Netanyahu quer a paz com os palestinos?

Bastou a sinalização de que as negociações podem ser retomadas para o premier israelense criar mais uma potencial barreira à paz

por José Antonio Lima
Benjamin Netanyahu

Oficialmente, o processo de paz entre Israel e a Autoridade Palestina está paralisado desde 2010. Ainda assim, nos últimos dias, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, falou duas vezes sobre a possibilidade de submeter o futuro acordo a um referendo popular. Há motivos para crer nas boas intenções de Netanyahu, mas sobram razões para desconfiar delas. Aparentemente, a novidade de Netanyahu é mais um sinal de sua covardia e intenção de barrar a criação do Estado palestino.

Nas últimas semanas, surgiram diversos indícios da reativação do processo de paz, graças à iniciativa do governo dos Estados Unidos, que recebeu árabes e israelenses para uma série de diálogos.

Na segunda-feira 28, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, conversou com uma delegação da Liga Árabe. Após as reuniões, o chanceler do Catar, Sheikh Hamad bin Jassim al-Thani, afirmou, em nome da Liga Árabe, que um acordo deveria “ser baseado na solução de dois Estados, com base na linha de 4 de junho de 1967, com [a possibilidade] de pequenas trocas de terras mútuas e aceitas por ambas as partes”. Traduzindo, o que Jassim al-Thani fez foi ressuscitar a Iniciativa Árabe para a Paz, lançada em 2002 pela Arábia Saudita. Por essa proposta, todos os países árabes normalizariam suas relações com Israel em troca da criação de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como capital.

A Iniciativa Árabe para a Paz fracassou e hoje se tornou inaceitável para Israel. Entre vários motivos, porque Israel ocupou, violando a lei internacional, uma série de territórios da Cisjordânia que não aceita mais devolver. A inovação do chanceler do Catar é que, agora, a Liga Árabe aceita oficialmente alterações na fronteira de 1967, como já fazia a Autoridade Palestina. Esta mudança é importante pois cria um caminho de retomada de negociações, uma vez que a posição dos Estados árabes também conta para a paz.

Por que um referendo?

Diante da iniciativa dos EUA e da sinalização positiva árabe, Netanyahu surgiu com a proposta do referendo. Na quinta-feira 2, em reunião com o ministro das Relações Exteriores da Suíça, Didier Burkhalte, disse ter a intenção de “aprender” com o país europeu como realizar consultas populares.

Os defensores de Netanyahu alegam que a proposta do referendo é boa para a paz. Em primeiro lugar porque, ao garantir que a palavra final será dada pela população israelense, Netanyahu evitaria a oposição automática aos diálogos de setores mais extremistas da coalizão governista. Em segundo lugar, porque a votação daria um ar de legitimidade ao possível acordo de paz, tornando-o inquestionável dentro de Israel.

Ocorre que, mesmo diante do viés positivo, está claro o possível uso negativo do referendo. A votação popular pode se tornar uma espécie de “seguro” contra a paz. Se as negociações forem mesmo retomadas, Netanyahu poderá usar o referendo para tentar forçar os palestinos a moderarem suas exigências, para não aceitar de antemão as propostas feitas, ou mesmo para fechar um acordo natimorto, por ser inaceitável para a população, cada vez mais radicalizada. Ao pedir o referendo antes mesmo de voltar à mesa de negociações, Netanyahu está transferindo ao povo israelense a responsabilidade sobre um assunto central do futuro do país. Ao fazer isso, o premier foge a uma das obrigações de um líder – tomar decisões impopulares, mas fundamentais para a segurança da nação. Seria um evento inédito na história de Israel, que nem mesmo em 1979, quando assinou a paz com o Egito, fez um consulta formal aos eleitores.

