Geopolítica do petróleo: Brasil se afasta dos EUA

O que está em jogo, entre outras coisas, no leilão de Libra é uma reacomodação de forças na geopolítica internacional do petróleo.

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As edições eletrônicas do Wall Street Journal e Financial Times dedicam uma cobertura agitada, recolhendo repercussões minuto a minuto sobre o leilão do campo petrolífero de Libra, que ocupa 1.500 km2, está dotado de cerca de 12 bilhões de barris alojados em águas ultra profundas situadas a 183 quilômetros do estado do Rio de Janeiro e será capaz de produzir, dentro de alguns anos, 1,4 milhões de barris por dia, volume equivalente a 70% de todo o petróleo gerado hoje no país.

A Petrobras e 3 petroleiras chinesas (não se descarta a formação de um consórcio sino-brasileiro na última hora), estão entre as onze companhias que participam na licitação por Libra na qual estarão ausentes as “grandes irmãs” norte-americanas devido ao estresse diplomático surgido entre Brasília e Washington depois da descoberta da espionagem praticada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) contra a presidenta Dilma Rousseff, entre outros alvos sensíveis.

Por trás das notícias em tempo real nesta segunda-feira, com índices da bolsa e brokers com suas opiniões de curto prazo, subjaz uma história transcorrida nos últimos anos, cuja lembrança permitirá compreender o que está em jogo: uma reacomodação de forças na geopolítica do petróleo.

Celso Amorim era chanceler em julho de 2008, quando recebeu uma chamada de sua colega norte-americana Condoleezza, sugerindo-lhe receber sem alarme a reativação da IV Frota sob jurisdição do Comando Sul, anunciada poucos meses depois do descobrimento, em 2007, de grandiosas reservas de hidrocarbonetos nas bacias de Campos e Santos, localizadas no litoral do Rio de Janeiro e São Paulo.

Nem o chanceler Amorim e nem seu chefe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levaram a sério a retórica tranquilizadora da funcionaria de George W. Bush. Muito pelo o contrário, houve alarme no Palácio do Planalto.

Lula, Amorim e a então ministra Dilma Rousseff, que começava a perfilar-se como candidata presidencial, compreenderam que a passagem da US Army pelas costas cariocas, seria uma ostentação de poderio militar sobre os 50 bilhões de barris de cru de boa qualidade, alojados a mais de 5.000 metros de profundidade, em uma zona geológica conhecida como “pré-sal”.

Além dos questionamentos em foros internacionais, especialmente latino-americanos, foi pouco o que o Palácio do Planalto pode fazer de imediato contra a supremacia militar dos Estados Unidos e sua decisão de que a IV Frota, braço armado das petroleiras de bandeira norte-americana Exxon e Chevron no Hemisfério, ponha proa para o sul.

Lula e sua conselheira sobre energia Dilma, se viram diante de um dilema: ou adotar uma saída à mexicana, como a do atual presidente Enrique Peña Nieto, que mostrou sua disposição em privatizar Pemex, ainda que o termo empregado seja “modernização”, ou injetar dinheiro e mística nacionalista para robustecer a Petrobras como vetor de uma estratégia destinada a proteger a soberania energética.

Finalmente o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) optou pela segunda via, instrumentalizada em uma bateria de medidas de amplo espectro.

Capitalizou a Petrobras para reverter o esvaziamento herdado da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e conseguiu aprovar, no final de 2010, uma lei petrolífera ” estatizante e intervencionista”, de acordo com a interpretação dada por políticos de extração neoliberal e o lobby britânico-estadunidense, parecer amplificado pelas empresas de notícias locais.

Ressuscitou o projeto de construir um submarino atômico com a França, junto a quem firmou, em 2009, um acordo militar (que avançou menos do que foi prometido); demandou diante de organismos internacionais a extensão da plataforma marinha, com o propósito de que ninguém dispute a titularidade das bacias petrolíferas, e promoveu o Conselho de Defesa da Unasul, com o apoio da Argentina e da Venezuela e a indiferença da Colômbia.

Como braço auxiliar dessa linha de ação governamental o PT operou, através de sua perseverante aproximação com o Partido Comunista Chinês, antessala para estabelecer laços de confiança política com a nomenclatura do Estado asiático, cujo Banco de Desenvolvimento finalmente assinaria, em 2010, uma série de pré-acordos para a concessão de empréstimos por dezenas de milhares de milhões de dólares para a Petrobras.

