão de mortes, com outro desesperado milhão emigrando de sua terra natal. Nada acidental aí: enquanto os irlandeses morriam de fome, seus patronos ingleses exportavam carregamentos de grãos e gado para a Inglaterra e outros países, ganhando para si lucros consideráveis.

Essas ocorrências devem ser vistas como algo mais que apenas anomalias históricas flutuando sem rumo no tempo e no espaço, causadas apenas por impulsos arrogantes ou casualidades. Não é suficiente condenar os eventos monstruosos e os tempos ruins, nós precisamos tentar entendê-los. Eles devem ser contextualizados no quadro mais amplo das relações sociais históricas.

Crises econômicas

O sistema socioeconômico dominante atual é o capitalismo de livre-comércio (em todas as suas variações). Junto com seu terrorismo imperialista implacável, o capitalismo de livre-comércio proporciona “anomalias normais” dentro de sua própria dinâmica, criando escassez e um excesso mal distribuído, cheio de duplicações, desperdício, superprodução, destruição ambiental assustadora, e variedades de crises financeiras, trazendo inchadas recompensas para um grupo seleto e dificuldades contínuas para multidões.

Wikicommons
As crises econômicas não são excepcionais; elas são o modus-operandi do sistema capitalista. Outra vez, o irracional é a norma.

Considere a história do livre-comércio: depois da Guerra da Independência dos Estados Unidos, houve as rebeliões de débito do final dos anos 1780, o pânico de 1791, a recessão de 1809 (que durou muitos anos), os pânicos de 1819 e 1837, as recessões e quebras ao longo de boa parte do restante daquele século. A séria recessão de 1893 continuou por mais de uma década.

Depois do desemprego industrial de 1900 a 1915 veio a depressão agrária dos anos 1920 – escondida atrás do que ficou conhecido entre nós como a “Era do Jazz”, seguida de uma horrenda quebra da bolsa e da Grande Depressão de 1929-1942. Ao longo de todo o século 20 nós tivemos guerras, recessões, inflação, lutas laborais, alto desemprego – raramente um ano que pudesse ser considerado “normal” em qualquer sentido agradável. Um período normal estendido seria ele mesmo uma anormalidade. O livre-comércio é desenhado para ser inerentemente instável em todos os aspectos fora o acúmulo de riquezas para os poucos selecionados.

O que nós estamos testemunhando não é um acaso irracional em uma sociedade basicamente racional, mas o contrário: o “racional” (a ser esperado) é o acaso de uma sociedade fundamentalmente irracional. Isso significa não podemos escapar aos horrores? Não, eles não são feitos por forças sobrenaturais. Eles são produzidos pela ganância plutocrática e pela decepção.

Então, se o anômalo é a norma e o horror é crônico, na nossa revanche nós temos que dar menos atenção ao idiossincrático e mais ao sistêmico. Guerras, massacres e recessões ajudam a aumentar a concentração do capital, o monopólio de mercado e dos recursos naturais, e destroem organizações trabalhistas e a resistência popular transformadora.

Os caprichos brutais da plutocracia não são produto de personalidades particulares, mas de interesses sistêmicos. O presidente George W. Bush foi ridicularizado por errar as palavras, mas sua construção de impérios e remoção de serviços e regulamentos governamentais revelou uma grande devoção aos interesses da classe dominante. Da mesma maneira, o presidente Barack Obama não é covarde. Ele é hipócrita, mas não confuso. Ele é (em sua própria descrição) um antigo “liberal republicano”, ou como eu diria, um fiel servidor das corporações da América.

Nossos diferentes líderes são bem informados, não iludidos. Eles vêm de diferentes regiões e diferentes famílias, e têm personalidades diferentes, mas ele buscam basicamente as mesmas políticas representando a mesma plutocracia.

Ações

Então não é suficiente denunciar atrocidades e guerras, nós também temos que entender quem as propaga quem lucra com elas. Nós temos que perguntar porque a violência e a decepção são ingredientes constantes.

Consequências não intencionais e outras esquisitices acontecem em assuntos mundanos, mas nós também temos que levar em consideração as intenções racionais orientadas pelo lucro. É mais comum que as aberrações – sejam elas guerras, quebras de mercado, fomes, assassinatos individuais ou matanças em massa – tomem forma porque aqueles no topo estão buscando expropriações lucrativas. Muitos podem sofrer e perecer, mas alguém em algum lugar esta lucrando sem limites.

