2013: o que mudou de fato no mundo?

O mais importante foi a mudança de clima no cenário mundial. Desde o triunfo na guerra fria, os EUA militarizavam os conflitos. Não foi assim com Síria e Irã.

Por Emir Sader

Como sempre, se acumulam uma quantidade de fatos – entre mortes, eleições, sublevações, etc. – que se destacam jornalisticamente no mundo, mas dificultam a compreensão das alterações nas relações de poder, as que efetivamente contam na evolução da situação internacional.

No emaranhado de acontecimentos, o mais importante foi a mudança de clima no cenário internacional. Desde que triunfou na guerra fria, os EUA tem tido como postura diante dos conflitos internacionais, sua militarização. Transferir para o campo em que sua superioridade é manifesta, tem sido a característica principal da ação imperial dos EUA. Foi assim no Afeganistão, no Iraque, por forças intermedias na Líbia. E se encaminhava para ser assim nos casos da Síria e do Irã.

De repente, pegando ao Secretario de Estado norteamericano, John Kerry, pela palavra, o governo russo propôs ao da Síria um acordo, que desconcertou o governo norteamericano, até que não pôde deixar de aceitar. Isto foi possível porque Obama não conseguiu criar as condições políticas para mais uma ofensiva militar dos EUA. Primeiro o Parlamento britânico negou o apoio a Washington.
Depois, foi ficando claro que nem a opinião publica, nem o Congresso norteamericano, nem os militares dos EUA, estavam a favor da ofensiva anunciada ou do tipo de ofensiva proposta.

O certo é que os EUA foram levados a aceitar a proposta russa, o que abriu as portas para outros desdobramentos, entre eles, combinado com as eleições no Irã, para a abertura de negociações políticas também com esse país por parte dos EUA. No seu conjunto, se desativava o foco mais perigoso de novos conflitos armados.

Como consequência, Israel, a Arábia Saudita, o Kuwait, ficaram isolados nas suas posições favoráveis a ações militares contra a Síria e até contra o Irã. Foi se instalando um clima de negociações, convocando-se de novo uma Conferência na segunda quinzena de janeiro, em Genebra, para discutir um acordo de paz. Uma conferência que não coloca como condição a questão da saída do governo de Assad, como se fazia anteriormente.

A oposição teve que aceitar participar, mesmo nessas condições. E ainda teve a surpresa que os EUA e a Grã Bretanha suspenderam o fornecimento de apoio militar aos setores opositores considerados moderados, que foram totalmente superados pelos fundamentalistas, apoiados pela Arabia Saudita e pelo Kuwait.

Como dois pontos determinam um plano, as negociações sobre a Síria abriram campo para as negociações dos EUA com o Irã, aproveitando-se da eleição do novo presidente iraniano. Desenhou-se, em poucas semanas, um quadro totalmente diverso daquele que tinha imperado ao longo de quase todo o ano. Os EUA passaram da ofensiva à defensiva, a Rússia, de ator marginal, a agente central nas negociações de paz, a ponto que a Forbes, pela primeira vez, elegeu Vladimir Puttin como o homem mais forte do mundo, na frente de Obama. Isso se deve não ao poderio militar ou econômico da Russia, mas ao poder de iniciativa política e de negociação que o país passou a ter.

Fonte: CartaMaior

A primavera árabe foi uma ilusão?

Não sou daqueles que, preconceituosamente, supõem haver uma incompatibilidade entre democracia e mundo árabe. Mas, há tensões históricas que hoje comprovam o fracasso da tese, romantizada pela mídia, de “primavera árabe”.

Vejamos. Depois do colapso do Império Otomano e do fim dos protetorados europeus no pós-Segunda Guerra, surgiu no Egito o modelo autoritário de modernização (Gamal Abdel Nasser, com a queda do rei Faruk), que procurou silenciar a hierarquia muçulmana e se fundamentar nas Forças Armadas essencialmente laicas, a exemplo do que havia ocorrido com a Turquia, nos anos 1920, com Kemal Ataturk.

O modelo nasserista se espalhou rapidamente pela região, com o pan-arabismo frustrado da RAU (República Árabe Unida), entre 1958 e 1961, e a ascensão do partido Ba´ath no Iraque e na Síria.


Negociação de soluções intermediárias entre grupos antagônicos não está ocorrendo, e é pressuposto para democracia

Esse modelo se enfraqueceu diante das derrotas militares para Israel e, um pouco mais tarde, com a Guerra Civil na Argélia (1991-2002), quando grupos islâmicos desafiaram a hegemonia discricionária da Frente de Libertação Nacional, vitoriosa na guerra de independência contra os franceses.

Eis que, na década de 1980, surge a “guerra santa”, no distante Afeganistão, auxiliada pelos Estados Unidos para a expulsão dos invasores soviéticos. Foi um sinal poderoso que, bem mais tarde, no momento oportuno, foi interpretado corretamente pelos grupos e partidos muçulmanos moderados, da Tunísia ou do Egito, e não tão moderados assim, na Síria e na Líbia.

A simples citação desses países já nos fornece o mapa do malogro da chamada “primavera árabe”. É saudável a articulação para derrubar ditaduras pós-nasseristas. O problema é o que criar no lugar delas.

A democracia supõe a capacidade de negociar soluções intermediárias entre grupos antagônicos. É justamente o que não está ocorrendo. Na Líbia e na Tunísia, sem um Exército nacional verdadeiramente forte, o poder de pressão se pulverizou entre milícias, grupos religiosos e entidades da sociedade civil. No Egito, com Forças Armadas bem ou mal arraigadas na sociedade, as tentativas de islamização das instituições resultaram na deposição do presidente Mohammed Mursi e no banho de sangue estancado pela volta dos militares ao poder. E na Síria, apoiada pelo Irã e ao mesmo tempo hostilizada pela Turquia e pela Arábia Saudita, a Guerra Civil deixou de ser um problema interno para ganhar contornos regionais.

Vejam que esse quadro não espelha o simplismo confessional que procura interpretar o quebra-cabeça segundo a lógica de autodefesa e expansão dos interesses xiitas (associados aos alaouitas) ou sunitas. Estamos diante de um quadro generalizado de desorganização institucional. Depois da etapa do grito, chegou a etapa das armas, prevalecendo o poder dos mais fortes. O que viabiliza e de certo modo legitima a tutela sob a qual os militares conseguiram novamente submeter o Egito, país que hoje é o “mais comportadinho” da região.

Isso é primavera? Com certeza, não. É o prosseguimento, com novas formas de dogmatismo, do longo inverno que dissocia a democracia dessa região do mundo.

 (*) João Batista Natali é jornalista, colaborador da Folha de S. Paulo, onde foi repórter por 38 anos. É professor de Ética na Faculdade Cásper Líbero e comentarista da TV Gazeta. Formado em jornalismo e filosofia, é mestre e doutor em semiologia.

