Robert Fisk: O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria

O Irã está profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Além disso, uma vitória de Bashar representa uma vitória do Irã. E vitórias do Irã não podem ser toleradas pelo Ocidente. 

Antes que comece a guerra ocidental mais idiota na história do mundo moderno – eu me refiro, é claro, ao ataque à Síria que todos nós vamos ter que engolir – podemos dizer que os mísseis que esperamos ver cruzando os céus de uma das cidades mais antigas das humanidade não têm nada a ver com a Síria.

Eles têm como objetivo atacar o Irã. Eles pretendem atacar a república islâmica agora que ela tem um presidente novo e vibrante – diferente do bizarro Mahmoud Ahmadinejad – e bem quando ele pode estar um pouco mais estável.

O Irã é inimigo de Israel. Então o Irã é, naturalmente, inimigo dos EUA. Então dispare os mísseis no único aliado árabe do Irã.

Não há nada de agradável no regime de Damasco. Nem esses comentários livram a cara do regime quando se trata de uso de armas químicas em massa. Mas eu tenho idade suficiente para me lembrar de que quando o Iraque – então aliado dos EUA – usou armas químicas contra os curdos em Hallabjah em 1988, nós não invadimos Bagdá. De fato, esse ataque esperou até 2003, quando Saddam não tinha mais armas químicas ou qualquer outra arma com as quais tínhamos pesadelos.

E eu também me lembro de que, em 1988, a CIA disse que o Irã foi o responsável pelo uso de armas químicas em Hallabjah, uma mentira deslavada, que mirava no nosso inimigo, contra quem Saddam estava lutando em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas aí está. Jeitos diferentes, padrões diferentes.

E eu acho que vale a pena notar que quando Israel matou 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, numa invasão supostamente provocada pela tentativa de homicídio pela OLP do embaixador israelense em Londres – foi o amigo de Saddam, Abu Nidal, quem organizou o atentado, não a OLP, mas isso não importa agora – os EUA pediram aos dois lados que tentassem “se conter”. E quando, poucos meses antes dessa invasão, Hafez Al-Assad – pai de Bashar – mandou seu irmão para Hama para exterminar milhares de rebeldes da Irmandade Muçulmana, ninguém soltou um murmúrio que fosse condenatório. “Regras de Hama” foi como meu velho amigo Tom Friedman cinicamente classificou esse banho de sangue.

De qualquer forma, há uma Irmandade diferente por aí esses dias – e Obama nem se dignou a dar uma vaiadinha quando seu presidente eleito foi deposto.

Mas espere um pouco. O Iraque – quando era aliado “nosso” contra o Irã – também usou armas químicas contra o exército iraniano? Usou. Eu vi os resultados desse ataque horroroso feito por Saddam – oficiais dos EUA, devo dizer, fizeram um tour pelo campo de batalha depois, e se reportaram de volta para Washington – e nós não demos a mínima bola para isso. Milhares de soldados iranianos foram envenenados até a morte por essa arma terrível na guerra entre 1980 e 1988.

Eu viajei de volta para Teerã em um trem noturno com soldados feridos e cheguei a sentir o cheiro da coisa, abrindo as janelas dos corredores para diminuir o cheiro. Esses jovens tinham feridas dentro de feridas, literalmente. Eles tinham dores que surgiam dentro das dores, algo próximo do indescritível. Ainda assim, quando os soldados foram enviados para hospitais ocidentais para serem tratados, nós, jornalistas, chamamos esses feridos – depois de evidências das Nações Unidas muito mais convincentes do que as que podemos encontrar hoje em Damasco – de “supostas” vítimas de armas químicas.

Então o que diabos estamos fazendo? Depois de incontáveis milhares de mortes na terrível tragédia síria, de repente – agora, depois de meses e anos de prevaricação – estamos indignados com algumas centenas de mortes. Terrível. Inconcebível. Sim, é verdade. Mas nós deveríamos ter ficado traumatizados por essa guerra em 2011. E em 2012. Mas por que agora?

Suspeito que eu saiba o motivo. Suspeito que Bashar Al-Assad esteja ganhando a guerra contra os rebeldes que temos armado secretamente. Com a ajuda do Hezbollah libanês – aliado do Irã no Líbano – o regime de Damasco quebrou os rebeldes em Qusayr e podem estar no processo de quebra-los ao norte de Homs. O Irã está cada vez mais envolvido na proteção ao governo sírio. Portanto, uma vitória de Bashar é uma vitória do Irã. E vitórias iranianas não podem ser toleradas pelo Ocidente.

E enquanto estamos falando de guerra, o que aconteceu com aquelas ótimas negociações entre palestinos e israelenses de que John Kerry andava se gabando? Enquanto expressamos nossa tremenda angústia com o terrível uso de armar químicas na Síria, a terra palestina continua sendo destruída. A política do Likud de Israel – de negociar a paz até não haver mais Palestina – continua a toda, e é por isso que o pesadelo do Rei Abdullah, da Jordânia, (muito mais potente que as “armas de destruição em massa” que imaginávamos em 2003) só aumenta: que a “Palestina” fique na Jordânia, não na Palestina.

*Robert Fisk é correspondente no Oriente Médio do ‘The Independent’. É autor de vários livros sobre a região.

Fonte: CartaMaior

Obama tenta sair do isolamento para atacar Síria

Se intervenção contra Assad parecia certa dias atrás, agora presidente dos EUA luta para conquistar aliados no Congresso e vencer resistência internacional

Barack Obama

O governo dos EUA tenta conseguir o maior número de simpatizantes no Congresso americano e entre a opinião pública para realizar uma intervenção militar internacional na Síria por causa do aumento da pressão internacional sobre o presidente Barack Obama após um suposto ataque químico, no final de agosto.

Assessores falam em uma “estratégia de inundações”, o New York Times diz que há uma blitzkrieg (guerra relâmpago) de lobistas da Casa Branca. Até dia 9 de setembro, quando terminam as férias de verão do Congresso dos EUA, a maioria favorável a um ataque precisa estar formada.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, um dos mais veementes defensores de um ataque de advertência contra o regime de Assad, apareceu no domingo em cinco programas de debates na televisão americana. Ao mesmo tempo, o vice-presidente, Joe Biden, e o chefe de gabinete de Obama, Dennis McDonough, fizeram uma série de telefonemas a dezenas de membros do Congresso.

Fadiga de guerra

Um grande grupo de políticos é contra o ataque. Esse grupo inclui desde democratas cansados de guerra até ultraconservadores republicanos do Tea Party, mais afeitos ao isolacionismo.

