Esquerdas de Portugal e Grécia unem forças contra austeridade

O líder da coligação grega Syriza, Alexis Tsipras (foto), esteve nesta quinta-feira (25) em Portugal para encontro com o Bloco de Esquerda luso. Para ele, “unidade” será a “única resposta eficaz às insistências da Sra. Merkel em políticas de dividir para reinar, que forçaram a Zona Euro a posicionar-se à beira da ruina”. O coordenador do Bloco, João Semedo, defendeu que “só a democracia pode vencer a austeridade”.

Lisboa - “Em meados dos anos 70, Portugal, Grécia e Espanha eram admirados por toda a Europa como casos paradigmáticos de transição de situações de ditadura para a democracia. Quero assegurar-vos que, em breve, os nossos países voltarão a ser apontados como casos paradigmáticos de transição de situações de austeridade para a democracia”, afirmou Alexis Tsipras durante o Comício organizado pelo Bloco de Esquerda, que teve lugar esta quinta feira no Fórum Lisboa.

Citando Franklin Roosevelt, Alexis Tsipras salientou que “a única coisa de que temos de ter medo é do próprio medo”. Segundo o líder da Syriza, “separados seremos derrotados. Sairemos também a perder se nos fecharmos no isolamento econômico e se voltarmos às políticas do passado de desvalorizações competitivas das moedas nacionais”.

Por outro lado, “juntos e a uma só voz, podemos fazer inclinar os equilíbrios do poder político Europeu para o nosso lado” e derrotar a “ditadura Europeia e econômica que é imposta pelos mercados todo-poderosos”.

Reforçando a ideia de que “a nossa força reside na nossa unidade”, Tsipras referiu que “à medida que a recessão engole a Zona Euro, a austeridade está agora também a alarmar os mais vulneráveis no Norte” e que, nesse contexto, “a aliança anti memorando dos países do Sul deve também englobar as forças sociais do Norte que rejeitam a austeridade”. “Será uma aliança Europeia pela refundação democrática da união monetária”, avançou.

“Não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”
Lembrando que o próprio Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, já veio admitir que a austeridade “tinha chegado ao limite”, “talvez porque agora a recessão já chegou ao Norte da Europa”, Alexis Tsipras destacou que “não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”.

Para o representante da Syriza, só há uma saída para “a crise auto-alimentada da Zona Euro”. Essa solução terá que passar, conforme adiantou, pela anulação do Memorando de Entendimento e a “substituição das políticas recessivas de austeridade por políticas de redistribuição do rendimento”, a renegociação dos acordos firmados e subsequente anulação de uma parte significativa da dívida, e um ‘Novo Acordo para a Europa’, centrado em projetos de investimento públicos de dimensão Europeia.

O consenso da direita
O coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, acusou, durante a sua intervenção, Cavaco Silva de “dar luz verde à segunda vaga de austeridade e de cortes que o governo se prepara para anunciar”.

“Uma maioria de direita, um governo à direita e um presidente de fação que usou o 25 de Abril para dar a mão a um governo em queda livre. Este é o governo do presidente Cavaco Silva”, frisou o dirigente bloquista.

“O consenso de Cavaco é o mesmo de Paulo Portas e Pedro Passos Coelho, é o consenso para mais austeridade, o consenso para dar uma segunda vida a um governo moribundo. E sejamos muito claros, o consenso porque nos batemos é exatamente o oposto. É o consenso contra a austeridade, contra a dívida, contra a troika. É a nossa escolha, a nossa opção. Toda a esquerda, sobretudo o PS, está hoje desafiada a fazer a sua escolha”, alertou João Semedo.

Vivemos em plena era dos credores
Citando declarações de Miguel Portas, datadas de agosto de 2011, João Semedo afirmou que “vivemos em plena era dos credores” e que “Pedro Passos Coelho ou Antonis Samaras não são mais do que os cobradores às ordens dos credores: os bancos, os fundos internacionais, a troika. Não governam, não decidem, fazem o que os mandam fazer”.

“E das duas uma: ou nos livramos deles ou eles acabarão connosco, acabarão com Portugal e a Grécia como países soberanos, países livres e democráticos, em que o povo é que mais ordena”, alertou, sublinhando que “a liberdade e a democracia são também gorduras incômodas para os credores”.

“A austeridade liquida a democracia, austeridade ou democracia, só a democracia pode vencer a austeridade”, realçou.

Renegociar a dívida é a alternativa da esquerda socialista
Reforçando que “recusar a austeridade e recuperar os rendimentos perdidos é a resposta da esquerda socialista” João Semedo defendeu que “Portugal só evitará um segundo resgate se cortar nos juros e na dívida, se anular parte da dívida para valores compatíveis com o desenvolvimento econômico”.

“Há hoje muitas razões para olhar com cepticismo o futuro da Europa. Mas nós não desistimos de lutar por uma outra Europa, uma Europa para os cidadãos, para a coesão econômica e social, uma economia forte que assegure trabalho para todos, uma Europa de iguais que respeite a soberania dos povos e dos estados, uma Europa de paz”, avançou o deputado, referindo que o Bloco recusa “a tese de que a defesa do Euro exige uma Europa federal e que sem federalismo europeu o fim do euro é inevitável”.

“Sabemos que pode haver euro sem troika, sem austeridade e por isso resistimos à chantagem da defesa do euro para nos impor mais austeridade”, avançou ainda João Semedo, reafirmando que “a alternativa não é sair do euro, é cortar na dívida e por fim à austeridade”.

É preciso derrubar o governo
“Para mudar a política nacional, para tirar o país da crise, é necessário derrubar o governo”, garantiu o coordenador do Bloco de Esquerda, frisando que “o agravamento da crise econômica e social acabará por impor a demissão do governo”.

“O Bloco de Esquerda recusa qualquer outra solução que não seja realizar eleições. Confiamos que esta é a hora da esquerda governar. Pela nossa parte estamos disponíveis e prontos para fazer parte da solução. Um governo de esquerda que rejeite a austeridade, ponha termo ao memorando da troika e imponha aos credores uma renegociação da dívida”, adiantou João Semedo.

A eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias denunciou o feroz ataque à democracia a que temos vindo a assistir. “Todas as decisões importantes para as nossas vidas estão a ser retiradas das mãos dos cidadãos. É como se a democracia, a cidadania, a participação popular fossem um adereço ou qualquer coisa que está a mais no quadro institucional europeu”, lamentou a eurodeputada. “A voz da democracia é: é o povo quem mais ordena”, frisou Marisa Matias.

“A dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos”

Segundo a dirigente bloquista Joana Mortágua, “a dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos, porque ela nasce de uma relação de forças desigual, porque pode interminavelmente consumir a riqueza da força de trabalho de um povo inteiro, e porque, nas palavras de Eduardo Galeano, ‘a dívida constrói uma estrutura de humilhação sucessiva que começa nos mercados financeiros e acaba na casa de cada um e de cada uma de nós’”.

“Mudar a estrutura da dívida significa, na chamada ‘era dos credores’ desferir um golpe profundo sobre o capitalismo financeiro, mas significa também ensinar à chanceler Merkel e aos eurocratas alguma coisa sobre democracia, sobre solidariedade e sobre europeísmo”, avançou Joana Mortágua.

Fonte:CartaMaior

Porque a Venezuela está tão dividida

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Caracas, Venezuela (CNN) - Como se na sugestão, Ermelinda Briceno entrou no santuário improvisado de Hugo Chávez e derramou uma lágrima. Este lugar de reverência ao “El Comandante”, o presidente da Venezuela há 14 anos, apareceu neste bairro pobre depois da morte de Chávez no mês passado.

Briceno disse que sua devoção a Chávez é inabalável. Mas ela entende porque mesmo alguns que apoiaram o falecido presidente estavam relutantes em votar para o seu sucessor escolhido a dedo, Nicolas Maduro.
“Eu acho que muita gente não conhecia Maduro, e não votaram (nele), mas aqui estamos, foi muita apertada [a votação]“, disse Briceno.

Para este país de 29 milhões de habitantes, lutando economicamente, a eleição foi talvez demasiado concorrida para ser confortável.

Pelo menos sete pessoas foram mortas e 61 ficaram feridas na violência pós-eleitoral em toda a Venezuela, informou a mídia estatal nesta terça-feira, citando o mais famoso promotor da Venezuela. Enquanto o governo afirma que esses ataques foram contra partidários do governo, a CNN não conseguiu verificar independentemente os relatórios.

Maduro garantiu 50,8% dos votos na eleição de domingo, enquanto o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski ganhou 49%, conforme disse o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela.

À medida que a crise continua, a economia manca junto. Até mesmo as previsões do governo da Venezuela indicam que o país poderia ver a inflação atingir 30% este ano, uma das taxas mais altas do mundo.

E depois há a escassez de alimentos. Restrições monetárias e controles de preços tem comprometido a economia, há escassez de produtos básicos, como farinha, açúcar, arroz, farinha de milho, e mesmo um grampeador venezuelano.

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Fomos a uma padaria no centro de Caracas, onde o proprietário nos disse que ele estava trabalhando com seus últimos três sacos de farinha. A padaria está limitando a compra de pão para quatro pães por compra pessoal até que o fornecimento de farinha seja estabilizado.

É uma situação que é difícil de entender considerando Venezuela é uma petro-Estado com as maiores reservas provadas de petróleo do planeta.

“Eu não tenho ideia de quando vou ter mais farinha e, geralmente, eu tenho cerca de 50 sacos em estoque para o mês”, disse o dono da padaria, que não quis ser identificado por medo de represálias do governo.

O medo parece estar aumentando entre os venezuelanos, não importa quem eles votaram. Ameaças do governo contra a oposição são mais ameaçadoras a cada hora.

“Você não vai para o centro de Caracas para preenchê-lo com sangue e morte”, Maduro advertiu a oposição, dizendo que os protestos eram ilegais. Ele acrescentou que ele acreditava que os Estados Unidos estavam financiando e incentivando os protestos.

Henrique Capriles respondeu com um apelo à calma, outra demanda para uma recontagem dos votos, e mais importante ainda, um apelo para os manifestantes de ignorar seus apelos anteriores para protestar nesta quarta-feira e ficar em casa . Ele disse temer que o governo iria incitar a violência com o que ele esperava ser uma manifestação pacífica.

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“O governo quer usar a violência para que nós não falemos sobre o assunto que nos trouxe a este ponto”, Capriles disse em uma conferência de imprensa na terça-feira.
De volta ao snatuário de Chávez, onde ele já é conhecido como “Santo Hugo Chávez,” um santo, parece haver pouco interesse em acompanhar a disputa entre o governo e a oposição. As pessoas estavam voltando para o trabalho e para a escola, fazendo seu caminho para os ônibus suburbanos lotados que serpenteiam através dos bairros pobres.

Mas essa não é a “inspiração divina” que Chávez tinha a esperança de dar à Venezuela após a preparação de seu sucessor antes de sua morte. Maduro tinha uma vantagem de dois dígitos sobre a oposição após a morte de Chávez, mas que evaporou em uma campanha curta, de 10 dias. Mesmo a oposição disse à CNN que considerou este um “milagre”.

O que sugere uma certa perda de entusiasmo do movimento chavista-socialista da Venezuela – ou pelo menos de seu líder fundador.

Fonte: CNN

Chavismo vence eleição apertada e tensa na Venezuela

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Por uma margem mais apertada do que qualquer pesquisa de opinião, e a maioria dos analistas independentes, poderia prever, o candidato chavista à Presidência da Venezuela, Nicolás Maduro, venceu as primeiras eleições do país na era pós-Chávez, de acordo com anúncio do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na madrugada desta segunda-feira – fim da noite de domingo em Caracas.

Com 99% dos votos apurados, Maduro obteve 50,6% dos votos válidos, contra 49% de seu rival, Henrique Capriles Radonski, no resultado eleitoral mais positivo para a oposição desde 1999.

Após a divulgação dos resultados, diversas salvas de fogos foram ouvidas na abastada zona leste de Caracas, reduto da oposição.

Maduro recebeu 685 mil votos a menos do que o total obtido em outubro pelo então presidente Hugo Chávez – cuja morte em março provocou a nova votação – na eleição presidencial contra Capriles.

