Sentença de Haia estremece relação entre Peru e Chile e afeta unidade da Aliança do Pacífico

Lima argumenta que fronteiras terrestres também deveriam ser alteradas após decisão de corte internacional, o que é repudiado de forma veemente por Santiago

Organizado para ser uma homenagem ao chileno Sebastián Piñera e anunciar importantes acordos comerciais, como o protocolo de redução de taxas alfandegárias, o encontro anual dos presidentes da Aliança do Pacífico, realizado nesta semana na cidade colombiana de Cartagena de Índias, teve seus objetivos ofuscados pela primeira crise entre os países do bloco.

O evento acontece duas semanas depois que o Tribunal de Haia anunciou a decisão de mudar o ângulo da fronteira marítima entre Peru e Chile (dois dos quatro países que integram a Aliança do Pacífico, ao lado de Colômbia e México), que mantinham a causa pendente na corte internacional desde 2008. A sentença fez o Chile perder aproximadamente 20 mil km² de território marítimo, que passarão a fazer parte do mar peruano.

Desde então, os dois governos montaram uma equipe denominada “2+2”, na qual participam os chanceleres e os ministros de Defesa de ambas as partes, cujo trabalho começou em 4 de fevereiro. Nas reuniões diárias organizadas pelo grupo, têm surgido fortes polêmicas, sobretudo pelo lado chileno, que terminou o encontro da última sexta-feira (07/02) protestando contra a intenção peruana de colocar em dúvida a fronteira terrestre entre os países.

Se esperava que o encontro entre os presidentes da Aliança do Pacífico pudesse aliviar a tensão entre os vizinhos. Porém, a delegação chilena chegou à Colômbia trazendo duas polêmicas na bagagem.

Primeiro, a declaração do mandatário Sebastián Piñera na qual ele disse que seu colega peruano, Ollanta Humala, sofre de “um nacionalismo mal concebido”, e que isso estaria levando seu governo a exagerar a importância da sentença de Haia.

A frase de Piñera antecedeu o encontro dos presidentes da Aliança do Pacífico, ocorrido nesta segunda-feira (10/02), na qual houve um sinal de que o conflito entre os países andinos respingou na unidade do bloco.

No ato em homenagem a Piñera, a expectativa era a de que os três outros presidentes rendessem sua homenagem ao governante chileno, que participa de sua última reunião antes de passar o poder a Michelle Bachelet. Porém, a cerimônia foi mais curta do que o esperado e contou com apenas um discurso, do anfitrião colombiano Juan Manuel Santos, quem reconheceu em Piñera “um dos líderes que mais se esforçou em tornar esta uma aliança de sucesso tanto no âmbito político quanto no comercial”.

Horas antes da homenagem, a segunda polêmica: o chanceler chileno, Alfredo Moreno, afirmou que a delegação de seu país está avaliando a possibilidade de entregar uma carta de protesto formal aos representantes peruanos, reclamando dos questionamentos sobre o chamado “triângulo terrestre” (território fronteiriço terrestre entre os dois países, que replica o triângulo marítimo que motivou a causa no Tribunal de Haia). Segundo Moreno, “a Corte de Haia nos deu razão em alguns tópicos, entre eles o que estabelece o início da fronteira terrestre nos termos defendidos pelo Chile”.

A resposta do Peru veio através do próprio presidente Ollanta Humala, pouco depois da homenagem a Piñera: “ratificamos com firmeza ao presidente do Chile que a soberania sobre o triângulo terrestre é peruana”. O Peru alega que o Marco Nº 1 estabelece o início da fronteira marítima e que a decisão da Haia ratifica um tratado de 1929, que dá ao país a soberania sobre o “triângulo terrestre”.

A chanceler peruana, Eda Rivas, por sua vez, tentou minimizar as discordâncias e descartou que o conflito no grupo de trabalho possa resultar em maiores problemas bilaterais. “Essas instâncias de diálogo costumam começar com diferenças, mas existe disposição dos dois lados para se chegar a um acordo, e paciência, porque sabemos que será uma negociação longa”, analisou Rivas.

