ENTREVISTA CONCEDIDA PELO PRESIDENTE HAMID KARZAI DO AFEGANISTÃO

Entrevista concedida pelo Presidente Hamid Karzai do Afeganistão em 24/1/2014

 
Entrevistadora: [*] Christina Lamb (correspondente em Kabul), Sunday Times, Londres
  
 
27/1/2014, Bakhtar News, Afeganistão
 
 
Traduzida da transcrição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu
 
Houve época em que Karzai foi o “queridinho do ocidente”, mas hoje o Presidente do Afeganistão − “louco e encurralado como um gato” − é evitado por Obama. Prestes a se despedir de seu cargo ele não faz rodeios ao acusar os EUA de trazer morte, desgraças e ilegalidades para sua terra.
 
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Presidente do Afeganistão, Hamid Karzai durante entrevista a seguir
Jornalista Christina Lamb: Obrigada, Sr. Presidente, por nos receber. Ocorreu-me, enquanto vinha para cá, que já são 12 anos desde que o senhor chegou à presidência. E durante todo esse tempo o senhor manteve relações muito boas com os EUA. Agora, parece que isso mudou. Em sua opinião, por que tudo isso está acontecendo?
 
 
 
Presidente Karzai: Desde bem antes disso, quando ainda estávamos em Peshawar nos anos da resistência contra os soviéticos, todos já sabíamos que os norte-americanos ajudavam os radicais, todos sabíamos de tudo, mas ainda considerávamos que fossem amigos do povo afegão e todos estávamos tentando tudo… Quando os Talibã apareceram, eu, inicialmente, apoiei os Talibã. Sentia que seriam as pessoas certas.
 
 
 
Como você sabe, fiz quase toda a minha resistência no Afeganistão com eles, através deles, naquele tempo. Foi assim até que me convenci de que eles estavam provocando desunião no país; que eram de modo geral armados por forças externas ao nosso país. Então, de 1996 em diante, foquei-me inteiramente nos EUA e passei a esperar que os EUA ajudassem o Afeganistão e o povo afegão. Falei no Senado; andei por todos os cantos e também pela Europa. Afinal, depois do 11/9, os norte-americanos chegaram; e o povo afegão os recebeu de coração aberto.
 
 
 
Na maior parte do país, os Talibã foram expulsos pelo povo, sem um único tiro: eles simplesmente deixavam suas bases e partiram. A partir de 2003, quando o general McKneill comandava aqui as forças dos EUA, nunca me cansei de falar aos norte-americanos que viviam aqui, sobre nossas tradições, nosso modo de vida, e de repetir que o povo afegão era amigo do povo dos EUA.
 
 
 
Quando os norte-americanos começaram a invadir casas, quando começaram a empregar bandidos que agiam com eles, quando começaram a atacar populações locais, quando começaram a intimidar… O que fiz foi dizer que não, que aquilo tinha de parar, que não podia continuar. Mas eles não me ouviram. Alertei-os sobre a região e nossa política regional, e também não me ouviram. Quando começaram a bombardear casas de civis, todos vinham falar comigo. Mas o governo então era muito fraco e eu nem tinha meios para produzir investigações e relatos oficiais, pela máquina do Estado, porque nem máquina do Estado havia. Mas as pessoas estavam vendo o que se passava e contavam: “presidente, estamos sendo atacados, estamos sendo bombardeados, o senhor não sabe… Nossas casas são atacadas, as mulheres e as crianças são intimidadas”. Naquele momento, o que fiz foi convocar os generais norte-americanos para que se reunissem com generais afegãos e o embaixador dos EUA.
 
 
 
Por quase dois anos, até 2005, não mobilizei a imprensa, nem falei publicamente contra o que estava acontecendo no Afeganistão. Mas de 2005 em diante, dado o número de baixas entre os civis, senti que ninguém estava ouvindo o que todos diziam aqui no Afeganistão, que ninguém estava prestando atenção, e que era meu dever trabalhar e me manifestar mais publicamente. E continuou a ação dos norte-americanos, de negligenciar a população civil, de bombardear alvos afegãos, de profanar locais religiosos e tudo que hoje se sabe.
 
 
 
Os norte-americanos também começaram a trabalhar empenhadamente contra o governo afegão, contra sua autoridade, contra nossas instituições. Os norte-americanos nunca se interessaram pela polícia afegã, porque sempre usaram sua própria “segurança privada”, gastando aí o dinheiro que deveriam gastar para treinar a polícia pública afegã. Nunca parei de dizer tudo isso aos norte-americanos – que nós sabíamos das empresas de segurança privada, das estruturas paralelas contra o governo afegão, porque tudo isso criava contrastes inadmissíveis, além de outras dificuldades.
 
 Mas os norte-americanos jamais trabalharam comigo; sempre trabalharam contra mim em todas essas questões – a prisão de Bagram é um desses casos, mas não é o único. Há uma longa lista de questões extremamente importantes para os afegãos, às quais os norte-americanos jamais deram atenção alguma. 
 
 
 
Acabei por começar a sentir que se os norte-americanos absolutamente não se interessavam por nós. E, se estavam aqui exclusivamente por interesses deles mesmos, eu tinha obrigação de tomar posição.
  
Não que eu estivesse contra eles, não, de modo algum. Sou homem completamente pró-Ocidente, desejo contato e engajamento com países ocidentais. Mas é claro que tudo isso tem de ser feito sob relações de respeito! O povo afegão tem de ser respeitado… Somos povo pacífico, vivemos aqui há milênios, não podemos nos conformar com viver amedrontados, em medo perpétuo.
 
E foi essa “nova” atitude que decidimos tomar no Afeganistão, que “mudou” o relacionamento que havia entre nós.
 
Jornalista: Como o senhor sente-se, ao ler que [Robert] Gates escreveu que o presidente Obama “não tolera Karzai”?
   
Presidente Karzai: Não sei o que significa isso. Ora… talvez alguém “não tolere” minhas declarações. Talvez alguém não tolere que o presidente de país pobre, como o Afeganistão, ponha-se a falar como nós falamos. Se é isso, estão enganados. Por mais pobre que seja o Afeganistão, ainda somos um país. Não sabemos de “potências”: “potência”, para nós, somos nós mesmos, embora pobres, mas, mesmo assim, é claro, com nossos próprios interesses, como qualquer sociedade, qualquer povo. Temos nossas crianças, nossas famílias, quero viver num bom país. Pessoalmente, sempre fui cordial e respeitoso com o presidente Obama, porque é presidente dos EUA e porque, na minha presença, sempre foi cordial e civilizado. Quero dizer… De minha parte, respeito e considero o presidente Obama e desejo-lhe sorte e felicidade.
 
 Jornalista: Mas o presidente Bush fez muito mais esforços para ter e manter um relacionamento com o senhor. E os dois mantinham videoconferências semanais…
  
Presidente Karzai: É, videoconferências semanais, não. O presidente Obama e eu nos encontramos em algumas videoconferências, mas nenhum encontro, nem por videoconferência depois de julho (ou talvez antes, em junho), quando nos encontramos pessoalmente naquela reunião. Depois daquilo não nos falamos mais. E o presidente Obama teve a gentileza de mandar-me um cartão com votos de Feliz Ano Novo.
  
Jornalista: Nunca mais se falaram, desde, talvez, junho, julho?
  
Presidente Karzai: De fato, não estou lembrado se, alguma vez, falamos por telefone… Nos vimos na África do Sul, mas não nos falamos. Trocamos cartas, sim, é verdade.
  
Com o presidente Bush, sim, era um bom relacionamento, e também com o presidente Obama.
 
 Mas as relações entre países como o Afeganistão e os EUA começaram a deteriorar-se já no segundo mandato do presidente Bush, em 2007, depois do bombardeio de Hirat, contra nossos civis, e com mudança drástica na opinião sobre a pulverização aérea que queriam fazem sobre nossas terras plantadas, e contra a qual me opus. Opus-me frontalmente, completamente, Mas eles queriam e queriam. E eu me opus, disse não. Na verdade, pode-se dizer que as dificuldades começaram ali; e quando tentavam trazer para o Afeganistão uma super autoridade da ONU, [Paddy] Ashdown. É diplomata talentoso, por quem eu tinha muito respeito. Qualquer outra pessoa seria igualmente pessoalmente respeitada por mim. E ele compreendeu meu ponto de vista, compreendeu que o Afeganistão precisa ter governo próprio, que têm de cuidar de seus próprios negócios, que não somos alguma espécie de protetorado, que não podemos ser tratados como protetorado. Ashdown compreendeu tudo isso muito bem. Mas o plano concebido, que deveria andar nessa direção, não foi plano amigável em relação ao Afeganistão.
  
Jornalista: Sim, exatamente.
 
 Presidente Karzai: Era um plano conjunto norte-americano e britânico, e os europeus também. E comecei a desconfiar que tentavam nos empurrar para um limbo.
  
Jornalista: Os norte-americanos estão hoje muito zangados, porque o senhor libertou alguns dos prisioneiros.
 
 Presidente Karzai: É. Estão.
 
 Jornalista: Dizem que são perigosos.
 
 Presidente Karzai: Não vemos assim, definitivamente não acreditamos nisso. Antes de eu ir a Bagram… Para resumir tudo o que deu errado em nosso relacionamento com os EUA, talvez o melhor seja recorrer a um verso de Shelley, o grande poeta britânico: quando ia para Bagram “encontrei a morte no caminho”. [1] Esses doze anos foram anos de suplicar aos EUA: por favor, respeitem nossos civis, tratem-nos com respeito; e nossa vida, como vidas humanas.
  
