Vlado somos todos nós

38 anos após o assassinato de Vladimir Herzog, grande parte dos crimes da quase cinquentenária ditadura permanecem na escuridão.

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No dia 25 a Câmara Municipal de São Paulo inaugurou a Praça e Memorial Vladimir Herzog, localizada na Rua Santo Antônio, atrás do Palácio Anchieta, centro de São Paulo.  A data foi escolhida pois no dia 25 de outubro completam-se 38 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog pelo aparato repressor do regime militar. Vlado tornou-se um símbolo da luta por memória, verdade, justiça.

O jornalista iniciou sua carreira como repórter no Estado de São Paulo em 1959. Entrou para a televisão em 1963, no “Show de Notícias” da TV Excelsior e após dois anos no programa foi contratado pela BBC de Londres, onde permaneceu até 68. Herzog volta para o Brasil como editor cultural da revista Visão.

Herzog se tornou diretor do Departamento de Jornalismo da TV Cultura em 1972. A vontade de veicular uma programação que revelasse a potencialidade da cultura brasileira e a realidade de seu povo, contrariando a censura instituída pela ditadura militar e os programas de cunho nacionalista impostos pelo regime, aumentou a pressão sobre o jornal e o próprio jornalista. “Uma campanha articulada pelos órgãos de repressão, montada pelos militares da chamada linha dura, acusava-o de colocar o noticiário da emissora a serviço da subversão comunista”, relatou Audálio Dantas, no livro “As duas guerras de Vlado Herzog” (Editora Civilização Brasileira, 2012).

O recrudescimento da chamada “linha dura” da ditadura militar teve seu auge em meados dos anos 70. Com a instituição do Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, uma onda de repressão sem precedentes passou a atingir milhares de pessoas. O governo militar detinha o poder e o utilizava de todas as formas para barrar o “avanço comunista”. Por meio da censura, a cúpula militar escondia nos porões as atrocidades cometidas de forma arbitrária a qualquer um que se opusesse ao regime.

Sob suspeita de manter ligações com o Partido Comunista, Herzog foi convocado para prestar depoimento e se apresentou ao DOI-CODI, o Destacamento de Operações Internas – Comando Operacional de Informações do II Exército, por volta das 9h da manhã do dia 25 de outubro de 1975. Foi torturado e assassinado. Os agentes da ditadura fraudaram o atestado de óbito. O laudo necroscópico, assinado pelo médico legista Harry Shibata, confirmou o suposto suicídio, “asfixia mecânica por enforcamento”, diz o documento.

No dia seguinte já se exigia esclarecimentos sobre as reais circunstancias em que ocorrera a morte de Herzog. O Sindicato dos Jornalistas teve papel fundamental, juntamente com a família do jornalista, para trazer à tona os fatos do assassinato. Somente em setembro de 2012, mais de trinta anos depois e após um pedido da Comissão Nacional da Verdade (CNV), foi determinada a retificação do atestado de óbito de Vladimir Herzog, que agora consta que sua “morte decorreu de lesões e maus tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (DOI- CODI)”.

A decisão representa uma vitória na luta pelo resgate da memória do país. No entanto, 38 anos após o seu assassinato, grande parte dos crimes da quase cinquentenária ditadura permanecem na escuridão, e a impunidade dos torturadores é uma realidade mesmo frente à instituição da Comissão Nacional da Verdade. No livro de Audálio Dantas, Fernando Birri, cineasta argentino e amigo de Herzog elucida: “Vlado somos nós, Vlado somos todos nós”.

Fonte: CartaMaior

Vídeo mostra crianças sírias refugiadas no Egito denunciando maus tratos

ONU diz que dois milhões de pessoas já fugiram da guerra civil; mais de 100 mil estão no norte da África

Segundo dados da Acnur (Agência da ONU para Refugiados) atualizados nesta segunda-feira (02/09), o número de refugiados sírios ultrapassou os dois milhões, sendo que mais de 111 mil “pessoas de interesse” estão no Egito. O governo egípcio, entretanto, estima que haja um total de 300 mil sírios no país. Destes, muitos estão sofrendo com uma súbita onda de xenofobia iniciada depois da deposição de Mohamed Mursi, em 03 de julho.

Denúncias sobre os maus tratos aos refugiados sírios já foram feitas pelo jornal britânico The Guardian e pela rede Al Jazeera, com base em informações da organização de direitos humanos Human Rights Watch. Agora, um vídeo intitulado Syrians Facing Harassment in Egypt (sírios enfrentam assédio no Egito) mostra o problema sob um ângulo mais delicado: o das crianças.

