Banco do Brics deverá criar mecanismos de apoio mútuo para emergentes

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27/03/2013 – 9h14

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff ressaltou hoje (27) que a criação do Banco do Brics (grupo formado pelo Brasil, a Rússia, Índia, China e África do Sul) vai colaborar para o desenvolvimento da região e dos países emergentes. Ela discursou duas vezes nesta quarta-feira, na 5ª Cúpula do  Brics , em Durban, na África do Sul. Segundo Dilma, o banco é um esforço para instituir mecanismos mútuos de apoio.

“É um banco talhado para as nossas necessidades. Temos de estreitar laços e criar mecanismos de apoio mútuos”, destacou a presidenta. “É um mecanismo de estabilidade que pode criar linhas recíprocas de crédito, fortalecendo a solidez do mercado internacional.”

A instituição bancária terá os mesmos moldes do Banco Mundia (Bird). Cada país que integra o Brics deverá destinar US$ 10 bilhões para formar o capital inicial do banco, que deverá chegar a US$ 50 bilhões. O banco centrará as ações no financiamento de infraestrutura e atuará em concorrência direta com o Bird.

A ideia é que a nova instituição bancária seja uma espécie de alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Dilma destacou também a importância de manter uma posição de otimismo, mesmo diante das dificuldades causadas pela crise econômica internacional, que atinge principalmente os 17 países da zona do euro.

“Devemos ter o otimismo e o dinamismo, reiterar a confiança e manter uma atitude contra o pessimismo e a inércia que atingem outras regiões. Vamos responder a essa crise com vigor”, disse a presidenta que também elogiou a criação de um fundo para ajudar os países emergentes.

A proposta é criar um fundo, estimado em US$ 100 bilhões, para ajudar países emergentes com problemas financeiros.

Fonte: 
http://agenciabrasil.ebc.com.br/agenciabrasil/agenciabrasil/noticia/2013-03-27/banco-do-brics-devera-criar-mecanismos-de-apoio-mutuo-para-emergentes
 

Brics manifesta preocupação com situação na Síria e risco de ação militar no Irã

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27/03/2013 – 18h36

Da Agência Lusa

Brasília – O bloco do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) manifestou hoje (27) preocupação com a deterioração da situação militar e humanitária na Síria e com os riscos de uma escalada militar no Irã.

“Manifestamos profunda inquietação face à deterioração da situação de segurança e humanitária na Síria e condenamos o aumento das violações dos direitos humanos e das leis humanitárias internacionais, na altura em que a violência continua”, disseram os líderes dos cinco países no comunicado final da cúpula de Durban, na África do Sul.

“Apelamos a todas as partes para garantirem a segurança dos que trabalham para agências humanitárias”, diz o texto, que reafirma a oposição à crescente militarização do conflito.

Os países emergentes expressaram também preocupação com o risco de uma escalada militar no Irã, acusado por países ocidentais e por Israel de estar desenvolvendo armas nucleares.

“Cremos que não há alternativa a uma solução negociada para o problema do nuclear no Irã. [...] Estamos preocupados com os riscos de uma ação militar e com sanções unilaterais”, escreveram os líderes no comunicado.

“Reconhecemos o direito do Irã a utilizar energia nuclear com fins pacíficos, no quadro das suas obrigações internacionais, e apoiamos a resolução dos problemas por vias políticas e diplomáticas, pelo diálogo”, disseram o Brics.

Fonte: 
http://agenciabrasil.ebc.com.br/agenciabrasil/agenciabrasil/noticia/2013-03-27/brics-manifesta-preocupacao-com-situacao-na-siria-e-risco-de-acao-militar-no-ira

Ponto de Vista – BRIC – Bruce Bagley (cientista político)

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Enviado em 23/01/2012
BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) foi a sigla criada por Jim O’Neill, economista do Goldman & Sachs, para definir os novos motores da economia mundial.

Daqui a oito anos, com 40% da população mundial, segundo projeções da ONU, os países integrantes do BRIC devem chegar mais perto das economias do G-7, depois de taxas de crescimento muito superiores às dos países ricos.

Os BRICs e sua relação com o Brasil e os Estados Unidos são o tema do Ponto de Vista com Bruce Bagley, PhD em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, nos EUA. Bagley tem pesquisas nas áreas de geopolítica e segurança internacional.

Título: Ponto de vista
Autor: TV Câmara
Categoria: Educação
Idioma: Português
País: Brasil

Coletiva BRICS e Viagem à Índia

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Publicado em 22/03/2012
A Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, Subsecretária-Geral Política II, conversou com a imprensa a respeito da IV Cúpula BRICS, que ocorrerá em Nova Délhi, em 29 de março, e da visita oficial da Presidenta Dilma Rousseff à India, a se realizar no dia 30 de março. Brasília, 22 de março de 2012.

Coletiva – BRICS/OMC

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Publicado em 10/10/2012
O Subsecretário-Geral de Assuntos Econômicos e Financeiros do MRE, Embaixador Valdemar Carneiro Leão; oRepresentante Permanente do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio, Embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo; eo Coordenador-Geral de Contenciosos do MRE, Conselheiro Celso de Tarso Pereira, conversaram com a imprensa sobre o Seminário “Os BRICS e o Sistema de Solução de Controvérsias da OMC”, realizado no Palácio Itamaraty em 10/10/2012.
Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=bWziCRz1CfY

O Brasil, os Brics e o FMI

No passado, o G-7 ignorou o G-20, e hoje, como grupo, é uma ficção geoestratégica e institucional. Ao se negarem a reformar o FMI, os Estados Unidos e a Europa podem estar condenando-o à caquexia. Os Brics vêm aí.