De acordo com o CNE, até o momento do anúncio, Maduro havia obtido pouco mais de 7,5 milhões de votos e Capriles, cerca de 7,3 milhões.

O avanço de Capriles foi proporcional aos votos perdidos por Maduro – o opositor obteve 680 mil votos a mais desta vez do que em outubro.

Votaram na eleição deste domingo 78,71% dos quase 19 milhões de venezuelanos registrados, um percentual de comparecimento semelhante ao das eleições passadas.

Tensão

A demora do CNE em divulgar as estatísticas da votação gerou incertezas em relação ao andamento da apuração. O órgão não divulga boletins parciais, apenas resultados irreversíveis.

A presidente do conselho, Tibisay Lucena, havia dito que esperava divulgar os resultados cerca de três horas após o fechamento das urnas – o anúncio demorou mais de cinco horas para ser feito.

“Em vista desses resultados tão próximos, conversamos com os candidatos”, disse Lucena, referindo-se a uma prática do CNE em outras eleições.

“Esses são os resultados irreversíveis que o povo da Venezuela decidiu com este processo eleitoral.”

Por volta das 20h30 (horário local), um comentário de Capriles no microblog Twitter deixou intrigados os jornalistas, ao sugerir irregularidades.

“Alertamos o país e o mundo a intenção de querer mudar a vontade expressada pelo povo”, afirmou Capriles. Entretanto, o opositor não deu detalhes sobre a suposta ameaça.

O governo argumentou que seu sistema eleitoral, eletrônico, gera rechecagens automáticas em uma grande proporção de urnas, e que os dois partidos e cidadãos comuns têm mecanismos de monitorar a apuração nas seções.

“Queremos dizer aos candidatos, às organizações políticas, aos comandos: agora é o momento de ir para suas casas, e transmitir aos seus seguidores e seguidoras a tranquilidade que o povo merece”, disse a presidente do CNE.

“Que vão para suas casas tranquilamente, pacificamente e como sempre, com a solidariedade que nos caracteriza como venezuelanos e venezuelanas.”

Incógnita

Observadores e analistas acompanharão com interesse um novo governo de Maduro, previsto para começar no próximo dia 19.

Durante os dez dias de campanha, ele não se afastou da linha conservadora de repetir que executará exatamente o que Chávez planejou para a Venezuela para o período 2013-2019.

Chegou mesmo a brincar, afirmando que fala com o mentor bolivariano através de um passarinho.

Maduro é aliado de Chávez desde 1992, ano em que o então tenente-coronel do Exército liderou um fracassado golpe contra o então presidente Carlos Andrés Pérez.

Ele e a sua esposa, a ex-presidente da Assembleia venezuelana e procuradora-geral do país, Cília Flores, atuavam pela libertação de Chávez, que ficou preso até 1994 após a quartelada.

Neste domingo, ele disse que ficou até as 4h da manhã conversando com Flores sobre “as voltas que a vida dá”.

“Cilia e eu, uma mulher e um homem, que unimos nossos destinos e nossas famílias, nunca pensamos estar hoje aqui”, disse Maduro.

“Fiz minha vida nos últimos 21 anos ao redor do sonho de um homem, de um gigante, e hoje, quando amanheceu, amanheci com seu pensamento, canto e obra”, afirmou.

“Jamais pensei que estaria aqui, mas estou, batalhando com um povo em democracia.”

À sombra de Chávez

O representante do chavismo também deu os primeiros sinais do que pode ser o “estilo Maduro”. Respondendo à pergunta de uma jornalista sobre se iria iniciar um diálogo de unificação nacional, afirmou que, se vencer, não pretende fazer “pacto com a burguesia” e nem com as “elites”.

“A palavra diálogo vinculada ao velho conceito da democracia representativa, esse é o pacto das elites. O pacto com a burguesia se acabou”, disse Maduro.

“Aqui não haverá pacto com a burguesia, haverá diálogo com a classe operária, com os empresários patriotas, com os estudantes secundaristas, universidades, professores, diálogos bolivarianos com todos”, prosseguiu.

“Na Venezuela há uma revolução e esta criou novos valores da democracia. Um deles foi acabar com o pacto das elites e o coleguismo.”

Essa foi, em geral, a linha radical de Chávez, que se elegeu após o colapso de um regime de dois partidos que se alternavam no poder.

Mas há observadores da política venezuelana que acreditam existir uma chance de que, no poder, Maduro seja mais aberto e flexível que Chávez.

Eles lembram seu passado de chanceler e seu caráter de civil, em contraste com o militarismo de seu mentor.

No início de dezembro, quando anunciou a indicação de Maduro como seu sucessor, em uma transmissão emotiva nas TVs venezuelanas, Chávez o definiu como “um dos líderes jovens de maior capacidade para continuar (a governar na sua ausência)”.

Entre as qualidades de Maduro que o ex-presidente destacou estavam “sua mão firme, seu olhar, seu coração de homem do povo”.

“Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que, nesse cenário que obrigaria a convocação de eleições presidenciais, vocês o elejam como presidente”, recomendou na ocasião.

Fonte: BBC Brasil

Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?

Três anos depois do início de intensos protestos de rua, Tunísia e Egito estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isso vai parar. Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas isso não é definitivo.

Immanuel Wallerstein*

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Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões “modelares” das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.

Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa – e, até certo ponto, no mundo.

O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos — local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.

O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.

Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.

Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana – Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.

Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de “linha dura” em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados “moderados”, que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.

As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.

Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.

Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.

Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.

Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.

Fonte: CartaMaior

Síria: Liga Árabe pede à ONU para impor cessar-fogo obrigatório

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Brasília – A Liga Árabe pediu hoje (14) ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para impor um cessar-fogo obrigatório a todas as partes envolvidas no conflito na Síria.

O apelo faz parte de um relatório sobre a situação dos refugiados sírios que o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Al Arabi, distribuiu aos ministros da Saúde árabes reunidos hoje no Cairo, Egito.

O texto pede ao Conselho de Segurança para intervir de forma firme na Síria, de acordo com os instrumentos de que dispõe conforme a Cláusula 7ª da Carta das Nações Unidas.