Paralelamente aos movimentos brasileiros em defesa de seu interesse nacional e para ocupar um lugar entre as potências petrolíferas, a agência de segurança estadunidense NSA roubava informações estratégicas do Ministério de Minas e Energia e os diplomatas destacados em Brasília enviavam telegramas secretos a Washington tipificando o chanceler Amorim como um diplomata “anti-norte-americano”.

Há três meses atrás, quando Dilma Rousseff tomou conhecimento das primeiras notícias sobre as manobras da NSA, uma fonte do Planalto disse a Página 12 que a Presidenta evitaria “radicalizar” a situação, pois confiava em uma conciliação com os Estados Unidos, onde planejava viajar para uma visita oficial no dia 23 de outubro.

Mas a posição de Dilma se fez irredutível em setembro, ao saber que os espiões haviam violado até as comunicações da Petrobras.

A decisão de suspender a visita de Estado a Washington, embora Barack Obama tenha renovado seu convite pessoalmente, não deve ser confundida como algo gestual, porque suas consequências afetaram decisões vitais.

Que não haja nenhuma petroleira norte-americana no leilão pela reserva de Libra e sim três poderosas empresas chinesas, das quais duas são estatais, indica que a colisão diplomática teve uma repercussão prática.

Que fontes próximas ao governo tenham deixado transcender a possível formação de um consórcio entre a Petrobras e alguma empresa chinesa, revela que a geopolítica petrolífera de Brasília se inclina à Pequim, que também é seu primeiro sócio comercial.

E, se o anterior não bastasse para descrever o distanciamento estratégico entre o Planalto e a Casa Branca, na semana passada o indigesto (para Washington) ministro Celso Amorim, agora a cargo da Defesa, iniciou conversações com a Rússia para analisar a compra de caças bombardeiros Sukoi. Foi apenas uma sondagem, mas se esta compra se formaliza será um revés considerável para a corporação industrial-militar norte-americana, que imaginava vender seus caças Super Hornet ao Brasil, durante a visita que Dilma não fará.

Fonte: CartaMaior

Obama tenta sair do isolamento para atacar Síria

Se intervenção contra Assad parecia certa dias atrás, agora presidente dos EUA luta para conquistar aliados no Congresso e vencer resistência internacional

Barack Obama

O governo dos EUA tenta conseguir o maior número de simpatizantes no Congresso americano e entre a opinião pública para realizar uma intervenção militar internacional na Síria por causa do aumento da pressão internacional sobre o presidente Barack Obama após um suposto ataque químico, no final de agosto.

Assessores falam em uma “estratégia de inundações”, o New York Times diz que há uma blitzkrieg (guerra relâmpago) de lobistas da Casa Branca. Até dia 9 de setembro, quando terminam as férias de verão do Congresso dos EUA, a maioria favorável a um ataque precisa estar formada.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, um dos mais veementes defensores de um ataque de advertência contra o regime de Assad, apareceu no domingo em cinco programas de debates na televisão americana. Ao mesmo tempo, o vice-presidente, Joe Biden, e o chefe de gabinete de Obama, Dennis McDonough, fizeram uma série de telefonemas a dezenas de membros do Congresso.

Fadiga de guerra

Um grande grupo de políticos é contra o ataque. Esse grupo inclui desde democratas cansados de guerra até ultraconservadores republicanos do Tea Party, mais afeitos ao isolacionismo.

Outros consideram os planos de Obama pouco arrojados.” “Não podemos dar apoio de consciência tranquila a ataques militares isolados na Síria, que não alterem a dinâmica no campo de batalha”, justificam os senadores republicanos Lindsey Graham e John McCain, que disputou a primeira eleição com Obama, em 2008.

Eles pedem um plano para a derrubada do regime de Assad. Obama salientou, entretanto, que uma mudança de governo em Damasco não é o objetivo da ação militar.

“No fim das contas, o Congresso se mostrará apto a lidar com a situação”, acredita o deputado republicano Mike Rogers. Mas nem todos estão tão seguros. Seu colega de partido, o senador Rand Paul, vê 50% de chance de uma aprovação da intervenção militar. “O Senado vai aprovar o que Obama quer, mas na Câmara, a votação será apertada.”