Fonte: OperaMundi

Robert Fisk: O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria

O Irã está profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Além disso, uma vitória de Bashar representa uma vitória do Irã. E vitórias do Irã não podem ser toleradas pelo Ocidente. 

Antes que comece a guerra ocidental mais idiota na história do mundo moderno – eu me refiro, é claro, ao ataque à Síria que todos nós vamos ter que engolir – podemos dizer que os mísseis que esperamos ver cruzando os céus de uma das cidades mais antigas das humanidade não têm nada a ver com a Síria.

Eles têm como objetivo atacar o Irã. Eles pretendem atacar a república islâmica agora que ela tem um presidente novo e vibrante – diferente do bizarro Mahmoud Ahmadinejad – e bem quando ele pode estar um pouco mais estável.

O Irã é inimigo de Israel. Então o Irã é, naturalmente, inimigo dos EUA. Então dispare os mísseis no único aliado árabe do Irã.

Não há nada de agradável no regime de Damasco. Nem esses comentários livram a cara do regime quando se trata de uso de armas químicas em massa. Mas eu tenho idade suficiente para me lembrar de que quando o Iraque – então aliado dos EUA – usou armas químicas contra os curdos em Hallabjah em 1988, nós não invadimos Bagdá. De fato, esse ataque esperou até 2003, quando Saddam não tinha mais armas químicas ou qualquer outra arma com as quais tínhamos pesadelos.

E eu também me lembro de que, em 1988, a CIA disse que o Irã foi o responsável pelo uso de armas químicas em Hallabjah, uma mentira deslavada, que mirava no nosso inimigo, contra quem Saddam estava lutando em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas aí está. Jeitos diferentes, padrões diferentes.

E eu acho que vale a pena notar que quando Israel matou 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, numa invasão supostamente provocada pela tentativa de homicídio pela OLP do embaixador israelense em Londres – foi o amigo de Saddam, Abu Nidal, quem organizou o atentado, não a OLP, mas isso não importa agora – os EUA pediram aos dois lados que tentassem “se conter”. E quando, poucos meses antes dessa invasão, Hafez Al-Assad – pai de Bashar – mandou seu irmão para Hama para exterminar milhares de rebeldes da Irmandade Muçulmana, ninguém soltou um murmúrio que fosse condenatório. “Regras de Hama” foi como meu velho amigo Tom Friedman cinicamente classificou esse banho de sangue.

De qualquer forma, há uma Irmandade diferente por aí esses dias – e Obama nem se dignou a dar uma vaiadinha quando seu presidente eleito foi deposto.

Mas espere um pouco. O Iraque – quando era aliado “nosso” contra o Irã – também usou armas químicas contra o exército iraniano? Usou. Eu vi os resultados desse ataque horroroso feito por Saddam – oficiais dos EUA, devo dizer, fizeram um tour pelo campo de batalha depois, e se reportaram de volta para Washington – e nós não demos a mínima bola para isso. Milhares de soldados iranianos foram envenenados até a morte por essa arma terrível na guerra entre 1980 e 1988.

Eu viajei de volta para Teerã em um trem noturno com soldados feridos e cheguei a sentir o cheiro da coisa, abrindo as janelas dos corredores para diminuir o cheiro. Esses jovens tinham feridas dentro de feridas, literalmente. Eles tinham dores que surgiam dentro das dores, algo próximo do indescritível. Ainda assim, quando os soldados foram enviados para hospitais ocidentais para serem tratados, nós, jornalistas, chamamos esses feridos – depois de evidências das Nações Unidas muito mais convincentes do que as que podemos encontrar hoje em Damasco – de “supostas” vítimas de armas químicas.

Então o que diabos estamos fazendo? Depois de incontáveis milhares de mortes na terrível tragédia síria, de repente – agora, depois de meses e anos de prevaricação – estamos indignados com algumas centenas de mortes. Terrível. Inconcebível. Sim, é verdade. Mas nós deveríamos ter ficado traumatizados por essa guerra em 2011. E em 2012. Mas por que agora?

Suspeito que eu saiba o motivo. Suspeito que Bashar Al-Assad esteja ganhando a guerra contra os rebeldes que temos armado secretamente. Com a ajuda do Hezbollah libanês – aliado do Irã no Líbano – o regime de Damasco quebrou os rebeldes em Qusayr e podem estar no processo de quebra-los ao norte de Homs. O Irã está cada vez mais envolvido na proteção ao governo sírio. Portanto, uma vitória de Bashar é uma vitória do Irã. E vitórias iranianas não podem ser toleradas pelo Ocidente.

E enquanto estamos falando de guerra, o que aconteceu com aquelas ótimas negociações entre palestinos e israelenses de que John Kerry andava se gabando? Enquanto expressamos nossa tremenda angústia com o terrível uso de armar químicas na Síria, a terra palestina continua sendo destruída. A política do Likud de Israel – de negociar a paz até não haver mais Palestina – continua a toda, e é por isso que o pesadelo do Rei Abdullah, da Jordânia, (muito mais potente que as “armas de destruição em massa” que imaginávamos em 2003) só aumenta: que a “Palestina” fique na Jordânia, não na Palestina.

*Robert Fisk é correspondente no Oriente Médio do ‘The Independent’. É autor de vários livros sobre a região.

Fonte: CartaMaior

Obama tenta sair do isolamento para atacar Síria

Se intervenção contra Assad parecia certa dias atrás, agora presidente dos EUA luta para conquistar aliados no Congresso e vencer resistência internacional

Barack Obama

O governo dos EUA tenta conseguir o maior número de simpatizantes no Congresso americano e entre a opinião pública para realizar uma intervenção militar internacional na Síria por causa do aumento da pressão internacional sobre o presidente Barack Obama após um suposto ataque químico, no final de agosto.

Assessores falam em uma “estratégia de inundações”, o New York Times diz que há uma blitzkrieg (guerra relâmpago) de lobistas da Casa Branca. Até dia 9 de setembro, quando terminam as férias de verão do Congresso dos EUA, a maioria favorável a um ataque precisa estar formada.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, um dos mais veementes defensores de um ataque de advertência contra o regime de Assad, apareceu no domingo em cinco programas de debates na televisão americana. Ao mesmo tempo, o vice-presidente, Joe Biden, e o chefe de gabinete de Obama, Dennis McDonough, fizeram uma série de telefonemas a dezenas de membros do Congresso.

Fadiga de guerra

Um grande grupo de políticos é contra o ataque. Esse grupo inclui desde democratas cansados de guerra até ultraconservadores republicanos do Tea Party, mais afeitos ao isolacionismo.

Outros consideram os planos de Obama pouco arrojados.” “Não podemos dar apoio de consciência tranquila a ataques militares isolados na Síria, que não alterem a dinâmica no campo de batalha”, justificam os senadores republicanos Lindsey Graham e John McCain, que disputou a primeira eleição com Obama, em 2008.