Pacto de Bogotá

As polêmicas levantadas por Piñera e Moreno repercutiram mal tanto no Peru quanto no Chile. O acadêmico chileno Jorge Contesse, especialista em Direito Internacional da Universidade Diego Portales, analisou a que “as declarações de Piñera e a ameaça de entregar uma carta de protesto são o último ato de uma diplomacia que pecou pela falta de cautela”.

Segundo Contesse, a Aliança do Pacífico foi sua prioridade em termos de política exterior, e os dois episódios polêmicos ligados à delegação chilena “denotam uma falta de tato que se percebeu em toda a atual gestão”.

O cenário já desfavorável, porém, poderia ficar ainda pior, segundo Contesse, caso o país confirme que abandonará o Pacto de Bogotá (tratado de 1948 em que 20 países latino-americanos, entre eles Chile, Peru e Brasil, estabelecem que o Tribunal de Haia é a instância na qual devem se resolver os conflitos limítrofes), outra das especulações que surgiram após recente entrevista de Piñera aos meios radiofônicos chilenos.

Novo ângulo começa no ponto A e tem 80 milhas náuticas, preservando área pesqueira chilena

O presidente afirmou ter conversado com Michelle Bachelet sobre o tema e que uma posição a respeito será tomada nos próximos dias. Para Contesse, a intenção manifestada por Piñera é “um mal sinal”, porque se dá em um momento em que existe uma demanda na Corte ainda pendente (contra a Bolívia) e que não perde o valor com a retirada do pacto, posto que a mesma já foi aceita pelo tribunal.

“Além disso, se o Chile decide se retirar agora do pacto, essa saída ainda demorará meses em se tornar efetiva, provavelmente só será ratificada em 2015, e nesse meio tempo o país terá que ter jogo de cintura para lidar com a desconfiança dos demais vizinhos, que podem ver com maus olhos essa decisão, e do próprio Tribunal de Haia, que está avaliando o processo contra o Bolívia e que provavelmente verá nesse gesto um sinal de debilidade da defesa chilena”, avaliou Contessse.

A demanda boliviana contra o Chile foi iniciada em abril de 2013 e reclama o direito do país a uma saída marítima soberana e conectada com seu território atual. Caso a Bolívia tenha sucesso na causa, ocuparia uma faixa de terra entre a região oeste de La Paz e a região desértica ao norte do Chile, acabando com a fronteira entre este país e o Peru, além de obrigar os três países a redefinirem suas fronteiras marítimas.

 

Fonte: OperaMundi

Proteção a Snowden

A hipocrisia é a deferência que o vício paga à virtude. Alguém deveria ter se lembrado dessa frase quando o Itamaraty tentou justificar as razões para não dar asilo a Edward Snowden.

A história, todos conhecem. Ao expor o funcionamento do sistema de espionagem norte-americano, o ex-funcionário de uma empresa prestadora de serviços à NSA, agência de segurança doméstica dos Estados Unidos, demonstrou como a “guerra ao terror” era uma desculpa tosca para espionarem o celular de Angela Merkel, os contratos da Petrobras e o seu e-mail, caro leitor.

Ainda mais interessante 
do que a descoberta foi a reação daqueles que sempre encontram uma razão para postar diatribes contra a vigilância absoluta em Cuba e na Rússia soviética: “Não há problema algum, todo mundo sempre soube que todos espionam todos”. Sim, os mesmos que se indignam com o fim das liberdades individuais no “mundo vermelho” acham normal elas sumirem no ar, desde que por obra de uma agência de inteligência norte-americana.