John Kerry já adiantou, por precaução, que Obama tem a autoridade para atacar – “não importa o que o Congresso decidirá”. Mesmo assim, um “não” do Congresso seria embaraçoso para o presidente. “Obama parece ter ido longe demais publicamente”, alerta o historiador e jornalista alemão Michael Stürmer. “Se não acontecer nada depois disso, os EUA podem abrir mão de sua posição e de sua imagem de potência mundial”, prevê. Mas ele também não é a favor de um ataque ao regime Assad. “Falta uma descrição clara sobre qual é o objetivo de um ataque militar.”

Rússia continua a dizer não

Enquanto Obama tenta ganhar aliados no Congresso, a Rússia continua a mobilizar-se contra uma intervenção. “Não nos convence nem um pouco o que britânicos, franceses e norte-americanos apresentaram como prova da culpa do ditador sírio Bashar al-Assad nos alegados ataques com gás venenoso”, criticou o ministro do Exterior russo, Serguei Lavrov. Ele observa que, nas imagens exibidas, não havia “nada de concreto, nem mapas, nem nomes, só inúmeras inconsistências”.

“Se Obama se decidir pelo ataque, as esperanças de uma solução política poderão ser adiadas “por um longo tempo, talvez para sempre”, advertiu Lavrov.

A Rússia impede, junto com a China, uma ação internacional forte contra o regime de Assad. Ambos os Estados têm direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, e não há previsão que eles mudem de posição. Por isso, Obama quer atacar a Síria mesmo sem o consentimento do Conselho.

Pouco apoio internacional

Mas mesmo entre os aliados, os planos de Obama são controversos. Depois de o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter perdido na câmara baixa do Parlamento britânico a votação sobre uma participação do Reino Unido numa operação militar, por enquanto só a França continua ao lado de Obama, entre os países ocidentais mais importantes. Nesta quarta-feira (04/09) está prevista em Paris uma sessão extraordinária no Parlamento francês para tratar o assunto.

A Alemanha também decidiu que não se envolverá num ataque contra a Síria, condicionando sua participação a um mandato internacional. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, diz ter esperanças de que a comunidade internacional ainda possa encontrar uma posição comum para uma resposta a Damasco, após Obama abrir mão de um ataque.

A cúpula do G20 (grupo dos 20 países mais industrializados do mundo, mais os emergentes), que começa na próxima quinta-feira (05/09) em São Petersburgo, na Rússia, seria uma possibilidade para o retorno à mesa internacional de negociações. O encontro prevê uma reunião de Barack Obama com o presidente russo, Vladimir Putin.

Markus Kaim, especialista em Oriente Médio do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (Stiftung Wissenschaft und Politik), é a favor de uma solução política para o conflito. “Os principais argumentos estão sobre a mesa. E há esforços para que os partidos conflitantes negociem e para se convocar uma conferência de paz em Genebra”, destaca.

Moscou e Washington teriam concordado em maio com a organização dessa conferência. Mas até agora não foi encontrada uma data concreta, o que, em grande parte, se deveu à falta de disponibilidade de entendimento entre as partes em conflito. Porém, Kaim acredita que a ameaça de uma ação militar e a mudança que esta pode provocar na situação poderá levar a uma mudança de atitude de governo e oposição na Síria.

Fonte: CartaCapital

“The War on Democracy” (em português)

“A Guerra contra a Democracia”
Dirigido por: Christopher Martiin, John Pilger, Sean Crotty

O prestigiado jornalista John Pilger examina o papel dos Estados Unidos da América, a manipulação da política dos países Latino Americanos, a luta dos cidadãos para que acabe a fome e a pobreza. O filme revela entre outras coisas, as políticas da CIA para a continuidade no Iraque, Iro e Líbano. Chavez, apesar das pressões de Washington para o destituir, tem o apoio popular, sabendo-se que o seu povo o adora e que vive num regime democrático já algum tempo esquecido ou nunca vivenciado no mundo Ocidental. O presidente da Venezuela venceu 7 eleições com cerca de 80% dos votos.