Hoje há muitos obstáculos para a paz, muitos deles no campo palestino, como a divisão Fatah-Hamas e a própria postura do Hamas, um grupo, antissemita, que prega a matança indiscriminada de judeus. Outros obstáculos, entretanto, partem do governo de Israel, particularmente de Benjamin Netanyahu. É ele quem exige dos palestinos o (inaceitável antes do acordo) reconhecimento de Israel como Estado judeu e quem se recusa a mencionar as fronteiras de 1967 como base para as negociações. Com essa postura intransigente e a ideia de transformar o acordo em refém de um referendo, Netanyahu reforça a imagem de ser um líder que não busca a paz, mas sim submeter os palestinos a uma situação inaceitável.

Fonte: CartaCapital

Bolívia leva à Corte Internacional de Haia ação contra o Chile por saída para o Oceano Pacífico

A ação internacional de La Paz representa uma virada histórica, após mais de um século de tentativas diplomáticas em relação ao Chile

La Paz - A Bolívia entrou nesta quarta-feira com uma ação contra o Chile na Corte Internacional de Justiça de Haia, para que Santiago negocie “de boa fé” uma saída soberana para o Oceano Pacífico.

O governo chileno já respondeu que, no momento, “não há diálogo possível”.

A ação internacional de La Paz representa uma virada histórica, após mais de um século de tentativas diplomáticas em relação ao Chile, em diferentes cenários e fóruns internacionais.

Uma comissão do governo boliviano, liderada pelo chanceler David Choquehuanca e pelo embaixador e ex-presidente Eduardo Rodríguez, apresentou a documentação ao tribunal internacional para dar início a um litígio que foi preparado durante dois anos, com antecedentes jurídicos e históricos.

Choquehuanca leu uma declaração, do lado de fora da corte, que foi transmitida pelo canal estatal de televisão boliviano.

“O Estado plurinacional da Bolívia, neste 24 de abril de 2013, processa o Chile perante a Corte Internacional de Justiça, assumindo o mandato histórico do povo boliviano de recuperar sua qualidade marítima”, disse o chefe da diplomacia boliviana.

Segundo ele, a Bolívia “solicita à Corte Internacional de Justiça que sentencie e declare que o Chile tem a obrigação de negociar de boa fé com a Bolívia um acordo rápido e efetivo que lhe conceda uma saída plenamente soberana para o oceano Pacífico”.

O pedido – esclareceu – “não se baseia no Tratado de 1904″, que marcou os limites territoriais entre ambas as nações e que, segundo a Bolívia, foi firmado sob a ameaça de uma nova intervenção armada por parte do Chile.

As reações de Santiago não demoraram.

“Se eles (os bolivianos) pretendem conversar sobre a soberania marítima do Chile, não, não há diálogo possível”, declarou o ministro do Interior, Andrés Chadwick, no Palácio La Moneda.

“A Bolívia tem muito claro que podemos conversar, podemos dialogar, podemos trocar boas práticas de vizinhos. Sabem como o Chile cumpriu na íntegra nossas obrigações do Tratado de 1904, mas se se trata de conversar sobre a soberania marítima, que é o que eles pretendem, não há diálogo possível”, frisou Chadwick.


A Bolívia reivindica parte do território soberano, após ter cedido à força ao Chile, na guerra de 1879, cerca de 400 km de costa e 120.000 km², sua única saída para o Pacífico.

O presidente Evo Morales destacou a posição boliviana, dois anos depois de anunciar que La Paz levaria seu antigo caso a tribunais internacionais, segundo ele, “cansado de um diálogo inútil”.

“Depois de tantos anos de tentativas de retornar ao mar com soberania, decidimos recorrer à Corte Internacional de Justiça para que se faça justiça com a Bolívia”, acrescentou Morales, no palácio presidencial, em La Paz.

A defesa boliviana alega ainda que, ao longo do século passado e até o presente, foram estabelecidos diferentes cenários de diálogo, apesar de não terem relações diplomáticas, nas quais foram discutidos, sem sucesso, diferentes fórmulas de solução.

As alternativas incluíam desde a cessão sem soberania de territórios no norte do Chile, na fronteira com o Peru (o que foi rejeitado por Lima), até a troca territorial. O Peru também cedeu territórios ao Chile na guerra de 1879, como aliado da Bolívia.