Estou lendo um livro, comecei a ler anteontem, de Ben Anderson, o correspondente norte-americano, que diz, em seu livro… É chocante, chocante para mim. Se eu tivesse sabido de tudo aquilo naquele momento, teria protestado muito fortemente. Só fiquei sabendo por aquele livro, ontem, que o general Petreaus ordenou que se intensificassem as operações e que, de julho a novembro de 2010, foram 3.500 bombardeios contra nosso país.
  
Jornalista: É muito!
  
Presidente Karzai: 3.500 bombardeios contra nosso país, bombardeios aéreos, inacreditável, chocante!
 
 Jornalista: Quando ele [general Petreaus] esteve aqui, lembrei, na ocasião, que ele disse “viemos para vencer a guerra”. Não estava pensando em negociações.
  
Presidente Karzai: Mas… vencer a guerra contra quem? Contra o povo afegão? Não há dúvidas de que, sim, as coisas foram por péssimo caminho, porque “encontrei a morte no caminho”.
  
Nunca pedi nem ajuda nem dinheiro aos norte-americanos, para o Afeganistão. Nunca discuti questões econômicas com os norte-americanos. Nunca pedi ajuda para nosso país. Só pedi uma abordagem racional e justa na guerra ao terror.  Se entendem que os santuários estão acima do Afeganistão, que cuidem disso. Se entenderem que há algum problema dentro do Afeganistão, é problema a ser resolvido por nós, pelos afegãos; e nada, absolutamente nada poderá jamais ser resolvido pelos EUA, se só fazem conduzir operações de guerra e bombardear.
 
 A prisão de Bagram já era problema para mim, há muito tempo, em 2005, 2006, 2007. Mas passou a ser para mim problema extremamente importante, ao qual passei a dar atenção total e imediata, depois de uma reunião com o vice-presidente Joe Biden, que então ainda era senador Joe Biden, o senador Graham em dois outros respeitados senadores dos EUA, MacCain e Lieberman. Deixo os senadores MacCain e senador Lieberman fora dessa discussão, porque não participaram daquela conversa. De fato, naquela reunião, mostraram, até, muito mais consideração e gentileza.
 
 O senador Graham disse-me – no início de 2008 (a data aparece corretamente citada no livro de [Robert] Gates, mas agora não lembro exatamente; no inverso, me parece, de 2008) – o senador Graham diz-me que os norte-americanos vão construir grandes prisões para acomodar maior número de prisioneiros afegãos. Perguntei por quê. Por que vocês construirão prisões no Afeganistão? Não é o mesmo que fizeram os soviéticos? E os afegãos não nos levantamos contra os soviéticos, precisamente por isso? Não foi essa a razão principal? Ele respondeu que “bem… prenderemos até os suspeitos contra os quais só haja leves suspeitas, e assim meteremos milhares de afegãos na cadeia”. Eu disse a ele que não permitiria que fizessem tal coisa. Ele respondeu “você é só um!
 
 Para muitos membros do governo dos EUA, o Afeganistão não era nem povo nem governo, não havia presidente aqui, eu não passava de “um homem só”.
 
 Daquele dia em diante, quando os EUA meteram milhares de pessoas em Bagram, eu passei a exigir o fim imediato daquela prisão e trabalhei contra aquela prisão durante anos; até que, em 2009 e 2010, tive de forçar os EUA a desistir da prisão; acabaram por desistir em 2010 ou 2012. Mas não preciso comentar em detalhes tudo que nós fizemos até conseguir isso.
  
Minha avaliação é que Bagram não é prisão que os EUA usem para prender bandidos e criminosos. Não. Minha avaliação é que Bagram existe para gerar ódio na população afegã contra o próprio país e o próprio governo e contra os que foram libertados ontem pela Comissão. São casos que estudamos detalhadamente durante três meses. E a conclusão de nossa inteligência e de todos que examinaram os casos é que, de 88 prisioneiros, mais de 40 são pessoas contra as quais nada há nos nossos arquivos e na nossa inteligência; sobre 27, só há uma referência; 16 são definidos como “vindos de ambientes suspeitos” (esses 16 não serão libertados). Todos os demais foram libertados pelo nosso sistema judiciário.
  
Jornalista: Mas o momento de libertar esses prisioneiros não lhe parece um pouco… provocativo? Os americanos não queriam que os prisioneiros fossem libertados.
 
 Presidente Karzai: Não, não é provocativo. Não trabalhamos por “momentos”e “oportunidades”. Trabalhamos sobre fatos, o lado certo e o lado errado das coisas. Nossa avaliação considerou direitos bem claros: ninguém pode manter alguém na prisão, se se entende que ele ou ela é inocente. E os prisioneiros que foram libertados são os que nós consideramos inocentes; o sistema não encontrou sinal de conduta criminosa no que eles fizeram. Por isso decidimos libertá-los, e eles voltaram para casa.
  
Jornalista: E sobre tudo que aconteceu durante os últimos 12 anos? Terrivelmente triste, não lhe parece? Quero dizer… os EUA perderam tantas vidas e tanto dinheiro…
 
 Presidente Karzai: Muito triste, infelizmente, sim, também para eles, para os EUA, para os soldados dos EUA, para os que morreram, toda a nossa simpatia e nossa solidariedade às famílias enlutadas. Sinto pelas famílias norte-americanas, exatamente como sinto pelas famílias afegãs. Temos de separar esses sentimentos de solidariedade humana, de um lado; e, de outro, nossos sentimentos relacionados ao que o governo dos EUA fez ao Afeganistão. Temos imenso respeito pelo povo dos EUA. Sabemos que o dinheiro dos contribuintes dos EUA correu em grande quantidade para o Afeganistão. Mas quem consumiu e fez sumir, aqui, mal empregado, mal administrado, todo esse dinheiro do povo dos EUA, não fomos nós: foi o governo dos EUA.
 
 Respeitamos profundamente a vida dos soldados norte-americanos que morreram no Afeganistão. Mas discordamos fortemente do modo como os EUA chegaram ao Afeganistão, do modo como agiram aqui, do modo como se conduziram aqui. Sabemos fazer a diferença. Sabemos respeitar o que tem de ser respeitado.
  
Jornalista: E agora? O senhor está preocupado, agora que os EUA declararam que não deixarão soldados no Afeganistão?
  
Presidente Karzai: Que deixem ou não deixem é decisão que eles têm de tomar, não nós. Seja como for, algum dia terão de ir embora. E o Afeganistão terá de encontrar seu próprio caminho. Vivemos sob guerras, levantes, e sofrimentos para todos já há 30 anos. Vocês [a jornalista e seu jornal] estavam aqui, e nos acompanharam de perto. Vocês conhecem o Afeganistão desde 1987. Desde 1987, como vocês sabem bem, não houve um dia de paz. Quantos afegãos preocupam-se por não poderem mandar os filhos à escola? E, se vão, as mães desesperam-se porque não sabem se voltarão. Tudo isso tem de acabar. Tenho tentado fazer o meu melhor para pôr fim a tudo isso, antes de assinar o acordo de parceria com os EUA. Esse acordo tem de ser instrumento que sirva aos objetivos do Afeganistão, de segurança e paz para o povo afegão.
  
Jornalista: E o senhor entende que um modo de pôr fim a tudo é firmar um acordo com os Talibã?
  
Presidente Karzai: A verdade é que, se os Talibã são problema interno do Afeganistão, nesse caso, como no caso de todos os nossos problemas internos, nós, os afegãos, nós mesmos, temos de equacionar o problema. E se os Talibã são problema externo, nesse caso os EUA devem unir-se aos afegãos para equacionar o problema externo. E veem-se aí elementos de problema interno e de problema externo, nesse caso temos de tratar de delimitar o que é problema interno e o que é problema externo, para resolver tudo.
  
Jornalista: No sábado, o senhor disse que queria que os EUA trouxessem paz e segurança e o processo de paz, e que trouxessem os Talibã para a mesa de negociações. Como o senhor imagina que os EUA possam fazer isso? Será que os EUA têm poder para obrigar os Talibã a vir, sentar e conversar com o senhor?
  
Presidente Karzai: Se não têm poder para fazer isso, que o declarem; que expliquem: como é possível que os EUA não tenham poder para trazer os Talibã à mesa de negociações? Se os EUA não têm poder sobre o governo do Paquistão, então devem dizer que não têm; se o governo do Paquistão não está colaborando, devem explicar o que se passa; se entendem que os Talibã não querem discutir com todos esses atores, nesse caso talvez aceitem discutir conosco; nesse caso, o trabalho será nosso, do Afeganistão; é assunto interno e terá de ser tratado como assunto interno. Tudo isso nós precisamos entender. O que mais me interessa agora é clareza.
  
Jornalista: O senhor acredita que o governo dos EUA possa persuadir o governo do Paquistão para que faça tudo isso? E o senhor acha que o governo do Paquistão tem poder para trazer os Talibã à mesa de negociações, ou a negociações com um ou outro governo?
 
Presidente Karzai: Nessa discussão há quatro partes envolvidas: o governo afegão e a nação afegã; o governo dos EUA; o governo do Paquistão; e os Talibã.
 
 Os Talibã mataram meu irmão. Dia seguinte eu continuava a dizer que os Talibã são nossos irmãos e continuei a falar de paz. Depois mataram o Presidente Rabbani, que presidia o Conselho de Paz; continuei a chamá-los irmãos e a pedir paz; continuaram a explodir carros e bombas ou, pelo menos, os autores daqueles atentados diziam que agiam em nome dos Talibã; e continuei a dizer que os Talibã são afegãos e são nossos irmãos. Tudo isso para dizer que a nossa posição é clara: queremos paz.
  