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=dmYo8xrHI9M

Assange: “EUA querem uma confissão falsa”

Leia trecho inédito de entrevista com o criador do WikiLeaks sobre a pressão do governo americano sobre o soldado Bradley Manning, que está sendo julgado

Por Lino Bocchini

Há dois anos tive a oportunidade de passar 3 dias com Julian Assange, na casa de campo inglesa onde ele cumpriu sua prisão domiciliar, para fazer a matéria de capa da revista Tripde maio de 2011 – fui redator-chefe da revista até janeiro passado. Nas salas espaçosas e nos quartos, a mobília de época convivia com dezenas de laptops, cabos e enormes HD externos. Na porta da geladeira da cozinha no casarão do século XVIII, um imã gritava solitário: “Free Bradley Manning”.

Carlos Latuff/Opera Mundi

Nas longas conversas com o australiano criador do WikiLeaks, o nome do soldado era aparecia com frequência. Em um trecho inédito da entrevista reproduzido a seguir, Assange afirma que são duas as intenções do governo americano ao coagir o jovem militar responsável pelo vazamento de 250 mil cables, como são chamados os comunicados das embaixadas americanas à Casa Branca. A ação do jovem Manning em 2010, então com 22 anos, expôs ao mundo a forma como os EUA enxergam e se relacionam com o mundo. Manning começou a ser julgado na segunda-feira 3 de junho. Mas vale recuperar as palavras de Assange sobre o que ele acredita serem as motivações para sua detenção pelo governo americano:

“Primeiro, Manning foi preso e está mantido nestas condições sombrias, em uma solitária, para que ceda. Querem que ele faça uma confissão, que diga que deu documentos para nós e, mais, que conspiramos junto com ele para conseguir tais documentos. Dessa forma eles ganhariam um argumento para indiciar-nos por conspiração e espionagem. Querem obrigá-lo a fazer uma confissão falsa que leve a esse tipo de conexão”.

O criador do WikiLeaks continua, com sua calma habitual: “Em segundo lugar estão fazendo isso com Manning para não perderem o controle sobre os militares. Eles se preocupam com a existência de um soldado que não seguiu as ordens. Mas Bradley viu violações de direitos humanos dentro do aparato militar dos EUA e causou tremendo constrangimento para o exército americano ao entregar esse material para a imprensa. E, claro, não querem passar a ideia de que generais não conseguem manter o controle sobre os soldados. Usando-o como exemplo, outros soldados vão ficar em seus lugares e cumprir suas tarefas. Dar à imprensa material como esse iria conter as práticas abusivas do exército americano, e esse é um ponto-chave das forças armadas daquele país”.

Fonte: CartaCapital

EUA e Coreia do Sul aumentam nível de alerta após ameaças do Norte

coreiaOs governos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul eleveram seu nível de alerta em meio ao que interpretam serem indicações de um ataque iminente da Coreia do Norte.

O Japão também enviou sistemas de defesa anti-mísseis para Tóquio como precaução.

Washington e Seul dizem ter recebido informações de que ao menos um tipo de míssel ainda não testado, com alcance de cerca de 3 mil quilômetros está abastecido e pronto para ser lançado.

Um correspondente da BBC em Seul diz que um novo teste de lançamento de mísseis não teria grande significância militar a curto prazo, a não ser que algo corra errado.

Mesmo assim, seria interpretado pelas potências ocidentais e regionais como altamente provocativo e violaria as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Fonte: BBC Brasil

August Pradetto: Política dos EUA também provoca retórica bélica norte-coreana

A Coreia do Norte se sentiu provocada com as recentes manobras militares realizadas pela Coreia do Sul e Estados Unidos. Mas sua recente declaração de “estado de guerra” também deixa claro o interesse dos EUA em expandir sua influência na região do Pacífico.

Essa é a opinião de August Pradetto, professor de Ciências Políticas da Universidade das Forças Armadas Helmut Schmidt, em Hamburgo, em entrevista à DW. Segundo ele, Kim Jong-Un tenta mostrar sua competência exacerbando a retórica de guerra: “Essas palavras contra os norte-americanos e contra o governo da Coreia do Sul têm a intenção de levá-lo a ser reconhecido como o guardião e protetor da nação norte-coreana”.

 

Norte-coreanos se sentem provocados por manobras militares dos EUA e Coreia do Sul. Foto:Yonhap/ AFP

 

Deutsche Welle:A Coreia do Norte declarou “estado de guerra” contra Seul. O que isso muda? Afinal, os dois países não firmaram um tratado de paz desde o fim da Guerra das Coreias.