O vídeo faz parte da campanha do movimento Aazer (palavra árabe que quer dizer “vá e ajude alguém”, segundo o site do grupo) pelo fim da perseguição aos sírios no Egito. O tema é a situação de crianças como Mahmoud, cujos amigos não brincam mais com ele por causa de sua nacionalidade síria, e Ahmad, cujo pai foi preso por autoridades egípcias que invadiram sua casa sem motivo aparente.

Segundo o Aazer, tanto o novo governo do Egito quanto a mídia do país lançaram uma campanha xenofóbica contra os refugiados sírios desde a deposição de Mursi e, como resultado, estes estão sendo usados como “bodes expiatórios para os problemas domésticos do Egito”. O grupo criou uma petição contra a perseguição dos refugiados com o objetivo de conseguir 10 mil assinaturas.

De acordo com o Human Rights Watch, a polícia egípcia chegou a prender de uma vez só 72 homens e nove meninos, incluindo requerentes de asilo registrados e pelo menos nove com vistos válidos ou permissões de residência. Ao menos 14 destes foram ameaçados com deportação. O Guardian diz que o motivo é que os sírios estão sendo injustamente associados à Irmandade Muçulmana do Egito.

O Aazer também reclama das dificuldades estabelecidas pelo governo interino para a entrada de sírios no Egito. Durante o governo de Mursi, não eram necessários vistos, enquanto agora milhares de pessoas vindas da Síria são detidas nos aeroportos por falta desses documentos.

“O governo interino e as autoridades egípcias devem parar imediatamente de utilizar civis sírios como peões na política interna do Egito”, diz a página da campanha do Aazer. Entre as demandas da petição estão “o fim imediato da detenção de crianças sírias e a liberação de qualquer criança que esteja detida”, “tratamento seguro e humano para sirios no processo de renovação dos documentos oficiais” e “investigação imediata de apresentadores da mídia que incitaram contra os sírios”.

A Acnur pediu às autoridades egípcias para que cessem as deportações e para que o Egito continue protegendo os refugiados provenientes da Síria. A campanha xenófoba, entretanto, até agora não foi interrompida.

Fonte: OperaMundi

Crise no Egito abala credibilidade da política externa dos EUA

Nas ruas do Cairo, não é apenas a democracia que está em ruínas. Para muitos, a política externa americana, sua reputação e credibilidade também estão em frangalhos.

Desde a queda de Hosni Mubarak, em 2011, os Estados Unidos têm tido dificuldades para conseguir um equilíbrio entre apoiar o frágil progresso em direção à democracia e a proteção de seus interesses nacionais.

A Casa Branca vem se empenhando para trabalhar com quem quer que esteja no poder no Egito, mas acabou sem aliados e pouca influência no Cairo.

Os últimos esforços diplomáticos de Washington falharam, um após o outro. Até a remoção de Mohammed Morsi do poder, os Estados Unidos tentaram aconselhar o presidente a chegar a um meio termo com militares e manifestantes.

Presidente Barack Obama | Foto: AFP

Obama interrompeu as férias para se pronunciar sobre o Egito

O governo americano também fez um apelo aos militares para não remover Morsi. Após o golpe, o vice-secretário de Estado, Bill Burns, foi ao Cairo duas vezes tentar ajudar na mediação das tensões entre o Exército e a Irmandade Muçulmana.

Os Estados Unidos evitaram chamar a deposição de Morsi de golpe, temendo contrariar os generais egípcios e os milhões que clamavam por sua saída. Isto enfureceu a Irmandade Muçulmana e seus partidários, que se sentiram roubados de uma eleição democrática.

Por outro lado, também são criticados pelos oponentes de Morsi, que rejeitam o que consideram ter sido um “apoio americano incondicional” ao presidente deposto enquanto ele estava no poder.

Culpa

Quando o presidente Barack Obama interrompeu suas férias em Martha’s Vineyard, ele condenou veemente a violência e disse que os Estados Unidos se opõem à imposição da lei marcial no Egito. No pronunciamento, ele estampava um semblante sério, sombrio e frustrado, apesar de ter por trás um cenário de resort de verão.

“Os Estados Unidos não podem determinar o futuro do Egito”, disse ele. “Isto é uma tarefa para os egípcios. Nós não estamos do lado de nenhuma legenda partidária ou figura política”, acrescentou.