Outros consideram os planos de Obama pouco arrojados.” “Não podemos dar apoio de consciência tranquila a ataques militares isolados na Síria, que não alterem a dinâmica no campo de batalha”, justificam os senadores republicanos Lindsey Graham e John McCain, que disputou a primeira eleição com Obama, em 2008.

Eles pedem um plano para a derrubada do regime de Assad. Obama salientou, entretanto, que uma mudança de governo em Damasco não é o objetivo da ação militar.

“No fim das contas, o Congresso se mostrará apto a lidar com a situação”, acredita o deputado republicano Mike Rogers. Mas nem todos estão tão seguros. Seu colega de partido, o senador Rand Paul, vê 50% de chance de uma aprovação da intervenção militar. “O Senado vai aprovar o que Obama quer, mas na Câmara, a votação será apertada.”

John Kerry já adiantou, por precaução, que Obama tem a autoridade para atacar – “não importa o que o Congresso decidirá”. Mesmo assim, um “não” do Congresso seria embaraçoso para o presidente. “Obama parece ter ido longe demais publicamente”, alerta o historiador e jornalista alemão Michael Stürmer. “Se não acontecer nada depois disso, os EUA podem abrir mão de sua posição e de sua imagem de potência mundial”, prevê. Mas ele também não é a favor de um ataque ao regime Assad. “Falta uma descrição clara sobre qual é o objetivo de um ataque militar.”

Rússia continua a dizer não

Enquanto Obama tenta ganhar aliados no Congresso, a Rússia continua a mobilizar-se contra uma intervenção. “Não nos convence nem um pouco o que britânicos, franceses e norte-americanos apresentaram como prova da culpa do ditador sírio Bashar al-Assad nos alegados ataques com gás venenoso”, criticou o ministro do Exterior russo, Serguei Lavrov. Ele observa que, nas imagens exibidas, não havia “nada de concreto, nem mapas, nem nomes, só inúmeras inconsistências”.

“Se Obama se decidir pelo ataque, as esperanças de uma solução política poderão ser adiadas “por um longo tempo, talvez para sempre”, advertiu Lavrov.

A Rússia impede, junto com a China, uma ação internacional forte contra o regime de Assad. Ambos os Estados têm direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e não há previsão que eles mudem de posição. Por isso, Obama quer atacar a Síria mesmo sem o consentimento do Conselho.

Pouco apoio internacional

Mas mesmo entre os aliados, os planos de Obama são controversos. Depois de o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter perdido na câmara baixa do Parlamento britânico a votação sobre uma participação do Reino Unido numa operação militar, por enquanto só a França continua ao lado de Obama, entre os países ocidentais mais importantes. Nesta quarta-feira (04/09) está prevista em Paris uma sessão extraordinária no Parlamento francês para tratar o assunto.

A Alemanha também decidiu que não se envolverá num ataque contra a Síria, condicionando sua participação a um mandato internacional. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, diz ter esperanças de que a comunidade internacional ainda possa encontrar uma posição comum para uma resposta a Damasco, após Obama abrir mão de um ataque.

A cúpula do G20 (grupo dos 20 países mais industrializados do mundo, mais os emergentes), que começa na próxima quinta-feira (05/09) em São Petersburgo, na Rússia, seria uma possibilidade para o retorno à mesa internacional de negociações. O encontro prevê uma reunião de Barack Obama com o presidente russo, Vladimir Putin.

Markus Kaim, especialista em Oriente Médio do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (Stiftung Wissenschaft und Politik), é a favor de uma solução política para o conflito. “Os principais argumentos estão sobre a mesa. E há esforços para que os partidos conflitantes negociem e para se convocar uma conferência de paz em Genebra”, destaca.

Moscou e Washington teriam concordado em maio com a organização dessa conferência. Mas até agora não foi encontrada uma data concreta, o que, em grande parte, se deveu à falta de disponibilidade de entendimento entre as partes em conflito. Porém, Kaim acredita que a ameaça de uma ação militar e a mudança que esta pode provocar na situação poderá levar a uma mudança de atitude de governo e oposição na Síria.

Fonte: CartaCapital

Vídeo mostra crianças sírias refugiadas no Egito denunciando maus tratos

ONU diz que dois milhões de pessoas já fugiram da guerra civil; mais de 100 mil estão no norte da África

Segundo dados da Acnur (Agência da ONU para Refugiados) atualizados nesta segunda-feira (02/09), o número de refugiados sírios ultrapassou os dois milhões, sendo que mais de 111 mil “pessoas de interesse” estão no Egito. O governo egípcio, entretanto, estima que haja um total de 300 mil sírios no país. Destes, muitos estão sofrendo com uma súbita onda de xenofobia iniciada depois da deposição de Mohamed Mursi, em 03 de julho.

Denúncias sobre os maus tratos aos refugiados sírios já foram feitas pelo jornal britânico The Guardian e pela rede Al Jazeera, com base em informações da organização de direitos humanos Human Rights Watch. Agora, um vídeo intitulado Syrians Facing Harassment in Egypt (sírios enfrentam assédio no Egito) mostra o problema sob um ângulo mais delicado: o das crianças.

O vídeo faz parte da campanha do movimento Aazer (palavra árabe que quer dizer “vá e ajude alguém”, segundo o site do grupo) pelo fim da perseguição aos sírios no Egito. O tema é a situação de crianças como Mahmoud, cujos amigos não brincam mais com ele por causa de sua nacionalidade síria, e Ahmad, cujo pai foi preso por autoridades egípcias que invadiram sua casa sem motivo aparente.

Segundo o Aazer, tanto o novo governo do Egito quanto a mídia do país lançaram uma campanha xenofóbica contra os refugiados sírios desde a deposição de Mursi e, como resultado, estes estão sendo usados como “bodes expiatórios para os problemas domésticos do Egito”. O grupo criou uma petição contra a perseguição dos refugiados com o objetivo de conseguir 10 mil assinaturas.

De acordo com o Human Rights Watch, a polícia egípcia chegou a prender de uma vez só 72 homens e nove meninos, incluindo requerentes de asilo registrados e pelo menos nove com vistos válidos ou permissões de residência. Ao menos 14 destes foram ameaçados com deportação. O Guardian diz que o motivo é que os sírios estão sendo injustamente associados à Irmandade Muçulmana do Egito.

O Aazer também reclama das dificuldades estabelecidas pelo governo interino para a entrada de sírios no Egito. Durante o governo de Mursi, não eram necessários vistos, enquanto agora milhares de pessoas vindas da Síria são detidas nos aeroportos por falta desses documentos.