Eles pedem um plano para a derrubada do regime de Assad. Obama salientou, entretanto, que uma mudança de governo em Damasco não é o objetivo da ação militar.

“No fim das contas, o Congresso se mostrará apto a lidar com a situação”, acredita o deputado republicano Mike Rogers. Mas nem todos estão tão seguros. Seu colega de partido, o senador Rand Paul, vê 50% de chance de uma aprovação da intervenção militar. “O Senado vai aprovar o que Obama quer, mas na Câmara, a votação será apertada.”

John Kerry já adiantou, por precaução, que Obama tem a autoridade para atacar – “não importa o que o Congresso decidirá”. Mesmo assim, um “não” do Congresso seria embaraçoso para o presidente. “Obama parece ter ido longe demais publicamente”, alerta o historiador e jornalista alemão Michael Stürmer. “Se não acontecer nada depois disso, os EUA podem abrir mão de sua posição e de sua imagem de potência mundial”, prevê. Mas ele também não é a favor de um ataque ao regime Assad. “Falta uma descrição clara sobre qual é o objetivo de um ataque militar.”

Rússia continua a dizer não

Enquanto Obama tenta ganhar aliados no Congresso, a Rússia continua a mobilizar-se contra uma intervenção. “Não nos convence nem um pouco o que britânicos, franceses e norte-americanos apresentaram como prova da culpa do ditador sírio Bashar al-Assad nos alegados ataques com gás venenoso”, criticou o ministro do Exterior russo, Serguei Lavrov. Ele observa que, nas imagens exibidas, não havia “nada de concreto, nem mapas, nem nomes, só inúmeras inconsistências”.

“Se Obama se decidir pelo ataque, as esperanças de uma solução política poderão ser adiadas “por um longo tempo, talvez para sempre”, advertiu Lavrov.

A Rússia impede, junto com a China, uma ação internacional forte contra o regime de Assad. Ambos os Estados têm direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e não há previsão que eles mudem de posição. Por isso, Obama quer atacar a Síria mesmo sem o consentimento do Conselho.

Pouco apoio internacional

Mas mesmo entre os aliados, os planos de Obama são controversos. Depois de o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter perdido na câmara baixa do Parlamento britânico a votação sobre uma participação do Reino Unido numa operação militar, por enquanto só a França continua ao lado de Obama, entre os países ocidentais mais importantes. Nesta quarta-feira (04/09) está prevista em Paris uma sessão extraordinária no Parlamento francês para tratar o assunto.

A Alemanha também decidiu que não se envolverá num ataque contra a Síria, condicionando sua participação a um mandato internacional. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, diz ter esperanças de que a comunidade internacional ainda possa encontrar uma posição comum para uma resposta a Damasco, após Obama abrir mão de um ataque.

A cúpula do G20 (grupo dos 20 países mais industrializados do mundo, mais os emergentes), que começa na próxima quinta-feira (05/09) em São Petersburgo, na Rússia, seria uma possibilidade para o retorno à mesa internacional de negociações. O encontro prevê uma reunião de Barack Obama com o presidente russo, Vladimir Putin.

Markus Kaim, especialista em Oriente Médio do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (Stiftung Wissenschaft und Politik), é a favor de uma solução política para o conflito. “Os principais argumentos estão sobre a mesa. E há esforços para que os partidos conflitantes negociem e para se convocar uma conferência de paz em Genebra”, destaca.

Moscou e Washington teriam concordado em maio com a organização dessa conferência. Mas até agora não foi encontrada uma data concreta, o que, em grande parte, se deveu à falta de disponibilidade de entendimento entre as partes em conflito. Porém, Kaim acredita que a ameaça de uma ação militar e a mudança que esta pode provocar na situação poderá levar a uma mudança de atitude de governo e oposição na Síria.

Fonte: CartaCapital

Vídeo mostra crianças sírias refugiadas no Egito denunciando maus tratos

ONU diz que dois milhões de pessoas já fugiram da guerra civil; mais de 100 mil estão no norte da África

Segundo dados da Acnur (Agência da ONU para Refugiados) atualizados nesta segunda-feira (02/09), o número de refugiados sírios ultrapassou os dois milhões, sendo que mais de 111 mil “pessoas de interesse” estão no Egito. O governo egípcio, entretanto, estima que haja um total de 300 mil sírios no país. Destes, muitos estão sofrendo com uma súbita onda de xenofobia iniciada depois da deposição de Mohamed Mursi, em 03 de julho.

Denúncias sobre os maus tratos aos refugiados sírios já foram feitas pelo jornal britânico The Guardian e pela rede Al Jazeera, com base em informações da organização de direitos humanos Human Rights Watch. Agora, um vídeo intitulado Syrians Facing Harassment in Egypt (sírios enfrentam assédio no Egito) mostra o problema sob um ângulo mais delicado: o das crianças.

O vídeo faz parte da campanha do movimento Aazer (palavra árabe que quer dizer “vá e ajude alguém”, segundo o site do grupo) pelo fim da perseguição aos sírios no Egito. O tema é a situação de crianças como Mahmoud, cujos amigos não brincam mais com ele por causa de sua nacionalidade síria, e Ahmad, cujo pai foi preso por autoridades egípcias que invadiram sua casa sem motivo aparente.

Segundo o Aazer, tanto o novo governo do Egito quanto a mídia do país lançaram uma campanha xenofóbica contra os refugiados sírios desde a deposição de Mursi e, como resultado, estes estão sendo usados como “bodes expiatórios para os problemas domésticos do Egito”. O grupo criou uma petição contra a perseguição dos refugiados com o objetivo de conseguir 10 mil assinaturas.

De acordo com o Human Rights Watch, a polícia egípcia chegou a prender de uma vez só 72 homens e nove meninos, incluindo requerentes de asilo registrados e pelo menos nove com vistos válidos ou permissões de residência. Ao menos 14 destes foram ameaçados com deportação. O Guardian diz que o motivo é que os sírios estão sendo injustamente associados à Irmandade Muçulmana do Egito.

O Aazer também reclama das dificuldades estabelecidas pelo governo interino para a entrada de sírios no Egito. Durante o governo de Mursi, não eram necessários vistos, enquanto agora milhares de pessoas vindas da Síria são detidas nos aeroportos por falta desses documentos.

“O governo interino e as autoridades egípcias devem parar imediatamente de utilizar civis sírios como peões na política interna do Egito”, diz a página da campanha do Aazer. Entre as demandas da petição estão “o fim imediato da detenção de crianças sírias e a liberação de qualquer criança que esteja detida”, “tratamento seguro e humano para sirios no processo de renovação dos documentos oficiais” e “investigação imediata de apresentadores da mídia que incitaram contra os sírios”.

A Acnur pediu às autoridades egípcias para que cessem as deportações e para que o Egito continue protegendo os refugiados provenientes da Síria. A campanha xenófoba, entretanto, até agora não foi interrompida.