Segundo essa lógica, não deixa de ter lá sua graça descobrir que Snowden se transformou no objeto de uma das mais impressionantes caçadas humanas dos últimos tempos, com direito a invasão do avião presidencial do boliviano Evo Morales, simplesmente por “mostrar o que todo mundo sabia”. Diga-se de passagem, eu devo estar fora do mundo, pois juro que não sabia que minhas ligações e e-mails iam parar na mesa de algum burocrata da NSA. Para mim, isso era conversa de gente com delírio de perseguição.

Agora, Snowden pede asilo ao Brasil. Nada mais natural. O Brasil, esta terra pátria do terrorismo internacional que trama às escusas explodir o Pentágono e a Disney, foi um dos países mais espionados dos últimos anos.  A presidenta Dilma foi à Assembleia-Geral das Nações Unidas para mostrar sua indignação, no que fez bem. Uma visita oficial aos EUA foi cancelada e, ao que parece, a venda de caças norte-americanos para as Forças Armadas brasileiras foi suspensa pelos próximos 50 anos.

Snowden deve ter visto a reação e pensado haver alguém no governo brasileiro disposto a reconhecer seu estatuto de asilado político, perseguido por seu país por mostrar como seu governo agia de maneira criminosa em relação aos aliados. Então, Snowden escreveu uma carta. Ele deve ter se lembrado de como Julian Assange, outro que resolveu “mostrar o que todo mundo sabia”, conseguiu apoio do pequeno Equador e passou a viver em sua embaixada londrina até a Inglaterra resolver respeitar as leis de imunidade diplomática e os acordos internacionais de salvo-conduto. Além de pedir asilo, Snowden se dispunha a ajudar na investigação de crimes contra cidadãos brasileiros.

Um dia depois, a resposta brasileira aparece na mídia. O Itamaraty mostrava certo tom de indignação. “Não vamos aceitar que o asilo apareça como moeda para troca de informações.” Ótimo, mas o detalhe é que o argumento serviu para desqualificar o pedido de Snowden. Talvez seria mais honesto dizer que o pedido seria analisado independentemente do auxílio ou não nas investigações, pois o governo reconhece a existência de um crime contra o nosso País e que Snowden tem sido perseguido, entre outras coisas, por denunciá-lo.

Com a delicadeza 
costumeira, a presidenta afirmou: “Não acho que o governo brasileiro tem de se manifestar sobre esse indivíduo que não deixou claro nada, que não se dirigiu a nós”. Bem, “esse indivíduo” foi quem mostrou como a segurança do computador de Dilma Rousseff era tão boa quanto a segurança do meu computador. Só por isso, ela lhe deveria ser um pouco mais grata. Por outro lado, dizer que Snowden não se dirigiu a nós é no mínimo estranho. Alguém manda uma carta aberta aos brasileiros publicada na mídia e não a manda “a nós”. Há de se perguntar onde estaria este “nós” se não na esfera da opinião pública.

O episódio serve para mostrar que um pouco menos de hipocrisia neste caso seria bem-vindo. O Brasil pode temer a reação norte-americana caso conceda o asilo, mas então deverá pagar o preço de ser uma nação que não age conforme os princípios que diz acreditar. Ele poderia, por exemplo, usar o Mercosul e dar um asilo conjunto com vários países, o que poderia ser uma inovação diplomática interessante e com menos vulnerabilidade. Bem, talvez seja esperar demais.

Por Vladimir Safatle

Fonte: CartaCapital

Mandela contra a escravidão

A figura de Mandela permanece como a do maior líder popular africano, porque tocou no tema essencial de todo o período histórico da colonização: a escravidão.

por Emir Sader

Emir Sader

A escravidão foi o maior crime de lesa humanidade cometido ao longo de toda a história humana. Tirar milhões de africanos dos seus países, do seu mundo, da sua família, para trazê-los para a América, para trabalhar como escravos, como  “raça inferior”, produzindo riquezas para os brancos europeus foi um crime incomensurável,  do qual nunca se compensou, sequer minimamente, a África.