August Pradetto:Em princípio, isso pouco vai mudar a situação político-militar, porque as Forças Armadas da Coreia do Sul, combinadas com as dos EUA, são superiores às forças norte-coreanas. A Coreia do Norte se sente provocada pelas manobras de grande escala realizadas na Coreia do Sul e no Mar da China Oriental, e essa é sua reação.

Isso tem uma função relacionada à política interna, mas também se destina a dar um recado para o exterior, de que Pyongyang se opõe às manobras realizadas e vai se defender, ainda que tenha pouca chance de responder à altura, do ponto de vista militar.

DW: O senhor mencionou que o anúncio do “estado de guerra” também tem um propósito nacional. Qual seria?

AP: O líder norte-coreano Kim Jong-Un já está no poder há pouco mais de um ano. Como jovem sucessor de seu pai, ele tem que provar sua competência e aparentemente tenta fazê-lo por meio de declarações fortes. Essas palavras contra os norte-americanos e contra o governo da Coreia do Sul visam que seja reconhecido como guardião e protetor da nação norte-coreana.

DW: E isso funciona entre seus compatriotas?

AP: Não podemos esquecer que a Coreia do Norte é um estado totalitário que tem toda a mídia sob seu controle. Relativamente poucas notícias chegam do exterior, e há pouca objetividade no noticiário local. As pessoas são dependentes dos meios de comunicação nacionais. Outros tipos de notícias vêm apenas da China e pouco servem para influenciar a opinião pública norte-coreana de forma significativa.

DW: Mas os líderes norte-coreanos têm repetidamente se sentido provocados pelas manobras militares norte-americanas e sul-coreanas. A atual reação tem uma qualidade diversa, ou se trata da ostentação de agressividade usual?

AP: O maior perigo é que ocorra algo não intencional, de um lado ou de outro. Em breve, grande parte das manobras chegarão ao fim. E aí a situação possivelmente volta a se acalmar – se não houver nenhum incidente antes.

DW: Os EUA e a Coreia do Sul podem fazer algo para contribuir para a normalização da situação?Por exemplo, agindo de forma mais contida?

AP: Essa seria uma possibilidade. Os EUA fazem pouco para acalmar a situação. Na verdade, os próprios EUA estão sob pressão: suas bases no Japão e na Coreia do Sul são questionadas pelas populações locais. Ao mesmo tempo, os EUA querem fortalecer suas bases na região do Pacífico, especialmente na Coreia do Sul e também no Japão, bem como reforçar a defesa antimísseis nessa região. A reação norte-coreana a essas manobras certamente não chega em mau momento para os EUA, de forma a legitimarem a própria posição e os próprios planos e impô-los contra as instâncias de oposição.

DW: Então isso significa que ambos os países querem exibir suas forças?

AP: Ambos querem manter sua posição nessa região. A Coreia do Norte teme que se realize, possivelmente também por meios militares, aquilo que tem estado na agenda dos EUA desde 2001, ou seja: uma mudança de regime na Coreia do Norte. E os EUA tentam expandir suas posições na região do Pacífico. Esse é o verdadeiro motivo da retórica e estratégia que vêm sendo empregadas por ambos os países.

Fonte: CartaCapital

Invasão do Iraque pelos EUA completa 10 anos de impunidade

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos completa 10 anos. A decisão tomada pelo então presidente George W. Bush  foi unilateral e ilegal, mas não sofreu consequências. Por isso, ele conseguiu manter por anos a fio uma guerra imperialista que custou milhões de vidas aos iraquianos, cometendo crimes contra a humanidade até hoje impunes.

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

 

A decisão de Bush inseriu-se em um contexto internacional dominado pela Doutrina Bush, que foi caracterizada pelo empenho por um mundo unipolar, de políticas unilaterais e imperialistas que tinham como único objetivo o estabelecimento irrefutável da hegemonia estadunidense sobre o mundo.

A convicção arrogante de que o país é um poder hegemônico que deve ordenar mundo (principalmente quando vendo seus amplos, ambíguos e instrumentais “interesses nacionais” ameaçados) foi a base da política externa estadunidense, mas que ainda precisava de aliados.