Conhecer nossos inimigos e o que eles são capazes de fazer é o primeiro passo na direção de uma oposição efetiva. O mundo deixa de ser uma confusão terrível. Nós podemos resistir a esses agressores quando nós vemos quem eles são e o que eles estão fazendo conosco e com nosso sagrado meio-ambiente.

As vitórias democráticas, não importa se são pequenas ou parciais, devem ser abraçadas. Mas as pessoas não devem ficar satisfeitas com favores cintilantes oferecidos pelos líderes suaves. Nós precisamos nos esforçar de toda forma possível pelo desenrolar revolucionário, uma revolução de democracia, o tipo de onda irresistível que parece surgir do nada enquanto leva tudo que está à sua frente.

* Michael Parenti é um escritor e historiador norte-americano. Seus livros mais recentes são The Culture Struggle (2006), Contrary Notions: The Michael Parenti Reader (2007), God and His Demons (2010), Democracy for the Few (9th ed. 2011), e The Face of Imperialism (2011). Para mais informações sobre o trabalho dele, visite seu site: www.michaelparenti.org. Artigo originalmente publicado no site Global Research

Fonte: OperaMundi

Noam Chomsky e Tariq Ali debatem as novas revoluções no Oriente Médio

Ícones da esquerda mundial olham a América latina progressista como inspiração para novos modelos de sociedade

Ninguém poderia tê-las previsto. Mas ainda com o mundo sob o efeito das revoluções no Oriente Médio, o jornalista australiano Julian Assange se reuniu com dois pensadores de peso para saber o que eles pensam sobre o futuro.

Noam Chomsky, renomado linguista e pensador rebelde, e Tariq Ali, romancista de revoluções e historiador militar, encontram na Primavera Árabe questões sobre a independência das nações, a crise da democracia, sistemas políticos eficientes (ou não) e a legião de jovens ativistas que tem se levantado para protestar no mundo todo. ”A democracia é como uma concha vazia, e é isso que está revoltando a juventude, ela sente que faça o que fizer, vote em quem votar, nada vai mudar. Daí todos esses protestos, explica Ali.

“O que temos na política ocidental não é a extrema esquerda e nem a extrema-direita, mas um extremo-centro”, continua ele. “E esse extremo centro engloba tanto a centro-direita quanto a centro-esquerda, que concordam em fundamentos: travando guerras no exterior, ocupando países e punindo os pobres, punindo por meio de medidas de austeridade. Não importa qual o partido no poder, seja nos Estados Unidos ou no mundo ocidental”.

Segundo o próprio Ali, a grande crise da democracia está pulsando nas mãos das corporações. “Quando você tem dois países europeus, como a Grécia e a Itália, e os políticos abdicando e dizendo ‘deixem os banqueiros comandar’… Para onde isso está indo? O que nós estamos testemunhando é a democracia se tornando cada vez mais despida de conteúdo”, critica o ativista.

Mas após as revoluções, as conquistas vêm da construção de novos modelos políticos, inventados. Chomsky cita a Bolívia como exemplo. “Eu não acho que as potências populares preocupadas em mudar suas próprias sociedades deveriam procurar modelos. Deveriam criar os modelos”. Para ele, a chegada da população indígena ao poder político através da figura de Evo Morales está se replicando no Equador e no Peru. “É melhor o Ocidente captar rápido alguns aspectos desses modelos, ou então ele vai se acabar”, alerta Chomsky.

Por outro lado, está na mãos dos jovens perceber a necessidade de agir, segundo Tariq Ali. “Não desistam. Tenham esperança. Permaneçam céticos. Sejam críticos com o sistema que tem nos dominado. E mais cedo ou mais tarde, se não essa geração, então nas próximas, as coisas vão mudar”.

O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.

Assista a entrevista a seguir, ou clique aqui para baixar o texto na íntegra.

Fonte: OperaMundi

Pra quem ainda duvida da participação americana no Golpe Militar de 1964: Documentário “O dia que durou 21 anos”

Documentário “O Dia que Durou 21 anos, que apresenta “os bastidores da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil”. Uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Fonte: TV Brasil

Hugo Chávez é reeleito e pode governar Venezuela até 2019

O presidente da Venezuela Hugo Chávez foi reeleito pela terceira vez neste domingo e pode permanecer no poder até 2019, quando deve totalizar 20 anos na Presidência.