O “apartheid” foi uma sobrevivência da escravidão na África do Sul. Como relata o Museu do Apartheid, em Joanesburgo, impressionante testemunho do mundo do racismo, os brancos consideravam essa politica uma “genial arquietetura” para conseguir a convivência entre brancos e negros. Nas mais escandalosas condições de discriminação, de racismo, de opressão.

Por detrás estava a super exploração da mão de obra negra nas minas sul-africanas, fornecedor essencial para os países europeus, sob comando da Holanda. As pessoas eram legalmente declaradas brancas ou negras, com todas as consequencias de direitos para uns e exclusão de direitos para os outros. Uma declaração da qual se poderia apelar todos os anos, mas que, ao mesmo tempo, se corria o risco de alguém questionar a condição de branco de qualquer outra pessoa, que poderia recair na condição de negro.

O cinismo das potências coloniais e dos próprios EUA estava na postura de não aderir ao boicote à Africa do Sul, alegando que isso isolaria ainda mais esse pais e dificultaria negociações politicas. Na verdade, a África do Sul do apartheid era um grande aliado dos EUA – junto com Israel – em todos os conflitos internacionais, alem de fornecedor de matérias primas estratégicas.

Não foi essa via de negociações que o apartheid terminou, mas pela luta, conduzida por Nelson Mandela, mesmo de dentro da cárcere, por 27 anos. Como reconheceu o próprio Mandela, o país que desde o começo apoiou ativamente, sem hesitação, a luta dos sul-africanos foi a Cuba de Fidel, o que forjou entre os dois lideres uma relação de amizade e companheirismo permanente. 

A libertação de Mandela, o fim do apartheid e sua eleição como o primeiro presidente negro da Africa do Sul, foram a conclusão de décadas de lutas, de massacres, de prisões, de sacrifícios. Mandela aceitou ser eleito presidente, para concluir esse longo caminho, com a consciência de que estava longa de ser conseguida a emancipação dos sul-africanos. O país manteve a mesma inserção no sistema econômico mundial, as estruturas capitalistas de dominação não foram atingidas. A desigualdade racial foi profundamente afetada, mas não as desigualdades sociais.

Por esta via, os negros sul-africanos continuaram a ser vítimas, agora da pobreza, que os segue afetando de maneira concentrada. Os governos posteriores foram impotentes para mudar o modelo econômico e promover os direitos sociais  da massa da população. Os ideias de Mandela se realizaram, com o fim do apartheid, da discriminação racial legalmente explicitada, mas não permitiu aos negros saírem da sua condição de massa super explorada, discriminada, agora socialmente.

Mas a figura de Mandela permanece como a do maior líder popular africano, porque tocou no tema essencial de todo o período histórico da colonização – a escravidão. Ele soube combinar a resistência pacifica e violenta, para canalizar a força acumulada dentro e fora do país, para negociações que terminaram com o apartheid.

O historiador marxista britânico Perry Anderson considera Nelson Mandela e Lula como os maiores líderes populares do mundo contemporâneo, não apenas pelo sucesso das lutas a que eles se dedicaram – contra a discriminação racial e contra a fome -, mas também porque tocam em temas fundamentais das formas de exploração e de opressão do capitalismo. O apartheid terminou, fazendo com que Mandela ficasse como um dos maiores lideres do século XX. Lula projeta sua figura no novo século, na medida em que a sobrevivência do capitalismo e do neocolonialismo reproduzem a fome e a miséria no mundo.

Fonte: CartaMaior

Vitórias da multipolaridade mundial

O que parecia impossível há 3 semanas, agora é uma realidade consolidada. O Conselho de Segurança da ONU aprovou o acordo da Rússia com os EUA para a crise síria.

O ultimo obstáculo foi superado, de forma favorável à Rússia, concedendo apenas formalmente aos EUA, à Grã Bretanha e à França. Foi incluído um capitulo do regulamento da ONU, que prevê ações armadas, caso o governo da Síria não obedeça as demandas do acordo. Mas a Rússia conseguiu o essencial para ela: só haveria uma ação armada produto de uma nova decisão, o que possibilitaria a Rússia de exercer o seu direito de veto.