Dias antes da invasão, os EUA organizaram o ensaio de legitimação para a sua decisão unilateral e imperialista com a Cimeira dos Açores, realizada em 16 de março, em que se reuniu com os então primeiros-ministros Tony Blair (Reino Unido) e José María Aznar (Espanha), por exemplo.

No dia seguinte, Bush deu um “ultimatum” para que o presidente iraquiano Saddam Hussein e sua família deixassem o Iraque em 48 horas. Não correspondido, com o final do prazo o então presidente anunciou que iniciaria ataques aéreos e que enviaria 250.000 soldados ao Iraque, o que aconteceu gradualmente.

Depois de votarem contra a resolução de guerra levada pelos EUA ao Conselho de Segurança da ONU, a França e outros países europeus viram-se ameaçados pela afirmação de Bush, ainda nos Açores (quando já previa uma guerra), de que aquele seria “o momento da verdade”.

O apoio do Reino Unido (o principal aliado dos EUA então) custou caro politicamente para o então primeiro-ministro Tony Blair, que além de contrariar os protestos da população civil, contrariou também o seu próprio Partido Trabalhista: cerca de 160 dos seus parlamentares haviam votado contra a iniciativa do governo de juntar-se à guerra dos EUA.

Já há uma série de estatísticas e avaliações, em relatórios complexos, discursos e avaliações de políticas de Estado, mas ainda nenhuma explicação plausível para a Guerra no Iraque, iniciada unilateralmente e de forma ilegal há exatos 10 anos pelos Estados Unidos contra aquele país. 

De 2001 a 2013, neste novo século já iniciado por uma política internacional dominada pelo imperialismo estadunidense (através da instrumental “guerra contra o terror” que criou raízes no imaginário norte-americano e, depois, de seus aliados europeus), os EUA gastaram ou comprometeram-se com obrigações que somaram 3,1 trilhões de dólares em guerras no Afeganistão, Iraque e Paquistão. O custo total é ainda mais alto quando considerados os gastos relacionados com a guerra no Departamento de Segurança Interna, e se calculados os juros dos empréstimos feitos para pagar pelas guerras.

A motivação declarada em diversos discursos era a suposta existência de armas de destruição em massa, para começar, depois a “guerra contra o terror”, e também a derrubada de um “ditador”, na figura odiada pelo então presidente dos EUA, a do presidente Saddam Hussein. 

“Comemorações” na mídia

Jornais como The New York Times, nesta “comemoração” dos 10 anos desde a invasão, publicaram infográficos sobre as mortes relacionadas à guerra, separando-as por “forças americanas”, “forças de outras coalizões”, “forças iraquianas”. Ficam faltando os civis, porém, as maiores vítimas.

Ainda, há separações por causas, como “fogo amigo”, “fogo inimigo”, “ataque suicida”, entre outras, e há inclusive uma categoria que mereceria análise, pois aglomera as causas “não hostil/acidental/suicídio”.

Oficialmente, para os EUA, a guerra terminou no dia 15 de dezembro de 2011, de acordo com anúncios do presidente Barack Obama, desde a sua primeira vitória eleitoral, em 2008. Foi quando as últimas forças estadunidenses (especificamente, as engajadas em combate direto com os iraquianos) foram retiradas. Entre 2003 e 2012, no total, contabiliza-se a morte de 4.480 soldados, mas as consequências afetam milhões de pessoas nos EUA indiretamente, e incluem também a invalidez de vários ex-combatentes e o stress pós-traumático diagnosticado em grande parte deles.

O aniversário da invasão do Iraque resultou em numerosos documentos, relatórios, declarações e matérias de jornal, como a do New York Times, que se propôs a publicar uma série com as declarações de soldados que estiveram na guerra, contando como isso mudou as suas vidas.

Provavelmente, porém, a semana de “eventos comemorativos” terminará antes que jornais como este possam ouvir “como a guerra afetou as vidas” não dos soldados, mas da população civil do país invadido.

O escritor norte-americano David Swanson, em seu relatório “A guerra do Iraque entre os piores eventos do Mundo” (Iraq’s War Among the World’s Worst Events, ainda sem tradução para o português) lembrou também dos 22 anos da Operação Tempestade no Deserto (ou da Guerra do Golfo, de 1990), que precedeu a “Operação Libertação do Iraque” (cuja sigla em inglês é OIL, em alusão ao interesse dos EUA pela região, o petróleo, segundo Swanson), também chamada de Segunda Guerra do Golfo.