Mauro Santayana

A reunião do G-20, em Moscou, encerrada neste sábado (16), terminou com vagas promessas, da parte dos Estados Unidos e da Europa, de homologar finalmente o acordo, fechado informalmente em 2010, que daria mais poder aos emergentes no Fundo Monetário Internacional.

Não é segredo que as quotas dessa instituição, com direito a voto, não correspondem mais, há muito tempo, à realidade econômica mundial. Com a reforma, muitos países europeus, com sua importância econômica reduzida nos últimos anos, veriam minguar suas quotas e seu poder de voto. Tendo crescido mais rapidamente neste início de século, os países emergentes, à frente deles os BRICS, assumiriam o seu direito e a sua responsabilidade na direção das finanças mundiais.

Os países ocidentais, liderados por Washington e Berlim, no entanto, não querem diminuir seus poderes nas grandes instituições internacionais, sobretudo as financeiras.

Os controladores da economia globalizada atuam junto ao Congresso dos Estados Unidos e contam com o apoio da maioria republicana a que se somam muitos democratas, a fim de impedir que a China se torne o terceiro país mais importante do Fundo, ou que o Brasil venha a avançar, até alcançar, no futuro, uma posição condizente com a sua condição de sexta maior economia do planeta.

Com a dívida interna líquida de 35% do PIB; débitos externos que correspondem a menos de 15% do que produz todos os anos; 378 bilhões de dólares em reservas internacionais; sendo o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos, depois da China e do Japão e credor do próprio FMI, o Brasil não aceita mais ser tratado no mesmo patamar de países de peso geográfico, demográfico e econômico menor, e dados macroeconômicos piores do que os nossos.

Esse assunto também será tratado em Brasília, nesta semana, em Brasília, durante a visita do Primeiro-Ministro da Federação Russa, Dmitri Medvedev.

Os russos, como os chineses e indianos, parceiros do Brasil no BRICS, estão também perdendo a paciência com os países do ocidente econômico, diante da desproporção entre o que esse grupo de países representa, em termos globais, como território, população e economia, e a sua posição nos organismos multilaterais internacionais.

Embora sofra uma campanha de sabotagem contínua por parte da imprensa “ocidental”, o BRICS está cada vez mais vivo, trabalhando unido, como demonstram, por exemplo, as reuniões sobre segurança e saúde realizadas há menos de um mês em Nova Delhi.

No encontro com Medvedev, Dilma deverá tratar do apoio russo – já quase acertado – para a eleição do brasileiro Roberto Azevedo à Direção Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os dois deverão também ajustar as propostas que Rússia e Brasil levarão à Quinta Cúpula Presidencial dos BRICS, na África do Sul, em março.

Nesse encontro, os países membros deverão tratar da constituição de seu próprio Banco de Desenvolvimento. E, provavelmente, de instituição que poderia concorrer com o FMI, a fim de atender às necessidades de países emergentes e em desenvolvimento.

No passado, o G-7 ignorou o G-20, e hoje, como grupo, é uma ficção geoestratégica e institucional. Ao se negarem a reformar o FMI, os Estados Unidos e a Europa podem estar condenando-o à caquexia. Os emergentes, com os BRICs à frente, podem ser o núcleo de nova realidade econômica mundial. 

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Fonte: CartaMaior

Há um Bricsit no horizonte

BRICS Há um Bricsit no horizonte

Johannesburgo, África do Sul, 22/11/2012 – Analistas sul-africanos vislumbram que o Brics, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, poderia somar no futuro Indonésia e Turquia, para expandir rumo a novas regiões. “Estive em Moscou há pouco tempo, e ali conversei sobre a possibilidade de o Brics se ampliar e se converter no Bricsit”, disse o chefe-executivo da consultoria sobre mercados emergentes Frontier Advisory, Martyn Davies.

Segundo Daveis, “há sólidas razões geopolíticas e geoeconômicas para incorporar a Indonésia e a Turquia ao bloco”. Estes dois países são os que ocupam os primeiros lugares na fila de entrada para o clube de nações emergentes do Sul em desenvolvimento. O primeiro porque sua entrada permitiria a extensão do Brics à importante região do sudeste asiático, e o segundo porque acrescentaria ao bloco maior diversidade geográfica.

“Não haveria nenhum conflito com os atuais membros, pois a Rússia é o único integrante do Brics que abrange mais de uma região” (Europa e Ásia), acrescentou Davies. Por outro lado, destacou que o Brics é uma aliança que não conta com uma secretaria nem com uma infraestrutura elaborada. Isto permitiria a rápida admissão de novos membros, como ocorreu com a África do Sul em 2010, por consenso entre os integrantes e sem necessidade de longas negociações.

“Não existe nenhum processo normativo. Seria fácil fazê-lo”, observou Davies. Como exemplo contrário, citou o que ocorre na União Europeia, onde os candidatos a membros devem subscrever uma série de legislações e também contar com aprovação do Parlamento Europeu, bem como das assembleias legislativas nacionais.

Por sua vez, o analista Chris Gilmour, da ABSA Investments, braço de investimentos de um dos maiores bancos sul-africanos, disse à IPS que o atual governo da África do Sul colocou como prioridade fortalecer as relações com outras nações emergentes. “Creio que o Brics se converterá em um esteio central da política externa da África do Sul”, previu. “Este país sozinho é muito pequeno e insignificante para ter influência em nível global, mas, aliado a países de interesses semelhantes, pode conseguir um impacto”, acrescentou.