“O governo interino e as autoridades egípcias devem parar imediatamente de utilizar civis sírios como peões na política interna do Egito”, diz a página da campanha do Aazer. Entre as demandas da petição estão “o fim imediato da detenção de crianças sírias e a liberação de qualquer criança que esteja detida”, “tratamento seguro e humano para sirios no processo de renovação dos documentos oficiais” e “investigação imediata de apresentadores da mídia que incitaram contra os sírios”.

A Acnur pediu às autoridades egípcias para que cessem as deportações e para que o Egito continue protegendo os refugiados provenientes da Síria. A campanha xenófoba, entretanto, até agora não foi interrompida.

Fonte: OperaMundi

Crise no Egito abala credibilidade da política externa dos EUA

Nas ruas do Cairo, não é apenas a democracia que está em ruínas. Para muitos, a política externa americana, sua reputação e credibilidade também estão em frangalhos.

Desde a queda de Hosni Mubarak, em 2011, os Estados Unidos têm tido dificuldades para conseguir um equilíbrio entre apoiar o frágil progresso em direção à democracia e a proteção de seus interesses nacionais.

A Casa Branca vem se empenhando para trabalhar com quem quer que esteja no poder no Egito, mas acabou sem aliados e pouca influência no Cairo.

Os últimos esforços diplomáticos de Washington falharam, um após o outro. Até a remoção de Mohammed Morsi do poder, os Estados Unidos tentaram aconselhar o presidente a chegar a um meio termo com militares e manifestantes.

Presidente Barack Obama | Foto: AFP

Obama interrompeu as férias para se pronunciar sobre o Egito

O governo americano também fez um apelo aos militares para não remover Morsi. Após o golpe, o vice-secretário de Estado, Bill Burns, foi ao Cairo duas vezes tentar ajudar na mediação das tensões entre o Exército e a Irmandade Muçulmana.

Os Estados Unidos evitaram chamar a deposição de Morsi de golpe, temendo contrariar os generais egípcios e os milhões que clamavam por sua saída. Isto enfureceu a Irmandade Muçulmana e seus partidários, que se sentiram roubados de uma eleição democrática.

Por outro lado, também são criticados pelos oponentes de Morsi, que rejeitam o que consideram ter sido um “apoio americano incondicional” ao presidente deposto enquanto ele estava no poder.

Culpa

Quando o presidente Barack Obama interrompeu suas férias em Martha’s Vineyard, ele condenou veemente a violência e disse que os Estados Unidos se opõem à imposição da lei marcial no Egito. No pronunciamento, ele estampava um semblante sério, sombrio e frustrado, apesar de ter por trás um cenário de resort de verão.

“Os Estados Unidos não podem determinar o futuro do Egito”, disse ele. “Isto é uma tarefa para os egípcios. Nós não estamos do lado de nenhuma legenda partidária ou figura política”, acrescentou.

No entanto, alguns argumentam que o mero fato de que os Estados Unidos ainda estejam fornecendo ajuda militar ao Egito significa que a Casa Branca está do lado do Exército.

Enquanto isso, o general comandante do Egito, Abdul Fattah al-Sisi, critica Washington abertamente. “Vocês deixaram os egípcios. Vocês viraram as costas para eles e isso eles não vão esquecer”, disse al-Sisi em uma recente entrevista ao jornalWashington Post.

Obama reagiu dizendo disse que era tentador culpar os Estados Unidos ou o Ocidente pelo que está dando errado no Egito. “Nós estamos sendo culpados por apoiadores de Morsi. Também somos culpados pelo outro lado, como se estivéssemos o apoiando. Esta abordagem não vai ajudar em nada os egípcios a alcançarem o que desejam para seu futuro”, disse o presidente.

Cooperação

Obama cancelou um exercício militar com o Egito e disse que a ajuda militar ao país será revista.

Estados Unidos e Egito mantêm uma forte cooperação há anos e, apesar dos recentes atritos, o país árabe continua sendo um parceiro-chave dos americanos para a segurança na região. O apoio dos generais é crucial para manter a paz entre o país e Israel, assinada nos acordos de Camp David, em 1979. Washington também está preocupado com seu acesso ao Canal de Suez.

Um relatório divulgado recentemente pelo Serviço de Pesquisa do Congresso ressaltou preocupações da administração americana quanto aos meios de manter a cooperação na área de segurança com o Egito em tempos de contínuas reviravoltas nas relações entre os dois países. O documento foi elaborado antes da saída de Morsi, mas as preocupações continuam as mesmas.

O Egito concede aos Estados Unidos acesso rápido ao Canal de Suez, ao passo que outros países têm de esperar semanas para ter direito de passagem. Cerca de doze navios de guerra americanos passam todos os meses pelo canal, um atalho chave para chegar ao Iraque e ao Afeganistão.

Sem direito de passagem pelo canal, a marinha americana teria de deslocar seus navios para o Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que seria um desperdício de tempo.

Mas críticos da administração vêm aumentando o tom em relação à postura americana. O senador republicano John McCain vem pedido repetidamente à Casa Branca que considere a saída de Morsi um golpe e corte a ajuda ao país.

“Eu acho que é a hora de os Estados Unidos reconhecerem que o que aconteceu foi a reinstauração da ditadura militar no Cairo”, disse Tamara Wittes, da Brookings Institution e ex-autoridade do Departamento de Estado que atuou em questões envolvendo democracia no Oriente Médio durante a primeira gestão de Obama. Ela ainda considera que o Exército egípcio manterá a cooperação na área de segurança mesmo que os Estados Unidos cortem ajuda porque é de interesse do país.

Mas, por enquanto, este é um risco que os Estados Unidos não estão dispostos a correr.

Fonte: BBCBrasil

EUA e Coreia do Sul aumentam nível de alerta após ameaças do Norte

coreiaOs governos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul eleveram seu nível de alerta em meio ao que interpretam serem indicações de um ataque iminente da Coreia do Norte.

O Japão também enviou sistemas de defesa anti-mísseis para Tóquio como precaução.

Washington e Seul dizem ter recebido informações de que ao menos um tipo de míssel ainda não testado, com alcance de cerca de 3 mil quilômetros está abastecido e pronto para ser lançado.

Um correspondente da BBC em Seul diz que um novo teste de lançamento de mísseis não teria grande significância militar a curto prazo, a não ser que algo corra errado.

Mesmo assim, seria interpretado pelas potências ocidentais e regionais como altamente provocativo e violaria as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Fonte: BBC Brasil

Invasão do Iraque pelos EUA completa 10 anos de impunidade

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos completa 10 anos. A decisão tomada pelo então presidente George W. Bush  foi unilateral e ilegal, mas não sofreu consequências. Por isso, ele conseguiu manter por anos a fio uma guerra imperialista que custou milhões de vidas aos iraquianos, cometendo crimes contra a humanidade até hoje impunes.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

 

A decisão de Bush inseriu-se em um contexto internacional dominado pela Doutrina Bush, que foi caracterizada pelo empenho por um mundo unipolar, de políticas unilaterais e imperialistas que tinham como único objetivo o estabelecimento irrefutável da hegemonia estadunidense sobre o mundo.