Fonte: OperaMundi

A primavera árabe sufocada pelas armas

Oriente Médio: não há uma condenação clara da comunidade internacional às reformas políticas produzidas sob a mira das armas

Por Nabila Ramdani

Mohamed Brahmi

Multidão participa do funeral do líder opositor Mohamed Brahmi, no sábado 27. Brahmi foi morto em Ariana, subúrbio da capital Túnis

 

Os assassinatos grotescos de egípcios comuns por seus próprios militares dizem tudo sobre a falta de avanço da Primavera Árabe. Apenas um ano depois das eleições democráticas que deveriam anunciar uma era de liberdade e estabilidade no terceiro país mais populoso da África, testemunhamos nada menos que uma chacina rotineira nas ruas.

Os mortos e feridos por armas automáticas no Cairo tentavam demonstrar seu apoio a Mohamed Morsi, o presidente eleito deposto pelo exército. Homens armados – e inclinados a usar as armas contra civis desarmados – hoje controlam uma cidade que já foi um foco de esperança e otimismo.

Assim como as imagens de uma Praça Tahrir lotada e jubilosa passaram a simbolizar as glórias passageiras da Primavera Árabe, líderes mundiais como Barack Obama prometeram de modo incessante conter os ditadores “que matam seu próprio povo”. Lembra-se de como David Cameron enviou prontamente jatos da RAF para ajudar a bombardear Kaddafi na Líbia? A “proteção de vidas civis” sempre foi a primeira justificativa para o uso dessa força letal, assim como foi para o Ocidente afinal se declarar favorável às revoluções em todo o Oriente Médio e norte da África.

Hoje esses mesmos líderes ocidentais permanecem em silêncio sobre os excessos de um exército que sempre foi a principal base de poder do déspota egípcio Hosni Mubarak. Não importa como se analise, a supressão pelos militares do governo da Irmandade Muçulmana de Morsi foi um golpe de Estado clássico. Os que tentam justificar esse triunfo do poder militar são inevitavelmente aqueles que acreditam que a força marcial é a posição normal desejada de qualquer país árabe.

O exército egípcio negará o uso de munição para conter os protestos (estão sugerindo que os manifestantes atiraram em si mesmos?), enquanto políticos como o secretário de Relações Exteriores dos EUA, William Hague, saem com platitudes sobre se opor ao “uso da força”.

Mas não há uma condenação clara da comunidade internacional às mudanças políticas produzidas pela força das armas.

Isto ocorre enquanto as manifestações proliferam na Tunísia, depois de vários assassinatos políticos. Fala-se até em um país que já foi conhecido por sua Revolução de Jasmim, quase sem sangue, que hoje desce à barbárie. A morte do líder de oposição secular Mohamed Brahmi, na quinta-feira em Túnis, se segue ao assassinato de seu colega Chokri Belaid no início do ano. Pelo menos uma pessoa foi morta em protestos contra o governo, e uma bomba explodiu em um carro de polícia pouco depois.

A Líbia é o cenário de assassinatos diários, e o governo não é capaz de controlar os bandos armados que disputam poder e influência. Abdelsalam al-Mismari, um importante advogado envolvido na derrubada de Kaddafi, e duas autoridades de segurança foram mortos na sexta-feira em Benghazi, o “berço” da revolução líbia. Mismari havia se tornado um crítico declarado dos atiradores, juntamente com milhares de outros que não veem esperança de democracia enquanto eles efetivamente controlarem as ruas.

Muitos dos que participaram das primeiras reuniões pró-democracia na Síria em 2011 estão entre as mais de 100 mil baixas fatais da guerra civil no país. Outras centenas de milhares foram feridos, presos ou obrigados a fugir. De modo previsível, é o exército sírio bem equipado e altamente motivado, mais que qualquer forma de democracia, que dá ao presidente Bashar al- Assad sua melhor chance de prolongar seu governo.

Essa realidade selvagem faz as aspirações iniciais daqueles que começaram a Primavera Árabe parecerem bastante tênues. Ideais como a igualdade entre classes e sexos, instituições estatais eficientes e justas, a redução da pobreza, a administração da justiça e educação para todos dão em nada quando uma nação não consegue proteger seus cidadãos de seus próprios soldados ou das milícias armadas que assumiram seu lugar.

Em termos de mudança econômica e social, e contra o pano de fundo da violência, há poucas evidências de uma mudança para melhor na vida de milhões de árabes desde as insurreições de 2011. Pelo contrário, as lutas internas entre miríades de grupos de oposição, incluindo secularistas e islâmicos, retardaram as reformas, enquanto problemas sociais endêmicos como os sistemas de transporte perigosos e o analfabetismo generalizado foram ignorados.

A pobreza aumentou de maneira significativa, com 40% da população egípcia ganhando menos que o equivalente a 2 libras esterlinas por dia, o limite de pobreza oficial da ONU. O custo de vida sobe em espiral, juntamente com o desemprego em todos os outros países depois da Primavera Árabe. O número de jovens desempregados se multiplica, particularmente, criando uma vasta classe de pessoas tão revoltadas e ressentidas quanto enérgicas e cheias de recursos.

Foram esses jovens que criaram a Primavera Árabe, usando novas tecnologias de comunicações para manifestar suas queixas. Um dos motivos pelos quais eles tiveram tanto sucesso inicialmente na Tunísia e no Egito foi que seus conterrâneos uniformizados lhes deram ampla liberdade para se manifestar. A decepção popular na forma de demonstrações organizadas foi considerada uma alternativa aceitável a formas de protesto mais radicais, incluindo o terrorismo.

A Primavera Árabe não foi de modo algum um fracasso total, porque permitiu a essas demonstrações florescer em um movimento democrático que colocou os problemas do mundo árabe no cenário global, mas seu progresso hoje está sendo sufocado pelos que só acreditam no governo por ordens diretas.

Uma consequência das revoluções de 2011 foi a ascensão do islamismo como força política organizada. Movimentos como a Irmandade Muçulmana puderam usar vastas redes populares, geralmente baseadas em centros comunitários locais e mesquitas, para mobilizar o apoio eleitoral. Na maioria dos casos, outros partidos não podem sequer competir, mas isso não é motivo para que grupos antidemocráticos como os militares assassinem e prendam seguidores da Irmandade Muçulmana.

Ninguém pretendeu que a Primavera Árabe ofereceria uma solução rápida para os maciços problemas inerentes às sociedades árabes, mas se a força militar continuar sendo o árbitro definitivo de qual governo tem “permissão” para governar, as matanças seguirão incontidas.

Fonte: CartaCapital

Oriente Médio: Israelenses e palestinos estão prontos para a paz?

O processo de paz entre israelenses e palestinos tem sido definido há muito tempo como um paradoxo; todos sabem o que deve ser feito para encerrar o conflito histórico mas ninguém parece ter capacidade ou vontade de fazer isso.

Já se disse também que ninguém “pode desejar mais a paz do que as partes envolvidas no conflito”.