Entretanto, Gilmour reconhece que ainda há dúvidas sobre o compromisso da África do Sul com o Brics. “Um dos perigos que vejo é a África do Sul não ter capacidade para permanecer no bloco”, apontou. “Nossa taxa de crescimento, comparada com as de outros países-membros, é muito baixa, completamente irrisória. Assim, temos um longo caminho pela frente para justificar nossa inclusão neste grupo”, afirmou o analista.

Calcula-se que o crescimento econômico da África do Sul será menor do que 3% este ano. Porém, Davies destacou que houve uma “drástica mudança, real ou percebida”, na política externa sul-africana a favor de um vínculo mais estreito com as demais nações emergentes, desde que Jacob Zuma assumiu a Presidência, em 2009. O governo de Thabo Mbeki (1999-2008) “sempre esteve cômodo em Washington, Londres, Paris ou Tóquio, menos no mundo em desenvolvimento”, ressaltou.

“A África e o Sul em desenvolvimento estiveram relativamente marginalizados” no governo de Mbeki. Em contraste, Zuma está “muito mais à vontade” entre seus colegas das nações emergentes, destacou Davies. “Isto se vê estimulado pela relação que a África do Sul mantém com a China, país com o qual goza dos mais fortes vínculos bilaterais dentro do Brics”, acrescentou. O analista também explicou que Pequim e Pretória se aproximaram mais, ideologicamente, desde a crise econômica mundial, que afetou a credibilidade do livre mercado. “O Brics está na primeira fila dos mercados emergentes, e representa uma nova realidade mundial”, afirmou Davies.

A cidade sul-africana de Durban será sede da próxima cúpula do Brics, em março de 2013, e espera-se que Zuma aproveite a ocasião para dissipar toda dúvida sobre o compromisso de seu país com o bloco. Também se espera que no encontro haja avanços nas diferentes iniciativas econômicas discutidas dentro do grupo. A mais elaborada destas é a criação de um banco do Brics, onde seriam reunidas as reservas estrangeiras dos países-membros, assim mantendo um fundo que serviria às nações do Sul. Para Davies, a iniciativa poderia servir de “contrapeso do Fundo Monetário Internacional”.

A cúpula também revisará os progressos sobre a aliança alcançada entre as diferentes bolsas de valores do Brics, bem como uma iniciativa pela qual os membros outorgarão créditos uns aos outros em moedas locais. Esta última é uma ideia da China, pela qual o comércio aconteceria sem necessidade de dólares ou euros dentro do Brics, ou Bricsit, se Indonésia e Turquia se tornarem membros.

Fonte: Envolverde/IPS

Leia outras notícias sobre o Brics.

Antônio Patriota: “Os BRICS e o Sistema de Solução de Controvérsias da OMC”

Sugestão da Bárbara Lamas e do prof. Javier Vadell

Nota nº 247

“Os BRICS e o Sistema de Solução de Controvérsias da OMC” Foto der Gustavo Ferreira

Pronunciamento do Senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores, Embaixador Antonio de Aguiar Patriota, na Cerimônia de Abertura do Seminário “Os BRICS e o Sistema de Solução de Controvérsias da OMC” – Brasília, 10 de outubro de 2012

10/10/2012 -

É com especial satisfação que reinauguro hoje o Auditório Wladimir Murtinho com esta cerimônia de abertura de seminário sobre a relação entre os cinco países que conformam o grupo BRICS e o sistema de solução de controvérsias da OMC.

Falar dos BRICS é falar em superlativos. Tomados em seu conjunto, os países que compõem o grupo abrigam 40% da população mundial, ocupam um quarto do território do planeta e respondem por um quarto da economia mundial. Além dos Estados Unidos, quatro dos cinco BRICS são os únicos países a combinarem simultaneamente território superior a dois milhões de quilômetros quadrados, população acima de 100 milhões de habitantes e PIB nominal superior a US$ 1 trilhão. Segundo projeções do FMI, os países do BRICS deverão contribuir com cerca de 56% do crescimento do PIB mundial em 2012. Segundo estudo do Banco de Investimentos Goldman Sachs, que concebeu o conceito de BRICS, o PIB dos BRICS deve ultrapassar o do G-7 até 2030. Mas como essas previsões têm-se revelado, até certo ponto, conservadoras, preparemo-nos para que isso aconteça antes do previsto.

Falar do sistema de solução de controvérsias da OMC, por sua vez, é falar de uma obra exitosa. A todo tempo, mas especialmente em momentos de crise como os que vivemos hoje, contar com um mecanismo imparcial de solução de litígios, com densidade jurídica e capacidade de resposta rápida, constitui condição essencial para o bom funcionamento de um sistema de comércio baseado em regras. Respeitar as decisões do Órgão de Solução de Controvérsias da OMC é o que assegura que divergências bilaterais, mesmo de grande magnitude, sejam efetivamente resolvidas no plano multilateral pela força de raciocínios jurídicos imparciais.

Os BRICS não têm sido tímidos na utilização do mecanismo de solução de controvérsias da OMC: juntos, já somam participações em 365 disputas ao longo dos 18 anos de funcionamento do regime. O encontro que hoje se inicia vai permitir a troca de experiências acumuladas durante esse período, assim como a realização de avaliação crítica conjunta sobre o funcionamento do mecanismo.

Gostaria de saudar muito especialmente os especialistas da África do Sul, da China, da Índia e da Rússia que vieram de longe para participar deste seminário. Estou certo de que todos se beneficiarão dos debates que promoveremos aqui em Brasília hoje e amanhã.

Há exatamente um ano, na abertura de seminário que comemorou os 10 anos de criação da Coordenação-Geral de Contenciosos do Itamaraty, a CGC, referi-me a alguns dos principais desafios à atuação internacional do Brasil no plano comercial. Naquela ocasião, anunciei um conjunto de medidas destinadas a aprimorar o desempenho da diplomacia comercial brasileira em um contexto de crise econômica internacional. Este é o momento adequado para avaliar o que foi possível realizar desde então, bem como para projetar outras ações.