A Russia e a China aprenderam do caso da Líbia – que poderia ter sido evitado, como o está sendo o da Siria -, quando os EUA, a Grã Bretanha e a França se valeram de uma vaga resolução do Conselho de Segurança, autorizando ações de “proteção da população civil”, para que a OTAN bombardeasse indiscriminadamente o país durante meses, até a queda do regime.

Desta vez a Rússia e a China se opuseram a algo similar, até que o governo russo pegou pela palavra do Secretaria de Estado John Kerry, formulou uma proposta de acordo e conseguiu o apoio do governo sírio.

A proposta prosperou porque Obama não conseguiu gerar as condições políticas para o bombardeio, com o qual já tinha se comprometido, com o apoio solitário da França. De repente, foi se consolidando um marco de negociação entre a Russia e os EUA – este, depois de suspender reunião de Obama com Puttin, pelo caso Snowden, teve que se dirigir, mesmo a contragosto, à reunião de Kerry com o Ministro de Relações Exteriores da Rússia.

Somado a essa grande vitória das soluções politicas, pacificas, negociadas – que o Brasil, entre outros países, sempre pregou -, está a retomada de relações entre os EUA e o Irã. Juntos, configuram um novo cenário internacional, com o avanço da multipolaridade, em detrimento das vias bélicas usadas pelos EUA.

Perdem Israel, a oposição síria, a Arábia Saudita, o Qatar. Ganham os que pregam o enfraquecimento da hegemonia norte-americana em favor da multipolaridade mundial.

Por Emir Sader

Fonte: CartaMaior

 

Mujica critica sociedade capitalista em discurso na ONU

Presidente uruguaio lamentou embargo a Cuba, colonialismo nas Malvinas e a pobreza na América Latina

O presidente do Uruguai, José Mujica, criticou duramente o consumismo durante seu discurso na 68º Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (24/09). “O deus mercado organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos frustração, pobreza e autoexclusão”, afirmou.

No discurso, que durou 40 minutos, ele também elogiou a utopia “de seu tempo”, mencionou sua luta pelo antigo sonho de uma “sociedade libertária e sem classes” e destacou a importância da ONU, que se traduz para ele um “sonho de paz para a humanidade”.

Aos jornais uruguaios, Mujica prometeu um “discurso exótico” e fugiu do protocolo ao dizer que “tem angústia pelo futuro” e que nossa “primeira tarefa é salvar a vida humana”. “Sou do Sul (…) e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrônica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazônia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância”.

A humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”. No mesmo tom, ressaltou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano médio seriam necessários três planetas. Nossa civilização montou um desafio mentiroso”.

Uruguaio criticou altos gastos dos países com armamentos

Para o presidente, o atual modelo de civilização “é contra os ciclos naturais, contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite viver as relações humanas”, porque “só o amor, a amizade, a solidariedade, e a família transcendem”. “Arrasamos as selvas e implantamos selvas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com remédios. E pensamos que somos felizes ao deixar o humano”.

Paz e guerra

“A cada 2 minutos se gastam dois milhões de dólares em insumos militares. As pesquisas médicas correspondem à quinta parte dos investimentos militares”, criticou o presidente ao sustentar que ainda estamos na pré-história: “enquanto o homem recorrer à guerra quando fracassar a política, estaremos na pré-história”, defendeu.

Assim, criamos “este processo do qual não podemos sair e causa ódio, fanatismo, desconfiança, novas guerras; eu sei que é fácil poeticamente autocriticarmos. Mas seria possível se firmássemos acordos de política planetária que nos garantam a paz”. Ao invés disso, “bloqueiam os espaços da ONU, que foi criada com um sonho de paz para a humanidade”.

O uruguaio também abordou a debilidade da ONU, que “se burocratiza por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e de uma democracia e de um mundo que corresponda à maioria do planeta”.