A Cláusula 7ª permite “o uso de todas as medidas necessárias para restaurar a paz e a segurança internacionais”, o que inclui uma intervenção militar.

As tréguas negociadas durante o conflito pelos mediadores internacionais foram violadas tanto pelas tropas de Damasco como pelas forças rebeldes.

O relatório da Liga Árabe pede também à comunidade internacional que assuma responsabilidades e aumente a ajuda aos refugiados sírios que ultrapassam já 1 milhão de pessoas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A organização reunida no Cairo recordou ainda que os Estados vizinhos da Síria, membros do organismo, como o Líbano, a Jordânia e o Iraque necessitam de apoio econômico para ajudarem os refugiados.

Para apoiar os países que fazem fronteira com a Síria, os ministros da Saúde árabes decidiram doar US$ 800 mil para assistência médica de urgência destinada aos refugiados.

Na sexta-feira (15), completam dois anos do conflito sírio que deu origem a uma guerra civil que já causou mais de 70 mil mortes.

 

Fonte: Agência Brasil

A morte de Chávez na imprensa mundial

Legado do líder venezuelano e futuro do país foram assuntos predominantes durante a semana

A notícia da morte do presidente Hugo Chávez, anunciada nesta terça-feira (05/03), recebeu amplo e heterogêneo destaque da imprensa internacional e brasileira. Enquanto alguns veículos destacaram os avanços sociais e econômicos do país nos últimos 14 anos, outros se concentraram na desqualificação da biografia do falecido presidente.

Estados Unidos

O norte-americano Washington Post, em uma reportagem publicada no dia da morte do líder em sua edição online, intitulada “Chávez, apaixonado presidente venezuelano, mas que causava a polarização, morto aos 58 anos”, afirma que o líder “passou de um jovem soldado conspirativo que sonhava com a revolução, ao ferrenho líder anti-Estados Unidos de uma das maiores potências petrolíferas do mundo”.

O jornal The New York Times da quarta-feira expôs em sua manchete que o líder venezuelano deixou uma “profunda divisão” em seu país. Para a publicação, o presidente ficou conhecido por sua eloquência e “ataques audazes”. “Um orador excepcionalmente dotado que desfrutava da atenção dos meios de comunicação”, expressou o veículo, alegando que o mandatário administrava as reservas de petróleo do país para consolidar seu poder.

A também norte-americana Time, por sua vez, elaborou uma capa para sua próxima edição latino-americana, na qual pela primeira vez estampa uma foto do líder venezuelano, em preto e branco. Em reportagem publicada no site da revista, na quarta-feira, a publicação retrata a “visível polarização nas ruas de Caracas”.

“Enquanto apoiadores choravam pela morte do Comandante em pontos revolucionários, nos bairros mais ricos da cidade alguns admitiram brindar pela morte do presidente, esperando que o país volte ao que eles chamam de normalidade – o boom dos anos 1970 e 1980”, descreve o autor da reportagem.

América Latina

O jornal Granma, do comitê central do Partido Comunista cubano, por sua vez, publicou na primeira-página de sua edição do dia seguinte à morte do presidente venezuelano uma declaração do governo, na qual afirma que “toda obra de Chávez aparece invicta”.

“As conquistas do povo revolucionário que o salvou do golpe de abril de 2002 e o seguiu sem vacilação já são irreversíveis”, completa o comunicado, que afirma que “Cuba manterá eterna lealdade à memória e ao legado” do presidente venezuelano e que “persistirá em seus ideais de unidade das forças revolucionárias e de integração e independência” da América.

Alguns jornais latino-americanos, como o colombiano El Tiempo, utilizaram em suas manchetes da última semana a expressão “Maré Vermelha”, constantemente reproduzida nos últimos dias para descrever a multidão de simpatizantes que saíram às ruas da capital venezuelana para chorar a morte, além de acompanhar e velar o corpo do presidente.

“Comoção e incerteza na esquerda latino-americana” foi a manchete escolhida pelo jornal conservador paraguaio ABC Color. Na edição, o veículo afirma que a morte do líder “deixa Cuba, a Nicarágua, e outros países de marcado caráter socialista, órfãos de petrodólares”. Também traz um texto sobre o ingresso da Venezuela no Mercosul, que segundo a publicação “se deu às custas do Paraguai”.

Hostilidade espanhola

Já o site do El Público, que deixou de ser impresso, publicou um artigo intitulado “Imprensa espanhola ignora que serão os venezuelanos que definirão seu futuro”, no qual analisa que todos os jornais do país “sugerem que a cúpula do regime atua para brindar o chavismo” e que questionam a legalidade da posse do vice de Chávez como presidente encarregado do país.

Um dos textos mencionados no artigo é o do jornal La Razón, que em uma matéria intitulada “Maduro dá o golpe do luto” afirma que “nunca houve uma Constituição com tantas interpretações como a venezuelana” e que o vice-presidente estaria assumindo o cargo “à margem da constituição”, apesar de a legalidade da posse ter sido corroborada pelo Tribunal Superior de Justiça do país, ao qual corresponde a interpretação da lei.

Outro citado é o jornal El País, meio de comunicação espanhol que, no final de janeiro, publicou em sua primeira-página a foto de um homem, que dizia ser Hugo Chávez, respirando por um tubo, e posteriormente deveu pedir desculpas públicas pela falsidade da informação.

O veículo acusou o Estado venezuelano, após a morte do mandatário, de “manobrar para entregar todo o poder para o vice-presidente”, com todos os recursos “à sua disposição”. A manchete da primeira edição impressa no dia seguinte ao falecimento do chefe de Estado foi “Doença derrota Chávez”.

O interior da edição foi recheado de artigos hostis ao presidente, que traziam títulos como “O crepúsculo de um caudilho avassalador” e ‘”O golpista que triunfou nas urnas”. No mesmo tom, o jornal espanhol ABC, que anunciava “Chávez morre” em sua primeira página da quarta-feira, publicou títulos como “Um grande ego que resistiu a soltar o poder para se curar” e “Nasceu golpista, morreu ditador”.

Já o jornal El Mundo afirmou na quarta-feira que Maduro converteu a morte de Chávez “em um assassinato imperialista”, enquanto o obituário do presidente venezuelano foi intitulado de “O camaleão que quis ser [Simon] Bolívar”.