A convicção arrogante de que o país é um poder hegemônico que deve ordenar mundo (principalmente quando vendo seus amplos, ambíguos e instrumentais “interesses nacionais” ameaçados) foi a base da política externa estadunidense, mas que ainda precisava de aliados.

Dias antes da invasão, os EUA organizaram o ensaio de legitimação para a sua decisão unilateral e imperialista com a Cimeira dos Açores, realizada em 16 de março, em que se reuniu com os então primeiros-ministros Tony Blair (Reino Unido) e José María Aznar (Espanha), por exemplo.

No dia seguinte, Bush deu um “ultimatum” para que o presidente iraquiano Saddam Hussein e sua família deixassem o Iraque em 48 horas. Não correspondido, com o final do prazo o então presidente anunciou que iniciaria ataques aéreos e que enviaria 250.000 soldados ao Iraque, o que aconteceu gradualmente.

Depois de votarem contra a resolução de guerra levada pelos EUA ao Conselho de Segurança da ONU, a França e outros países europeus viram-se ameaçados pela afirmação de Bush, ainda nos Açores (quando já previa uma guerra), de que aquele seria “o momento da verdade”.

O apoio do Reino Unido (o principal aliado dos EUA então) custou caro politicamente para o então primeiro-ministro Tony Blair, que além de contrariar os protestos da população civil, contrariou também o seu próprio Partido Trabalhista: cerca de 160 dos seus parlamentares haviam votado contra a iniciativa do governo de juntar-se à guerra dos EUA.

Já há uma série de estatísticas e avaliações, em relatórios complexos, discursos e avaliações de políticas de Estado, mas ainda nenhuma explicação plausível para a Guerra no Iraque, iniciada unilateralmente e de forma ilegal há exatos 10 anos pelos Estados Unidos contra aquele país. 

De 2001 a 2013, neste novo século já iniciado por uma política internacional dominada pelo imperialismo estadunidense (através da instrumental “guerra contra o terror” que criou raízes no imaginário norte-americano e, depois, de seus aliados europeus), os EUA gastaram ou comprometeram-se com obrigações que somaram 3,1 trilhões de dólares em guerras no Afeganistão, Iraque e Paquistão. O custo total é ainda mais alto quando considerados os gastos relacionados com a guerra no Departamento de Segurança Interna, e se calculados os juros dos empréstimos feitos para pagar pelas guerras.

A motivação declarada em diversos discursos era a suposta existência de armas de destruição em massa, para começar, depois a “guerra contra o terror”, e também a derrubada de um “ditador”, na figura odiada pelo então presidente dos EUA, a do presidente Saddam Hussein. 

“Comemorações” na mídia

Jornais como The New York Times, nesta “comemoração” dos 10 anos desde a invasão, publicaram infográficos sobre as mortes relacionadas à guerra, separando-as por “forças americanas”, “forças de outras coalizões”, “forças iraquianas”. Ficam faltando os civis, porém, as maiores vítimas.

Ainda, há separações por causas, como “fogo amigo”, “fogo inimigo”, “ataque suicida”, entre outras, e há inclusive uma categoria que mereceria análise, pois aglomera as causas “não hostil/acidental/suicídio”.

Oficialmente, para os EUA, a guerra terminou no dia 15 de dezembro de 2011, de acordo com anúncios do presidente Barack Obama, desde a sua primeira vitória eleitoral, em 2008. Foi quando as últimas forças estadunidenses (especificamente, as engajadas em combate direto com os iraquianos) foram retiradas. Entre 2003 e 2012, no total, contabiliza-se a morte de 4.480 soldados, mas as consequências afetam milhões de pessoas nos EUA indiretamente, e incluem também a invalidez de vários ex-combatentes e o stress pós-traumático diagnosticado em grande parte deles.

O aniversário da invasão do Iraque resultou em numerosos documentos, relatórios, declarações e matérias de jornal, como a do New York Times, que se propôs a publicar uma série com as declarações de soldados que estiveram na guerra, contando como isso mudou as suas vidas.

Provavelmente, porém, a semana de “eventos comemorativos” terminará antes que jornais como este possam ouvir “como a guerra afetou as vidas” não dos soldados, mas da população civil do país invadido.

O escritor norte-americano David Swanson, em seu relatório “A guerra do Iraque entre os piores eventos do Mundo” (Iraq’s War Among the World’s Worst Events, ainda sem tradução para o português) lembrou também dos 22 anos da Operação Tempestade no Deserto (ou da Guerra do Golfo, de 1990), que precedeu a “Operação Libertação do Iraque” (cuja sigla em inglês é OIL, em alusão ao interesse dos EUA pela região, o petróleo, segundo Swanson), também chamada de Segunda Guerra do Golfo.

Impacto real da Guerra (dos EUA) no Iraque

Neste 20 de março de 2013, porém, para a população invadida, não há muito para comemorar, apesar da “retirada” oficial das tropas invasoras ter sido anunciada há dois anos. O governo atual do primeiro-ministro Nouri al-Maliki (praticamente instalado pelos EUA) tem sido acusado pela população civil de autoritarismo, de patrocinar execuções sumárias, prisões arbitrárias, tortura e estupro, de acordo com uma matéria da emissora árabe Al-Jazeera.

De acordo com números que Swanson recolheu de vários informes, o Iraque perdeu cerca de 1,4 milhões de vidas como resultado da OIL, o que representou 5% da sua população. Esta cifra não chega a se comparar às perdas sofridas pela França (1%) e dos EUA (0,3%), por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial.

As mortes de estadunidenses nesta guerra não chegam a representar 0,3% das mortes totais, o que pode ser explicado, para começar, com o hábito dos EUA de invadir e agredir diretamente países que ficam longe da sua vizinhança, quase como um “plano estratégico” perfeito, para além de instrumental, dados os seus interesses políticos e econômicos na região onde mais tem investido militarmente: o Oriente Médio.

Como se já não bastasse, lembra Swanson, também resultaram da OIL cerca de 4 milhões de feridos e 4,5 milhões de refugiados, que tiveram de fugir não só para os países vizinhos como também para outras regiões.

Além disso, de acordo com a base de dados sueca do Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, da sigla em inglês), há também entre 2,3 milhões e 2,6 milhões de pessoas que foram forçadas a deslocar-se internamente (por isso, não são contadas como refugiadas), número reduzido a 1,3 milhão pelas estimativas da ONU, que só contabiliza os que foram inscritos pelas autoridades iraquianas desde 2006.