No último nível de diálogo, entre o governo de Morales e de sua homóloga chilena Michelle Bachelet, assim como no do sucessor da então presidente Sebastián Piñera, entre 2006 e 2010, La Paz esperou uma proposta “concreta, útil e possível” em relação a uma saída para o mar e que, em sua opinião, nunca chegou.

Diante dessa tácita ruptura, Morales levou o tema a todos os fóruns internacionais, incluindo as Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos (OEA), enquanto o governo de Piñera insiste em que não tem assuntos pendentes com a Bolívia. Segundo ele, entre ambos os países há um Tratado de Paz e Amizade de 1904 que definiu os limites fronteiriços binacionais.

Já La Paz considera que esse acordo não foi cumprido pelo Chile, pois se nega o livre trânsito aos bolivianos.

Fonte: FrancePresse

Coreia do Norte sabe o que faz

Pode-se não gostar da política e do estilo, mas a Coreia do Norte está longe de ser uma pantomima do absurdo

Não falta quem apresente o governo de Pyongyang como um bando de aloprados, chefiado por um herdeiro tonto e tutelado por generais dignos de Dr. Strangelove, o célebre filme de Stanley Kubrick estrelado por Peter Sellers. Mas fica difícil acreditar que um Estado pintado nessas cores possa ter sobrevivido a tantas dificuldades nesses últimos vinte anos.

Depois do fim da União Soviética e do campo socialista na Europa Oriental, que eram seus grandes parceiros econômicos, a Coreia do Norte entrou em colapso. O caos foi agravado por catástrofes naturais que empurraram o país para uma situação de fome. Poderia ter adotado o caminho de reformas semelhantes às chinesas, mas o risco de ser açambarcado por Seul afastou essa hipótese.

O forte nacionalismo, mesclado com economia socialista e mecanismos monárquicos, impulsionou uma estratégia de preservação do sistema. Laços com a China foram reatados. E os norte-coreanos resolveram peitar o cerco promovido pelos EUA, cuja exigência era rendição incondicional.

A consequência óbvia dessa decisão foi reforçar a defesa militar, tanto do ponto de vista material quando cultural. Na chamada ideologia juche, criada pelo fundador da Coreia do Norte, Kim Il Sung, que combina marxismo e patriotismo, as Forças Armadas são a coluna vertebral da nação.

Pyongyang, portanto, jamais descuidou de estar preparada para novos conflitos depois do armistício que, em julho de 1953, suspendeu a Guerra da Coreia. Sempre considerou que a disputa entre norte e sul teria a variável da presença de tropas estadounidenses.

Mas outras lições foram extraídas a partir dos anos 90. O primeiro desses ensinamentos foi que, após a debacle soviética, a Casa Branca passara a intervir militarmente contra os países que não se curvassem à sua geopolítica. Iugoslávia, Afeganistão, Iraque e, mais recentemente, Líbia servem como exemplos desse axioma.

O segundo aprendizado está na conclusão de que qualquer guerra convencional contra o Pentágono estaria provavelmente fadada à derrota. Somente uma força nuclear de dissuasão poderia servir de escudo eficaz.

Ao longo do tempo, o governo dos Kim deu-se conta de que, no controle desse dispositivo, poderia impor certas condições econômicas e políticas que ajudassem a recuperação do país, pois os temores militares de Seul e Tóquio obrigavam os EUA a negociar.

No curso dessa estratégia, demonstrações de poderio bélico e vontade de combate são essenciais. Os Estados Unidos recrudesceram, por sua vez, a pressão para que os norte-coreanos se desarmem, como pré-condição para qualquer alívio de medidas punitivas.

Pyongyang resolveu reiterar, nas últimas semanas, que não está para brincadeiras. De quebra, parece sinalizar que não aceita ficar sob o guarda-chuva chinês e rifar sua independência político-militar.