Mas o secretário de Estado americano, John Kerry, provou mais uma vez que uma terceira parte é uma condição necessária para que os dois lados possam negociar diretamente.

Na sexta-feira, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos confirmou que as conversas diretas entre israelenses e palestinos devem ser retomadas na próxima semana, em Washington, e neste sábado o governo de Israel anunciou que libertaria prisioneiros palestinos como parte do acordo – sem precisar quantos.

Além disso, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse no sábado que a retomada das negociações de paz é um “interesse estratégico e vital” para seu país.

Dentre os principais pontos de disputa está a definição de fronteiras. Os palestinos exigem que Israel utilize as demarcações existentes antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967 – algo inaceitável para alguns partidos israelenses, que já ameaçaram abandonar o governo caso a condição seja levada em consideração pelo premiê.

Mediação

As últimas décadas do processo de paz têm mostrado que um mediador persistente – com maior frequência os Estados Unidos – é necessária, porém insuficiente para atingir um acordo histórico.

Netanyahu, Obama e Abbas | FotoÇ AP

Mesmo assim, após seis meses de reuniões e almoços em mesas árabes, israelenses e palestinas, Kerry finalmente convenceu ambos os lados a virem a Washington para sentarem-se à uma mesa americana para conversar.

Os termos escolhidos cuidadosamente por ele mostram que esta primeira rodada de negociações desde 2010, quando as últimas foram interrompidas, trata-se sobretudo de “conversas sobre conversas”. E quem senta-se à mesa são negociadores experientes, e não os líderes.

Mas não há como negar que a diplomacia da teimosia de Kerry atingiu um pequeno e importante passo nessa estrada tortuosa rumo à paz.

Temas polêmicos

O novo esforço possui mecanismos que na verdade funcionam como segurança para todos os lados. Kerry não queria que uma sexta viagem terminasse com “estamos chegando perto”.

E nem Mahmoud Abbas (presidente da Autoridade Nacional Palestina) e o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, queriam ser responsabilizados por um potencial fracasso do americano.

Tanto israelenses quanto palestinos passaram a apreciar a persistência de Kerry, que apesar de todas as dificuldades fez disto sua missão – com o apoio do presidente americano, Barack Obama.

Até o momento poucos detalhes foram revelados sobre esta “base para retomar negociações diretas da situação final”.Autoridades palestinas protestam contra o fato de que Israel ainda não concordou que um futuro Estado palestino tenha fronteiras próximas às anteriores a 1967, quando israelenses agregaram terras a seu território.

A interrupção da expansão de assentamentos israelenses é outro assunto altamente polêmico que rende pressão a Abbas para que ele não negocie neste momento.

Caminho para a paz

Mas aparentemente o americano conseguiu convencer Israel a agir com relação a outra preocupação palestina: a libertação de seus prisioneiros.

Yuval Steinitz, ministro que integra o gabinete de Netanyahu, disse que os prisioneiros seriam libertados em “etapas”, incluindo aqueles do tipo “peso-pesado, que estavam detidos há décadas”.

Quanto às exigencias feitas pelos israelenses, certamente incluirão o compromisso de que não haverá passos unilaterais – incluindo potenciais novas movimentações palestinas nas Nações Unidas em setembro, quando a ONU se reúne em Nova York.

Um negociador palestino muito experiente disse, com dificuldade para esconder a raiva, que o “status quo” estava acabado se Israel se recusasse a retomar as conversas de paz de forma consistente.

Falando ao programa Newshour, da BBC, o negociador israelense que participou das conversas secretas de Oslo, 20 anos atrás, disse acreditar que um conjunto de condições compilado pelos EUA poderiam fornecer as bases para as negociações.

Com base em posições defendidas anteriormente em público, essas incluiriam:

  • as fronteiras de 1967 com um acordo de troca de terras;
  • o reconhecimento de que a expansão de assentamentos não é “construtiva”;
  • as preocupações relativas à segurança de Israel e o reconhecimento de que o país é um Estado judeu.

Todos sabem, de certa forma, o que deve ser feito. Mas será que todos os lados estão prontos para colocar isso em prática agora?

Fonte: BBCBrasil

A Síria e o gás sarin: assim funciona o teatro.

A Síria e o gás sarin

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras. Por Robert Fisk, do The Independent

Robert Fisk – The Independent

 Existe alguma forma de escapar do teatro das armas químicas? Primeiro, a “inteligência militar” israelense diz que as forças de Bashar Assad usaram/provavelmente usaram/podem ter usado/poderiam usar armas químicas. Depois Chuck Hagel, secretário estadunidense de Defesa, aparece em Israel para prometer ainda mais poder de fogo para o já excessivamente armado exército de Israel – sem mencionar em absoluto as mais de 200 cabeças nucleares israelenses – e depois se imbui de toda a “inteligência israelense” sobre o uso provável/possível de armas químicas pela Síria.

E em seguida o bonzão Chuck volta a Washington para dizer ao mundo que isto é “assunto sério. Necessitamos todos os fatos”. A Casa Branca diz ao Congresso que as agências de inteligência estadunidenses, provavelmente as mesmas da inteligência israelense, porque em regra geral dizem disparates em sintonia, têm “graus variáveis de confiança” nessa avaliação. Mas a senadora Dianne Feinstein, presidenta do comitê de inteligência do Senado – a mesma que defendeu as ações de Israel em 1996, quando massacrou 105 civis, a maioria crianças, em Qana, sul do Líbano –, anuncia que “está claro que na Síria foram ultrapassadas linhas vermelhas e devem ser tomadas medidas para prevenir seu uso em maior escala”. E em seguida sai a reluzir o mais antigo dos lugares comuns vigentes na Casa Branca, até agora usado exclusivamente com respeito ao provável/possível desenvolvimento de armas nucleares iranianas: “Todas as opções estão sobre a mesa”.

Em qualquer sociedade normal acenderiam as luzes vermelhas, em especial nas salas de notícias do mundo. Mas não: nós, os escribas, lembramos ao mundo que Obama disse que o uso de armas químicas na Síria seria uma “mudança no jogo” – pelo menos os estadunidenses admitem que seja um jogo – e nossos relatórios confirmam que, na verdade, ninguém confirmou.

“Foram usadas armas químicas”. Em dois estúdios canadenses de televisão se aproximam produtores mostrando essa mesma manchete. Eu lhes digo no ar que farei migalhas da “evidência” e, rapidamente, a matéria é retirada dos dois programas. Não porque não queiram usá-la – usarão mais tarde –, mas porque não querem que ninguém dê a entender que são besteiras.

A CNN não tem essas inibições. Quando perguntam ao seu repórter em Amã pelo uso de armas químicas, ele responde: “Não tanto como o mundo gostaria de saber… a psique do regime de Assad…” Mas alguém tentou? Ou simplesmente fez uma pergunta óbvia que um agente de inteligência sírio me fez na semana passada: se a Síria pode causar um dano infinitamente mais grave com seus bombardeiros MiG (cosa que sim, faz), para que ia querer usar armas químicas? E já que tanto o regime como seus inimigos se acusam mutuamente de usá-las, porque Chuck não tem tanto medo dos rebeldes como da ditadura de Assad?