Ainda na Europa, a alemã Spiegel chamou Chávez, em um texto publicado quarta-feira em sua versão online, de “narcisista de Caracas”, mas reconheceu que o mandatário mudou a Venezuela e “virou o equilíbrio de poder na América Latina”. O presidente venezuelano também teve sua foto estampada na primeira página do britânico The Independent, com a manchete “Morre Chávez”.

O jornal italiano La Repubblica, por sua vez, titulou “Morreu Chávez, o último caudilho”, enquanto o francês Le Figaro destacou a morte do venezuelano “mergulha” o país em “um novo período de incerteza”.  Na versão online do jornal há reportagens sobre a incredulidade da população venezuelana frente à morte do líder e sobre a polarização no país.

Contraste no Brasil

O brasileiro Correio Braziliense circulou, após a morte do presidente venezuelano, com a imagem de um gorro militar vermelho sobre um fundo branco, abaixo da manchete “O fim de uma era”, em sua primeira página. O jornal expressa que durante mais de uma década em que comandou a Venezuela, Chávez defendeu a unidade latino-americana.

Já a primeira edição revista brasileira Veja publicada após a morte do líder manteve o tom de oposição aos mandatários latino-americanos progressistas e suas políticas de esquerda, com uma capa na qual Chávez aparece com um olhar lateral sério, e metade de sua cara é coberta por uma sombra, com a manchete “Chávez, a herança sombria”.

“A maldição da múmia” foi o título escolhido para o texto da publicação sobre o mandatário venezuelano, no qual não há economia de qualificações negativas ao líder a suas políticas, como “ditador”, “bajulação dos tiranos”, “utopia do bem coletivo”, “demonização da classe média”, “dilapidação do patrimônio” e “sociedade amedrontada, mantida como refém de benesses e na mais total ignorância”, entre outras.

O tom negativo é contraposto por outra revista semanal, a Carta Capital, que com uma gráfica colorida do rosto de Chávez, traz, na edição deste fim de semana, uma reportagem equilibrada, na qual expressa que o presidente venezuelano “lega ao seu sucesso muito entusiasmo popular”, mas também “uma situação econômica difícil de administrar sem seu carisma”.

A publicação repassa o anúncio da morte do líder bolivarianista, feito pelo então vice-presidente Nicolas Maduro, e afirma que apesar de “tantas teorias conspiratórias, contraditórias entre si”, difundidas por “jornalistas e boateiros”, “não há por que duvidar” que Chávez tenha de fato morrido no Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo, em Caracas, na última terça-feira.

“O clima de comoção e as inúmeras demonstrações de afeto e pesar só surpreenderam quem levava ao pé da letra a propaganda antichavista da mídia conservadora. Até as mídias que regularmente tratavam Chávez como ‘palhaço’ ou ‘tirano’ e davam a entender a leitores e expectadores no exterior que ele era desprezado ou odiado pela maioria e fraudava eleições para vencer foram obrigadas a cobrir e explicar essas manifestações e admitir que a política social do chavismo é muito popular”, manifesta o autor da reportagem.
Imprensa venezuelana

O jornal local El Universal, que realizava constante oposição ao presidente venezuelano, trouxe um artigo, na última sexta-feira, que afirma que “a sobrevivência do modelo político instaurado por Chávez tem ancoragens estruturais. O falecimento do Comandante encontra a Revolução muito mais enraizada e estabelecida do que esteve em outros momentos críticos”.

“Quando foi derrocado brevemente em 2002, a situação das forças armadas era precária, a organização popular, quase nula; ainda não existiam as missões sociais, e a capacidade de mobilização opositora tinha alcançado seu máximo potencial. A pesar disso, o chavismo se sobrepôs e retomou o governo”, exemplifica o autor.

 

 

 

 

 

Fonte: OperaMundi

Morre o presidente da Venezuela Hugo Chávez

charge-latuff-hugo-chavezO presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu nesta terça-feira em Caracas, após sofrer “complicações” devido ao agravamento de uma infecção respiratória adquirida durante seu tratamento contra o câncer.

O anúncio foi feito em rede nacional de televisão pelo vice-presidente, Nicolás Maduro.

“Estávamos recebendo informações e estávamos acompanhando suas filhas, seu irmão, sua família [no hospital] e aí recebemos as notícias mais trágicas e mais difíceis que jamais transmitiremos ao nosso povo. Às 16h25 [18h25 em Brasília], de hoje, dia 5 de março, o comandante Hugo Chávez Frías morreu”, disse com a voz embargada e visivelmente emocionado.

Mais cedo, o governo havia culpado as potências ocidentais pelo câncer que acometeu o líder, e expulsou o adido militar da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, David del Mónaco, alegando suspeitar que ele planejava angariar apoio dos militares para lançar um golpe no país. O diplomata tem 24 horas para deixar a Venezuela.

O líder da “revolução bolivariana” comandava a Venezuela há 13 anos e havia sido reeleito em 2012 para ocupar o cargo até 2019. Em julho de 2011, autoridades do país anunciaram que ele começava a ser tratado de um câncer na região pélvica. Detalhes da doença, porém, nunca foram esclarecidos pelo governo venezuelano.

O mandatário vinha fazendo viagens regulares a Havana para receber tratamento. Na última delas, em dezembro de 2012, já temendo o pior, reconheceu a precariedade de seu estado de saúde e apontou seu vice, Nicolás Maduro, como principal sucessor político.

Ele foi submetido à quarta cirurgia relacionada ao câncer no dia 11 de dezembro. Poucas informações foram divulgadas sobre o procedimento, exceto que durou seis horas e o presidente perdeu muito sangue. A operação foi considera “exitosa”, mas desde então Chávez não foi mais visto publicamente.

Porém, o quadro de saúde do presidente se agravou, evoluindo para uma insuficiência respiratória. Autoridades do país abandonaram o tom otimista que vinham usando nos comunicados anteriores sobre a saúde de Chávez e pediram orações da população.