No entanto, alguns argumentam que o mero fato de que os Estados Unidos ainda estejam fornecendo ajuda militar ao Egito significa que a Casa Branca está do lado do Exército.

Enquanto isso, o general comandante do Egito, Abdul Fattah al-Sisi, critica Washington abertamente. “Vocês deixaram os egípcios. Vocês viraram as costas para eles e isso eles não vão esquecer”, disse al-Sisi em uma recente entrevista ao jornalWashington Post.

Obama reagiu dizendo disse que era tentador culpar os Estados Unidos ou o Ocidente pelo que está dando errado no Egito. “Nós estamos sendo culpados por apoiadores de Morsi. Também somos culpados pelo outro lado, como se estivéssemos o apoiando. Esta abordagem não vai ajudar em nada os egípcios a alcançarem o que desejam para seu futuro”, disse o presidente.

Cooperação

Obama cancelou um exercício militar com o Egito e disse que a ajuda militar ao país será revista.

Estados Unidos e Egito mantêm uma forte cooperação há anos e, apesar dos recentes atritos, o país árabe continua sendo um parceiro-chave dos americanos para a segurança na região. O apoio dos generais é crucial para manter a paz entre o país e Israel, assinada nos acordos de Camp David, em 1979. Washington também está preocupado com seu acesso ao Canal de Suez.

Um relatório divulgado recentemente pelo Serviço de Pesquisa do Congresso ressaltou preocupações da administração americana quanto aos meios de manter a cooperação na área de segurança com o Egito em tempos de contínuas reviravoltas nas relações entre os dois países. O documento foi elaborado antes da saída de Morsi, mas as preocupações continuam as mesmas.

O Egito concede aos Estados Unidos acesso rápido ao Canal de Suez, ao passo que outros países têm de esperar semanas para ter direito de passagem. Cerca de doze navios de guerra americanos passam todos os meses pelo canal, um atalho chave para chegar ao Iraque e ao Afeganistão.

Sem direito de passagem pelo canal, a marinha americana teria de deslocar seus navios para o Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que seria um desperdício de tempo.

Mas críticos da administração vêm aumentando o tom em relação à postura americana. O senador republicano John McCain vem pedido repetidamente à Casa Branca que considere a saída de Morsi um golpe e corte a ajuda ao país.

“Eu acho que é a hora de os Estados Unidos reconhecerem que o que aconteceu foi a reinstauração da ditadura militar no Cairo”, disse Tamara Wittes, da Brookings Institution e ex-autoridade do Departamento de Estado que atuou em questões envolvendo democracia no Oriente Médio durante a primeira gestão de Obama. Ela ainda considera que o Exército egípcio manterá a cooperação na área de segurança mesmo que os Estados Unidos cortem ajuda porque é de interesse do país.

Mas, por enquanto, este é um risco que os Estados Unidos não estão dispostos a correr.

Fonte: BBCBrasil

As raízes da crise egípcia

A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.

Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.

As eleições tiveram o triunfo dos islâmicos, que derrotaram, por estreita margem, no segundo turno, um candidato ligado à ditadura do Mubarak. Eleito Morsi, foi convocada uma Assembleia Constituinte, com maioria islâmica, mas um peso importante das novas forças laicas.

O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos, que impõe esses seus valores ao conjunto da sociedade, dividida entre forças islâmicas e laicas. Somada à crise econômica – que promoveu uma forte pressão do FMI para a aceitação de um empréstimo, com a correspondente Carta de Intenções, que Morsi rejeitou, consciente do que significaria para o país, mas sem elaborar alternativas – o Egito se viu envolvido em nova onda de mobilizações, agora contra sua administração.

Sucederam-se as mobilizações gigantescas, dos dois lados, a favor e contra o governo, numa situação de empate político. Que foi desempatado pela ação do Exército, que tinha sobrevivido incólume ao fim da ditadura e agiu para derrubar o governo do Morsi.

Um golpe militar, mesmo se com apoio popular. Setores que haviam se mobilizado saudaram o golpe, acreditando que poderiam derrotar os islâmicos e acercar-se ao poder.

Mas a capacidade de resistência dos islâmicos terminou rapidamente com essa ilusão. A repressão militar não se fez tardar e a polarização entre o Exército e a Irmandade Muçulmana se impôs.