Tudo volta ao mais infantil de todos os lugares comuns: que os Estados Unidos e Israel temem que as armas químicas “caiam em mãos perigosas”. Têm medo, em outras palavras, de que essas armas caiam no arsenal desses mesmos rebeldes, em especial islâmicos, aos quais Washington, Londres, Paris, Qatar e Arábia Saudita dão respaldo. E se essas são as “mãos perigosas”, é de se supor que as armas do arsenal de Assad estão em “boas mãos”. Assim aconteceu com as armas químicas de Saddam Hussein… até que lhe ocorreu usá-las contra os curdos.

Agora sabemos que houve três incidentes específicos nos quais, supostamente, se usaram gás sarin na Síria: em Alepo, quando ambos os grupos se acusaram (de fato, os vídeos vinham da televisão estatal Síria); em Homs, ao que parece em uma escala muito pequena; e nos arredores de Damasco. E, ainda que a Casa Branca parecesse ter passado por alto, três crianças refugiadas sírias foram levadas a um hospital na cidade de Trípoli, no norte do Líbano, com queimaduras profundas e dolorosas.

Mas existem alguns problemas. Os projéteis de fósforo podem infligir queimaduras profundas, e talvez causar defeitos de nascimento. Mas os estadunidenses não sugerem que o exército sírio tenha usado fósforo (que de fato é um químico); depois de tudo, soldados estadunidenses usaram essa mesma arma na cidade iraquiana de Fallujah, onde de fato há agora uma explosão de defeitos congênitos.

Suponho que nosso ódio ao regime de Assad se veria melhor refletido pelo horror aos relatórios de torturas cometidas pela polícia secreta Síria contra os detidos. Mas também nisso há um problema: apenas 10 anos atrás, os Estados Unidos “submetiam” homens inocentes, inclusive um cidadão do Canadá, a Damasco para serem interrogados ou torturados por esses mesmos policiais secretos. E se mencionamos as armas químicas de Saddam, há outro inconveniente: os componentes dessas vis armas foram produzidos por uma fábrica de Nova Jersey e enviados a Bagdá pelos Estados Unidos.

Desde já, não é essa a matéria em nossas salas de imprensa. Entremos em um estúdio de televisão e todos estão lendo jornais. Entremos na redação de um jornal e todos estão vendo a televisão. É osmose. E as manchetes são todas as mesmas: “Síria usa armas químicas”.

Assim funciona o teatro.

*Robert Fisk é o correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio. Tradução: Liborio Júnior

Fonte: CartaMaior

Netanyahu quer a paz com os palestinos?

Bastou a sinalização de que as negociações podem ser retomadas para o premier israelense criar mais uma potencial barreira à paz

por José Antonio Lima
Benjamin Netanyahu

Oficialmente, o processo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina está paralisado desde 2010. Ainda assim, nos últimos dias, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, falou duas vezes sobre a possibilidade de submeter o futuro acordo a um referendo popular. Há motivos para crer nas boas intenções de Netanyahu, mas sobram razões para desconfiar delas. Aparentemente, a novidade de Netanyahu é mais um sinal de sua covardia e intenção de barrar a criação do Estado palestino.

Nas últimas semanas, surgiram diversos indícios da reativação do processo de paz, graças à iniciativa do governo dos Estados Unidos, que recebeu árabes e israelenses para uma série de diálogos.

Na segunda-feira 28, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, conversou com uma delegação da Liga Árabe. Após as reuniões, o chanceler do Catar, Sheikh Hamad bin Jassim al-Thani, afirmou, em nome da Liga Árabe, que um acordo deveria “ser baseado na solução de dois Estados, com base na linha de 4 de junho de 1967, com [a possibilidade] de pequenas trocas de terras mútuas e aceitas por ambas as partes”. Traduzindo, o que Jassim al-Thani fez foi ressuscitar a Iniciativa Árabe para a Paz, lançada em 2002 pela Arábia Saudita. Por essa proposta, todos os países árabes normalizariam suas relações com Israel em troca da criação de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como capital.

A Iniciativa Árabe para a Paz fracassou e hoje se tornou inaceitável para Israel. Entre vários motivos, porque Israel ocupou, violando a lei internacional, uma série de territórios da Cisjordânia que não aceita mais devolver. A inovação do chanceler do Catar é que, agora, a Liga Árabe aceita oficialmente alterações na fronteira de 1967, como já fazia a Autoridade Palestina. Esta mudança é importante pois cria um caminho de retomada de negociações, uma vez que a posição dos Estados árabes também conta para a paz.

Por que um referendo?

Diante da iniciativa dos EUA e da sinalização positiva árabe, Netanyahu surgiu com a proposta do referendo. Na quinta-feira 2, em reunião com o ministro das Relações Exteriores da Suíça, Didier Burkhalte, disse ter a intenção de “aprender” com o país europeu como realizar consultas populares.

Os defensores de Netanyahu alegam que a proposta do referendo é boa para a paz. Em primeiro lugar porque, ao garantir que a palavra final será dada pela população israelense, Netanyahu evitaria a oposição automática aos diálogos de setores mais extremistas da coalizão governista. Em segundo lugar, porque a votação daria um ar de legitimidade ao possível acordo de paz, tornando-o inquestionável dentro de Israel.

Ocorre que, mesmo diante do viés positivo, está claro o possível uso negativo do referendo. A votação popular pode se tornar uma espécie de “seguro” contra a paz. Se as negociações forem mesmo retomadas, Netanyahu poderá usar o referendo para tentar forçar os palestinos a moderarem suas exigências, para não aceitar de antemão as propostas feitas, ou mesmo para fechar um acordo natimorto, por ser inaceitável para a população, cada vez mais radicalizada. Ao pedir o referendo antes mesmo de voltar à mesa de negociações, Netanyahu está transferindo ao povo israelense a responsabilidade sobre um assunto central do futuro do país. Ao fazer isso, o premier foge a uma das obrigações de um líder – tomar decisões impopulares, mas fundamentais para a segurança da nação. Seria um evento inédito na história de Israel, que nem mesmo em 1979, quando assinou a paz com o Egito, fez um consulta formal aos eleitores.

Hoje há muitos obstáculos para a paz, muitos deles no campo palestino, como a divisão Fatah-Hamas e a própria postura do Hamas, um grupo, antissemita, que prega a matança indiscriminada de judeus. Outros obstáculos, entretanto, partem do governo de Israel, particularmente de Benjamin Netanyahu. É ele quem exige dos palestinos o (inaceitável antes do acordo) reconhecimento de Israel como Estado judeu e quem se recusa a mencionar as fronteiras de 1967 como base para as negociações. Com essa postura intransigente e a ideia de transformar o acordo em refém de um referendo, Netanyahu reforça a imagem de ser um líder que não busca a paz, mas sim submeter os palestinos a uma situação inaceitável.