Impacto real da Guerra (dos EUA) no Iraque

Neste 20 de março de 2013, porém, para a população invadida, não há muito para comemorar, apesar da “retirada” oficial das tropas invasoras ter sido anunciada há dois anos. O governo atual do primeiro-ministro Nouri al-Maliki (praticamente instalado pelos EUA) tem sido acusado pela população civil de autoritarismo, de patrocinar execuções sumárias, prisões arbitrárias, tortura e estupro, de acordo com uma matéria da emissora árabe Al-Jazeera.

De acordo com números que Swanson recolheu de vários informes, o Iraque perdeu cerca de 1,4 milhões de vidas como resultado da OIL, o que representou 5% da sua população. Esta cifra não chega a se comparar às perdas sofridas pela França (1%) e dos EUA (0,3%), por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial.

As mortes de estadunidenses nesta guerra não chegam a representar 0,3% das mortes totais, o que pode ser explicado, para começar, com o hábito dos EUA de invadir e agredir diretamente países que ficam longe da sua vizinhança, quase como um “plano estratégico” perfeito, para além de instrumental, dados os seus interesses políticos e econômicos na região onde mais tem investido militarmente: o Oriente Médio.

Como se já não bastasse, lembra Swanson, também resultaram da OIL cerca de 4 milhões de feridos e 4,5 milhões de refugiados, que tiveram de fugir não só para os países vizinhos como também para outras regiões.

Além disso, de acordo com a base de dados sueca do Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, da sigla em inglês), há também entre 2,3 milhões e 2,6 milhões de pessoas que foram forçadas a deslocar-se internamente (por isso, não são contadas como refugiadas), número reduzido a 1,3 milhão pelas estimativas da ONU, que só contabiliza os que foram inscritos pelas autoridades iraquianas desde 2006.

Os custos materiais também não escaparam de maior análise. Para além da infraestrutura atual, a Unesco também denunciou a destruição de sítios arqueológicos e outros patrimônios históricos de extrema importância, como é de costume em guerras tão devastadoras. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo na véspera deste aniversário, nesta terça-feira (19), o especialista em estudos árabes e islâmicos Paulo Daniel Farah também menciona os danos ao patrimônio cultural do Iraque, que se situa na antiga Mesopotâmia.

Farah lembra que, “referência cultural nos anos 1970, o Iraque abriga milhares de sítios arqueológicos que foram submetidos à pilhagem e ao contrabando, junto com toda uma memória coletiva humana.”

Ainda antes disso, desde o embargo imposto ao país em 1990, que começou com a Resolução 661 do Conselho de Segurança da ONU (adotada naquele mesmo ano), houve “saques sistemáticos e organizados ao patrimônio material iraquiano que colocam em risco grave a história da humanidade”, afirma Farah.

A invasão iniciada em 2003, entretanto, só agravou a vulnerabilidade a esses saques. ”Menos de duas semanas após a invasão norte-americana, muitas dessas obras já se encontravam nos Estados Unidos e na Europa”, como afirma o arqueólogo sírio Ahmad Serrie, citado por Farah.

Performances e custos da guerra 

A invasão de 2003 incluiu, de acordo com Swanson, 29.200 ataques aéreos, fora os 3.900 realizados nos oito anos seguintes. As forças militares estadunidenses tiveram em seus alvos tanto civis quanto jornalistas, hospitais e ambulâncias.

Além disso, como já denunciado por várias organizações internacionais, o exército dos EUA também fez uso do que se pode chamar de “armas de destruição em massa”, como as bombas de racimo, fósforo branco, urânio empobrecido e um novo tipo de napalm (substância que também usou na sua Guerra contra o Vietnã, na década de 1970), em áreas urbanas densamente habitadas.

Mais de um desses recursos já são proibidos por convenções internacionais, e o seu uso configura “crimes de guerra” e até “crimes contra a humanidade”, sob o direito internacional humanitário. Mas isso não preocupa os Estados Unidos, pois não seria a primeira nem a última vez.