Os norte-americanos dizem que também trabalham pela paz. Resta considerar os dois elementos remanescentes. No Paquistão dizem que estão fazendo o possível. E, se estiverem fazendo o máximo possível, algum resultado haverá de aparecer. Apesar das dificuldades, porém, há progressos.
  
Se, dos três envolvidos nesse quadrado de quatro, só restar um dos jogadores, num dos cantos, no “corner” dos Talibã, nós podemos lidar com a situação, se nós três trabalharmos nessa direção. Procuro, exatamente, esse tipo de clareza.
 
 Já disse tudo isso ao governo dos EUA, inclusive hoje cedo: que eles devem vir a público e esclarecer sua posição, de tal modo que eu possa ir ao povo do Afeganistão e dizer “a situação é essa: as condições que nós impusemos para o processo de paz, para que iniciemos o processo de paz, não puderam ser aceitas pelos EUA [por tais e tais razões]. OK. Temos de encontrar outra via que nos leve à paz”.
 
 Jornalista: O senhor acredita quando o Paquistão diz que não controla, que não tem meios parara fazer os Talibã vir e sentar com o senhor?
 
 Presidente Karzai: Os paquistaneses dizem que não controlam os Talibã, mas vivem a repetir que têm influência sobre os Talibã. Essa influência pode ser considerável, pode ser usada. Se já usaram alguma vez essa influência, agora é bom momento para provar que podem usá-la.
 
 Jornalista: E onde o senhor imagina que esteja o Mulá Omar? O senhor acredita que esteja vivo?
 
 Presidente Karzai: Não há dúvidas de que está vivo, sim. Creio que está no Paquistão.
 
 Jornalista: O senhor tem algum contato com ele?
 
 Presidente Karzai: Não diretamente. Contato direto, não.
 
 Jornalista: Sábado (18/1/2014), ouvi com interesse uma comparação que o senhor fez, sobre o Acordo Bilateral de Segurança. O senhor usou exemplos de nossa história comum [britânicos e afegãos].
 
 Presidente Karzai: Sobre a Linha Durand? Sim, sim.
 
 Jornalista: É, Linha Durand, Gandomak. Como o senhor se sente sobre o que os britânicos fizeram aqui em Helmand. Ando para lá e para cá… Não lhe parece difícil dizer que a situação hoje esteja muito melhor, mesmo, que antes, quando os britânicos chegaram?
  
Presidente Karzai: Já me pronunciei, antes, sobre os britânicos em Helmand. Uma vez, em Davos, disse algo sobre isso, acho que foi em 2007, bem quando eles pensavam em indicar Lord Ashdown. E havia muita fúria na imprensa britânica, lembra-se?
  
Mas digamos, em termos gerais, que a missão da OTAN liderada pelos EUA no Afeganistão, para trazer segurança e estabilidade, não foi bem-sucedida, particularmente em Helmand. Mas o governo britânico conduziu-se conosco de modo muito civilizado, o que muito aprecio, todos os governos britânicos, especialmente o governo do Primeiro-Ministro Cameron, que foi parceiro compreensivo e muito civilizado com os afegãos; e que tentou sem parar melhorar as relações entre nós e o Paquistão.
 
Jornalista: Mas no início, eles [os britânicos] insistiram em tirar de lá o seu governador, que tinham boas relações com…
 
 Presidente Karzai: Fizeram muito mal, foi mal feito, foi um erro. Espero que os britânicos tenham aprendido, que tenham entendido que não deveriam tem feito.
 
 Jornalista: O senhor entende que a situação teria sido melhor se tivessem mandado tropas? Não lhe parece que os ataques funcionam como ímãs para os insurgentes e que até os soldados poderiam unir-se à insurgência?
  
Presidente Karzai: Sim, parece-me que sim. Os afegãos não eram anti-norte-americanos ou anti-britânicos. De fato, sempre os apoiaram, e apoiaram também a chegada da comunidade internacional. Todos os nossos problemas foram criados pelas invasões violentas em casas de civis, e todas as demais violências e, de fato, em termos reais, pelo trabalho incansável para minar o governo afegão.
 
Jornalista: Mas como o senhor acha que minaram o seu governo?
 
 Presidente Karzai: Tudo aquilo que fizeram, criar milícias, criar empresas privadas de segurança – o que gerou corrupção, descrédito da lei e do aparato judiciário, brutalidade, roubalheira generalizada, criar estruturas paralelas, guerra psicológica incansável contra o povo afegão, para nos desmoralizar, nos intimidar, ameaçar-nos com “consequências”, se não fizéssemos o que ordenavam, facilitar a saída de dinheiro do país, tudo isso. Tenho uma lista enorme.
 
Jornalista: O que me parece, andando como ando, pelo país, como o senhor sabe, há tanto tempo, é que, cada ano que volto para cá há menos lugares aos quais posso ir no Afeganistão.
 
 Presidente Karzai: Exatamente, exatamente. O ponto é exatamente esse. O que eles efetivamente fizeram foi criar bolsões de riqueza, num vasto mar de miséria e privações e ira. Isso, exatamente, é o que fizeram. E daí advêm os nossos problemas. E isso, precisamente, é o que me deixa furioso. Nunca parei de repetir que não fizessem isso. Por isso, exatamente, quero tanto o processo de paz; porque, sem um processo de paz, a única coisa que o Acordo Bilateral de Segurança obterá será o impacto oposto, um impacto negativo. Porque uma parte do país estará sob ataque e alguns que recebem salários e contratos em dólares aí estarão, conectados a um poder externo; e o resto do país estará abandonado ou, ainda pior, estará sob ataque.
 
 Jornalista: O que lhe posso dizer é que todos com quem conversei desde que cheguei, inclusive seu irmão, dizem que querem o Acordo Bilateral de Segurança.
 
 Presidente Karzai: Eu também quero. Não estou contra o ABS. Se estivesse contra o Acordo, não teria convocado a Jirga! Quero também o Acordo. Mas quero-o nas circunstâncias certas, para o objetivo certo. Para que queremos que os americanos fiquem aqui? Será que os queremos aqui para perpetuar a guerra e os conflitos e os sofrimentos dos civis, e as família vivendo em estado de perpétuo medo? Ou queremos que as bases dos EUA permaneçam aqui para cuidar de nossa segurança, como uma espécie, como se diz, de âncora? Queremos que sirvam só para impedir o início do processo de paz, como parece ser o caso, hoje?
 
 Jornalista: Mas os EUA estão dizendo (o senhor com certeza viu ontem e hoje: o New York Times está dizendo que o senhor, provavelmente, é quem está inventando aquelas fotos e pagando pessoas pra dizerem que aquelas coisas são verdade. O que lhe parece tudo isso?
  
Presidente Karzai: São mentiras! Avise ao New York Times. Assisti diretamente ao vídeo, visitei várias pessoas feridas anteontem, havia mulheres e crianças mortas. O New York Times diz que não foram 12, que foram menos de 12. OK, digamos, para concordar com o New York Times, que tenham sido, seis, cinco? Que diferença faz? Se fosse uma única, o que mudaria?
 
 Ninguém pode reduzir a questão vastíssima de um ataque à bomba contra uma residência de civis, contra uma moradia familiar, à discussão sobre números e imagens. Que diferença faria, se alguém usasse uma foto antiga, que não faz desaparecer o fato de que ali morreram mulheres e crianças, que uma casa de família foi bombardeada, que há mulheres e crianças mortas?
  
Jornalista: Não o preocupa a possibilidade de, se retirarem os soldados, ainda assim continuarão a usar os drones, como fizeram no Paquistão?
 
 Presidente Karzai: Bem, se o fizerem, será guerra contra o povo afegão. Ao mesmo tempo em que se dizem nossos aliados, nos bombardeiam?
 
 Jornalista: O que o senhor gostaria de ver como seu legado, depois de deixar o governo?
 
 Presidente Karzai: Acho que meu legado já está aí. Felizmente, só faltam dois meses. Afinal, 12 anos é tempo muito longo. Quando cheguei à presidência, o Afeganistão não tinha governo; hoje, tem; não tinha Constituição; hoje, tem.
 
 Jornalista: Acho que o senhor nunca teve aquecedores nesse palácio?
 
Presidente Karzai: Não, nunca. Hoje temos milhões de crianças que frequentam escolas, universidades, milhares dos nossos jovens, moços e moças, estudam no exterior. Temos Mujahid, comunistas, chefes tribais, clérigos, mulheres e homens sentados lado a lado, negociando as questões do governo e com o governo. O Afeganistão é hoje país para todos os afegãos. É minha principal realização: vivemos num país que é lar de todos os afegãos.
 
Há onze candidatos concorrendo nas eleições presidenciais, está aí bem representada uma combinação do povo e do pensamento afegãos.
 
Jornalista: E os senhores-da-guerra.
 
Presidente Karzai: E dos senhores-da-guerra. Todos. Esse país tem muito a mostrar. Somos gratos pela assistência que recebemos de todo o mundo. Não chegamos a falar sobre isso. Construíram escolas, clínicas, pelas quais nós agradecemos. O dinheiro que ajudou a construir estradas, a melhorar o padrão de vida, somos gratos por tudo isso, aos EUA, à Grã-Bretanha, à Europa, a todos. Mas esse país poderia ser ainda muito melhor país, com uma boa e honesta aliança, e muito menos sofrimento para o povo afegão e para os soldados de EUA e OTAN.
 
Jornalista: Se o Acordo de Segurança Bilateral não for assinado, os EUA também retirarão todos os financiamentos e grande parte do que o senhor listou ficará ameaçado.
 