Os EUA, incomodados, porque têm no Exército seu principal aliado – por isso Obama não pode usar a palavra golpe, porque estaria obrigado a suspender os auxílios militares ao Exército – não podem aparecer publicamente apoiando a interrupção de um processo democrático, mas tampouco podem condenar o regime. 

O pior dos mundos se impôs: militarização do país – com o estado de sítio e a nomeação de governadores ligados ao militares nas províncias – e resistência dos islâmicos, com os setores laicos deslocados.

A primavera egípcia desembocou neste outono.

Por Emir Sader

Fonte: CartaMaior

Após massacre, Irmandade Muçulmana convoca “sexta-feira de raiva” no Egito

Medida é em represália ao governo interino que liberou utilização de armas letais contra manifestantes

Ainda de luto pelo massacre de mais 600 pessoas, a crise social e política do Egito ganha, cada vez mais, contornos de tensão. Na noite desta quinta-feira (15/08), o governo autorizou as Forças Armadas a utilizarem armais letais contra os manifestantes. Em represália, na manhã de hoje (16), a Irmandade Muçulmana convocou para o país uma “sexta-feira de raiva”.

O estado de emergência e o toque de recolher obrigatório amenizaram o clima de violência após massacre. No entanto, diz a imprensa local, existe a promessa de confronto entre os apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi e os favoráveis ao governo interino. A perspectiva é que mais de um milhão de islâmicos saiam às ruas após realizar a oração diária do meio-dia. “Vamos desafiar o estado de emergência”, bradaram os manifestantes.

Gehad El-Haddad, porta-voz da Irmandade e um dos poucos dirigentes que não foi detido, admite que os protestos poderão fazer regressar a violência, mas afirma que “depois das detenções e mortes, as emoções estão muito elevadas entre membros da Irmandade Muçulmana para serem comandadas por alguém”.

Ainda a contar o número de mortos, a promessa é de uma “sexta-feira de raiva”

Outro ingrediente que promete aumentar a tensão é que a Frente de Salvação Nacional, coligação de partidos liberais que apoiou a deposição de Mursi, pediu aos seus manifestantes para também saírem às ruas. Segundo informações da imprensa europeia, alguns bairros organizam-se para impedir a passagem dos manifestantes islâmicos pelas suas zonas. Cristãos coptas, grupo social importante do Egito, organizam-se para impedir que mais igrejas sejam atacadas.

A comunidade internacional se manifestou sobre a grave crise no Egito. O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, expressou nesta quinta-feira (16/08) sua “indignação” pela violência exercida no Egito contra os manifestantes e pediu à comunidade internacional para que ajude a sociedade egípcia “a encontrar caminhos de diálogo e negociação”.

Os membros do Conselho de Segurança da ONU assinalaram ontem (15) sua “preocupação” com a grave situação no Egito e pediram a todas partes o final da violência. Os membros do Conselho “rejeitaram toda forma de violência”, disse à imprensa a presidente de turno do órgão a embaixadora argentina, María Cristina Perceval, no final de uma reunião a portas fechadas.

Fonte: OperaMundi

Foram Manning, Snowden e Assange que correram riscos para expor crimes

Manning fez algo muito corajoso para tornar públicas as maquinações do modo de fazer guerra moderna dos EUA. Edward Snowden expôs a sofisticação e alcance extraordinários do sistema de vigilância. E Julian Assange se senta entre as quatro paredes de seu reduto, perseguido pelo crime de publicar. 

Por Amy Goodman – Democracy Now

“Que edifício perigoso é a guerra, como ela pode facilmente desmoronar e enterrar todos nós em ruínas”, escreveu Carl von Clausewitz, o general prussiano e teórico militar do século XIX, em seu famoso texto “Da Guerra”, quase 200 anos atrás. Essa frase foi tirada do capítulo “Informação na guerra”, um assunto que ainda reverbera hoje, desde Fort Meade, Maryland, onde Bradley Manning acaba de ser condenado por espionagem por uma corte militar, passando pela embaixada do Equador em Londres, onde o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, mora há mais de um ano, tendo conseguido asilo político para escapar de perseguição política dos EUA, até a Rússia, onde o denunciante da National Security Agency Edward Snowden está após ter recebido asilo temporário.

A condenação de Manning despertou um interesse momentâneo dos membros da mídia de elite dos EUA, que passaram pouco tempo na corte marcial de dois meses, localizada poucos quilômetros ao norte de Washington. Aqueles que torciam por Manning ficaram aliviados que ele foi considerado inocente da acusação mais séria, a de ajudar o inimigo, o que teria como consequência uma sentença de prisão perpétua. Ele foi condenado em 20 das 22 acusações, e pode pegar uma pena de 136 anos de prisão.