“Nosso pequeno país tem a maior quantidade de soldados em missões de paz e estamos onde queiram que estejamos, e somos pequenos”. Dizemos com conhecimento de causa, garantiu o mandatário, que “estes sonhos, estes desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais para governar nossa história e superar as ameaças à vida”. Para isso é “preciso entender que os indigentes do mundo não são da África, ou da América Latina e sim de toda humanidade que, globalizada, deve se empenhar no desenvolvimento para a vida”.

“Pensem que a vida humana é um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico é acima de todas as coisas, impulsionar e multiplicar a vida e entendermos que a espécie somos nós” e concluiu: “a espécie deveria ter um governo para a humanidade que supere o individualismo e crie cabeças políticas”.

Fonte: OperaMundi

Crise no Egito abala credibilidade da política externa dos EUA

Nas ruas do Cairo, não é apenas a democracia que está em ruínas. Para muitos, a política externa americana, sua reputação e credibilidade também estão em frangalhos.

Desde a queda de Hosni Mubarak, em 2011, os Estados Unidos têm tido dificuldades para conseguir um equilíbrio entre apoiar o frágil progresso em direção à democracia e a proteção de seus interesses nacionais.

A Casa Branca vem se empenhando para trabalhar com quem quer que esteja no poder no Egito, mas acabou sem aliados e pouca influência no Cairo.

Os últimos esforços diplomáticos de Washington falharam, um após o outro. Até a remoção de Mohammed Morsi do poder, os Estados Unidos tentaram aconselhar o presidente a chegar a um meio termo com militares e manifestantes.

Presidente Barack Obama | Foto: AFP

Obama interrompeu as férias para se pronunciar sobre o Egito

O governo americano também fez um apelo aos militares para não remover Morsi. Após o golpe, o vice-secretário de Estado, Bill Burns, foi ao Cairo duas vezes tentar ajudar na mediação das tensões entre o Exército e a Irmandade Muçulmana.

Os Estados Unidos evitaram chamar a deposição de Morsi de golpe, temendo contrariar os generais egípcios e os milhões que clamavam por sua saída. Isto enfureceu a Irmandade Muçulmana e seus partidários, que se sentiram roubados de uma eleição democrática.

Por outro lado, também são criticados pelos oponentes de Morsi, que rejeitam o que consideram ter sido um “apoio americano incondicional” ao presidente deposto enquanto ele estava no poder.

Culpa

Quando o presidente Barack Obama interrompeu suas férias em Martha’s Vineyard, ele condenou veemente a violência e disse que os Estados Unidos se opõem à imposição da lei marcial no Egito. No pronunciamento, ele estampava um semblante sério, sombrio e frustrado, apesar de ter por trás um cenário de resort de verão.

“Os Estados Unidos não podem determinar o futuro do Egito”, disse ele. “Isto é uma tarefa para os egípcios. Nós não estamos do lado de nenhuma legenda partidária ou figura política”, acrescentou.

No entanto, alguns argumentam que o mero fato de que os Estados Unidos ainda estejam fornecendo ajuda militar ao Egito significa que a Casa Branca está do lado do Exército.

Enquanto isso, o general comandante do Egito, Abdul Fattah al-Sisi, critica Washington abertamente. “Vocês deixaram os egípcios. Vocês viraram as costas para eles e isso eles não vão esquecer”, disse al-Sisi em uma recente entrevista ao jornalWashington Post.

Obama reagiu dizendo disse que era tentador culpar os Estados Unidos ou o Ocidente pelo que está dando errado no Egito. “Nós estamos sendo culpados por apoiadores de Morsi. Também somos culpados pelo outro lado, como se estivéssemos o apoiando. Esta abordagem não vai ajudar em nada os egípcios a alcançarem o que desejam para seu futuro”, disse o presidente.

Cooperação

Obama cancelou um exercício militar com o Egito e disse que a ajuda militar ao país será revista.