Presidente Karzai: Não quero isso, mas se chegar até lá, direi ao povo afegão que temos de escolher entre continuar essa vida de incerteza, de conflito interminável, de bombas, e nos separar disso tudo, dar adeus a tudo isso, na esperança de que possamos encontrar meios próprios e viver nossa própria vida como decidirmos viver, tentar nossas ideias sobre a paz. Se você me pergunta como indivíduo, como cidadão afegão, eu preferiria viver na pobreza, a viver na incerteza. Prefiro que meu filho seja filho de alguém muito pobre, mas que viva em segurança e confiante, que possa ir todos os dias à escola e volte para casa. Não importa que volte para uma casa pobre, desde que volte e que saiba que há futuro para ele. Os EUA e o Acordo de Segurança Bilateral têm de assegurar esse futuro ao povo afegão. O dinheiro não é tudo.
 
Jornalista: Mas o senhor terá meios para manter seu próprio exército?
 
Presidente Karzai: E por que não? Sempre mantivemos nossos próprios exércitos há séculos. Não é a primeira vez que temos exército. Tivemos muitos, magníficos exércitos!
 
Jornalista: Sabemos muito bem disso.
 
Presidente Karzai: Pois é. Podemos pagar. O problema não é esse. Não acho que a dependência seja o principal fator que nos forçaria a assinar o Acordo Bilateral de Segurança. Não é. O principal fator por trás dele, ou o desejo por esse acordo, é que ele traga clareza ao conflito, que traga paz ou que identifique o culpado.
 
Jornalista: É verdade que o senhor não quer ser o presidente que assinou tal acordo?
 
Presidente Karzai: Não. Eu gostaria muito de assinar o Acordo Bilateral de Segurança, se pudesse ter certeza de que estou fazendo o melhor para o povo afegão. Sei que a ideia de permanecer engajado como ocidente, com os EUA, é acertada. Mas entregar o Acordo aos EUA, sem que nada assegure melhorias no futuro do Afeganistão, não, não está certo. E não posso assinar algo no qual, pessoalmente, não confio completamente. Não posso impor aos afegãos algo que não considero plenamente correto.
 
Jornalista: O senhor espera que o próximo presidente assinará o acordo?
 
Presidente Karzai: O próximo presidente não terá minha experiência, nem meus pensamentos. Não terá passado pelas etapas e pelas coisas pelas quais eu passei. Minha cabeça é feita do que vi. Vi poucas coisas boas, então sou cauteloso e talvez mais sábio. É resultado do que vivi. Tenho tentado manter a prudência para fazer a coisa certa. É decisão monumental, imensa, para o povo afegão.
 
Jornalista: Sem dúvida, é. Parece que sua história tem parte importante em sua decisão.
 
Presidente Karzai: Muito, muito importante. Sob pressão nossos reis assinaram coisas, e quase todas foram desastrosas para o Afeganistão. Se hoje, sob pressão, faço o mesmo, como se não soubesse as consequências? Tenho de estar absolutamente certo antes de assinar. Não é um jogo, e não é decisão individual: é uma decisão nacional.
 
Jornalista: O que o senhor vai fazer, quando deixar a presidência?
 
Presidente Karzai: O governo está construindo uma ótima casa, muito boa. E receberei uma ótima pensão, pelos padrões afegãos, é ótima. E terei muito que fazer.
 
Jornalista: O senhor ainda é homem jovem.
 
Presidente Karzai: Quando deixar a presidência, terei 56 anos e meio. Terei tempo, se Deus quiser, para viajar, visitar o país e usar bem o tempo para ir a um café, para visitar Londres no Natal, ver as luzes, os parques. Trabalhar para melhorar a educação no Afeganistão e conviver com o povo, nas ruas.
 
Jornalista: Lembro que o senhor contou que sentia falta de caminhar mais.
 
Presidente Karzai: É verdade. Sempre caminhei muito. Poderei voltar a caminhar.
 
Jornalista: Passar mais tempo com as crianças.
 
Presidente Karzai: É. Muito mais tempo…
 
Nota dos tradutores
 
[1] Percy Bysshe Shelley, The Mask of Anarchy. Trechos traduzidos em: Gato Vadio Livraria - Percy B. Shelley, “A Máscara da Anarquia”, & etc, 2008
 
[*] Christina Lamb (nascida em 15 de maio de 1966 em Londres, UK) é jornalista britânica que atualmente é Correspondente Internacional para o Sunday Times. Ela foi educada no University College, Oxford (BA em Filosofia, Política e Economia) e foi um Fellow Nieman da Universidade de Harvard. Ela é membro da Royal Geographical Society. Ganhou o prêmio Foreign Correspondent of the Year quatro vezes. Residiu e trabalhou em inúmeros locais como Londres, Portugal, Zimbabue, , Iraque, Paquistão e Afeganistão e  Brasil (onde casou-se com Paulo Anunciação com quem tem um filho, Lourenço –nascido em 1999). Entrevistou inúmeras figuras do cenário internacional como: Benazir Bhutto, Augusto Pinochet, Fernando Collor, Robert Mugabe. Iniciou carreira jornalística no Financial Times. 

 Fonte: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/02/ucrania-know-how-de-desestabilizacao.html

2013: o que mudou de fato no mundo?

O mais importante foi a mudança de clima no cenário mundial. Desde o triunfo na guerra fria, os EUA militarizavam os conflitos. Não foi assim com Síria e Irã.

Por Emir Sader

Como sempre, se acumulam uma quantidade de fatos – entre mortes, eleições, sublevações, etc. – que se destacam jornalisticamente no mundo, mas dificultam a compreensão das alterações nas relações de poder, as que efetivamente contam na evolução da situação internacional.

No emaranhado de acontecimentos, o mais importante foi a mudança de clima no cenário internacional. Desde que triunfou na guerra fria, os EUA tem tido como postura diante dos conflitos internacionais, sua militarização. Transferir para o campo em que sua superioridade é manifesta, tem sido a característica principal da ação imperial dos EUA. Foi assim no Afeganistão, no Iraque, por forças intermedias na Líbia. E se encaminhava para ser assim nos casos da Síria e do Irã.

De repente, pegando ao Secretario de Estado norteamericano, John Kerry, pela palavra, o governo russo propôs ao da Síria um acordo, que desconcertou o governo norteamericano, até que não pôde deixar de aceitar. Isto foi possível porque Obama não conseguiu criar as condições políticas para mais uma ofensiva militar dos EUA. Primeiro o Parlamento britânico negou o apoio a Washington.
Depois, foi ficando claro que nem a opinião publica, nem o Congresso norteamericano, nem os militares dos EUA, estavam a favor da ofensiva anunciada ou do tipo de ofensiva proposta.

O certo é que os EUA foram levados a aceitar a proposta russa, o que abriu as portas para outros desdobramentos, entre eles, combinado com as eleições no Irã, para a abertura de negociações políticas também com esse país por parte dos EUA. No seu conjunto, se desativava o foco mais perigoso de novos conflitos armados.

Como consequência, Israel, a Arábia Saudita, o Kuwait, ficaram isolados nas suas posições favoráveis a ações militares contra a Síria e até contra o Irã. Foi se instalando um clima de negociações, convocando-se de novo uma Conferência na segunda quinzena de janeiro, em Genebra, para discutir um acordo de paz. Uma conferência que não coloca como condição a questão da saída do governo de Assad, como se fazia anteriormente.

A oposição teve que aceitar participar, mesmo nessas condições. E ainda teve a surpresa que os EUA e a Grã Bretanha suspenderam o fornecimento de apoio militar aos setores opositores considerados moderados, que foram totalmente superados pelos fundamentalistas, apoiados pela Arabia Saudita e pelo Kuwait.

Como dois pontos determinam um plano, as negociações sobre a Síria abriram campo para as negociações dos EUA com o Irã, aproveitando-se da eleição do novo presidente iraniano. Desenhou-se, em poucas semanas, um quadro totalmente diverso daquele que tinha imperado ao longo de quase todo o ano. Os EUA passaram da ofensiva à defensiva, a Rússia, de ator marginal, a agente central nas negociações de paz, a ponto que a Forbes, pela primeira vez, elegeu Vladimir Puttin como o homem mais forte do mundo, na frente de Obama. Isso se deve não ao poderio militar ou econômico da Russia, mas ao poder de iniciativa política e de negociação que o país passou a ter.

Fonte: CartaMaior

EUA e OTAN estudam acelerar saída do Afeganistão e deixar problemas com governo local

Presidência norte-americana já teria desistido de entrar em acordo com o Talibã e admite força do grupo

Nas vésperas da invasão dos Estados Unidos no Afeganistão completar 11 anos, oficiais norte-americanos e da missão da OTAN enfrentam incertezas sobre o futuro da operação militar no país. Com uma taxa crescente de militares mortos em atentados terroristas e oficiais afegãos envolvidos nos ataques, autoridades começaram a encarar a possibilidade de acelerar a retirada de 120 mil tropas do território e deixar os problemas consequentes da guerra nas mãos dos afegãos.

Forças afegãs terão que assumir responsabilidades da missão da OTAN a partir do final de 2014

É isso o que mostra as reportagens especiais, divulgadas nesta terça-feira (02/10), do jornal norte-americano New York Times e do britânico Guardian.

“A partir de agora até o final de 2014, você pode ver adaptação na nossa presença. Nossas tropas podem ser recolocadas, assumir outras funções ou até mesmo serem retiradas, ou nós podemos reduzir o número de tropas estrangeiras”, afirmou o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussem, em entrevista ao Guardian.

Segundo ele, as decisões sobre os próximos passos dos militares da OTAN e dos EUA no Afeganistão devem se basear no relatório do general John Allen, chefe da operação, sobre os acontecimentos no campo. “As decisões políticas vão ser tomadas baseadas nas suas recomendações em como vamos nos adaptar e transferir a responsabilidade aos afegãos”, acrescentou Rasmussem.