Pode-se não gostar da política e do estilo, mas a Coreia do Norte está longe de ser uma pantomima do absurdo. Eles sabem o que fazem. Seu regime sobrevive porque aprendeu que a única linguagem entendida por Washington é a força. Quem não entendeu isso, dançou na história.

Breno Altman, 51, é jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

Fonte: OperaMundi

August Pradetto: Política dos EUA também provoca retórica bélica norte-coreana

A Coreia do Norte se sentiu provocada com as recentes manobras militares realizadas pela Coreia do Sul e Estados Unidos. Mas sua recente declaração de “estado de guerra” também deixa claro o interesse dos EUA em expandir sua influência na região do Pacífico.

Essa é a opinião de August Pradetto, professor de Ciências Políticas da Universidade das Forças Armadas Helmut Schmidt, em Hamburgo, em entrevista à DW. Segundo ele, Kim Jong-Un tenta mostrar sua competência exacerbando a retórica de guerra: “Essas palavras contra os norte-americanos e contra o governo da Coreia do Sul têm a intenção de levá-lo a ser reconhecido como o guardião e protetor da nação norte-coreana”.

 

Norte-coreanos se sentem provocados por manobras militares dos EUA e Coreia do Sul. Foto:Yonhap/ AFP

 

Deutsche Welle:A Coreia do Norte declarou “estado de guerra” contra Seul. O que isso muda? Afinal, os dois países não firmaram um tratado de paz desde o fim da Guerra das Coreias.

August Pradetto:Em princípio, isso pouco vai mudar a situação político-militar, porque as Forças Armadas da Coreia do Sul, combinadas com as dos EUA, são superiores às forças norte-coreanas. A Coreia do Norte se sente provocada pelas manobras de grande escala realizadas na Coreia do Sul e no Mar da China Oriental, e essa é sua reação.

Isso tem uma função relacionada à política interna, mas também se destina a dar um recado para o exterior, de que Pyongyang se opõe às manobras realizadas e vai se defender, ainda que tenha pouca chance de responder à altura, do ponto de vista militar.

DW: O senhor mencionou que o anúncio do “estado de guerra” também tem um propósito nacional. Qual seria?

AP: O líder norte-coreano Kim Jong-Un já está no poder há pouco mais de um ano. Como jovem sucessor de seu pai, ele tem que provar sua competência e aparentemente tenta fazê-lo por meio de declarações fortes. Essas palavras contra os norte-americanos e contra o governo da Coreia do Sul visam que seja reconhecido como guardião e protetor da nação norte-coreana.

DW: E isso funciona entre seus compatriotas?

AP: Não podemos esquecer que a Coreia do Norte é um estado totalitário que tem toda a mídia sob seu controle. Relativamente poucas notícias chegam do exterior, e há pouca objetividade no noticiário local. As pessoas são dependentes dos meios de comunicação nacionais. Outros tipos de notícias vêm apenas da China e pouco servem para influenciar a opinião pública norte-coreana de forma significativa.

DW: Mas os líderes norte-coreanos têm repetidamente se sentido provocados pelas manobras militares norte-americanas e sul-coreanas. A atual reação tem uma qualidade diversa, ou se trata da ostentação de agressividade usual?

AP: O maior perigo é que ocorra algo não intencional, de um lado ou de outro. Em breve, grande parte das manobras chegarão ao fim. E aí a situação possivelmente volta a se acalmar – se não houver nenhum incidente antes.

DW: Os EUA e a Coreia do Sul podem fazer algo para contribuir para a normalização da situação?Por exemplo, agindo de forma mais contida?

AP: Essa seria uma possibilidade. Os EUA fazem pouco para acalmar a situação. Na verdade, os próprios EUA estão sob pressão: suas bases no Japão e na Coreia do Sul são questionadas pelas populações locais. Ao mesmo tempo, os EUA querem fortalecer suas bases na região do Pacífico, especialmente na Coreia do Sul e também no Japão, bem como reforçar a defesa antimísseis nessa região. A reação norte-coreana a essas manobras certamente não chega em mau momento para os EUA, de forma a legitimarem a própria posição e os próprios planos e impô-los contra as instâncias de oposição.