Ao longo desse exercício de balanço e projeções, é importante termos sempre presente o contexto internacional em que atuamos, e é preciso reconhecer que a crise que vivíamos há um ano lamentavelmente continua sem perspectivas de superação no curto prazo. Permanecem significativos os riscos de deterioração do ambiente econômico internacional, sobretudo devido à falta de solução clara para a questão das dívidas soberanas de países da Zona do Euro. Medidas de expansão monetária continuam a ser implementadas por países desenvolvidos, gerando efeitos negativos sobre os mercados cambiais dos países emergentes, inclusive do Brasil. Esse cenário impacta o comércio internacional, que se reduz em algumas regiões do planeta e, em áreas mais dinâmicas, cresce menos do que poderia. O FMI e a OMC nos alertam para o fato de que, em 2012, o comércio internacional deverá crescer em torno de 2,5%, taxa inferior ao crescimento de 5% em 2011 e inferior também à taxa de crescimento da economia mundial, projetada em 3,3%. Trata-se de reversão da tendência que prevaleceu por décadas, quando o comércio internacional cresceu, na média, em percentuais superiores ao crescimento da economia mundial.

Como mencionou a Senhora Presidenta da República em seu discurso de abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas este ano, uma resposta adequada à crise pressupõe a construção de amplo pacto pela retomada coordenada do crescimento econômico global. É importante que se diga que o Brasil tem cooperado na busca de uma solução coordenada para a crise, em especial no âmbito do G20. Os resultados alcançados até aqui, contudo, não são plenamente satisfatórios.

Um efeito colateral da crise foi o de chamar atenção para a crescente relevância dos temas financeiros nas questões de política externa, fato que passou a exigir dos diplomatas maior familiaridade com esse universo temático. Com o objetivo de reforçar a formação dos diplomatas brasileiros em matérias afetas ao funcionamento do sistema financeiro internacional, e em especial aquelas que integram a agenda do G20, o Instituto Rio Branco dará início, já no próximo mês de novembro, a curso de formação em temas financeiros, inteiramente ministrado por especialistas brasileiros da área e voltado especificamente para diplomatas.

A crise não afetou apenas o sistema financeiro internacional. Como sabemos, seus efeitos projetaram-se também sobre o sistema multilateral de comércio. Em julho de 2008, estivemos muito próximos de concluir as negociações lançadas em 2001 em Doha, o que certamente teria auxiliado o mundo a atravessar melhor a crise que eclodiria apenas três meses depois. A conclusão da Rodada Doha teria permitido corrigir algumas das distorções mais notáveis do comércio internacional, a maior delas, como se sabe, relativa ao comércio de produtos agrícolas. A Rodada Doha, contudo, paralisou-se diante de um impasse e assim permanece.

O compromisso brasileiro com o multilateralismo, no entanto, permanece inequívoco. E o Brasil continua empenhado em fazer avançar a Rodada Doha, na expectativa, contudo, de que seja possível fazê-lo de forma equitativa, equilibrada e compatível com seu mandato negociador. Permanecem válidas as razões que levaram a comunidade internacional a lançar a chamada “rodada do desenvolvimento”. E o Brasil não contempla a hipótese de abandono de mandato aprovado pela totalidade dos membros da OMC para a Rodada, como sugerem alguns. Não há mais espaço para rodadas de negociação comercial construídas exclusivamente em torno das prioridades de certos países desenvolvidos.

O impasse na Rodada Doha não retira da OMC, contudo, a qualidade de instituição multilateral vigorosa e central. A diplomacia brasileira acredita na condição da OMC de locus essencial para a discussão dos grandes temas do comércio internacional. Evidência disso está na iniciativa brasileira de discussão da relação entre câmbio e comércio, lançada na OMC de forma um tanto provocadora em 2011. O Brasil continuará apoiando as discussões sobre o tema no âmbito da OMC, tendo em vista tratar-se de questão fundamental no contexto de uma economia mundial sem as paridades fixas do sistema de Bretton Woods.

Clara evidência da centralidade da OMC está igualmente na persistente relevância do mecanismo de solução de controvérsias da Organização, que nos reúne todos aqui hoje neste seminário.

E nesse particular, gostaria de me referir a algumas das medidas anunciadas em outubro de 2011. Conforme previsto, a Coordenação-Geral de Contenciosos (CGC) teve seu quadro de diplomatas duplicado, os quais, ao longo do último ano, beneficiaram-se de diversos cursos de aperfeiçoamento em matérias afetas ao comércio internacional, alguns deles oferecidos pela própria OMC. A disciplina “OMC e Contenciosos” tornou-se cadeira obrigatória no currículo de formação do Instituto Rio Branco, despertando em jovens diplomatas brasileiros interesse e capacidade de atuação nessa área desde o início de suas carreiras. Na data de hoje, o Itamaraty faz o lançamento oficial da nova página web da CGC, concebida para facilitar o acesso do conjunto da sociedade brasileira a informações de qualidade sobre a participação do Brasil no sistema de solução de controvérsias da OMC.

Melhor equipada, a CGC tem podido cumprir suas funções de maneira mais eficiente, tanto nas atividades relativas ao funcionamento do mecanismo de solução de controvérsias da OMC, como no assessoramento às demais unidades do Itamaraty e a outros órgãos do Governo brasileiro em questões relacionadas às disciplinas multilaterais de comércio. O reforço institucional da CGC revelou-se tão mais oportuno ao se constatar que, em um ambiente de crise, o número de contenciosos iniciados nos nove primeiros meses de 2012 triplicou em relação ao mesmo período do ano passado. 