Fonte: CartaCapital

Invasão do Iraque pelos EUA completa 10 anos de impunidade

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos completa 10 anos. A decisão tomada pelo então presidente George W. Bush  foi unilateral e ilegal, mas não sofreu consequências. Por isso, ele conseguiu manter por anos a fio uma guerra imperialista que custou milhões de vidas aos iraquianos, cometendo crimes contra a humanidade até hoje impunes.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

 

A decisão de Bush inseriu-se em um contexto internacional dominado pela Doutrina Bush, que foi caracterizada pelo empenho por um mundo unipolar, de políticas unilaterais e imperialistas que tinham como único objetivo o estabelecimento irrefutável da hegemonia estadunidense sobre o mundo.

A convicção arrogante de que o país é um poder hegemônico que deve ordenar mundo (principalmente quando vendo seus amplos, ambíguos e instrumentais “interesses nacionais” ameaçados) foi a base da política externa estadunidense, mas que ainda precisava de aliados.

Dias antes da invasão, os EUA organizaram o ensaio de legitimação para a sua decisão unilateral e imperialista com a Cimeira dos Açores, realizada em 16 de março, em que se reuniu com os então primeiros-ministros Tony Blair (Reino Unido) e José María Aznar (Espanha), por exemplo.

No dia seguinte, Bush deu um “ultimatum” para que o presidente iraquiano Saddam Hussein e sua família deixassem o Iraque em 48 horas. Não correspondido, com o final do prazo o então presidente anunciou que iniciaria ataques aéreos e que enviaria 250.000 soldados ao Iraque, o que aconteceu gradualmente.

Depois de votarem contra a resolução de guerra levada pelos EUA ao Conselho de Segurança da ONU, a França e outros países europeus viram-se ameaçados pela afirmação de Bush, ainda nos Açores (quando já previa uma guerra), de que aquele seria “o momento da verdade”.

O apoio do Reino Unido (o principal aliado dos EUA então) custou caro politicamente para o então primeiro-ministro Tony Blair, que além de contrariar os protestos da população civil, contrariou também o seu próprio Partido Trabalhista: cerca de 160 dos seus parlamentares haviam votado contra a iniciativa do governo de juntar-se à guerra dos EUA.

Já há uma série de estatísticas e avaliações, em relatórios complexos, discursos e avaliações de políticas de Estado, mas ainda nenhuma explicação plausível para a Guerra no Iraque, iniciada unilateralmente e de forma ilegal há exatos 10 anos pelos Estados Unidos contra aquele país. 

De 2001 a 2013, neste novo século já iniciado por uma política internacional dominada pelo imperialismo estadunidense (através da instrumental “guerra contra o terror” que criou raízes no imaginário norte-americano e, depois, de seus aliados europeus), os EUA gastaram ou comprometeram-se com obrigações que somaram 3,1 trilhões de dólares em guerras no Afeganistão, Iraque e Paquistão. O custo total é ainda mais alto quando considerados os gastos relacionados com a guerra no Departamento de Segurança Interna, e se calculados os juros dos empréstimos feitos para pagar pelas guerras.

A motivação declarada em diversos discursos era a suposta existência de armas de destruição em massa, para começar, depois a “guerra contra o terror”, e também a derrubada de um “ditador”, na figura odiada pelo então presidente dos EUA, a do presidente Saddam Hussein. 

“Comemorações” na mídia

Jornais como The New York Times, nesta “comemoração” dos 10 anos desde a invasão, publicaram infográficos sobre as mortes relacionadas à guerra, separando-as por “forças americanas”, “forças de outras coalizões”, “forças iraquianas”. Ficam faltando os civis, porém, as maiores vítimas.

Ainda, há separações por causas, como “fogo amigo”, “fogo inimigo”, “ataque suicida”, entre outras, e há inclusive uma categoria que mereceria análise, pois aglomera as causas “não hostil/acidental/suicídio”.

Oficialmente, para os EUA, a guerra terminou no dia 15 de dezembro de 2011, de acordo com anúncios do presidente Barack Obama, desde a sua primeira vitória eleitoral, em 2008. Foi quando as últimas forças estadunidenses (especificamente, as engajadas em combate direto com os iraquianos) foram retiradas. Entre 2003 e 2012, no total, contabiliza-se a morte de 4.480 soldados, mas as consequências afetam milhões de pessoas nos EUA indiretamente, e incluem também a invalidez de vários ex-combatentes e o stress pós-traumático diagnosticado em grande parte deles.

O aniversário da invasão do Iraque resultou em numerosos documentos, relatórios, declarações e matérias de jornal, como a do New York Times, que se propôs a publicar uma série com as declarações de soldados que estiveram na guerra, contando como isso mudou as suas vidas.

Provavelmente, porém, a semana de “eventos comemorativos” terminará antes que jornais como este possam ouvir “como a guerra afetou as vidas” não dos soldados, mas da população civil do país invadido.

O escritor norte-americano David Swanson, em seu relatório “A guerra do Iraque entre os piores eventos do Mundo” (Iraq’s War Among the World’s Worst Events, ainda sem tradução para o português) lembrou também dos 22 anos da Operação Tempestade no Deserto (ou da Guerra do Golfo, de 1990), que precedeu a “Operação Libertação do Iraque” (cuja sigla em inglês é OIL, em alusão ao interesse dos EUA pela região, o petróleo, segundo Swanson), também chamada de Segunda Guerra do Golfo.

Impacto real da Guerra (dos EUA) no Iraque

Neste 20 de março de 2013, porém, para a população invadida, não há muito para comemorar, apesar da “retirada” oficial das tropas invasoras ter sido anunciada há dois anos. O governo atual do primeiro-ministro Nouri al-Maliki (praticamente instalado pelos EUA) tem sido acusado pela população civil de autoritarismo, de patrocinar execuções sumárias, prisões arbitrárias, tortura e estupro, de acordo com uma matéria da emissora árabe Al-Jazeera.

De acordo com números que Swanson recolheu de vários informes, o Iraque perdeu cerca de 1,4 milhões de vidas como resultado da OIL, o que representou 5% da sua população. Esta cifra não chega a se comparar às perdas sofridas pela França (1%) e dos EUA (0,3%), por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial.

As mortes de estadunidenses nesta guerra não chegam a representar 0,3% das mortes totais, o que pode ser explicado, para começar, com o hábito dos EUA de invadir e agredir diretamente países que ficam longe da sua vizinhança, quase como um “plano estratégico” perfeito, para além de instrumental, dados os seus interesses políticos e econômicos na região onde mais tem investido militarmente: o Oriente Médio.

Como se já não bastasse, lembra Swanson, também resultaram da OIL cerca de 4 milhões de feridos e 4,5 milhões de refugiados, que tiveram de fugir não só para os países vizinhos como também para outras regiões.