“Os vazamentos de Bradley Manning expuseram crimes de guerra, ocasionaram revoluções e promoveram reformas democráticas” disse Assange, de dentro da embaixada. “Ele é o denunciante por excelência”. É interessante que o ex-secretário de Defesa Robert Gates tenha escrito o seguinte para o senador Carl Levin, em 2010, sobre os vazamentos:

“A avaliação feita até hoje aponta que nenhuma fonte de informação especial ou métodos tenham sido comprometidos com o vazamento.”

Manning deu uma declaração no início do julgamento em que se responsabilizou pelos vazamentos, mas, importante, apontou seus motivos. Ele mencionou especificamente o vídeo do ataque de um helicóptero Apache que trucidou uma dúzia de civis em Bagdá, em 12 de julho de 2007. Dois dos mortos trabalhavam para a agência de notícias Reuters, o operador de câmera Namir Noor-Eldeen, 22, e seu motorista, Saeed Chmagh, pai de quatro.

Podemos ouvir Manning dizer suas próprias palavras durante o julgamento, graças a uma gravação não autorizada, de seu depoimento, vazada anonimamente. Ele disse:

”O aspecto mais alarmante do vídeo, para mim, foi como a equipe que operava as armas parecia estar se deliciando com a carnificina. Eles desumanizaram os indivíduos que eles estavam atacando e pareciam não dar nenhum valor à vida humana, e se referiam a eles como ‘bastardos mortos’, e se elogiavam uns aos outros por suas habilidades de matar um grande número de pessoas… Para mim, aquilo pareceu uma criança torturando formigas com lentes de aumento.”

Uma das acusações de que Manning foi julgado culpado foi de “publicação arbitrária”. Isso não tem precedentes na lei militar. O advogado de Manning afirmou que esse é um crime inventado. O verdadeiro crime, do qual ninguém foi acusado, é o desrespeito arbitrário pela vida humana, o que foi exposto por Manning.

O vazamento de Manning deu para a Reuters, e para o mundo, uma ilustração do horror da guerra moderna, da morte violenta de dois trabalhadores da mídia no cumprimento de seu serviço.

Como o jovem soldado também disse em sua eloquente declaração, “acredito que se o público em geral, e especialmente o público dos EUA, tivesse acesso às informações [dos vazamentos], isso poderia gerar um debate nacional sobre o papel dos militares e sobre nossa política externa de maneira geral, da forma como se relacionou com Iraque e Afeganistão.”

De fato, ele gerou tal debate. A onda mais recente de vazamentos, de Edward Snowden, apenas intensificou o debate, com uma rara coalizão bipartidária no Congresso para reprimir o que muitos veem como um desertor. Apesar de que uma emenda legislativa, de autoria do republicano John Amash e do democrata John Conyers na Casa dos Representantes tenha sido derrotada, por pouco, semana passada, os dois também são autores de um projeto, o HR 2399, que faz a mesma coisa.

Carl von Clausewitz escreveu que “a grande incerteza a respeito de informação em toda guerra é uma dificuldade peculiar, porque toda ação deve, em grande medida, ser planejada de um dia para o outro”. Manning fez algo muito corajoso ao soltar essas informações, para desvelar o véu que esconde, para tornar públicas as maquinações do modo de fazer guerra moderna dos EUA. Edward Snowden expôs a sofisticação e alcance extraordinários do sistema de vigilância dos EUA, acabando com os que ousassem divulgar informações. E Julian Assange se senta entre as quatro paredes de seu reduto, perseguido pelo crime de publicar. Ainda assim, aqueles que planejaram as guerras, que cometeram crimes de guerra, que promoveram espionagem ilegal, por enquanto, andam livremente.

Tradução: Rodrigo Mendes

Fonte: CartaMaior

“The War on Democracy” (em português)

“A Guerra contra a Democracia”
Dirigido por: Christopher Martiin, John Pilger, Sean Crotty

O prestigiado jornalista John Pilger examina o papel dos Estados Unidos da América, a manipulação da política dos países Latino Americanos, a luta dos cidadãos para que acabe a fome e a pobreza. O filme revela entre outras coisas, as políticas da CIA para a continuidade no Iraque, Iro e Líbano. Chavez, apesar das pressões de Washington para o destituir, tem o apoio popular, sabendo-se que o seu povo o adora e que vive num regime democrático já algum tempo esquecido ou nunca vivenciado no mundo Ocidental. O presidente da Venezuela venceu 7 eleições com cerca de 80% dos votos.