Até 2014, a missão da OTAN deve encerrar suas atividades no país, que serão assumidas, integralmente, pelas forças afegãs. Apesar disso, o secretário-geral explicou que os oficiais do bloco militar vão continuar auxiliando e treinando os oficiais da polícia e das Forças Armadas do Afeganistão e que militares norte-americanos ainda permanecerão no país por conta de acordo bilateral entre Washington e Cabul.

Em relação ao envolvimento de oficiais afegãos em atentados terroristas contra tropas da OTAN e dos EUA, Rasmussem reconheceu a existência de uma crescente desconfiança entre os militares. No entanto, o secretário-geral acrescentou que, em muitos casos, os ataques eram realizados por infiltrados terroristas ou de talibãs disfarçados como oficiais.

Nem mesmo a investida militar norte-americana conseguiu reverter a situação da violência no Afeganistão e o poder de grupos terroristas. A operação, responsável pelo envio de 33 mil tropas adicionais ao território em 2009, terminou neste mês com poucos resultados.

De acordo com a organização ICasualties, o número de oficiais da OTAN e dos EUA mortos cresceu nestes últimos anos: em 2005, 131 militares faleceram e, em 2011, 566. Isso contribuiu para que a opinião pública dos países da OTAN e dos EUA se tornassem ainda mais insatisfeitas com a situação no Afeganistão.

Por conta desse contexto de exaustão entre a sociedade e as próprias tropas, o governo dos EUA já está abandonando seus planos de entrar em acordo com o Talibã, informaram diplomatas e militares ao New York Times. “É um inimigo muito resistente e eu não vou mentir em relação a isso”, disse um oficial.

Segundo eles, a Casa Branca está abandonando seus planos “ambiciosos” de derrotar ou negociar com o grupo terrorista afegão e começa a admitir a possibilidade de deixar o problema aos próximos governantes do país. De acordo com um militar que não quis se identificar, os EUA e a OTAN não vão conseguir resolver essa situação nos próximos dois anos. 

“O tom da discussão mudou para uma resolução menos liderada pelos norte-americanos e mais pelos afegãos, mas que terá mais tempo de duração”, explicou Shamila Chaudhary, analista no Grupo Eurasia e do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, ao New York Times.

No entanto, enquanto o número de militares norte-americanos diminui, a presença de forças de segurança privada contratadas pelo governo dos EUA aumenta. Não existe número certo sobre quantos mercenários servem atualmente no território afegão por conta do alto índice de subcontratações e falta de clareza nas informações.

O Departamento de Estado norte-americano estimou que, em 2011, existiam mais de 18 mil mercenários no país e o pesquisador Jeremy Scahill, em artigo no site The Nation, informou a existência de mais de 160 mil oficiais da segurança privada naquele ano.

Mesmo que a OTAN e os EUA retirem suas tropas e oficiais do país, o povo afegão ainda terá que enfrentar muitos problemas herdados da invasão de 2001.

Fonte: OperaMundi

Leia outras notícias sobre o Afeganistão.

Otan anuncia redução de operações conjuntas com forças de segurança afegãs

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico do Norte) anunciou nesta terça-feira que deve reduzir suas operações conjuntas com as forças de segurança do Afeganistão após uma série de incidentes nos últimos dias.

O chamado “fogo verde”, quando soldados afegãos abrem fogo contra os colegas das tropas internacionais, vem aumentando consideravelmente.

Um porta-voz da aliança militar ocidental disse que, no futuro, a coalizão entre as forças internacionais e afegãs só será colocada em ação para operações de grande escala.

Missões conjuntas menores deverão agora ser aprovadas por comandantes de alto escalão utilizando critérios caso a caso.

Analistas acreditam que as novas regras abalam a parte central da estratégia da Otan no Afeganistão, que primava até então pelo trabalho em parceria com as forças locais.

Mais de 50 soldados ocidentais foram mortos por seus colegas afegãos e a polícia local neste ano, sendo 15 só em agosto.

Fonte: BBCBrasil

Pepe Escobar: Como o Mal se tornou o Bem e agora voltou a ser o Mal

O tiro pela culatra que se levanta em Bengasi

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online

Muçulmanos paquistaneses queimam bandeira dos Estados Unidos durante manifestação em Quetta. (Foto: Banaras Khan / AFP Photo)

“Papai, o que é um tiro pela culatra?”

Aqui está uma fábula para contar às crianças, junto ao fogo, em um não tão distante e distópico futuro apocalíptico.

Era uma vez, durante a “guerra ao terror” de George “Dubya” Bush, as Forças do Bem no Afeganistão capturaram (e devidamente torturaram ) um terrorista maligno, Abu Yahia al-Libi.

Abu Yahia al-Libi era, com certeza, líbio. Foi submetido por três anos nas entranhas da prisão de Bagram, perto de Kabul, mas de alguma maneira conseguiu escapar daquela supostamente inexpugnável fortaleza em julho de 2005.

Por então, as Forças do Bem se davam muito bem na cama com o Coronel Gadaffi da Líbia, cujos serviços de espionagem (para o deleite da administração de Bush) estavam dando o que tinham de mais repugnante para exterminar, ou ao menos isolar, aos jihadistas-salafistas do tipo Al-Qaeda, no estilo de al-Libi.

No entanto, em 2011, as Forças do Bem, agora sob nova administração, decidiram que era hora de enterrar a já tão passada “guerra ao terror” e dançar conforme uma nova moda, mais popular: a intervenção humanitária, também caracterizada como “ação militar cinética”.

Daí que al-Libi retornou dos mortos (agora, lutando ao lado das Forças do Bem para destituir – e oportunamente eliminar – o “maligno” Coronel Gadaffi). Al-Libi tinha se tornado um “guerreiro da liberdade”, apesar de que ele conclamasse abertamente que a Líbia deveria se tornar um Emirado Islâmico.

A lua de mel não durou muito.

Em setembro de 2012, pela primeira vez em três meses, o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, conhecido como O Cirurgião, divulgou um vídeo especial de 42 minutos para “celebrar” o 11º aniversário do 11 de setembro, admitindo finalmente a eliminação de seu número dois.

Seu número dois não era outro que Abu Yahya al-Libi, que tinha sido alvejado no Waziristão em 4 de junho por um dos drones adorados pelo presidente Barack Obama.

Um efeito imediato do vídeo de al-Zawahiri foi que uma turba furiosa, conduzida pelo grupo islamista Ansar al Sharia, incendiou o consulado dos EUA em Bengasi. O embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto. Não importou o fato de que Stevens tinha sido um heroi dos “rebeldes da OTAN” que haviam “libertado” a Líbia – notoriamente salpicados com jihadistas-salafistas do tipo de al-Libi.

Stevens foi recompensado por Washington com o posto de embaixador tão somente depois de que o “maligno” Gadaffi finalmente tivesse sido sodomizado, linchado e assassinado por (o que mais) uma turba furiosa.

Assim que, por fim, a serpente pôde morder sua própria cauda.

Terror, terror, terror

O que ocorreu em Bengasi pode ter sido apenas um protesto fora de controle contra um filme amador grosseiro feito na Califórnia, produzido e dirigido por um corretor de imóveis estadunidense-israelense que é um comprovado islamófobo (agora, dizem que sua identidade era um disfarce), financiado com US$ 5 milhões de doadores judeus não identificados, o qual apresentava o Islã como “um câncer” e o Profeta Maomé como um mulherengo, pedófilo e, acima de tudo, uma fraude.  O filme foi devidamente propagandeado pelo pastor da Flórida, demente e fanático queimador de Alcorões, Terry Jones.

Porém, o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia é apenas o prato de entrada do que pode ocorrer na Síria, onde vintenas de “guerreiros da liberdade” apoiados pela CIA, pelos turcos e pela Casa de Saud estão vinculados a Al-Qaeda, seja por meio do supostamente reformista Grupo de Luta Islâmico Líbio (LIFG) ou por gangues terceirizadas como a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) ou Al-Qaeda no Magreb (AQIM).

Então, como Washington vai “submeter os perpetradores à justiça” da Líbia? Afinal, esta é a mesma gangue que foi saudada como “herois” quando eles sodomizaram, lincharam e eliminaram o “maligno” Gadaffi.

Asia Times Online vem alertando por mais de um ano sobre tiros pela culatra na Líbia – e potencialmente na Síria, onde sheiks sauditas medievais freneticamente emitem fátuas legitimando a matança em larga escala de “infieis”alauítas.

Tudo isso é uma reprise do mesmo velho filme sobre a jihad no Afeganistão na década de 1980; primeiro, eles são chamados de “guerreiros da liberdade”, mas, quando eles nos atacam, voltam a se tornar “terroristas”.

Agora temos jihadistas-salafistas armados pela OTAN na Líbia, e jihadistas-salafistas financiados pela Casa de Saud e pela Turquia na Síria – empregando métodos “terroristas”, tais como homens-bombas, para derrocar o regime de Assad – todos ligados e prontos para agir. Isso certamente dá um novo significado à expressão “ação cinética” de Obama.

O tiro pela culatra – como no Afeganistão – poderia ter demorado anos para vir. Desta vez, ele ergueu sua feia cabeça após apenas alguns meses. E isso é tão somente o começo.

E agora? A quem vocês vão bombardear? A quem vão matar com os drones? Que tal bombardear Bengasi um ano depois de condenar Gadaffi à morte porque ele teria ameaçado… bombardear Bengasi?

Perguntem à Secretária de Estado Hillary (“Viemos, vimos, ele morreu”) Clinton, que alega falar em nome do “povo da Líbia”. Talvez ela venha com uma política de alinhamento retroativo dos EUA com Gadaffi.