Os custos materiais também não escaparam de maior análise. Para além da infraestrutura atual, a Unesco também denunciou a destruição de sítios arqueológicos e outros patrimônios históricos de extrema importância, como é de costume em guerras tão devastadoras. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo na véspera deste aniversário, nesta terça-feira (19), o especialista em estudos árabes e islâmicos Paulo Daniel Farah também menciona os danos ao patrimônio cultural do Iraque, que se situa na antiga Mesopotâmia.

Farah lembra que, “referência cultural nos anos 1970, o Iraque abriga milhares de sítios arqueológicos que foram submetidos à pilhagem e ao contrabando, junto com toda uma memória coletiva humana.”

Ainda antes disso, desde o embargo imposto ao país em 1990, que começou com a Resolução 661 do Conselho de Segurança da ONU (adotada naquele mesmo ano), houve “saques sistemáticos e organizados ao patrimônio material iraquiano que colocam em risco grave a história da humanidade”, afirma Farah.

A invasão iniciada em 2003, entretanto, só agravou a vulnerabilidade a esses saques. ”Menos de duas semanas após a invasão norte-americana, muitas dessas obras já se encontravam nos Estados Unidos e na Europa”, como afirma o arqueólogo sírio Ahmad Serrie, citado por Farah.

Performances e custos da guerra 

A invasão de 2003 incluiu, de acordo com Swanson, 29.200 ataques aéreos, fora os 3.900 realizados nos oito anos seguintes. As forças militares estadunidenses tiveram em seus alvos tanto civis quanto jornalistas, hospitais e ambulâncias.

Além disso, como já denunciado por várias organizações internacionais, o exército dos EUA também fez uso do que se pode chamar de “armas de destruição em massa”, como as bombas de racimo, fósforo branco, urânio empobrecido e um novo tipo de napalm (substância que também usou na sua Guerra contra o Vietnã, na década de 1970), em áreas urbanas densamente habitadas.

Mais de um desses recursos já são proibidos por convenções internacionais, e o seu uso configura “crimes de guerra” e até “crimes contra a humanidade”, sob o direito internacional humanitário. Mas isso não preocupa os Estados Unidos, pois não seria a primeira nem a última vez.

O resultado, como também já conhecido de outras guerras, foi o aumento das taxas de câncer, de mortalidade infantil, entre outras. As fontes de água, as plantas de tratamento de esgoto, hospitais, pontes e plantas de energia elétrica foram devastadas, e a maior parte continua sem conserto.

Ainda antes da guerra iniciada em 2003, uma guerra econômica contra o país já havia deteriorado o sistema de saúde e nutrição, como relembra Swanson, “através das mais abrangentes sanções econômicas já impostas na história moderna.”

Não é difícil também para os analistas econômicos encontrarem indícios de uma intencionalidade comercial da guerra empreendida pelos EUA, não só pelo tema do complexo industrial-militar, que encontra terreno bastante fértil para ser desenvolvido, como também pelos esforços de “reconstrução” do Iraque, que garantiram contratos milionários com construtoras.

Reconstrução do Iraque

Ainda assim, Swanson afirma que o dinheiro gasto pelos Estados Unidos na “reconstrução” era sempre menos de 10% do que era gasto com a destruição, e a maior parte nunca foi realmente posta em uso construtivo. Ao menos um terço foi gasto em “segurança”, enquanto muito do resto foi gasto em corrupção pelos militares e funcionários dos EUA.

Em uma análise do fator social, ainda, o jornalista lembra que os iraquianos que poderiam ajudar na reconstrução do país tiveram de fugir durante a guerra. O Iraque tinha as melhores universidades da Ásia ocidental durante a década de 1990, mas agora é um expoente do analfabetismo, com uma população de professores, em Bagdá, reduzida em 80%.

Contribuindo para a instabilidade e os conflitos internos, durante anos as forças ocupantes fragmentaram a sociedade, encorajando a violência e a divisão étnica e sectária, como dita o costume dos impérios coloniais e modernos. Diversos cientistas políticos já identificaram esforços concretos neste sentido.

Swanson afirma ainda que “enquanto a dramática escalada da violência” esperada com a retirada dos EUA não se realizou, o Iraque ainda tem de lidar com a instabilidade interna, as tensões regionais e, claro, o ressentimento generalizado contra os estadunidenses, exatamente o oposto do que os EUA declararam como objetivo para tornar o país mais seguro.

“Se os EUA tivessem pegado os 5 trilhões de dólares e, ao invés de destruir o Iraque, tivessem escolhido fazer algo bom com isso, em casa ou no exterior, imagine as possibilidades”, diz Swanson, que lembra que a ONU teria declarado, por exemplo, que 30 bilhões de dólares por ano acabariam com a fome no mundo.

Mesmo assim, a Casa Branca também publicou seu próprio infográfico, onde figuram, é claro, as “promessas cumpridas” com relação à guerra. Obama caracterizou o fim de uma “missão de combate” em setembro de 2011, com a remoção de 100.000 soldados, de acordo com um acordo assinado em 2008, entre os EUA e o Iraque (“Acordo sobre o status das Forças estadunidenses e iraquianas”).

Entretanto, isso não pressupôs, na verdade, a retirada total das tropas, que seguem presentes ainda que sob um mandato diferente, como os já conhecidos treinamentos das forças de segurança iraquianas. Para objetores estadunidenses, ainda, as tropas que continuaram no país servem também para apoiar o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, em mais uma intervenção política de bastidores, outra especialidade dos EUA.

Segundo a Casa Branca, o objetivo é encontrar uma forma de “acabar responsavelmente” com a guerra. Entretanto, talvez o plano devesse ser, daqui para frente, como “responsavelmente manter-se fora dela”, ou como respeitar a soberania alheia.

A estratégia frequente de divisões sectárias e a instigação da violência supostamente baseada em diferenças identitárias (portanto, diferenças culturais instrumentalizadas de acordo com objetivos políticos) também foi posta em prática pelos EUA de Bush durante a sua invasão.

Depois, restou ao presidente Obama a tarefa igualmente assentada na ingerência de telefonar ao governo iraquiano para apelar para um governo de unidade nacional, mais especificamente pedindo ao presidente que se demitisse para dar lugar a um novo candidato que os EUA já tinham nomeado. A alternativa seria aceitar a presença de tropas estadunidenses por mais tempo, e apesar de ambas as “opções” terem sido negadas, assim é a situação atual do Iraque.