DW: Então isso significa que ambos os países querem exibir suas forças?

AP: Ambos querem manter sua posição nessa região. A Coreia do Norte teme que se realize, possivelmente também por meios militares, aquilo que tem estado na agenda dos EUA desde 2001, ou seja: uma mudança de regime na Coreia do Norte. E os EUA tentam expandir suas posições na região do Pacífico. Esse é o verdadeiro motivo da retórica e estratégia que vêm sendo empregadas por ambos os países.

Fonte: CartaCapital

A geopolítica das armas

Há ao menos três décadas, o rápido crescimento econômico chinês aponta para a futura retomada de um cenário global com duas potências econômicas e militares: os Estados Unidos e a China. E um sinal da consolidação deste quadro é a ascensão da China como o quinto maior exportador de armas convencionais do mundo, segundo relatório do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), publicado na noite deste domingo 17, ao qualCartaCapital teve acesso com exclusividade no Brasil. Essa é a primeira vez desde o fim da Guerra Fria que o top 5 não é formado apenas por EUA e outros quatro países europeus.

Foto: Mashleymorgan/Flickr

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a China está entre os cinco maiores exportadores de armas.

O estudo ainda mostra que o volume das transferências mundiais das principais armas convencionais (aviões de combate, tanques, veículos armados, helicópteros, artilharia, mísseis, entre outros) aumentou 17% entre os períodos de 2003-2007 e 2008-2012. Os EUA seguem como o maior fornecedor global nos últimos cinco anos, com 30% das exportações, seguidos por Rússia (26%), Alemanha (7%), França (6%) e China (5%). É a primeira vez que o Reino Unido não está nesta lista desde 1950.

Entre os dois quinquênios analisados, as exportações de armas convencionais chinesas subiram 162%, com acordos que têm estabelecido o país como um significativo fornecedor mundial. A maior parte das vendas foi para a Ásia e Oceania (74%). Somente o Paquistão ficou com 55% das exportações do país. “A China sempre foi uma grande exportadora de armas leves, mas não tinha uma indústria militar muito desenvolvida. Mas há mais de uma década existe um investindo forte para dar suporte a esse crescimento militar ajudado por um desenvolvimento industrial e tecnológico”, explica Gunther Rudzit, especialista em segurança e professor da Faculdade Rio Branco, em São Paulo.

 

Esse avanço militar chinês reflete uma possível corrida armamentícia em países asiáticos e da Oceania, responsáveis por 47% das importações mundiais no setor nos últimos cinco anos, um aumento de 35% em relação ao período anterior. Além disso, os cinco maiores importadores são todos da Ásia: Índia (12%), China (6%), Paquistão (5%), Coreia do Sul (5%) e Cingapura (4%).

Em grande parte, esses Estados compram armas chinesas para lidar com tensões e conflitos de fronteiras marítimas com a própria potência asiática.

A busca por sistemas de defesa na região, acredita Paul Holtom, diretor do programa de transferências de armas do SIPRI, pode ser uma compensação pela defasagem provocada na crise asiática dos anos 90. Mas também está relacionada à ascensão militar chinesa. “Os países sempre levam em conta como a China vai agir, o que também influencia fornecedores como os EUA a comercializar mais equipamentos avançados que no passado.”

No último quinquênio, diversos países da região encomendaram ou anunciaram planos de adquirir armas de longo alcance e sistemas de suporte que os tornariam capazes de projetar poder muito além de suas fronteiras. No ano passado, a Rússia entregou um submarino nuclear à Índia, e a China inaugurou um porta aviões.

A Índia importou 59% mais armas no período, com compras de aviões de combate da Rússia e EUA. No sudeste asiático, as importações cresceram 169%, devido a tensões por fronteiras marítimas, especialmente entre China e Vietnã ou as Filipinas. “O mar ao sul da China é disputado entre muitos países e essa tentativa de ter vantagem em termos navais prevalece na lógica regional. Alguns pesquisadores chegam a comparar os atritos do sudeste asiático à Europa do início do século XX”, Rudzit.