Estados Unidos e Egito mantêm uma forte cooperação há anos e, apesar dos recentes atritos, o país árabe continua sendo um parceiro-chave dos americanos para a segurança na região. O apoio dos generais é crucial para manter a paz entre o país e Israel, assinada nos acordos de Camp David, em 1979. Washington também está preocupado com seu acesso ao Canal de Suez.

Um relatório divulgado recentemente pelo Serviço de Pesquisa do Congresso ressaltou preocupações da administração americana quanto aos meios de manter a cooperação na área de segurança com o Egito em tempos de contínuas reviravoltas nas relações entre os dois países. O documento foi elaborado antes da saída de Morsi, mas as preocupações continuam as mesmas.

O Egito concede aos Estados Unidos acesso rápido ao Canal de Suez, ao passo que outros países têm de esperar semanas para ter direito de passagem. Cerca de doze navios de guerra americanos passam todos os meses pelo canal, um atalho chave para chegar ao Iraque e ao Afeganistão.

Sem direito de passagem pelo canal, a marinha americana teria de deslocar seus navios para o Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que seria um desperdício de tempo.

Mas críticos da administração vêm aumentando o tom em relação à postura americana. O senador republicano John McCain vem pedido repetidamente à Casa Branca que considere a saída de Morsi um golpe e corte a ajuda ao país.

“Eu acho que é a hora de os Estados Unidos reconhecerem que o que aconteceu foi a reinstauração da ditadura militar no Cairo”, disse Tamara Wittes, da Brookings Institution e ex-autoridade do Departamento de Estado que atuou em questões envolvendo democracia no Oriente Médio durante a primeira gestão de Obama. Ela ainda considera que o Exército egípcio manterá a cooperação na área de segurança mesmo que os Estados Unidos cortem ajuda porque é de interesse do país.

Mas, por enquanto, este é um risco que os Estados Unidos não estão dispostos a correr.

Fonte: BBCBrasil

As raízes da crise egípcia

A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.

Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.

As eleições tiveram o triunfo dos islâmicos, que derrotaram, por estreita margem, no segundo turno, um candidato ligado à ditadura do Mubarak. Eleito Morsi, foi convocada uma Assembleia Constituinte, com maioria islâmica, mas um peso importante das novas forças laicas.

O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos, que impõe esses seus valores ao conjunto da sociedade, dividida entre forças islâmicas e laicas. Somada à crise econômica – que promoveu uma forte pressão do FMI para a aceitação de um empréstimo, com a correspondente Carta de Intenções, que Morsi rejeitou, consciente do que significaria para o país, mas sem elaborar alternativas – o Egito se viu envolvido em nova onda de mobilizações, agora contra sua administração.

Sucederam-se as mobilizações gigantescas, dos dois lados, a favor e contra o governo, numa situação de empate político. Que foi desempatado pela ação do Exército, que tinha sobrevivido incólume ao fim da ditadura e agiu para derrubar o governo do Morsi.

Um golpe militar, mesmo se com apoio popular. Setores que haviam se mobilizado saudaram o golpe, acreditando que poderiam derrotar os islâmicos e acercar-se ao poder.

Mas a capacidade de resistência dos islâmicos terminou rapidamente com essa ilusão. A repressão militar não se fez tardar e a polarização entre o Exército e a Irmandade Muçulmana se impôs.

Os EUA, incomodados, porque têm no Exército seu principal aliado – por isso Obama não pode usar a palavra golpe, porque estaria obrigado a suspender os auxílios militares ao Exército – não podem aparecer publicamente apoiando a interrupção de um processo democrático, mas tampouco podem condenar o regime. 

O pior dos mundos se impôs: militarização do país – com o estado de sítio e a nomeação de governadores ligados ao militares nas províncias – e resistência dos islâmicos, com os setores laicos deslocados.

A primavera egípcia desembocou neste outono.

Por Emir Sader

Fonte: CartaMaior