Fonte: PortalVermelho

 

As aporias do sistema geopolítico mundial na era nuclear

Desde os tratados de Westfália no século XVII que o sistema internacional esteve governado segundo uma peculiar aporia: primeiro, em tese, nada se sobrepõe à soberania dos Estados na relação com os outros Estados; segundo, na prática do direito internacional, a soberania de um Estado está sujeita à violação pela força superior de seus eventuais oponentes na promoção do que definem como seus interesses soberanos. Esse segundo princípio foi formalizado por Clausewitz (“Da Guerra”) pelo enunciado de que a guerra é um instrumento racional dos Estados para a promoção de seus interesses.

O sistema vigorou por 300 anos até a Segunda Guerra Mundial quando, ao fim dela, um novo sistema internacional começou a ser configurado pela explosão da bomba atômica pelos Estados Unidos e, quatro anos depois, pela União Soviética. Já a Guerra Fria indicava que a guerra “quente” não podia ser considerada um instrumento “racional” para uma solução de força dos conflitos de interesse entre potências nucleares. O fim da Guerra Fria, não tendo sido o fim da era nuclear, mas sua dispersão, apenas acentuou esse pressuposto.

O mundo tem hoje cinco potências nucleares plenas e declaradas (com capacidade de lançar mísseis intercontinentais e por submarinos), duas potências nucleares de segunda ordem (Índia e Paquistão), uma potência nuclear encoberta (Israel) e dois candidatos a potência nuclear (Irã e Coreia do Norte). Os demais países não nuclearizados aparentemente se conformam com essa situação, quando menos por temor explícito ou implícito de retaliações econômicas por parte do clube nuclear no âmbito do Tratado de Não Proliferação.

Tal sistema, por mais assimétrico, injusto e instável que pareça, no âmbito das  potências nucleares leva à paz, não à guerra. Na vigência do virtual duopólio de poder da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética teriam ido à guerra (no mínimo naval, mas ninguém sabe como acabaria) em face da crise dos mísseis em Cuba, ou mesmo por motivos ideológicos, não fossem elas potências nucleares. Pelo mesmo motivo a União Soviética não se meteu diretamente na Guerra do Vietnã e os Estados Unidos não se imiscuíram diretamente quando da invasão do Afeganistão pela União Soviética.

Se uma paradoxal estabilidade instável prevaleceu, conforme esses exemplos, no período de extremo conflito ideológico da Guerra Fria, muito maior é a razão para que prevaleçam a partir dela. Enquanto sistemas de Estados soberanos, e não de sistemas sociais conduzidos por ideologias  radicalizantes, não temos mais um bloco ocidental nem um bloco oriental rígidos no campo ideológico: são Estados governados cada um por seus interesses particulares, e em grau maior ou menor controlados por processos democráticos internos, onde dificilmente surgiria um demagogo propagandeando a guerra externa com objetivos políticos internos.

Contudo, nada impede guerras na periferia do clube nuclear conduzidas ou não por potências nucleares, como é o caso das guerras do Afeganistão, do Iraque, da Chechênia, de Óstia do Sul, ou a miríade de guerras civis desde a Síria aos deserdados países africanos. O que não se concebe são guerras diretas entre potências nucleares. A Índia e o Paquistão, que haviam travado três guerras depois da descolonização, só não travaram a quarta, justificada pelo atentado terrorista de Bombai, porque são potências atômicas, mesmo que de segunda linha.

O poder nuclear, portanto, revelou-se que não é para ser usado, mas para ser manobrado como instrumento de pressão e de dissuasão. Esta última se aplica sobretudo às próprias potências nucleares entre si. Nesse caso a guerra já não é mais a continuação da política por outros meios, como em outro enunciado de Clausewitz, mas a política passa a ser o instrumento absolutamente exaustivo das relações internacionais no âmbito de potências nucleares. É uma novidade histórica que requer, certamente, uma também nova filosofia da guerra.

Voltemos a Clausewitz e à parte mais relevante de seu primeiro enunciado:  “a guerra é um instrumento racional dos Estados”. Onde estaria a racionalidade de uma guerra nuclear que se arrisca a generalizar-se? Fora os conceitos dos filósofos que consideram a história um ente em si, movido por forças abstratas impessoais, a guerra, na prática, é uma decisão de governo. Em essência, de elites governamentais que, em algum grau, e sobretudo nas democracias, têm de prestar contas de seus atos ao povo.

Claro, uma guerra nuclear não começa necessariamente como guerra nuclear: pode ser o fim de uma escalada de guerra convencional. Isso, porém, não elimina a dissuasão interna em relação aos atos daqueles que conduzem as decisões políticas: nenhum governante com algum grau de responsabilidade perante o povo iniciaria uma escalada bélica convencional contra outra potência nuclear sabendo que ela não se renderia  ao ponto de entregar-lhe seus arsenais atômicos na hipótese de uma derrota “convencional”.

Isso pode parecer kantiano, e de alguma forma o é. Kant, idealisticamente,  argumentava que a paz perpétua só poderia ser atingida quando todos os países fossem repúblicas, no suposto de que o poder republicano responderia ao povo, não à vontade das elites aristocráticas ou de outra natureza. A questão em tempos de democracia de cidadania ampliada, no que se refere à guerra nuclear, é, pois, essencialmente de informação. Bem informado das consequências catastróficas de uma guerra nuclear, o “povo” há de dissuadir a aventura das elites.

Creio que, no contexto da sociedade de informação, mesmo que elites aventureiras ou demagógicas tenham a sua mão instrumentos clássicos de manipulação da opinião pública, estes são virtualmente inócuos no que diz respeito à guerra nuclear: ninguém a deseja ou justifica emocional ou racionalmente, e o líder que tentasse justificá-la por motivos de honra, de prestígio ou mesmo de interesses econômicos  correria o risco de uma rebelião interna. É que o uso do poder nuclear infunde terror público, independentemente de quem o proponha.

Por certo que podem acontecer guerras convencionais aéreas diretas entre potências nucleares, seguindo algum código de prevenção de uso de poder nuclear. Houve exercícios de guerra nesse sentido durante a Guerra Fria, inclusive por Herman Kahn. Isso, entretanto, é tão racionalmente implausível quanto a própria guerra nuclear. Possibilidades existem, porém, de guerras convencionais indiretas entre potências nucleares em territórios de outros países, como aconteceu de fato no Vietnã e no Afeganistão, mas neste caso envolvendo sobretudo motivos ideológicos. De qualquer modo, isso será discutido adiante.

Uma vez feitas essas ponderações quanto à inviabilidade da guerra nuclear entre potências nucleares, voltemos ao tema realmente crucial das relações internacionais contemporâneas: o uso do poder nuclear como instrumento de pressão contra nações não nucleares. Note-se que não é necessário poder nuclear para subjugar outras nações: basta superioridade em força militar convencional. A novidade é que o poder nuclear constitui um sistema de proteção para aliados militarmente fracos de potências nucleares concorrentes.