Enquanto isso, a China revelou no ano passado uma série de sistemas de armas domésticos que diminuíram sua dependência externa, por isso sua importações caíram 47% entre 2008 e 2012. No mesmo período, houve aumento no volume de importação de armas das Américas (34%) e África (104%) e queda de 20% na Europa (países como Portugal e Espanha estão vendendo aviões de combate novos por não terem condições de mantê-los) e 7% do Oriente Médio.

Vendas de armas

Os dados do SIPRI são prévios à decisão dos EUA no ano passado em realocar grande parte de suas forças militares e marítimas rumo à Àsia, mas podem ser um indicativo da escolha norte-americana. Antes mesmo da decisão, a indústria de defesa norte-americana era uma das principais fornecedoras para a região. “Os EUA têm olhado a Índia como um mercado potencial, um país antes dominado por exportações da Rússia e países europeus”, explica Holtom.

A China, que fornece enorme quantidades de sistemas básicos para países de menor desenvolvimento, contudo, está entrando em mercados importantes para países europeus e os EUA. “É interessante notar que, há alguns anos, a Rússia montou um grupo de estudos sobre a indústria de defesa chinesa para saber se ela competiria com a russa em médio prazo”, lembra Holtom.

“A China está se desenvolvendo em áreas importantes, mas ainda há laços tradicionais muito fortes neste tipo de comércio. Ninguém deixa de comprar armas de um país facilmente, porque esse mercado é de relação política intensa e profunda”, completa Rudzit.

Maiores exportadores

Os EUA lideram a lista dos maiores exportadores de armas entre 2008 e 2012, com 30% do comércio mundial. O país vendeu armas para ao menos 85 países, além da Otan. A maior parte destes equipamentos foi comprada por Estados da Ásia e Oceania (45%), Oriente Médio (27%) e Europa (18%).

Segundo os dados, 62% das entregas foram de aeronaves, incluindo 49 aviões de combate como o F-35.

Em retirada do Iraque e do Afeganistão, os EUA venderam 4% de suas exportações para cada um destes países. Os itens inclusos nas negociações variam de tanques a veículos armados novos e de segunda mão.

A Rússia vem em segundo lugar na lista, com 26% das exportações no setor. Destas, 46% são de aeronaves e 20% de mísseis. Ásia e Oceania também são os maiores compradores, 65% do total. Além disso, o relatório mostra que o país foi responsável por 71% das exportações de armas convencionais para a Síria nos últimos cinco anos, incluindo o período de guerra civil do país do Oriente Médio.

Alemanha e França ocupam a terceira e quarta posições, respectivamente. Os dois países registraram quedas de 8% e 18% no período analisado.

Fonte: CartaCapital

Agitação na Tunísia e no Egito: início ou fim das revoluções?

Três anos depois do início de intensos protestos de rua, Tunísia e Egito estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isso vai parar. Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas isso não é definitivo.

Immanuel Wallerstein*

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Na Tunísia, em dezembro de 2010, um único indivíduo acendeu o rastilho de uma revolução popular contra um ditador corrupto, uma revolta que foi prontamente seguida no Egito, contra um autocrata igualmente corrupto. O mundo árabe estava atónito e a opinião pública mundial ganhou imediatamente simpatia por estas expressões “modelares” das lutas ao redor do planeta por autonomia, dignidade e um mundo melhor.

Hoje, três anos depois, ambos países estão atolados em ferozes lutas políticas, a violência interna cresce e ninguém sabe onde tudo isto vai parar, e em benefício de quem. Há aspetos particulares em cada país, alguns dos quais se refletem em revoltas pelo mundo árabe e árabe-islâmico, e outros que podem ser comparados ao que está a acontecer na Europa – e, até certo ponto, no mundo.