Ainda neste contexto, desejo fazer referência a importantes atos que acabo de assinar com o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA. O Protocolo de Intenções firmado com a OAB, a exemplo de instrumento semelhante firmado há um ano com a Advocacia-Geral da União (AGU), fornecerá base para o desenvolvimento de atividades comuns de capacitação, com vista ao aperfeiçoamento de advogados e diplomatas em temas afetos ao direito do comércio internacional. O instrumento viabilizará estágios de advogados indicados pela OAB na CGC, bem como na Missão do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Os instrumentos firmados com a OAB e a AGU integram esforço, iniciado pelo Itamaraty já há sete anos, em favor da formação no Brasil de profissionais do Direito, tanto no setor público como no privado, especializados nas disciplinas do comércio internacional.

O Acordo de Cooperação Técnica firmado entre o Itamaraty e o IPEA, por sua vez, viabilizará a realização de estudos e pesquisas de interesse mútuo no campo das relações econômicas internacionais. Esse trabalho conjunto se converterá em valioso instrumento de apoio para diplomatas que atuam tanto em negociações comerciais como na defesa de interesses brasileiros em contenciosos.

Ao referir-me à associação da diplomacia comercial brasileira com a reputada qualidade do trabalho de pesquisa realizado pelo IPEA, permito-me abrir parêntese para sublinhar o vínculo crescente entre comércio, conhecimento, tecnologia e inovação. Estamos cientes de que uma melhor inserção do Brasil no comércio internacional está ligada a nossa capacidade de produzir mais e melhor, o que só se faz com a ajuda do conhecimento. E por essa razão, o apoio conferido pelo Itamaraty à melhoria da formação do profissional brasileiro – como, por exemplo, na implementação do programa Ciência sem Fronteiras, que pretende levar 100 mil jovens brasileiros a estudar nas melhores universidades do mundo – hoje é parte integrante da lógica de promoção de ganhos em competitividade e de melhores condições de participação do Brasil no comércio internacional.

Nesse sentido, tenho a satisfação de referir-me à Declaração Conjunta entre o Itamaraty e o Instituto Brasileiro do Algodão, assinada na data de hoje, mediante a qual as duas partes se comprometeram a reservar o montante inicial de US$ 8 milhões – parte dos recursos oriundos do entendimento Brasil-EUA no âmbito do contencioso do algodão – para financiar bolsas de estudo e, dessa forma, promover o conhecimento e a capacitação técnica no campo da cotonicultura. Essas bolsas beneficiarão estudantes brasileiros de agronomia, que irão para universidades estrangeiras frequentar cursos relacionados à cotonicultura, bem como estudantes de países em desenvolvimento (da África Subsaariana, Mercosul e associados, Haiti), que frequentarão cursos e estágios oferecidos pela EMBRAPA, além de cursos na área de Agronomia Cotonicultora nas melhores faculdades de Agronomia do País, em Viçosa, Lavras e São Paulo.

Ao fazer referência à utilização de recursos oriundos do contencioso do algodão em projetos de cooperação voltados para o desenvolvimento da cotonicultura em terceiros países, quero anunciar a assinatura com a FAO, no próximo dia 17 de outubro, em Roma, de projeto de cooperação destinado ao fortalecimento do setor algodoeiro em países da América Latina e do Caribe. Para o custeio desse projeto, será disponibilizado à FAO o montante de US$ 10 milhões repassados pelo Instituto Brasileiro do Algodão.

Essas atividades refletem um aspecto interessante da atuação diplomática em contenciosos comerciais: a partir de uma vitória emblemática na OMC contra subsídios agrícolas ilegais, consegue-se estruturar, com base no recebimento de compensação financeira temporária, iniciativas benéficas não só para a cotonicultura brasileira, mas também, em espírito de solidariedade, para a agricultura de outros países que sofrem igualmente os efeitos perniciosos dos programas de subsídios ilegais questionados pelo Brasil.

A diplomacia comercial brasileira, em sua relação direta ou indireta com o sistema de solução de controvérsias da OMC contempla, ainda, ações de monitoramento da observância de compromissos assumidos com o Brasil no campo comercial.

A esse respeito, menciono termos realizado amplo esforço de identificação de barreiras ao acesso do produto brasileiro a mercados de alguns de nossos principais parceiros comerciais, conforme anunciado há um ano. Com a colaboração das Embaixadas do Brasil em países selecionados (África do Sul, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, Índia, Japão, México, Rússia, Suíça, Turquia e União Europeia), a identificação de barreiras – inédita, vale dizer – está sendo no momento consolidada e sistematizada. Esse mapeamento deverá constituir ferramenta de grande utilidade na defesa de interesses comerciais específicos em foros bilaterais, regionais ou multilaterais. Quando concluída essa etapa do trabalho, uma seleção de dez novos mercados será efetuada para dar continuidade, nos próximos meses, a esse exercício.

Cumpre mencionar, ainda, que se encontra plenamente operativo no Itamaraty o “Núcleo China“, força-tarefa voltada para o acompanhamento quotidiano das relações econômico-comerciais do Brasil com seu maior parceiro comercial individual. O “Núcleo China” conta com uma base de dados sobre o comércio bilateral, que é permanentemente atualizada, e está em condições de acompanhar os termos em que estão sendo implementados, de lado a lado, os compromissos assumidos pelos dois Governos em matéria de comércio e investimentos.