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=dmYo8xrHI9M

“A Revolução Não Será Televisionada” – Documentário sobre o Golpe na Venezuela de 2002

Documentário de Kim Bartley e Donnacha O’Briainsobre sobre o golpe ocorrido na Venezuela em abril de 2002. O golpe foi consumado, pois não houve resistência de Chaves que foi preso. Mas as manifestações e o apoio de militares fiéis ao país enfraqueceram os golpistas, e Chaves retornou ao governo. Participação clara da midia privada, empresários e militares oposicionistas no golpe, além de declarações do governo americano de apoio ao golpe na Venezuela

Fonte: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=MTui69j4XvQ

The streets erupt

WITH stunning speed, protests that started on June 6th in São Paulo over a 20-centavo (nine-cent) hike in bus fares have morphed into the biggest street demonstrations Brazil has seen since more than 20 years ago, when citizens took to the streets to demand the impeachment of their president on corruption charges. The first protests were dismissed bypaulistanos unsympathetic to the organisers, Movimento Passe Livre (The Movement for Free Travel), a radical group with the unrealistic aim of making public transport free at the point of use. Commuters were unimpressed by having already hellish journeys made even worse by road closures and outraged by the vandalism committed by a hard core. The city’s conservative newspapers called for the police to crack down.

All that changed on June 13th when the state’s unaccountable, ill-trained and brutal military police turned a mostly peaceful demonstration into a terrifying rout. Dozens of videos, some from journalists, others from participants and bystanders, show officers with their name tags removed firing stun grenades and rubber bullets indiscriminately at fleeing protesters and bystanders and hunting stragglers through the streets. Motorists trapped in the mayhem ended up breathing pepper spray and tear gas. Demonstrators found with vinegar (which can be used to lessen the effect of tear gas) were arrested. Several journalists were injured, two shot in the face with rubber bullets at close range. One has been told he is likely to lose his sight in one eye. The following day’s editorials took a markedly different tone.

By June 17th what has become dubbed the “V for Vinegar” movement or “Salad Revolution” had spread to a dozen state capitals as well as the federal capital, Brasília. The aims had also grown more diffuse, with marchers demanding less corruption, better public services and control of inflation. Many banners protested against the disgraceful cost of the stadiums being built for next year’s football World Cup. Brazil has already spent 3.3 billion reais, three times South Africa’s total four years earlier, and only half the stadiums are finished. “First-world stadiums; third-world schools and hospitals”, ran one placard.

The marchers too were more diverse. An estimated 65,000 participated in São Paulo, with many more women, families and middle-aged folk than at previous protests. The state security-chief, Fernando Grella Vieira, met organisers earlier in the day and agreed a route; he gave the military police orders not to use rubber bullets and to stand by unless the protest turned violent. The result was a mostly peaceful, even joyous event.

Most marches in other cities passed off without serious violence too, though in Rio de Janeiro protesters and police clashed outside the Maracanã stadium, refurbished at a cost of over 1 billion reais for the World Cup—just six years after its last pricey rebuild. It was no coincidence that violence broke out in Rio, whose police are trigger-happy and corrupt even by Brazilian standards. In Brasília a group of demonstrators managed to scale the roof of Congress, but the police there reacted with restraint.

Similar escalations after seemingly minor flash points in recent years in Britain, France, Sweden and Turkey have appeared to be linked to some or all of the following features: government repression, high youth-unemployment, racial conflict, falling living standards and anger over immigration. Brazil is a different story. Its democracy is stable. Youth unemployment is at a record low. Brazilian racism is an internalised reality, not a daily street battle—and anyway, most of the marchers were white. The past decade has seen the most marked sustained rise in living standards in the country’s history. As for immigrants, though Brazil was built by them it now has hardly any. Only 0.5% of the population was born abroad.

None of this is to say that Brazilians have nothing to complain about: they pay the highest taxes of any country outside the developed world (36% of GDP) and get appalling public services in return. Violent crime is endemic; crack cocaine is sold and consumed openly in every big city centre. A minimum-wage worker in São Paulo’s centre whose employer does not cover transport costs (an obligation for formal employees) will spend a fifth of gross pay to spend hours a day on hot, overcrowded buses that trundle in from the city’s periphery. But this is nothing new in a country of gaping inequality—and in fact economic growth in the past decade has brought the biggest gains to those at the bottom of the heap.