O resultado, como também já conhecido de outras guerras, foi o aumento das taxas de câncer, de mortalidade infantil, entre outras. As fontes de água, as plantas de tratamento de esgoto, hospitais, pontes e plantas de energia elétrica foram devastadas, e a maior parte continua sem conserto.

Ainda antes da guerra iniciada em 2003, uma guerra econômica contra o país já havia deteriorado o sistema de saúde e nutrição, como relembra Swanson, “através das mais abrangentes sanções econômicas já impostas na história moderna.”

Não é difícil também para os analistas econômicos encontrarem indícios de uma intencionalidade comercial da guerra empreendida pelos EUA, não só pelo tema do complexo industrial-militar, que encontra terreno bastante fértil para ser desenvolvido, como também pelos esforços de “reconstrução” do Iraque, que garantiram contratos milionários com construtoras.

Reconstrução do Iraque

Ainda assim, Swanson afirma que o dinheiro gasto pelos Estados Unidos na “reconstrução” era sempre menos de 10% do que era gasto com a destruição, e a maior parte nunca foi realmente posta em uso construtivo. Ao menos um terço foi gasto em “segurança”, enquanto muito do resto foi gasto em corrupção pelos militares e funcionários dos EUA.

Em uma análise do fator social, ainda, o jornalista lembra que os iraquianos que poderiam ajudar na reconstrução do país tiveram de fugir durante a guerra. O Iraque tinha as melhores universidades da Ásia ocidental durante a década de 1990, mas agora é um expoente do analfabetismo, com uma população de professores, em Bagdá, reduzida em 80%.

Contribuindo para a instabilidade e os conflitos internos, durante anos as forças ocupantes fragmentaram a sociedade, encorajando a violência e a divisão étnica e sectária, como dita o costume dos impérios coloniais e modernos. Diversos cientistas políticos já identificaram esforços concretos neste sentido.

Swanson afirma ainda que “enquanto a dramática escalada da violência” esperada com a retirada dos EUA não se realizou, o Iraque ainda tem de lidar com a instabilidade interna, as tensões regionais e, claro, o ressentimento generalizado contra os estadunidenses, exatamente o oposto do que os EUA declararam como objetivo para tornar o país mais seguro.

“Se os EUA tivessem pegado os 5 trilhões de dólares e, ao invés de destruir o Iraque, tivessem escolhido fazer algo bom com isso, em casa ou no exterior, imagine as possibilidades”, diz Swanson, que lembra que a ONU teria declarado, por exemplo, que 30 bilhões de dólares por ano acabariam com a fome no mundo.

Mesmo assim, a Casa Branca também publicou seu próprio infográfico, onde figuram, é claro, as “promessas cumpridas” com relação à guerra. Obama caracterizou o fim de uma “missão de combate” em setembro de 2011, com a remoção de 100.000 soldados, de acordo com um acordo assinado em 2008, entre os EUA e o Iraque (“Acordo sobre o status das Forças estadunidenses e iraquianas”).

Entretanto, isso não pressupôs, na verdade, a retirada total das tropas, que seguem presentes ainda que sob um mandato diferente, como os já conhecidos treinamentos das forças de segurança iraquianas. Para objetores estadunidenses, ainda, as tropas que continuaram no país servem também para apoiar o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, em mais uma intervenção política de bastidores, outra especialidade dos EUA.

Segundo a Casa Branca, o objetivo é encontrar uma forma de “acabar responsavelmente” com a guerra. Entretanto, talvez o plano devesse ser, daqui para frente, como “responsavelmente manter-se fora dela”, ou como respeitar a soberania alheia.

A estratégia frequente de divisões sectárias e a instigação da violência supostamente baseada em diferenças identitárias (portanto, diferenças culturais instrumentalizadas de acordo com objetivos políticos) também foi posta em prática pelos EUA de Bush durante a sua invasão.

Depois, restou ao presidente Obama a tarefa igualmente assentada na ingerência de telefonar ao governo iraquiano para apelar para um governo de unidade nacional, mais especificamente pedindo ao presidente que se demitisse para dar lugar a um novo candidato que os EUA já tinham nomeado. A alternativa seria aceitar a presença de tropas estadunidenses por mais tempo, e apesar de ambas as “opções” terem sido negadas, assim é a situação atual do Iraque.

Fonte: PortalVermelho