No campo negocial, o Brasil dedica atenção prioritária à integração sul-americana e, muito especialmente, à consolidação e ao aprofundamento do Mercosul. A rede de acordos comerciais negociados no âmbito da ALADI assegurará a conformação de uma zona de livre comércio sul-americana em 2019. E para aquilatar a importância dos vizinhos latino-americanos para o comércio exterior brasileiro, basta atentar para o fato de que eles absorvem mais de 40% das exportações de manufaturados do País.

O Mercosul mantém sua centralidade, portanto. E o recente ingresso da Venezuela no bloco confirmou a vocação do Mercosul de afirmar-se como eixo estruturante da integração da América do Sul, unindo o Norte e o Sul do continente e articulando suas porções amazônica e caribenha. A Venezuela – país que registrou, no mundo, o maior aumento relativo de importações em 2011 e no primeiro quadrimestre de 2012 também – reforçou o mercado ampliado do Mercosul em cerca de 28 milhões de novos consumidores. E com a Venezuela, o Mercosul adquiriu nova dimensão territorial, populacional, econômica e política.

Na condição de membros de uma união aduaneira, os Estados Partes do Mercosul só podem negociar, como sabemos, acordos comerciais com terceiros países ou blocos se atuarem em conjunto. Face à paralisia da Rodada Doha – ou talvez mesmo em razão dessa paralisia – muitos países buscam saídas para seu comércio exterior em acordos comerciais bilaterais ou regionais. Esses instrumentos são firmados por países que competem conosco em terceiros mercados, onde o produto brasileiro corre o risco de ter sua competitividade erodida. Não estamos indiferentes a esse risco.

Os avanços sociais alcançados no Brasil pela via da implementação de políticas inclusivas ao longo da última década levaram à conformação de uma ampla classe média no País, integrada por mais de 100 milhões de consumidores. Se esse segmento formasse uma unidade independente, estaria entre os 20 países com maior poder de consumo no mundo. São números que explicam o crescente interesse pelo mercado brasileiro. Desnecessário frisar que se trata de valiosa moeda de troca em negociações comerciais que decidirmos empreender.

Na agenda externa do Mercosul, destacam-se as negociações com a União Europeia, que já se estendem por 13 anos. Neste momento, o Governo brasileiro realiza consultas públicas para aferir o interesse dos agentes econômicos no avanço das negociações com os europeus, assim como no início de negociações com o Canadá, ambas decididas pela CAMEX. É importante que os agentes econômicos tenham presente que ficarmos onde estamos pode não nos assegurar as fatias de mercado que conquistamos até aqui. Em outras palavras, ficar parado, neste caso, pode significar retroceder.

Com o objetivo de avaliar o desenho e o alcance dos acordos comerciais bilaterais e regionais de geração mais recente, o Itamaraty promoverá a realização de estudo sobre essa rede de acordos e seus potenciais impactos sobre interesses comerciais brasileiros, em especial aqueles envolvendo países da América Latina.

Além da conquista de melhores condições de acesso a mercados para bens e serviços brasileiros, é fundamental que os agentes econômicos possam fazer bom uso do que já foi possível obter com os acordos negociados até aqui. E é esse o campo de atuação da promoção comercial, faceta fundamental da diplomacia comercial brasileira.

Há um ano, em uma conjuntura de estagnação das negociações na OMC e de redução do dinamismo da economia mundial, já era evidente a relevância da crescente participação do Brasil em feiras e exposições, bem como da realização de missões comerciais que propiciassem novas oportunidades de negócios. Dos 145 eventos internacionais projetados para 2012, 117 já foram realizados. E em 2013, o Itamaraty pretende realizar mais de 150 eventos.

Para além desses números, queria destacar a qualidade da presença brasileira em mostras internacionais de grande relevância, tais como a CeBIT na Alemanha, uma feira de tecnologia da informação que, como os senhores sabem, contou com a participação da Senhora Presidenta da República, bem como a SIAL na China, a Expomin no Chile e a Saitex na África do Sul. Consoante com a prioridade conferida pelo Governo brasileiro à conquista de novos mercados, o Itamaraty garantiu a participação brasileira em um total de 60 feiras e exposições na Ásia, América Latina, África e Oriente Médio.

No que se refere aos chamados roadshows e a outras iniciativas de promoção de investimentos, o Itamaraty terá participado, até o final do ano, de pelo menos 21 ações em praças internacionais tão importantes como Cingapura, Xangai, Dubai, Doha, Frankfurt e Londres. Em 2013, o Itamaraty planeja elevar o número dessas ações a 25. Em parceria com a CNI, o Itamaraty tem sido capaz de prestar amplo apoio ao investidor brasileiro na organização de missões empresariais ao exterior, de que são exemplos eventos realizados em Jacarta, Hanói, Bogotá e Lima.

Não posso deixar de fazer referência, ainda, à organização – em colaboração com outros órgãos de governo – de missões empresariais por ocasião das visitas oficiais da Senhora Presidenta da República a Moçambique, África do Sul e Angola, no final de 2011, e à Bélgica, Bulgária, Turquia, Índia, Alemanha, Estados Unidos e Peru neste ano.

Conforme anunciado um ano atrás, o Itamaraty realizou reuniões regionais – no Oriente Médio e na América do Sul – para os Chefes dos Setores de Promoção Comercial envolvendo duas dezenas de Embaixadas brasileiras no exterior, ocasiões que se revelaram valiosas para treinamento e troca de informações entre os participantes. O próximo encontro com esse perfil ocorrerá na América do Norte, no primeiro trimestre de 2013.

O firme compromisso do Itamaraty com treinamento e capacitação de funcionários do serviço exterior brasileiro no campo da promoção de comércio está refletido, ainda, na introdução da cadeira “Diplomacia e Promoção Comercial” no currículo do curso de formação de diplomatas em 2012.