O sistema internacional, depois do fim da União Soviética, está assumindo rapidamente uma configuração similar á do século XIX no que diz respeito ao estabelecimento de alianças multipolares e áreas de influência, em diferentes graus de prioridade, em torno dos países nucleares. É uma espécie de contrapartida dialética do processo de globalização das últimas três décadas. Uma diferença é que, ao contrário do sistema de alianças do século XIX que levou a várias guerras, o sistema atual, por causa do poder nuclear, parece tender à paz.

O primeiro indicador desse processo é o cuidadoso respeito a áreas de influência que os países nucleares consideram vitais. Na guerra imposta pela Rússia a Óstia do Sul, considerada vital para Moscou por causa da presença de uma grande população russa no país, alguns dirigentes da direita europeia ensaiaram uma intervenção da OTAN, o que foi fulminantemente abortado pelos Estados Unidos pela óbvia razão de que aquilo representava o risco de um confronto direto com a Rússia, ainda uma potência nuclear de primeira linha.

Os russos, por sua vez, toleraram de má vontade as intervenções da OTAN nas revoluções da Primavera Árabe, já que eram países que de maneira alguma representavam áreas de interesse vital para ela; mas nenhuma potência ocidental se meteu com a guerra civil em curso na Síria, aliada estratégica de russos e chineses, pelo menos por enquanto. Da mesma maneira a França pode jogar sua economia em crise na guerra civil do Mali pois isso não confronta nenhum interesse relevante de outras potências nucleares.

A guerra externa, portanto, está se tornando um instrumento obsoleto da política internacional. Trata-se de efeito direto do poder nuclear. Os Estados Unidos começaram a aprender isso na Coreia e no Vietnã, tiveram um breve gosto de vitória no Iraque, e se enterraram virtualmente no Afeganistão – de onde Obama, com dificuldade, ensaia uma maneira honrosa de dar o fora. Isso não significa que se deve  descartar, de antemão, um surto de guerras externas neocolonialistas sob o escudo nuclear. É apenas improvável.

É nesse contexto que se deve considerar as tentativas da Coreia do Sul e, supostamente, do Irã de ter acesso a tecnologia nuclear bélica. Em termos dos tratados de Westfalia, eles têm todo o direito de construir a bomba. É uma prerrogativa de sua soberania. Contudo, no âmbito desses mesmos tratados, sua vontade pode ser confrontada por um poder militar mais forte. Mas esse poder, ao menos formalmente, está institucionalizado numa instância superior à soberania dos Estados, o Conselho de Segurança da ONU.

Essa instância foi, em termos conceituais, a grande novidade do pós-guerra. Contudo, no ambiente da Guerra Fria, ela se revelou inteiramente ineficaz quando os Estados Unidos empreenderam à margem de decisões do Conselho a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã e outros guerras de menor dimensão (inclusive a extraordinária “conquista” de Granada, uma minúscula ilha-nação do Caribe, pelo Governo Reagan). Também a União Soviética ignorou o Conselho ao se meter, via Cuba, em guerras civis em desenvolvimento na África e no Afeganistão.

No ambiente internacional contemporâneo, a força do Conselho de Segurança reside justamente no seu poder de “congelar” alianças no sentido definido acima. Isso ocorre, porém, de forma contraditória, não por sua capacidade de tomar decisões, mas pelo inverso, ou seja, pela capacidade de veto do seu núcleo permanente. Assim, uma guerra “legitimada” contra a Coreia do Norte ou contra o Irã sob a justificativa de impedir que tenham acesso pleno ao poder nuclear só seria tecnicamente possível com a concordância da Rússia e da China.

Isso não impede, porém, que os Estados Unidos e as demais potências ocidentais, assegurando por via política a neutralidade da Rússia e da China, se decidam a promover  uma outra guerra da Coreia e uma primeira contra o Irã. Os Estados Unidos, apelando ao conceito da segurança mundial, poderiam fazê-lo unilateralmente mesmo sem essa neutralidade sob o estímulo de Israel. Nos dois casos, a questão passa ao nível técnico: qual a viabilidade de guerras contra esses dois países e qual seria seu custo em termos humanos e materiais?

Nos dois casos, entraria em jogo, como justificação subjetiva da guerra, o conceito de ameaça à segurança mundial. E nisso há substanciais diferenças entre Coreia do Norte e Irã. A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo, submetido a uma ditadura familiar,  de cujas relações com a sociedade interna pouco se sabe no ocidente, inclusive quanto ao grau de responsabilidade da elite dirigente em relação aos próprios cidadãos (se, realmente, existe cidadania no país). Diante disso, é controverso falar em responsabilidade internacional.

Evidentemente que, nessas circunstâncias, fazer a guerra à Coreia para desarmá-la preventivamente do poder atômico depende sobretudo de julgamentos subjetivos sobre o comportamento internacional de suas elites. Aqui não se trata de uma questão ideológica, mas de evidências concretas: o que se pode deduzir subjetivamente das ações efetivas da elite dirigente da Coreia do Norte em relação à comunidade internacional, a começar pela Coreia do Sul e o Japão?  E, sobretudo: poderia a Coreia do Norte, dados os precedentes de sua retórica, comportar-se como uma nação suicida?

O terrorismo suicida foi o segundo elemento, junto com o poder nuclear, que introduziu um novo paradigma nas relações internacionais no pós-guerra. A combinação de poder nuclear e terrorismo suicida materializaria uma ameaça real à segurança do mundo. Antes, o poder nuclear apenas podia efetivar-se se houvesse vetores capazes de transportá-lo a longas distâncias por submarinos ou mísseis. Agora, como se viu nos atentados de 11 de setembro, o terrorista vai junto com a bomba. E mesmo uma bomba nuclear “suja” poderia causar estragos catastróficos.

Isso acentua a questão da responsabilidade das elites dirigentes e, também, o efetivo controle delas quanto ao (não) uso de armas nucleares que venham a possuir. A  simples possibilidade de que um Estado ditatorial, como a Coreia do Norte, com sua retórica belicista, venha a disponibilizar tecnologia nuclear “caseira” para grupos terroristas representa óbvios riscos de segurança sobretudo para os Estados Unidos. Assim, é pouco provável que os Estados Unidos deixem de usar seu poder militar para dissuadir a Coreia do Norte de ter a bomba exceto se a Coreia do Norte evoluir para um sistema mais aberto e democrático.