E, já que estamos em ano eleitoral, por que não perguntamos ao próprio invisível ex-presidente Bush? Afinal, ele proclamou em 20 de setembro de 2001 que: “ou vocês estão conosco, ou estão com os terroristas”.

Bem, O Sr. Tiro-pela-culatra poderia dizer: tenha cuidado com o que recebe quando vai para a cama com terroristas.

Fonte: Viomundo

Bandeira branca

Em meio a cenas de protesto e de dura repressão por parte da polícia de Chicago, as nações da Otan e suas aliadas tiveram sua primeira reunião desde a cúpula de Lisboa em 2010. Naquela ocasião, tratou-se de redefinir e ampliar seu “Conceito Estratégico” para além do Atlântico Norte como forma de garantir o fornecimento de energia, atuando na Ásia Central e outras regiões vitais.?

Desta vez, ao contrário, o ponto principal da pauta é um recuo. Barack Obama quer mostrar a eleitores e aliados uma “luz no fim do túnel” no Afeganistão, uma conclusão honrosa para uma guerra que já consumiu 12 anos e 1 trilhão de dólares.

É urgente salvar as aparências, antes que a retirada comece a parecer uma debandada. O Canadá abandonou os combates em 2011, François Hollande avisou que a antecipação da retirada da França para o fim deste ano é “inegociável”, a Austrália marcou sua retirada para 2013, a Polônia para 2014 e o Reino Unido para 2015. Washington manobra para que o quadro às vésperas das eleições de novembro pareça o melhor possível.

Segundo o acordado, a Otan transferirá a responsabilidade pela segurança ao governo de Cabul em meados de 2013, o que supostamente significará o fim das repetidas cenas de barbárie protagonizadas por soldados dos EUA contra inimigos derrotados e até civis indefesos, que horrorizam o Ocidente e predispõem os afegãos a apoiar o Taleban contra os estrangeiros. São cada vez mais frequentes os casos de soldados e funcionários ocidentais mortos a tiros por policiais ou soldados com os uniformes do governo de Hamid Karzai.

A retirada das forças aliadas se completaria até o fim de 2014. Obama, ao mesmo tempo, pressiona Karzai a retomar com urgência os entendimentos com o Taleban e chegar a uma “solução política”. Com a queixa de “falta de clareza” de Washington, os fundamentalistas suspenderam em 15 de março a negociação no Catar iniciada em fevereiro, mas as retomaram no fim de abril, visando a troca de cinco líderes talebans presos em Guantánamo por um soldado estadunidense capturado em 2009.

Isso sugere que os EUA estão dispostos a ceder mais em troca de um pacto até novembro, mesmo se as circunstâncias sugerem que esse arranjo seria tão precário quanto os Acordos de Paris de 1973, que serviram de desculpa para encerrar a participação dos EUA na Guerra do Vietnã e abriram caminho à vitória definitiva do vietcongue em 1975. O desenlace pode ser ainda mais constrangedor, já que a base de poder independente de Karzai é mínima, mais frágil que aquela do governo de Saigon, em 1974. Suas tropas resultam de uma aliança, forçada por Bush júnior, de caudilhos tribais que podem trair uns aos outros e a Karzai assim que virem os marines pelas costas.

A aposta inicial de Obama era que o reforço que duplicou as forças dos EUA no Afeganistão em 2009 seria suficiente para enfraquecer o Taleban e obrigá-lo a negociar. Obviamente, não foi assim: os fundamentalistas não recuaram e se tornaram mais ousados, a ponto de realizar ataques inéditos na própria capital.

Além disso, a intensificação dos ataques com drones (aviões sem piloto) contra supostos fundamentalistas na fronteira e no próprio território do vizinho Paquistão, bem como a execução de Bin Laden perto da academia militar desse país, esgotaram a escassa disposição desse governo a colaborar. Condenou a 33 anos de prisão, por traição, o médico paquistanês que ajudou os EUA a localizá-lo e fechou há seis meses as vias de abastecimento da Otan desde que um ataque aéreo dos EUA matou 24 soldados paquistaneses, obrigando-a a recorrer à Rússia e Ásia Central.

Obama disse ingenuamente que a morte de Bin Laden “foi o dia mais importante do mandato”, mas também a pretensão de ter enfraquecido seriamente a Al-Qaeda merece dúvidas. Suas ações no Iraque e Iêmen nunca cessaram. Nesse último país, a organização controla uma província inteira desde março de 2011 e em 21 de maio um de seus homens-bomba, recrutado no exército iemenita, explodiu no meio de uma parada militar: matou 100 soldados e feriu 300. Nos últimos meses, a Primavera Árabe abriu espaços à Al-Qaeda na Líbia, onde sua bandeira tremula sobre edifícios públicos, na Síria, onde cometeu vários atentados com carros-bomba contra o regime de Bashar al-Assad e talvez em outros países do Oriente Médio e África.

Os EUA também parecem apostar em um acordo com o Irã, mesmo se sanções continuem a ser aplicadas. O Congresso de Washington está prestes a votar um projeto de lei para autorizar uma guerra com o país e o Pentágono se diz pronto para essa eventualidade, mas, para o aparente desgosto de Tel-Aviv, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, visitou Teerã na segunda-feira 21, dois dias antes da retomada das negociações do Conselho de Segurança com o Irã em Bagdá, e disse estar muito próximo de um acordo para retomar as inspeções nas instalações nucleares iranianas.

Ao que parece, tanto as potências quanto Teerã podem aceitar um arranjo que permita ao Irã continuar a enriquecer urânio a 3,5% para seus reatores nucleares (o que o Brasil e o Japão, por exemplo, também fazem), desde que suspenda o enriquecimento a 20% e abra suas instalações o suficiente para dar garantias convincentes de não estar construindo armas nucleares. Os diplomatas consideraram substanciais o avanços em Bagdá e marcaram outra reunião para meados de junho em Genebra. Israel continua a exigir oficialmente o desmantelamento total do programa nuclear iraniano, mas Netanyahu deve saber muito bem que, sem o respaldo de Washington, suas ameaças serão vazias.

Segundo o jornal israelense Haaretz, o ministro da Defesa Ehud Barak informou a Obama a disposição de flexibilizar sua posição. A adesão à base governista do partido Kadima facilita ao governo, se quiser, enquadrar a ultradireita. Ao mesmo tempo, a derrota do Mahmoud Ahmadinejad para os partidários do aiatolá Ali Khamenei nas eleições parlamentares permite alguma flexibilização do Irã. Embora mais aferrados que o presidente ao fundamentalismo e, talvez mais autoritários, os ultraconservadores parecem mais pragmáticos quando se trata de política externa.

Fonte: Carta Capital
Veja mais sobre a guerra no Afeganistão

Obama sinaliza que não antecipará retirada de tropas da Otan do Afeganistão

O presidente norte-americano, Barack Obama, disse que “não haverá retirada precipitada” das forças internacionais do Afeganistão, mesmo que a França antecipe sua saída da região.  Ele participou, nesse domingo (20), da abertura da Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Chicago, nos Estados Unidos. A previsão é começar a retirada das tropas no fim de 2014, mas a França quer iniciar o processo antes.

“Mantemos a determinação de concluir a missão”, reafirmou Obama, que se reuniu com o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai. Os 28 aliados da Otan e representantes dos países parceiros defendem o fim da participação militar no território afegão devido aos elevados custos e às perdas de vidas.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse que a prioridade “é que não haja retirada precipitada”. “Vamos continuar empenhados no Afeganistão até o sucesso da operação. Juntos, podemos continuar a fazer da Otan uma resposta crível aos desafios de segurança de amanhã porque nenhum país pode agir sozinho.”

A Otan está no Afeganistão há cerca de dez anos. Durante a cúpula, Rasmussen se prepara para apresentar 25 projetos de cooperação, parte do programa Defesa Inteligente, lançado para reduzir o impacto dos cortes nas despesas militares, particularmente na Europa.

Paralelamente às discussões políticas sobre a manutenção de forças militares no Afeganistão pelas autoridades, militantes ligados ao movimento Occupy, o mesmo que mobilizou Wall Street em setembro de 2011, desfilaram no centro de Chicago pedindo o fim das guerras. “Queremos a paz, queremos mais dinheiro para a educação”, disse a estudante Isabel Olivia, de 18 anos, segurando bandeira na qual se lia “Fim à Otan”.

Fonte: Agência Brasil

Pepe Escobar: “O horror, o horror”. Soldados americanos massacram inocentes no Afeganistão: a “tragédia trespassada pela farsa

epa03143041 Afghans gather for a memorial ceremony for the victims who were killed by a US soldier on 11 March, at their village in Panjwayee district of volatile Kandahar, Afghanistan, 13 March 2012. A government delegation including two brothers of Afghan President Hamid Karzai, was reportedly under fire as they visited the scene of the incident in Kandahar today. A rogue US soldier opened fire at a village killing around 16 civilians including minors early 11 March. EPA/I. SAMEEM

Pepe Escobar: “O horror, o horror” [1]

16/3/2012, Pepe EscobarAl-Jazeera, Qatar

The horror, the horror

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hong Kong – Começou muito antes de um matador solitário, sargento do Exército dos EUA, casado e pai de dois filhos, andar até um vilarejo em Panjwayi, sudoeste da cidade de Kandahar e, “supostamente” num surto psicótico, ter assassinado 16 civis.

Foi o momento Haditha do Afeganistão [2] – como no Iraque; ou o momento Mi-Lai, como no Vietnã [3].