Menciono, ainda, a criação na estrutura do Itamaraty, em janeiro de 2012, da Divisão de Investimentos. A criação dessa nova unidade veio responder à necessidade de que o Itamaraty se adeque à nova realidade resultante tanto do expressivo aumento dos investimentos diretos estrangeiros no País como da aceleração do processo de internacionalização das empresas nacionais.

Por fim, faço referência à realização, à margem da Reunião de Cúpula do Mercosul em Brasília, no início de dezembro, do I Fórum Empresarial do Mercosul. O evento, o primeiro do gênero em 21 anos de história do Mercosul, será realizado com o apoio da APEX e da CNI e deverá reunir entre 400 e 500 empresários do bloco. As discussões do Fórum serão organizadas em torno de quatro eixos temáticos, da maior relevância para a promoção do desenvolvimento e da integração regional, em particular, agronegócio, energia, inovação e infraestrutura e logística.

Senhoras e Senhores,

O balanço encorajador que faço da implementação das medidas anunciadas há um ano serve de incentivo para que novas ações sejam empreendidas pela diplomacia brasileira em favor da abertura de mercados para produtos e serviços, do apoio permanente à atuação dos agentes econômicos nacionais no exterior e do treinamento contínuo dos membros do serviço exterior do Brasil.

Juntamente com os demais países que integram o BRICS, o Brasil tem dado sua contribuição para a retomada do crescimento do comércio internacional e, por essa via, mitigar os efeitos da crise e criar condições para que seja superada. Em termos globais, o comércio Sul-Sul tem crescido em ritmo superior ao dos fluxos tradicionais Norte-Norte e Norte-Sul: segundo a UNCTAD, 19% anuais em média, entre 2001 e 2010, enquanto o comércio mundial cresceu 12% em média no mesmo período. No Brasil, 59% das exportações nacionais destinam-se a países em desenvolvimento e 51% das importações provêm desse grupo de países.

À medida que aumenta a participação do BRICS no comércio internacional, aumentam também sua influência e responsabilidade. O seminário que se inicia hoje fornece oportunidade para conhecermos melhor a visão que cada um dos cinco países tem de um dos pilares do sistema multilateral de comércio, que é o mecanismo de solução de controvérsias da OMC.

Com essas palavras, declaro aberto o seminário, desejando a todos que tirem o melhor proveito das discussões que se iniciarão a seguir.

Muito obrigado.

Fonte: Ministério das Relações Exterioes

Os Brics e o rompimento da unipolaridade

A demanda pela democratização da governança mundial e pelo fortalecimento do sistema multilateral por meio de maior participação dos países que representam potências médias é uma proposta do PT há muito tempo. A articulação entre vários desses países em torno de interesses comuns começou a ser trabalhada pelo governo Lula em iniciativas como o Ibas (Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul), o G-20 na OMC, o G-20 financeiro e, desde 2009, anualmente nas Cúpulas de Chefes de Estado do Brasil, Rússia, Índia e China, países aos quais se somou a África do Sul em 2011, formando o agrupamento Brics.

A sigla Bric foi utilizada pelo economista norte americano Jim O’Neill em artigo escrito em 2001 ao se referir a quatro economias emergentes não filiadas à OCDE, Brasil, Rússia, Índia e China. Sua transformação em um agrupamento internacional se deu inicialmente em torno do potencial econômico que poderia representar. De fato, em 2002 o comércio intra Brics que em 2002 era de apenas US$ 27 bilhões, no final de 2011 já  era dez vezes maior. Do Brasil com esses países, era da ordem de US$ 10 bilhões em 2003 e em 2011 fechou em US$ 96 bilhões.

Entretanto, a China responde por quase 80% desses valores. Por isso, na visita oficial que a presidenta Dilma fez à Índia às vésperas da IV Cúpula do Brics em Nova Délhi, foi acertada a intenção de elevar as transações entre os dois países dos atuais US$ 9,2 bilhões para US$ 15 bilhões em 2015.

Esta Cúpula de Chefes de Estado, intitulada “Parceria para a Estabilidade Global, Segurança e Prosperidade”, realizada em 29 de março, teve um caráter inusitado. Além de tratar de temas econômicos, adotou posições em torno de assuntos como segurança e governabilidade mundial. Do ponto de vista do realismo político, isso faz muito sentido, pois o território dos Brics cobre 26% do planeta, detém 43% da população e 46% da força de trabalho do mundo. A previsão é que o bloco responda em 2012 por 56% do crescimento econômico mundial.

A possibilidade de coordenação de posições sobre a política mundial se fortaleceu a partir de 2011, quando os cinco países compartilharam mandatos no Conselho de Segurança da ONU, no qual apenas China e Rússia são membros permanentes com poder de veto. Neste encontro, o debate girou em torno de Líbia, Síria e Irã, que estavam e continuam sendo pressionados pelos países membros da Otan, A Declaração Final da IV Cúpula reitera a postura favorável à construção da paz no Oriente Médio e à busca da solução para os conflitos na Síria e no Afeganistão, bem como para as controvérsias do programa nuclear iraniano por meios pacíficos.

O documento também tece críticas à excessiva liquidez e volatilidade de capital promovida pelos Bancos Centrais dos países desenvolvidos, que, em vez de contribuir para sua recuperação econômica, tem provocado instabilidade monetária nos demais, como vem ocorrendo de modo mais intenso na África do Sul e no Brasil. Diante dessa questão, os Brics se propuseram a intervir coordenadamente na próxima reunião do G-20 financeiro, agendada para junho, no México, além de reivindicar maior velocidade na mudança do sistema de cotas do FMI e do Banco Mundial acordada em 2010. Em relação ao pedido do FMI para os Brics lhe aportarem maiores recursos, sua posição foi que esse aporte depende de maior confiança na eficiência do fundo, vinculada, por sua vez, à ampliação do poder de decisão dos países em desenvolvimento na instituição.