Uma crise política tomou forma em Caracas com a aproximação do dia 10 de janeiro – a data marcada para que Chávez tomasse posse de seu próximo mandato. A oposição fez pressão para que a Presidência fosse cedida ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello – que deveria organizar um novo pleito, segundo a Constituição.

A maioria chavista venceu o embate e a posse fosse adiada indefinidamente.

Nesta terça-feira, o governo convocou os venezuelanos para rezarem por Chávez em frente ao hospital onde o mandatário estava internado. No início da noite, o vice-presidente Nicolas Maduro discursou confirmando a morte de Chávez.

Sucessor

Uma vez que a Justiça autorizou a continuidade do governo chavista mesmo sem a posse oficial do presidente, ainda não está claro como ocorrerá a sucessão na Venezuela.

Diferentemente de Chávez, Maduro não foi eleito, logo oposicionistas podem exigir a realização de novas eleições. Maduro foi chanceler da Venezuela por pouco mais de seis anos, até ser escolhido por Chávez para vice-presidente – substituindo Elisas Jaua, que deixou o governo para concorrer nas eleições regionais.

Segundo analistas, o processo de sucessão pode sofrer influência do setor militar do país. “Aqui há uma revolução militar que deve ser permanente e não pode ser detida”, disse Maduro no último dia 28.

A oposição no país permanece fragmentada. O candidato mais provável para enfrentar o chavismo em um novo pleito é Henrique Capriles, reeleito no ano passado governador do Estado de Miranda.

Porém, parte da oposição o critica, dizendo que não teve força para assumir a liderança e não possui carisma suficiente para enfrentar os partidários de Chávez. Essa fragmentação abre a possibilidade para que outros oposicionistas disputem com Capriles uma eventual candidatura presidencial.

Mas isso também é sintomático de outro grande problema que impediu a oposição de levantar a cabeça: há partidos sem postulantes, e postulantes sem partidos.Ou seja, a oposição venezuelana segue sendo uma grande massa disforme de agremiações e pessoas disputando cotas de poder ou mera influência.

 

Fonte: BBC Brasil

Justiça da Argentina julga Videla e outros repressores por Plano Condor

Plano articulou regime totalitários numa máquina de inteligência, sequestro e assassinato de militantes de esquerda

Os ditadores argentinos Jorge Rafael Videla e Reynaldo Benito Bignone voltam ao banco dos réus nesta terça-feira (05/03) em Buenos Aires com outros 23 repressores para responder pelo desaparecimento de 106 pessoas perseguidas pela Operação Condor dentro e fora do país. De acordo com o diário Página 12, a maioria das vítimas desse caso é uruguaia, mas também há argentinos, paraguaios, chilenos e um peruano. Três deles desapareceram no Brasil.

Videla (à esquerda) e Bignone (centro), durante julgamento por crimes cometidos durante a ditadura militar argentina

Os 25 acusados serão julgados por sua participação local na Operação Condor. Iniciada extraoficialmente em 1975, em Santiago, no Chile, a iniciativa articulou os regime totalitários do Cone Sul numa máquina de inteligência, sequestro e assassinato de militantes de esquerda que se opunham às ditaduras na região. Cerca de 450 testemunhas serão ouvidas pela Justiça argentina e o julgamento deve durar dois anos.

“A denúncia avançou devido ao conceito de ‘crime continuado’”, explicou ao jornal argentino o promotor Miguel Angel Osorio, que conduz as acusações. “Quando uma pessoa foi sequestrada e não é possível saber o que aconteceu com ela, se morreu ou continua viva, é como se o crime continuasse ocorrendo. Daí não é possível indultar nem anistiar os responsáveis. O Estado tem obrigação de interromper o delito. Depois, pode até anistiar. Mas, antes, tem de julgá-lo.”

Dos 25 repressores acusados, 23 estão sendo processados por associação ilícita e privação ilegal de liberdade. Não responderão por tortura ou assassinato, embora em muitos casos, diz o Página 12, esteja comprovado que as vítimas foram transladadas para outros países e mortas. “A Operação Condor eliminou as formalidades que costumam permear as relações internacionais para sequestrar pessoas”, explica Pablo Ouviña, promotor que elaborou as acusações.


“Há argentinos e chilenos sequestrando e torturando juntos.” Para Miguel Ángel Osorio, a nacionalidade de vítimas e repressores não importa tanto. “Importa se realmente atuaram executando esse plano de coordenação repressiva em nível continental ou mundial, porque também atuaram na Europa e nos Estados Unidos.”

Videla, de 87 anos, já foi condenado a duas penas de prisão perpétua e a uma de 50 anos, enquanto Bignone, de 85 anos, último ditador antes da transição democrática, tem uma condenação perpétua, outra de 25 anos e uma terceira de 15 anos, por graves violações aos direitos humanos. No banco dos réus se sentará também o ex-general Luciano Benjamín Menéndez, de 85 anos, que acumula sete sentenças de prisão perpétua por torturas, homicídios e desaparecimentos.

Bomba

Nesta segunda-feira (04/03), a Secretaria de Direitos Humanos da Argentina recebeu ameaças de bomba feitas, de acordo com comunicado emitido pelo órgão, pelo “Comando Patriótico”, cujo objetivo era exigir o fim dos julgamentos de repressores da ditadura no país.

“Não é uma coincidência que essas ameaças coincidam com o início do julgamento de delitos de lesa humanidade vinculados ao Plano Condor, que implicou na participação conjunta das ditaduras da Bolívia, Chile, Uruguai, Peru, Paraguai, Brasil e Argentina em uma coordenação repressiva nos anos 70 e 80″, afirma o documento.

Fonte: OperaMundi

Assange defende aumento massivo de meios de comunicação

Em entrevista à Carta Maior, concedida na embaixada do Equador no Reino Unido, Julian Assange fala sobre seu novo livro, que está sendo publicado no Brasil, e analisa o atual momento da mídia mundial. “O abuso que grandes corporações midiáticas fazem de seu poder de mercado é um problema. Nos meios de comunicação, a transparência, a responsabilidade informativa e a diversidade são cruciais. Uma das maneiras de lidar com isso é abrir o jogo para que haja um incremento massivo de meios de comunicação no mercado”, defende.