Note-se que em circunstâncias muito mais complexas da Guerra Fria, no confronto com o único poder militar que poderia equiparar-se ao seu, os Estados Unidos praticamente impuseram a “glasnost” à União Soviética como preliminar de tratados mais abrangentes de redução de arsenais nucleares. Agora, confrontando um poder muito menor como a Coreia do Norte, os Estados Unidos certamente empreenderão todos os esforços políticos para se assegurar da neutralidade russa e chinesa em seus esforços para impedir a bomba coreana e, caso não consiga essa neutralidade, tomarão provavelmente uma decisão unilateral.

A questão iraniana é mais complexa. Trata-se de uma república regida por códigos democráticos formais sob autoridade última religiosa. O braço executivo do Governo nega que esteja construindo a bomba. Os aiatolás, o grande conselho moral e político do país, asseguram que a interpretação do Islã veda a busca do poder nuclear. Em termos históricos, algo que o ocidente se nega a reconhecer, o Islã, em suas guerras santas, tinha um protocolo de guerra que vedava o assassinato de mulheres, crianças e camponeses desarmados, assim como a destruição de colheitas – tudo isso incompatível com a arma nuclear.

Nessa mesma época histórica de ascensão do Islã, a Guerra Santa dos cruzados levava ao massacre indiscriminado de crianças, idosos e mulheres na Palestina, ao incêndio de cidades inteiras, à prática de torturas e a toda sorte de crueldades contra presos. No ocidente, sob o patrocínio da Igreja, instituiu-se a Inquisição como forma de controle de consciências pela fogueira, a caça às bruxas, ao terror contra seitas alternativas (cátaros), à conversão forçada de judeus. É claro que, com esses currículos, os islâmicos pareceriam bem mais civilizados e humanos que os ocidentais. Em outras palavras, fariam melhor (não) uso da bomba atômica.

Entretanto, por trás da questão nuclear iraniana está Israel. E Israel, única potência nuclear do Oriente Médio, coloca-se numa posição radical contra o acesso do Irã à bomba, por óbvias razões geopolíticas, e, entre outros motivos, porque a elite dirigente iraniana expressa publicamente a retórica irrealista de que Israel deve ser destruído. A esse respeito, trata-se de uma banalidade demagógica para efeito interno, de péssima repercussão internacional: como disse a então secretária de Estado Hillary Clinton, se o Irã atacar Israel para destruí-lo os Estados Unidos “deletam” o Irã!

Por sua parte, é possível que o Irã não vise mesmo a construir a bomba num primeiro momento, mas, sim, afirmar sua soberania no sentido de poder fazê-la quando quiser, haja vista a capacidade nuclear existente de seu principal inimigo, Israel. O exercício efetivo desse direito implica três situações: primeiro, da inserção efetiva do Irã no sistema de alianças russo-chinês; segundo, como consequência disso, da capacidade norte-americana de convencer politicamente a Rússia e a China a ajudá-los a dissuadir o Irã de fazer a bomba e submeter-se  ao sistema de fiscalização da AIEA; terceiro, em vista do fracasso dessa iniciativa, da vontade norte-americana de submeter-se a pressão de Israel e de fazerem, ambos, uma guerra aérea de destruição das instalações nucleares iranianas.

Essa terceira situação, que remete ao foco principal deste ensaio, coloca complexidades ainda maiores que a questão coreana. As instalações nucleares coreanas são muito mais vulneráveis a um ataque aéreo, inclusive por mísseis, do que as iranianas. Um relatório de um ex-agente de informação vazado na imprensa norte-americana deu conta de que as principais instalações nucleares iranianas estão enterradas a 10 a 12 metros de profundidade e são invulneráveis a ataques aéreos convencionais – ao gosto daqueles feitos por Israel em suas guerras, e inclusive no ataque nos anos 80 a instalações nucleares do Iraque.

Além disso, o poderio antiaéreo iraniano, já considerável tendo em vista anos de preparação para uma eventual guerra, seria, no caso de uma guerra decidida fora do âmbito do Conselho de Segurança, certamente reforçado, em termos materiais e humanos, por russos e chineses, seus supridores de equipamentos bélicos.  Nesse caso, teríamos um confronto convencional de potências nucleares numa guerra aérea em terceiro país. (A invasão por terra, claro, seria fora de propósito em função de perdas humanas dos agressores: Irã não é Iraque.) Até que ponto isso poderia desencadear uma escalada de forma a estabelecer um confronto direto entre as próprias potências nucleares? Não sabemos, mas podemos inferir.

O risco é suficientemente alto para o destino da humanidade para que nos recusemos a especular sobre ele. Portanto, tentemos estabelecer um curso ideal para reduzir o risco. O primeiro passo seria estabelecer, com o concurso de Rússia e China, um processo que leve ao reconhecimento da boa fé dos iranianos quando afirmam que não têm intenção de construir a bomba. Isso chegou a ser iniciado com o concurso de Brasil e Turquia no Governo Lula (irresponsavelmente criticado por parte da grande mídia brasileira, por certo inspirada pela inteligência norte-americana), mas foi recusado, depois de previamente combinado com ele, pelo Governo Obama. Como poderia ser retomada iniciativa similar?

Há uma preliminar concreta: a questão iraniana não pode ser dissociada da questão palestina. Portanto, o primeiro passo caberia aos Estados Unidos no sentido de pressionar Israel a voltar à mesa de negociações. Nesse contexto, seria proposto à elite dirigente iraniana que retirasse de sua retórica a destruição do Estado de Israel. Considerando, por outro lado, que a política interna iraniana em nível de governo é extremamente instável, com diferentes correntes disputando o poder (e a busca da construção da bomba, mais do que seus riscos, acaba sendo objeto de pregação demagógica), seria exigido do Conselho Supremo de aiatolás, o poder supremo efetivo do país, um posicionamento formal dirigido à comunidade internacional de que o país renuncia ao propósito de construção da bomba atômica, preservando seu direito de desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos sujeito à fiscalização da AIEA.

É claro que essa pauta é um exercício idealista. Contudo, é racional. Se se pensou a guerra convencional como instrumento racional de promoção de interesses dos Estados é porque se tratava de racionalização de processos reais. O processo real, como acontece no momento, tem a dimensão contraditória do racional e do irracional: um nos leva à relativa estabilidade nas relações internacionais; outro, ao possível desastre para toda a humanidade. Um segue a um paradigma em construção, instrumentalizado pela negociação e a cooperação entre os povos; outro, ao paradigma clausewitziano do século XIX anterior à existência do poder nuclear. O mundo, por suas elites dirigentes, não terá como deixar de fazer a escolha.

J. Carlos de Assis é eEconomista, professor de Economia e Política Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.

 

Fonte: RUMOSDOBRASIL