Segundo a mais recente pesquisa Post/ABC – feita antes do massacre de Kandahar – 55% dos norte-amerianos desejam o fim da guerra do Afeganistão [4].Já estava em formação, crescendo, desde os bombardeios seriais com aviões-robôs, os drones, contra festas de casamento tribais; desde os “raidsaéreos” seriais secretos das Forças Especiais dos EUA; desde os assassinatos seriais secretos das “equipes de matadores”, em 2010; desde o ritual de urinação sobre cadáveres de afegãos, por “nossos rapazes em uniforme”; até, a ofensa mais recente e não menos importante, da queima de exemplares de livros sagrados em Bagram. Será que… “Missão cumprida”?

O presidente Barack Obama dos EUA repetiu que, depois de dez anos de guerra que custou, por baixo, $400 bilhões, o “papel de combate” das tropas da OTAN terminará em 2014. Segundo Obama, Washington só quer garantir que “a al-Qaeda não esteja operante e haja suficiente estabilidade para que não haja lá uma terra de ninguém”. [5]

A Al-Qaeda não está “operante” por lá, faz muito tempo; só há um punhado de instrutores norte-americanos, e não estão “lá”, mas nos Waziristões, nas áreas tribais paquistanesas.

E quanto à “estabilidade”, esqueçam. As “forças de segurança afegãs” que teoricamente assumirão o comando em 2014, ou talvez antes, são nada, estão destroçadas. A taxa de analfabetismo é de espantosos 80%. Pelo menos 25% desertam. O estupro de crianças é endêmico. Mas de 50% dos soldados afegãos vivem permanentemente chapados de haxixe, de esteroides.

 Afegãos exigem justiça sobre o tiroteio que assassinou civis 

(mulheres, velhos e crianças)

O nível de desconfiança entre afegãos e norte-americanos é cósmico. Segundo estudo de 2011, que o Pentágono classificou como secreto, depois de ter vazado para o Wall Street Journal  [6] – os militares norte-americanos veem os afegãos como covardes corruptos; e os afegãos veem os militares norte-americanos como covardes intrometidos.

Considere o momento Saigon-1975, seja agora seja em 2014, e os fatos em campo são sempre os mesmos: instabilidade suficiente para sacudir os pilares do Hindu Kush.

Dê cara ou dê coroa na Contrainsurgência… Ganhei!

O Afeganistão sempre foi uma tragédia trespassada pela farsa. Considerem as 83 restrições originais da OTAN nas regras de engajamento, que levaram, por exemplo, a um surto de soldados franceses mortos em 2008, porque a França, pressionada pelos EUA, parou de pagar aos Talibã por proteção; ou imaginem Berlim dizendo que a coisa não é guerra, só “missão humanitária”.

As batalhas internas – diferente do que se via no Vietnã – já são legendárias. Como os Contrainsurgentistas – a gangue da contrainsurgência, apoiada pelo chefe do Pentágono Bob Gates – investidos numa “nova missão” e sob “nova liderança militar”, vencendo a aposta contra a estratégia “ContraterrorismoPlus” (CT-PLUS), ou “Contrainsurgenterrorismo”, do vice-presidente Joe Biden, de menos soldados em campo e trabalhando no contraterrorismo.

O vencedor, como todos lembrarão, foi o general-rockstar Stanley McChrystal, que dizia que o plano Biden levaria ao “Caos-zistão”, por acaso palavra que dava título a uma análise sigilosa da CIA.

Stanley McChrystal – porta-voz do Pentágono em março de 2003, durante a invasão do Iraque – queria muito mudar a cultura da OTAN e do Exército dos EUA no Afeganistão. Queria destruir a cultura “atire-primeiro-e-faça-voar-aquela-merda” e evoluir para “proteção à população civil”. Em suas próprias palavras, aquela “munição ar-terra” e “fogo indireto” contra casas de famílias afegãs “só eram autorizadas som condições muito limitadas e bem claras”.

Venceu – protegido pelo escudo de general-rockstar – mas só por um rápido momento.

Tudo isso, com o Departamento de Estado, a DEA e o FBI avisando sobre os terríveis contrabandistas de drogas e cesta sortida de bandidagem; e, do lado oposto, a CIA e o Pentágono elogiando a mesma rapaziada, que seria fonte de informações de inteligência “da boa”, que sempre venceria.

E tudo era plenamente justificado por um bando de relutantes guerreiros/falcões liberais, em postos como o Center for a New American Security [Centro para uma Nova Segurança Americana] – abarrotado de jornalistas “respeitáveis”.

Hamid Karzai venceu as eleições afegãs mediante fraude gigantesca. Seu meio-irmão Ahmed Wali Karzai – então chefe de conselho provincial em Kandahar – vivia livre para manter azeitado seu massivo negócio de drogas, e fazia pouco caso das eleições (“o povo nessa região não entende disso”).

Quem se importava, se o governo afegão em Kabul era/é de fato um sindicato do crime? Comandantes locais “leais” – “os nossos filhos da puta” – recebiam dinheiro cada vez mais farto e até mantinham dedicadas Forças Especiais como assessores e conselheiros pessoais, deles e dos respectivos esquadrões da morte.

McChrystal, diga-se a seu favor, admitiu que os soviéticos nos anos 1980s fizeram várias coisas certas (por exemplo, construir estradas, promover governo central, garantir educação igual para meninos e meninas, modernizar o país).

Mas eles também fizeram muitas coisas terrivelmente erradas, como varrer a terra à bomba e matar 1,5 milhão de afegãos. Se os planejadores do Pentágono tivessem pelo menos presença de espírito e lessem Afgantsy: The Russians in Afghanistan 1970-89 (Profile Books), escrito pelo ex-embaixador britânico Rodric Braithwaite, a partir de várias ricas fontes russas, da KGB à Fundação Gorbachev; da internet ao livro espetacular do falecido general Alexander Lyakhovsky.

Você tem direito de ser mal informado

O Pentágono jamais aceitará a retirada em 2014: caminha da direção absolutamente oposta à sua própria doutrina da Dominação de Pleno Espectro, que depende das muitas bases no Afeganistão para monitorar/ controlar/ infernizar concorrentes estratégicos – Rússia e China.

A saída será farsa. O Pentágono transferirá suas operações especiais para a CIA; tornar-se-ão “espiões”, em vez de “soldados em campo” [7].

O que significará, essencialmente, uma extensão ad infinitum do Programa Fênix no Vietnã, que se encarregou do assassinato premeditado [“targeted killing”] de mais de 20 mil “suspeitos” de apoiar o vietcong.

E isso nos leva ao atual diretor da CIA, o midiático general David Petraeus e sua cria –o COIN field manual FM 3-24 [Manual de campo MC 3-24 da Contrainsurgência], resposta do Pentágono ao Casamento do Céu com o Inferno [Marriage of Heaven and Hell] de William Blake, como casamento da contrainsurgência com a guerra ao terror. E isso, mesmo depois de um estudo da RAND de 2008, intitulado Como terminam os grupos terroristas [How Terrorist Groups End], ter insistido em que o único modo de derrotar grupos terroristas é mediante boa velha operação de aplicação da lei.

A matança de afegãos tensiona as relações com os EUA 

Petraeus não dá a mínima bola. Afinal, suas “operações de informação” – massiva manipulação da mídia, combinada com massiva distribuição das proverbiais malas cheias de dólares americanos – ganhou a “sua” e de George W Bush “avançada” [surge] no Iraque.

Os orgulhosos pashtuns foram osso muito mais duro de roer que os xeiques sunitas no deserto. Tornaram-se tão “sem tecnologia” – fabricando dezenas de milhares de bombas caseiras com fertilizante, madeira e munição mofada – que de fato neutralizaram, a ponto de inutilizar, nas estradas e trilhas, a alta tecnologia de morte dos EUA, o que levou à infinidade de matérias nos jornais sobre “considerável aumento na atividade de Dispositivos Explosivos Improvisados [Improvised Explosive Devices, IEDs]”.

Desde a posse de Obama, o Pentágono vem jogando extra-sujo para conseguir a exata guerra que sempre quiseram fazer no Afeganistão.

Conseguiram. Petraeus entrou em modo “progresso”, todos os dias e noites na mídia, ininterruptamente. As populações locais estar-se-iam “tornando mais receptivas” aos soldados dos EUA, apesar de a National Intelligence Estimate (NIE) – que manifesta o saber acumulado de 17 agências de inteligência dos EUA – ter continuado sombria.

Petraeus fez o que faz melhor: remixou a NIE. Jamais admitiu que a guerra prosseguiria para além de 2014. Disparou ataques aéreos, lançou número astronômico de ataques com helicópteros Apache e Kiowa, triplicou o número deraids noturnos da Forças Especiais, autorizou uma minioperação “Choque e Pavor”, bombardeou até a pulverização [8] a cidade de Tarok Kolache no sul do Afeganistão.

Depois de mais um massacre norte-americano em fevereiro de 2011 na província Kunar, que deixou 64 civis mortos, Petraeus ainda teve o atrevimento de acusar os afegãos de queimarem as próprias crianças [9] para apresentá-las como dano colateral. Bom para ele. Naquele momento, suas relações com Obama estavam até melhorando.

O governo Obama está, de fato, convencido de que a “avançada” de Obama, liderada por Petraeus e agendada para terminar em setembro, “estabilizou” o Afeganistão, pelo menos na região conhecida como “comando regional leste”; é o que Petraeus chama de “o suficientemente bom afegão”.

A maior parte do país, de fato, alcançou o “suficientemente bom talibã”, mas quem se preocupa com isso? Quando a queimar bebês, será apresentado pelos mais cínicos, talvez, como traço do excepcionalismo americano. Basta lembrar o Abrigo Amiriya, em Bagdá, dia 13/2/1991, quando nada menos que 408 crianças e as mães foram queimadas vivas pelos EUA.