Marcelo Justo – Direto de Londres

O fundador de Wikileaks, Julian Assange, recebeu a Carta Maior em um escritório especial que a embaixada do Equador no Reino Unido preparou para que ele converse com a imprensa no momento da publicação no Brasil de seu novo livro “Cyberpunks. A Liberdade e o futuro da internet”. Veste uma camiseta da seleção brasileira, com o número sete e seu nome nas costas: a desenvoltura futebolística combina com seu bom bom humor. O cabelo branco e a pele quase translúcida lhe dá um ar de albino insone, mas os mais de seis meses encerrado nos confins da embaixada e o mais que incerto futuro ante à decisão do governo britânico de não conceder-lhe o salvo-conduto que permitiria que viajasse ao Equador, não parecem pesar muito.

É certo que ele em uma aparentemente merecida fama de recluso e que em seu pequeno quarto na embaixada deve fazer o mesmo que fazia a maior parte do tempo em sua vida livre: ficar grudado em seu computador e na internet. É difícil imaginar a vida de Julian Assange sem a tela do monitor e o ciberespaço. Por isso o livro que começa a ser vendido este mês no Brasil, publicado pela editorial Boitempo, contem algo tão inesperado como a camiseta brasileira: uma visão particularmente cética e mesmo negativa sobre o impacto da internet.

Você fala em seu livro da internet como uma possível ameaça para a civilização. Muitos pensam que a internet é uma arma para o progresso humano que produziu, entre outras coisas, Wikileaks. Sua interpretação não é um pouco pessimista?

Assange: Não resta dúvida que a internet deu poder às pessoas que não o tinham ao possibilitar o acesso a todo tipo de informação em nível global. Mas, ao mesmo tempo, há um contrapeso a isso, um poder que usa a internet para acumular informação sobre nós todos e utilizá-la em benefício dos governos e das grandes corporações. Hoje não se sabe qual destas forças vai se impor. Nossas sociedades estão tão intimamente fundidas pela internet que ela se tornou um sistema nervoso de nossa civilização, que atravessa desde as corporações até os governos, desde os casais até os jornalistas e os ativistas. De modo que uma enfermidade que ataque esse sistema nervoso afeta a civilização como um todo.

Neste sistema nervoso há vários aparatos do Estado, principalmente, mas não unicamente, dos Estados Unidos, que operam para controlar todo esse conhecimento que a internet fornece à população. Este é um problema que ocorre simultaneamente com todos nós. E se parece, neste sentido, aos problemas da guerra fria.

Você é muito crítico do Google e do Facebook que muita gente considera como maravilhosas ferramentas para o conhecimento ou as relações sociais. Para essas pessoas, em sua experiência cotidiana, não importa a manipulação que possa ser feita na internet.

Assange: Não importa porque esta manipulação da informação está oculta. Creio que nos últimos seis meses isso está mudando. Em parte por causa de Wikileaks e pela repressão que estamos sofrendo, mas também pelo jornalismo e pela investigação que está sendo feita. O Google é excelente para obter conhecimento, mas também está fornecendo conhecimento sobre os usuários. Ele sabe tudo o que você buscou há dois anos. Cada página de internet está registrada, cada visita ao gmail também. Há quem diga que isso não importa porque a única coisa que eles querem é vender anúncios. Esse não é o problema. O problema é que o Google é uma empresa sediada nos Estados Unidos sujeita à influência de grupos poderosos. Google passa informação ao governo de maneira rotineira. Informação que é usada para outros propósitos que não o conhecimento. É algo que nós, no Wikileaks, sofremos em primeira mão e que vem ocorrendo com muita gente.

Mas no que concerne o controle do Estado há usos legítimos da internet para a luta contra a pornografia infantil, o terrorismo, a evasão fiscal…

Assange: Indiscutivelmente há usos legítimos e a maior parte do tempo a polícia faz isso adequadamente. Mas nas vezes em que não faz, esses usos podem ser terríveis, aterrorizadores, como está ocorrendo atualmente nos Estados Unidos. É preciso levar em conta que o que chamamos de quatro cavaleiros do apocalipse – a pornografia infantil, o terrorismo, as drogas e a lavagem de dinheiro – são usados para justificar um sistema de vigilância massivo da mesma maneira que usaram armas de destruição em massa para justificar a invasão do Iraque. Não se trata de uma vigilância seletiva de pessoas que estão cometendo um delito. Há uma gravação permanente de todo mundo. Isso é uma ameaça diferente de tudo o que já vivemos antes, algo que nem Goerge Orwell foi capaz de imaginar em “1984”.

No Ocidente, falou-se muito da revolução do Twitter para explicar a primavera árabe. Esse não é um exemplo perfeito do potencial revolucionário da internet?

Assange: A primavera árabe se deveu à ação das pessoas e dos ativistas, desde a Irmandade Muçulmana até outros grupos organizados. A internet ajudou o pan-arabismo da rebelião com pessoas de diferentes países aprendendo umas com as outras. Também ajudou a que Wikileaks difundisse os documentos que deram mais ímpeto ao movimento. Mas se você olha para os manuais dos grupos que coordenavam os protestos, na primeira e última página, recomendavam que não se usasse Twitter e Facebook. Para as forças de segurança as mensagens no Twitter e no Facebook são um documento probatório de fácil acesso para prender pessoas.

O que pode se fazer então?

Assange: A primeira coisa é ter consciência do problema. Uma vez que tenhamos consciência disso, não nos comunicaremos da mesma maneira por intermédio desses meios. Há uma questão de soberania que os governos da América Latina deveriam levar em conta. As comunicações que vão da América latina para a Europa ou a Ásia passam pelos Estados Unidos. De maneira que os governos deveriam insistir que essas comunicações sejam fortemente criptografadas. Os indivíduos deveriam fazer a mesma coisa. E isso não é fácil.

De que maneira um governo democrático ou um congresso pode contribuir para preservar o segredo das comunicações pela internet?

Assange: Para começar, garantindo a neutralidade do serviço. Do mesmo modo que ocorre com a eletricidade, não se pode negar o fornecimento com base em razões políticas. Com a internet não deveria existir essa possibilidade de controlar o serviço. O conhecimento é essencial em uma sociedade. Não há sociedade, não há constituição, não há regulação sem conhecimento. Em segundo lugar, é preciso negar às grandes potências e superpoderes o acesso à informação de outros países. Na Argentina ou no Brasil a penetração do Google e do Facebook é total. Se os parlamentos na América latina conseguirem introduzir uma lei que consagre a criptografia da informação, isso será fundamental.