So, why now? One reason is surely a recent spike in inflation, which is starting to eat into the buying power of the great majority of Brazilians who are still getting by on modest incomes, just as a big ramp-up in consumer credit in recent years has left them painfully overstretched. Bus fares have not risen for 30 months (mayors routinely freeze fares in municipal-election years, such as 2012, and in January this year the mayors of Rio and São Paulo agreed to wait until June before hiking in order to help the federal government massage the inflation figures). In fact, the rise in São Paulo’s and Rio’s bus fares comes nowhere close to matching inflation over that 30-month period. But bus fares are under government control, unlike other fast-rising costs such as those for housing and food. Perhaps they were simply chosen as a scapegoat.

More broadly, the very middle class that Brazil has created in the past decade—40m people have escaped from absolute poverty, but are still only one paycheck from falling back into it, and 2009 was the first year in which more than half the population could be considered middle class—is developing an entirely new relationship with the government. They see further improvements in their living standards as their right and will fight tooth and nail not to fall back into poverty. And rather than being grateful for the occasional crumb thrown from rich Brazilians’ tables, they are waking up to the fact that they pay taxes and deserve something in return. Perhaps their government’s triumphalism over those shiny new stadiums was the final straw.

Fonte: TheEconomist

Esquerdas de Portugal e Grécia unem forças contra austeridade

O líder da coligação grega Syriza, Alexis Tsipras (foto), esteve nesta quinta-feira (25) em Portugal para encontro com o Bloco de Esquerda luso. Para ele, “unidade” será a “única resposta eficaz às insistências da Sra. Merkel em políticas de dividir para reinar, que forçaram a Zona Euro a posicionar-se à beira da ruina”. O coordenador do Bloco, João Semedo, defendeu que “só a democracia pode vencer a austeridade”.

Lisboa - “Em meados dos anos 70, Portugal, Grécia e Espanha eram admirados por toda a Europa como casos paradigmáticos de transição de situações de ditadura para a democracia. Quero assegurar-vos que, em breve, os nossos países voltarão a ser apontados como casos paradigmáticos de transição de situações de austeridade para a democracia”, afirmou Alexis Tsipras durante o Comício organizado pelo Bloco de Esquerda, que teve lugar esta quinta feira no Fórum Lisboa.

Citando Franklin Roosevelt, Alexis Tsipras salientou que “a única coisa de que temos de ter medo é do próprio medo”. Segundo o líder da Syriza, “separados seremos derrotados. Sairemos também a perder se nos fecharmos no isolamento econômico e se voltarmos às políticas do passado de desvalorizações competitivas das moedas nacionais”.

Por outro lado, “juntos e a uma só voz, podemos fazer inclinar os equilíbrios do poder político Europeu para o nosso lado” e derrotar a “ditadura Europeia e econômica que é imposta pelos mercados todo-poderosos”.

Reforçando a ideia de que “a nossa força reside na nossa unidade”, Tsipras referiu que “à medida que a recessão engole a Zona Euro, a austeridade está agora também a alarmar os mais vulneráveis no Norte” e que, nesse contexto, “a aliança anti memorando dos países do Sul deve também englobar as forças sociais do Norte que rejeitam a austeridade”. “Será uma aliança Europeia pela refundação democrática da união monetária”, avançou.

“Não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”
Lembrando que o próprio Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, já veio admitir que a austeridade “tinha chegado ao limite”, “talvez porque agora a recessão já chegou ao Norte da Europa”, Alexis Tsipras destacou que “não há qualquer exemplo de sucesso com políticas de austeridade”.

Para o representante da Syriza, só há uma saída para “a crise auto-alimentada da Zona Euro”. Essa solução terá que passar, conforme adiantou, pela anulação do Memorando de Entendimento e a “substituição das políticas recessivas de austeridade por políticas de redistribuição do rendimento”, a renegociação dos acordos firmados e subsequente anulação de uma parte significativa da dívida, e um ‘Novo Acordo para a Europa’, centrado em projetos de investimento públicos de dimensão Europeia.

O consenso da direita
O coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, acusou, durante a sua intervenção, Cavaco Silva de “dar luz verde à segunda vaga de austeridade e de cortes que o governo se prepara para anunciar”.