Outra decisão importante foi criar um grupo de trabalho intergovernamental para avaliar e propor a constituição de um Banco de Desenvolvimento dos Brics. O grupo deverá reportar a respeito do tema na V Cúpula, em 2013, na África do Sul.

Nesse momento de incertezas e insegurança geradas pela crise econômica nos países centrais com profundos desdobramentos sociais e políticos, o agrupamento Brics tem papel importante, embora nunca se deva esquecer que é um conjunto de países muito distintos. Grosso modo, situam-se em quatro continentes diferentes, três deles – Rússia, Índia e China – possuem armas atômicas e os dois primeiros são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O sistema político e os interesses individuais também se diferenciam. Dessa forma, no caso do Brasil, é importante combinar essa articulação com outras iniciativas como a Unasul e, principalmente, o Fórum Ibas, que se encontra muito avançado tematicamente, possuindo inclusive um fundo para cooperação com terceiros países, como a Palestina e o Haiti.

Fonte: Teoria e Debate

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A nova doutrina da Otan

Os Estados Unidos e a União Europeia foram os principais promotores de duas iniciativas na segunda quinzena de maio visando retomar a hegemonia da governança mundial abalada pela crise econômica iniciada em 2007 e agora agravada no continente europeu, bem como pelos altos custos das guerras imperialistas que moveram durante a última década. Primeiro foi a Cúpula do G-8 em Camp David, nos EUA, em 19 de maio, que aprovou uma contraditória resolução para enfrentar a crise por meio de medidas de austeridade combinadas com crescimento econômico. e em seguida a 25ª Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) durante dois dias, em Chicago.

A agenda oficial desta última era a discussão sobre o encerramento das operações da Otan no Afeganistão, mas na prática visou aprofundar o entendimento sobre a nova doutrina da organização para que ela substitua os Estados Unidos no papel de gendarme mundial.

A Otan foi criada em 1949 e era uma coalizão militar entre os países capitalistas do hemisfério norte para fazer frente ao poderio da União Soviética. No entender de seu primeiro secretário-geral, Lord Ismay, seu objetivo era “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães para baixo” no espaço geopolítico setentrional do Oceano Atlântico. Com o fim dos regimes de socialismo real no Leste Europeu e da aliança militar desses países (Pacto de Varsóvia) em 1991, bem como da própria Guerra Fria, em tese a Otan perderia sua razão de ser, mas não foi assim.

Além da ampliação dos países membros com a adesão de alguns ex-integrantes do Pacto de Varsóvia, como a República Tcheca e a Hungria, entre outros, e alguns países balcânicos, chegando a um total de 28 associados, buscou-se disponibilizar o poderio militar da Otan para atender aos interesses, principalmente, dos EUA e da União Europeia, passando inclusive ao largo do Conselho de Segurança da ONU quando esses viessem a sofrer oposição da Rússia e da China, como ocorreu no caso da intervenção em Kosovo e do bombardeio da Sérvia em 1999.

Aos europeus interessava naquele momento neutralizar os nacionalistas sérvios e ampliar sua influência política e econômica em direção aos Bálcãs e ao Leste Europeu. O preço do engajamento dos Estados Unidos nesse projeto foi o abandono da tentativa de criar uma organização de segurança europeia comum e substituí-la pela Otan a partir de 2002.

Em 2001, a Otan foi a base da coalizão que invadiu o Afeganistão em resposta ao “11 de Setembro”, mas para atacar o Iraque dois anos depois foi formado outro fórum liderado pelos EUA e pela Inglaterra, devido à oposição da França e da Alemanha a essa iniciativa bélica articulada pelos americanos.

Na 24ª Cúpula, realizada em Lisboa em 2010, foi aprovada a nova doutrina de “parcerias globais”, prevendo a possibilidade de intervenções militares da Otan não apenas para proteger seus países membros, mas para agir em qualquer região do mundo contra o terrorismo e em defesa da democracia e dos direitos humanos.

A ideia de criar uma “Liga das Democracias”, em que os países “democráticos” possam manejar seus interesses relacionados a segurança sem sofrer restrições de países “não democráticos” ou então o veto da China ou da Rússia no Conselho de Segurança da ONU partiu de John McCain, candidato presidencial republicano derrotado por Barack Obama em 2008. No entanto, Obama adotou a proposta de McCain com a intenção de “dirigir o veículo desde o assento traseiro”, como ocorreu na intervenção da Otan na Líbia em 2010 para derrubar o presidente Muamar Kadafi e como pretende agora ao atribuir à Otan a tarefa de instalar o escudo antimíssil no Leste Europeu anteriormente planejado por George Bush.

Os membros da Otan respondem atualmente por 70% dos gastos mundiais em armamentos e defesa, dos quais 43% de responsabilidade apenas dos EUA. Na Cúpula de Chicago, além dos 28 membros da organização, compareceram 32 países convidados, mostrando assim a clara intenção de ampliar sua representação. O que ainda não está resolvido é o orçamento e o rateio das contribuições dos associados.

O debate do G-8 sobre a crise visa neutralizar o G-20 financeiro e a nova doutrina da Otan pretende substituir o papel da ONU nos temas relacionados a segurança. São reações à ascensão de novos atores internacionais como os Brics e ao fortalecimento do multilateralismo que, ao contrário do que defendem os americanos e europeus, tornam o mundo mais inseguro.

Fonte: Teoria e Debate

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