Temos falado da revolução do Twitter, mas em termos de meios mais tradicionais, como a imprensa escrita ou a televisão, vemos que há um crescente debate mundial sobre seu lugar em nossa sociedade. O questionamento ao poder de grandes corporações midiáticas como o grupo Murdoch ou Berlusconi na Itália e as leis e projetos na Argentina ou Equador para conseguir uma maior diversidade midiática mostram um debate muito intenso a respeito. O que você pensa sobre essas iniciativas? 

Assange: Nós vimos em nossa própria luta como o grupo Murdoch ou o grupo Bonnier na Suécia distorceram deliberadamente a informação que forneceram sobre nossas atividades porque suas organizações têm um interesse particular no caso. Então temos, por um lado, a censura em nível do Estado e, por outro, o abuso de poder de grupos midiáticos. É um fato que os meios de comunicação usam sua presença para alavancar seus interesses econômicos e políticos. Por exemplo, “The Australian”, que é o principal periódico de Murdoch na Austrália, vem sofrendo perdas há mais de 25 anos. Como isso é possível? Por que ele segue mantendo esse veículo. Porque ele é utilizado como uma arma para atingir o governo para que este ceda em determinadas políticas importantes para o grupo Murdoch.

O presidente Rafael Correa faz uma distinção entre a “liberdade de extorsão” e a “liberdade de expressão”. Eu não colocaria exatamente assim, mas temos visto que o abuso que grandes corporações midiáticas fazem de seu poder de mercado é um problema. Nos meios de comunicação, a transparência, a responsabilidade informativa e a diversidade são cruciais. Uma das maneiras de lidar com isso é abrir o jogo para que haja um incremento massivo de meios de comunicação no mercado.

Fonte: CartaMaior

Milhares de gregos saem às ruas em greve contra governo e medidas de austeridade

Cerca de 80% dos trabalhadores aderiram ao movimento, de acordo com os sindicatos

Os gregos saíram mais uma vez às ruas nesta quarta-feira (20/02) durante uma nova greve geral, a primeira de 2013, contra as medidas de austeridade e a política do governo conservador de Antonis Samaras.

Ao menos 40 mil pessoas protestaram nesta quarta-feira contra a situação econômica na Grécia

O movimento teve participação massiva, segundo os sindicatos GSEE e ADEDY, que estimaram em 80% o total de trabalhadores que aderiram à convocação.

Com cartazes contra as medidas de austeridade e gritando palavras de ordem contra o governo, milhares de pessoas – 40 mil segundo a polícia, 200 mil de acordo com os sindicatos – passaram pela Praça Syntagma no centro de Atenas.

“Que saiam todos: o governo, o FMI e a troika! Com eles não há futuro para a Grécia”, esbravejou Mihalis, um professor de 56 anos que está desempregado há dois e vive da pensão de sua mulher, Ada, de 60 anos.

Foram convocados para a greve geral funcionários públicos, trabalhadores da área de saúde, advogados, engenheiros, professores, bancários e empregados dos portos e aeroportos, entre outras profissões, apesar de a greve não ser de 24 horas em todos os setores. Nos aeroportos, houve cancelamentos e atrasos.

Em hospitais e clínicas só foram prestados serviços essenciais e os meios de transporte urbanos – exceto os trens – funcionaram para permitir que os manifestantes chegassem até o centro da cidade. Os meios de comunicação, por sua vez, anteciparam a greve para a terça-feira para poder fazer a cobertura dos acontecimentos de hoje.

A convocação da greve tem como objetivo “repelir as medidas antissociais, ineficazes e contrárias aos trabalhadores por parte de um governo autoritário”, segundo o manifesto dos sindicatos.

Apesar de não haver mais medidas de austeridade programadas – alguns membros do Executivo garantiram que não haverá novos cortes de salários e pensões neste ano -, a piora na situação econômica da população provocou a resposta sindical.

Os representantes dos trabalhadores também se queixam da extinção dos convênios coletivos que englobam 600 mil trabalhadores por causa das medidas assinadas pelo governo com a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), que chega a Atenas na próxima semana para revisar o cumprimento do programa de austeridade.

O presidente do sindicato GSEE, Yannis Panagopulos, denunciou que os “erros” nos cálculos da troika e do governo “destroçaram o povo inteiro” e que os trabalhadores “estão pagando o preço mais alto”.

Além disso, pediu que, “caso continue a política desastrosa do governo seguindo as ordens da troika”, o povo siga”lutando”.

O desemprego disparou na Grécia desde a intervenção econômica no país e, conforme os últimos dados, de novembro, afeta 27% da população economicamente ativa e quase 61% dos jovens com menos de 25 anos.

É o caso de Eleni Tziortzi, de 29 anos, que não encontra emprego há cinco anos e vê o futuro “muito difícil”, por isso pensa em deixar o país.

“Estou muito decepcionada porque há muito desemprego, não há esperança neste país, nossos sonhos foram roubados. Há muito medo e muita tristeza. Por isso estou aqui, para resistir contra tudo isto”, disse Vaso, uma estudante de 22 anos.

“Não pode haver saída para este desastre no marco do memorando. A única saída é maior democracia, independência e o desenvolvimento justo”, afirmou Alexis Tsipras, líder do partido de esquerda Syriza e chefe da oposição.

A manifestação em Atenas transcorreu pacificamente, apesar de alguns incidentes, como a tentativa de um grupo violento de incendiar um veículo, além de confrontos isolados entre manifestantes e policiais.

Em outras cidades do país também houve protestos, sendo que nas localidades de Larissa e Chania, os agricultores, que bloqueiam as estradas há três semanas pelo atraso nos pagamentos e a alta de impostos, se uniram aos manifestantes. Em Iráclio – maior cidade da ilha de Creta – ocorreram confrontos entre manifestantes e agentes antidistúrbios, informou a imprensa local.

Fonte: OperaMundi