“Uma maioria de direita, um governo à direita e um presidente de fação que usou o 25 de Abril para dar a mão a um governo em queda livre. Este é o governo do presidente Cavaco Silva”, frisou o dirigente bloquista.

“O consenso de Cavaco é o mesmo de Paulo Portas e Pedro Passos Coelho, é o consenso para mais austeridade, o consenso para dar uma segunda vida a um governo moribundo. E sejamos muito claros, o consenso porque nos batemos é exatamente o oposto. É o consenso contra a austeridade, contra a dívida, contra a troika. É a nossa escolha, a nossa opção. Toda a esquerda, sobretudo o PS, está hoje desafiada a fazer a sua escolha”, alertou João Semedo.

Vivemos em plena era dos credores
Citando declarações de Miguel Portas, datadas de agosto de 2011, João Semedo afirmou que “vivemos em plena era dos credores” e que “Pedro Passos Coelho ou Antonis Samaras não são mais do que os cobradores às ordens dos credores: os bancos, os fundos internacionais, a troika. Não governam, não decidem, fazem o que os mandam fazer”.

“E das duas uma: ou nos livramos deles ou eles acabarão connosco, acabarão com Portugal e a Grécia como países soberanos, países livres e democráticos, em que o povo é que mais ordena”, alertou, sublinhando que “a liberdade e a democracia são também gorduras incômodas para os credores”.

“A austeridade liquida a democracia, austeridade ou democracia, só a democracia pode vencer a austeridade”, realçou.

Renegociar a dívida é a alternativa da esquerda socialista
Reforçando que “recusar a austeridade e recuperar os rendimentos perdidos é a resposta da esquerda socialista” João Semedo defendeu que “Portugal só evitará um segundo resgate se cortar nos juros e na dívida, se anular parte da dívida para valores compatíveis com o desenvolvimento econômico”.

“Há hoje muitas razões para olhar com cepticismo o futuro da Europa. Mas nós não desistimos de lutar por uma outra Europa, uma Europa para os cidadãos, para a coesão econômica e social, uma economia forte que assegure trabalho para todos, uma Europa de iguais que respeite a soberania dos povos e dos estados, uma Europa de paz”, avançou o deputado, referindo que o Bloco recusa “a tese de que a defesa do Euro exige uma Europa federal e que sem federalismo europeu o fim do euro é inevitável”.

“Sabemos que pode haver euro sem troika, sem austeridade e por isso resistimos à chantagem da defesa do euro para nos impor mais austeridade”, avançou ainda João Semedo, reafirmando que “a alternativa não é sair do euro, é cortar na dívida e por fim à austeridade”.

É preciso derrubar o governo
“Para mudar a política nacional, para tirar o país da crise, é necessário derrubar o governo”, garantiu o coordenador do Bloco de Esquerda, frisando que “o agravamento da crise econômica e social acabará por impor a demissão do governo”.

“O Bloco de Esquerda recusa qualquer outra solução que não seja realizar eleições. Confiamos que esta é a hora da esquerda governar. Pela nossa parte estamos disponíveis e prontos para fazer parte da solução. Um governo de esquerda que rejeite a austeridade, ponha termo ao memorando da troika e imponha aos credores uma renegociação da dívida”, adiantou João Semedo.

A eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias denunciou o feroz ataque à democracia a que temos vindo a assistir. “Todas as decisões importantes para as nossas vidas estão a ser retiradas das mãos dos cidadãos. É como se a democracia, a cidadania, a participação popular fossem um adereço ou qualquer coisa que está a mais no quadro institucional europeu”, lamentou a eurodeputada. “A voz da democracia é: é o povo quem mais ordena”, frisou Marisa Matias.

“A dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos”

Segundo a dirigente bloquista Joana Mortágua, “a dívida é um eficaz instrumento de submissão dos povos, porque ela nasce de uma relação de forças desigual, porque pode interminavelmente consumir a riqueza da força de trabalho de um povo inteiro, e porque, nas palavras de Eduardo Galeano, ‘a dívida constrói uma estrutura de humilhação sucessiva que começa nos mercados financeiros e acaba na casa de cada um e de cada uma de nós’”.

“Mudar a estrutura da dívida significa, na chamada ‘era dos credores’ desferir um golpe profundo sobre o capitalismo financeiro, mas significa também ensinar à chanceler Merkel e aos eurocratas alguma coisa sobre democracia, sobre solidariedade e sobre europeísmo”, avançou Joana Mortágua.

Fonte:CartaMaior