Nunca mais o olharei nos olhos…

Como não lembrar o inimitável Dennis Hopper, na pele do fotojornalista psicodélico em Apocalypse Now, falando sobre o coronel Kurtz/Marlon Brando: “É um guerreiro-poeta no sentido clássico…” [10]

“Guerreiro-poeta” McChrystal estava convencido de que o Afeganistão não era o Vietnã; no Vietnã os EUA combatiam uma “insurgência popular”, mas não no Afeganistão (errado: as muitas tendências emaranhadas por trás da fachada “Talibã” foram-se tornando mais populares, na direta proporção do desastre de Karzai, para nem dizer que, no Vietnã, a conversa oficial do Pentágono pela mídia era a de que o vietcong nunca fora popular).

Generais, afinal, não têm surtos de assassinatos ao estilo Kurtz. Petraeus foi promovido, para lançar a Guerra Clandestina & Co., na CIA. Depois de demitido, na sequência de um “perfil” publicado na revista Rolling Stone – que droga derockstar é esse? – McChrystal terminou por ser reabilitado pela Casa Branca.

Deu aulas em Yale, entrou para o ramo da consultoria, está fazendo fortuna no circuito das conferências – destilando sabedoria sobre “liderança” e o Oriente Médio Expandido – e Obama nomeou-o conselheiro não remunerado de famílias de militares.

McChrystal vê o Afeganistão preso “em alguma espécie de pesadelo pós-apocalíptico”. “O horror… O horror…” de Conrad é perene. A lição chave que o Pentágono aprendeu do Vietnã foi encaixotar o horror, vedar a caixa e voluptuosamente, abraçar-se a ela.

Portanto, não surpreende que McChrystal não consiga ver que olha como o coronel Kurtz remixado – enquanto Petraeus foi o mais metódico, mas não menos mortal, Capitão Willard.

Diferente do Vietnã, contudo, dessa vez não haverá um Coppola para ganhar a guerra para Hollywood. Mas muitos Homens Ocos [11] continuarão no Pentágono.

Notas dos tradutores

[1]  É expressão que aparece em Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1902), num fragmento no qual fala “o criminoso” falando do seu crime (aqui traduzido, tradução de trabalho):

“Eu estava fascinado. Foi como se o véu se abrisse. Vi naquele rosto de marfim a expressão do orgulho obscuro, de poder cruel, de terror profundo – de um desespero intenso e sem esperança. Teria visto a vida passar ante os olhos, cada detalhe de desejo, tentação, rendição, naquele momento de conhecimento completo? Ante alguma imagem, soluçou um suspiro, alguma coisa que via – soluçou duas vezes, soluço sem ar: O horror! O horror!” 

Expressão semelhante (horror… horror… o horror tem face.) aparece em Apocalypse Now(1979), adaptação do romance de Conrad para o cinema, mas em contexto interpretativo diferente, como se vê e ouve:

… na cena antológica em que Kurz/Brando fala longamente. O nome do personagem de Coppola/Brando [Coronel Kurz], é quase o mesmo do personagem de Conrad [Kurtz], e o deslocamento da trama, do Congo colonial, em Conrad, para a guerra do Vietnã, em Coppola, muda a chave interpretativa.

Além disso, uma frase do romance de Conrad, sobre a morte de Kurz (Mistah Kurtz-he dead / A penny for the Old Guy [‘Sêo  Kurtz ‘tá morto / Um tostão, pelo coitado]) aparece na epígrafe do poema de T.S. Eliot (The Hollow Men [Os homens ocos], de 1925), citado adiante nesse artigo cheio de ecos e ressonâncias difíceis de traduzir (ver nota 11).

[2] O “massacre de Haditha” aconteceu dia 19/11/2005, na cidade de Haditha, na província de Al Anbar, no Iraque, onde um grupo de Marines dos EUA matou 24 civis iraquianos (várias mulheres e crianças) desarmados.

[3] O “massacre de May Lai” aconteceu dia 16/3/1968 (há exatos, ontem, 54 anos! Será que a matança nunca acabará?!), no Vietnã do Sul, onde soldados norte-americanos assassinaram quase 500 civis desarmados.

[4] 11/3/2012, Washington Post, em: “Amid anger over Afghan killings, U.S. faces growing public weariness about war

[5]  Ver também, sobre as declarações de Obama, 11/3/2012, MK Bhadrakumar, “Quando a visita esquece de ir embora…”.

[6] 17/6/2011, Wall Street Journal, em: “Report Sees Danger in Local Allies”.

[7] 26/1/2012, Stars and Stripes, em: “Bin Laden raid commander seeks global expansion of special ops”.

[8] 19/1/2011, Wired, em: “25 Tons of Bombs Wipe Afghan Town Off Map [Updated]

[9] 21/2/2011, Antiwar News, em: “Petraeus Accuses Afghan Parents of Burning Kids to Make US Look Bad

[10] Pode-se ver/ouvir em: “Words and wisdom

[11] The Hollow Men [Os homens ocos], poema de T.S.Eliot, 1925 (em inglês).

Fonte: Redecastorphoto

Atentado suicida contra a Otan mata 17 no Afeganistão

Pelo menos 13 militares americanos da Otan e quatro afegãos morreram neste sábado em um atentado suicida contra um ônibus que transportava tropas da coalizão internacional no Afeganistão (Isaf) reivindicado pelos talibãs.

A Isaf, como é habitual, não revelou a nacionalidade dos mortos e não revelou um número de feridos. Mas fontes do governo dos Estados Unidos confirmaram que todos os soldados vitimados eram americanos.

“Informações preliminares indicam que 13 membros da Força Internacional de Assistência à Segurança morreram na explosão de uma bomba em Cabul na manhã deste sábado”, afirma a Isaf em um comunicado.

Três civis e um policial afegão também morreram no ataque.

O atentado teve como alvo um ônibus americano da Isaf”, declarou mais cedo uma fonte militar ocidental que pediu anonimato.

O ministério afegão do Interior informou que três civis e um policial afegão morreram no atentado. O governo alegou não dispor de um balanço de vítimas estrangeiras.

Uma testemunha relatou uma “enorme explosão”.

“Vi pelo menos 10 corpos de soldados estrangeiros que foram retirados do ônibus e levados de helicóptero”

Em uma mensagem, o porta voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, reivindicou o atentado.

O ataque aconteceu perto do destruído palácio de Dar ul Aman, ao sudoeste de Cabul.

Em maio de 2010, um atentado cometido na mesma estrada de Dar ul Aman contra um comboio da Otan matou 18 pessoas, incluindo seis militares.

Os talibãs também reivindicaram um atentado suicida cometido por uma mulher diante da Agência Afegã de Inteligência (NDS) em Asadabad, capital da província oriental de Kunar.

Dois guardas ficaram feridos, de acordo com Wasifullah Wasifi, porta-voz do governo de Kunar.

Os talibãs permanecem ativos na província de Kunar, perto da fronteira com o Paquistão, país acusado por Afeganistão e Estados Unidos de abrigar bases de insurgentes.

Atentados suicidas protagonizados por mulheres como deste sábado são raros. Em junho de 2010, os talibãs reivindicaram publicamente pela primeira vez um atentado comentido por uma suicida contra uma patrulha das forças afegãs e americanas na província de Kunar.

Em outro ataque, um homem com uniforme do Exército afegão matou neste sábado dois soldados da Otan no sul do Afeganistão.

O autor do ataque também morreu, segundo a Isaf.

Fonte: AFP 

Dez anos depois, Taliban diz: “A vitória está conosco”

O Taliban prometeu continuar combatendo todas as forças estrangeiras que restam no Afeganistão em uma declaração feita nesta sexta-feira para marcar o 10º aniversário da campanha militar dos Estados Unidos no país.

A luta do grupo na última década, “mesmo com armas e equipamentos escassos, forçou os ocupadores, que pretendiam ficar para sempre, a repensar a sua posição”, disse o porta-voz do Taliban, Zabihullah Mujahid, na declaração escrita em inglês.

O presidente Hamid Karzai e seus apoiadores ocidentais concordaram que todas as tropas de combate estrangeiras voltem para casa até o fim de 2014.

O Ocidente, no entanto, prometeu apoio para depois dessa data na forma de fundos e treinamento para as forças de segurança afegãs.

Neste 7 de outubro completam-se dez anos do início da campanha militar dos EUA no Afeganistão, lançada após os ataques de 11 de setembro de 2011 nos EUA, que ajudou a derrubar o governo linha-dura do Taliban.

Um porta-voz das forças lideradas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que lutam no Afeganistão afirmou que não há nada planejado para comemorar o dia.

O andamento da guerra no Afeganistão tem sido bastante polêmico. Ambos os lados alegam ter vencido.

A violência se disseminou para as regiões norte e oeste, que já foram pacíficas, e os insurgentes executaram uma série de assassinatos, entre eles o de um ex-presidente. Mas as forças da Otan reforçaram o controle sobre antigos redutos do Taliban no sul do país.

“Com a ocorrência dos 10 anos da Jihad promovida pelo povo afegão contra os invasores, devemos lembrar que a vitória divina está conosco”, disse o comunicado de Mujahid, que foi enviado por email.

“Se segurarmos firme na corda de Alá, evitarmos a insinceridade, a discórdia, a hipocrisia e outras doenças, então, com a ajuda de Alá, nosso inimigo será forçado a abandonar por completo nosso país”, acrescentou.

Embora as tropas estrangeiras tenham sido inicialmente bem-recebidas como libertadoras no Afeganistão, a presença delas provocou muitas mortes. Bilhões de dólares que entraram no país alimentaram a corrupção, assim como a mudança.

Fonte:
Reuters