Com um total de 90% de urnas apuradas, Chávez venceu por 54,42% (7,4 milhões de votos), contra 44,97%, (6,1 milhões de votos) de seu rival opositor Henrique Capriles, de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral.

“Obrigado meu Deus, obrigado a todas e todos”, escreveu Chávez em seu perfil no twitter, imediatamente após o anúncio dos resultados.

“Queremos destacar uma vez mais o comportamento cívico e democrático de todo o povo da Venezuela. Concluímos uma página brilhante na história democrática venezuelana”, disse Tibisay Lucena, reitora do CNE. “Tivemos um processo eleitoral tranqüilo e sem sobressaltos”.

Após 14 anos no poder, Chávez se mantém invicto na disputa eleitoral, embora tenha enfrentado nesse domingo sua eleição mais difícil.

O mandatário disse antes da divulgação do resultado que se saísse vitorioso levaria sua revolução a um ponto “irreversível”.

Apesar da derrota de Capriles, os números revelam que esse é o melhor desempenho eleitoral da oposição venezuelana desde que Chávez chegou ao poder.

A participação nas urnas foi de 80,94%, um recorde histórico num país onde votar não é obrigatório.

Nestas eleições, a juventude foi um dos pólos de disputa dos candidatos. O número de eleitores que votaram pela primeira chegou a um milhão.

Comemoração

Antes mesmo do anúncio do Conselho Nacional Eleitoral, simpatizantes do presidente já lotavam as ruas que cercam a sede do governo, no centro da cidade, para comemorar a vitória. Chávez era esperado no “balcón del pueblo” (sacada do povo), de onde costuma fazer discursos.

Após a divulgação do resultado era possível ouvir o barulho de fogos de artifício por toda Caracas.

Espera-se que Chávez adote um tom conciliador para ganhar o reconhecimento da oposição e evitar uma crise interna, caso a ala radical opositora decida não reconhecer os resultados.

Pouco antes do anúncio dos resultados oficiais, Chávez usou esse recurso. “Foi uma jornada memorável, histórica”, disse. “Não deveria ocorrer nada que manche o esforço e a vocação democrática que o povo demonstrou”, afirmou.

“Chávez sim ficou; um só coração” – gritavam os membros da juventude do partido governista logo após escutar a mensagem do presidente, ainda antes dos resultados oficiais.

No comando de campanha opositor, as caras de desânimo no final da noite revelavam a derrota antes mesmo do anúncio do CNE.

Em pronunciamento, Capriles reconheceu a derrota. “Nesta manhã disse que para saber ganhar é preciso saber perder, para mim o que o povo diz é sagrado”. Mas, ele também ressaltou o fato de ter recebido mais de seis milhões de votos. “Nosso tempo chegará”, afirmou.

Oposição

Na opinião do analista político Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis, apesar da vitória ser inferior à porcentagem de votos obtida por Chávez em 2006, (62,8%), a vitória de Chávez é “suficientemente ampla” para consolidar seu projeto socialista.

“Chávez tende a capitalizar (sua eleição) para alcançar uma vitória maior nas eleições (para governadores) em dezembro e (para prefeitos) em abril”, disse.

Na avaliação do analista político Carlos Romero, o desafio de Chávez para o próximo mandato é cumprir seu chamado à “reconciliação” e convocar a oposição para governar. “Há setores da classe média, do empresariado e da oposição que estariam dispostos a participar da vida política venezuelana se forem convidados pelo governo”, afirmou.

Durante a semana, Chávez admitiu publicamente ter acionado seu ex-vice-presidente José Vicente Rangel para estabelecer “pontes” com a oposição, numa tentativa de evitar uma crise interna.

Horas antes do anúncio do resultado oficial, o vice-presidente Elias Jaua disse em entrevista à TV estatal que “já é hora de que se convençam que na Venezuela há uma revolução com caráter socialista, mas que em nenhum momento é uma mostra de totalitarismo”, disse.

A comemoração da vitória chavista deve entrar madrugada adentro.

Fonte: BBC Brasil