Além disso, de acordo com a base de dados sueca do Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, da sigla em inglês), há também entre 2,3 milhões e 2,6 milhões de pessoas que foram forçadas a deslocar-se internamente (por isso, não são contadas como refugiadas), número reduzido a 1,3 milhão pelas estimativas da ONU, que só contabiliza os que foram inscritos pelas autoridades iraquianas desde 2006.

Os custos materiais também não escaparam de maior análise. Para além da infraestrutura atual, a Unesco também denunciou a destruição de sítios arqueológicos e outros patrimônios históricos de extrema importância, como é de costume em guerras tão devastadoras. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo na véspera deste aniversário, nesta terça-feira (19), o especialista em estudos árabes e islâmicos Paulo Daniel Farah também menciona os danos ao patrimônio cultural do Iraque, que se situa na antiga Mesopotâmia.

Farah lembra que, “referência cultural nos anos 1970, o Iraque abriga milhares de sítios arqueológicos que foram submetidos à pilhagem e ao contrabando, junto com toda uma memória coletiva humana.”

Ainda antes disso, desde o embargo imposto ao país em 1990, que começou com a Resolução 661 do Conselho de Segurança da ONU (adotada naquele mesmo ano), houve “saques sistemáticos e organizados ao patrimônio material iraquiano que colocam em risco grave a história da humanidade”, afirma Farah.

A invasão iniciada em 2003, entretanto, só agravou a vulnerabilidade a esses saques. ”Menos de duas semanas após a invasão norte-americana, muitas dessas obras já se encontravam nos Estados Unidos e na Europa”, como afirma o arqueólogo sírio Ahmad Serrie, citado por Farah.

Performances e custos da guerra 

A invasão de 2003 incluiu, de acordo com Swanson, 29.200 ataques aéreos, fora os 3.900 realizados nos oito anos seguintes. As forças militares estadunidenses tiveram em seus alvos tanto civis quanto jornalistas, hospitais e ambulâncias.

Além disso, como já denunciado por várias organizações internacionais, o exército dos EUA também fez uso do que se pode chamar de “armas de destruição em massa”, como as bombas de racimo, fósforo branco, urânio empobrecido e um novo tipo de napalm (substância que também usou na sua Guerra contra o Vietnã, na década de 1970), em áreas urbanas densamente habitadas.

Mais de um desses recursos já são proibidos por convenções internacionais, e o seu uso configura “crimes de guerra” e até “crimes contra a humanidade”, sob o direito internacional humanitário. Mas isso não preocupa os Estados Unidos, pois não seria a primeira nem a última vez.

O resultado, como também já conhecido de outras guerras, foi o aumento das taxas de câncer, de mortalidade infantil, entre outras. As fontes de água, as plantas de tratamento de esgoto, hospitais, pontes e plantas de energia elétrica foram devastadas, e a maior parte continua sem conserto.

Ainda antes da guerra iniciada em 2003, uma guerra econômica contra o país já havia deteriorado o sistema de saúde e nutrição, como relembra Swanson, “através das mais abrangentes sanções econômicas já impostas na história moderna.”

Não é difícil também para os analistas econômicos encontrarem indícios de uma intencionalidade comercial da guerra empreendida pelos EUA, não só pelo tema do complexo industrial-militar, que encontra terreno bastante fértil para ser desenvolvido, como também pelos esforços de “reconstrução” do Iraque, que garantiram contratos milionários com construtoras.

Reconstrução do Iraque

Ainda assim, Swanson afirma que o dinheiro gasto pelos Estados Unidos na “reconstrução” era sempre menos de 10% do que era gasto com a destruição, e a maior parte nunca foi realmente posta em uso construtivo. Ao menos um terço foi gasto em “segurança”, enquanto muito do resto foi gasto em corrupção pelos militares e funcionários dos EUA.

Em uma análise do fator social, ainda, o jornalista lembra que os iraquianos que poderiam ajudar na reconstrução do país tiveram de fugir durante a guerra. O Iraque tinha as melhores universidades da Ásia ocidental durante a década de 1990, mas agora é um expoente do analfabetismo, com uma população de professores, em Bagdá, reduzida em 80%.

Contribuindo para a instabilidade e os conflitos internos, durante anos as forças ocupantes fragmentaram a sociedade, encorajando a violência e a divisão étnica e sectária, como dita o costume dos impérios coloniais e modernos. Diversos cientistas políticos já identificaram esforços concretos neste sentido.

Swanson afirma ainda que “enquanto a dramática escalada da violência” esperada com a retirada dos EUA não se realizou, o Iraque ainda tem de lidar com a instabilidade interna, as tensões regionais e, claro, o ressentimento generalizado contra os estadunidenses, exatamente o oposto do que os EUA declararam como objetivo para tornar o país mais seguro.

“Se os EUA tivessem pegado os 5 trilhões de dólares e, ao invés de destruir o Iraque, tivessem escolhido fazer algo bom com isso, em casa ou no exterior, imagine as possibilidades”, diz Swanson, que lembra que a ONU teria declarado, por exemplo, que 30 bilhões de dólares por ano acabariam com a fome no mundo.

Mesmo assim, a Casa Branca também publicou seu próprio infográfico, onde figuram, é claro, as “promessas cumpridas” com relação à guerra. Obama caracterizou o fim de uma “missão de combate” em setembro de 2011, com a remoção de 100.000 soldados, de acordo com um acordo assinado em 2008, entre os EUA e o Iraque (“Acordo sobre o status das Forças estadunidenses e iraquianas”).

Entretanto, isso não pressupôs, na verdade, a retirada total das tropas, que seguem presentes ainda que sob um mandato diferente, como os já conhecidos treinamentos das forças de segurança iraquianas. Para objetores estadunidenses, ainda, as tropas que continuaram no país servem também para apoiar o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, em mais uma intervenção política de bastidores, outra especialidade dos EUA.

Segundo a Casa Branca, o objetivo é encontrar uma forma de “acabar responsavelmente” com a guerra. Entretanto, talvez o plano devesse ser, daqui para frente, como “responsavelmente manter-se fora dela”, ou como respeitar a soberania alheia.

A estratégia frequente de divisões sectárias e a instigação da violência supostamente baseada em diferenças identitárias (portanto, diferenças culturais instrumentalizadas de acordo com objetivos políticos) também foi posta em prática pelos EUA de Bush durante a sua invasão.

Depois, restou ao presidente Obama a tarefa igualmente assentada na ingerência de telefonar ao governo iraquiano para apelar para um governo de unidade nacional, mais especificamente pedindo ao presidente que se demitisse para dar lugar a um novo candidato que os EUA já tinham nomeado. A alternativa seria aceitar a presença de tropas estadunidenses por mais tempo, e apesar de ambas as “opções” terem sido negadas, assim é a situação atual do Iraque.

Fonte: PortalVermelho