O que aconteceu? Comecemos com o levantamento popular inicial. Como ocorre muitas vezes, foram jovens corajosos que o começaram, em protesto contra o poder arbitrário dos poderosos — local, nacional, internacionalmente. Nesse sentido, eram anti-imperialistas, anti-exploração e profundamente igualitários. Comparam-se em muito com as manifestações que se espalharam pelo mundo entre 1966 e 1970, a que por vezes chamamos hoje de revolução mundial de 1968. Como naquela época, os protestos tocaram numa corda profunda dentro do país e atraíram vasto apoio popular, muito para além do pequeno grupo que os iniciaram.

O que aconteceu em seguida? Uma revolução antiautoritária generalizada é uma coisa muito perigosa para os que detêm a autoridade. Quando as medidas de repressão iniciais não funcionaram, muitos grupos procuraram domesticar as revoluções unindo-se a elas, ou fingindo que o faziam. Tanto na Tunísia quanto no Egito, o exército entrou em cena, recusando-se a disparar sobre os manifestantes, mas também procurando controlar a situação após a deposição dos dois ditadores.

Em ambos os países, existia há muito um forte movimento islâmico, a Irmandade Muçulmana. Ela fora banida na Tunísia e era cuidadosamente controlada e restringida no Egito. As revoluções permitiram-lhes emergir de duas maneiras. Ofereceram assistência social aos pobres que sofriam com a negligência do Estado. E decidiram formar partidos políticos para conquistar a maioria nos Parlamentos e controlar a redação das novas Constituições. Na primeira eleição de cada país, a Irmandade Muçulmana emergiu como o partido político mais forte.

Atrás deles, havia basicamente quatro grupos a disputar a arena política. Além do partido da Irmandade Muçulmana – Ennahda na Tunísia e Partido da Liberdade e Justiça no Egito -, surgiram três outros atores políticos: as forças laicas mais ou menos à esquerda, as forças salafistas, na extrema direita, lutando pela adoção de uma versão muito mais rigorosa da sharia que a desejada pelos partidos da Irmandade; e os apoiantes, ainda fortes, mas quase clandestinos, dos antigos regimes.

Tanto a Irmandade Muçulmana quanto as forças laicas estão muito divididas internamente, em especial sobre as estratégias que desejam seguir. Os partidos da Irmandade Muçulmana enfrentam os mesmos dilemas com que se defrontaram, nos últimos anos, os partidos de centro-direita na Europa. Os seus países têm severos e persistentes problemas económicos que provocam o crescimento, ou fortalecimento, dos partidos da extrema-direita, o que ameaça a capacidade dos partidos do centro-direita ‘mainstream’ vencerem futuras eleições. Nesta situação, surgem, por todo o lado, aqueles que pretendem conquistar os eleitores da extrema-direita adotando algumas das suas posições e uma postura de “linha dura” em relação à esquerda ou às forças laicas. E há os chamados “moderados”, que defendem um movimento para o centro e a reconquista dos votos neste campo.

As forças de esquerda, ou laicas, reúnem por seu lado uma ampla gama de grupos: setores verdadeiramente de esquerda (porém múltiplos) e democratas de classe média, que procuram encorajar laços económicos mais próximos às grandes forças de mercado na Europa e na América do Norte. Nas questões económicas, esses grupos de classe média estão muito próximos, na verdade, daquilo que as forças islamistas moderadas propõem.

Enquanto isso, as forças ainda leais aos antigos regimes corruptos mantêm controlo sobre uma instituição chave: a polícia. É a polícia que dispara sobre as manifestações das forças laicas. Quando estas protestaram contra o assassinato de Chokri Belaid, um importante líder laico, o primeiro-ministro da Tunísia, Hamadi Jebali, um islamista moderado, respondeu que estava igualmente chocado com o assassinato. Diante disso, os grupos laicos responderam que os partidos islamistas, e especialmente a sua linha-dura, são, de qualquer forma, indiretamente responsáveis, por terem criado o ambiente propício a que o assassinato ocorresse.

Além disso, a Tunísia e o Egito não são países isolados. Os seus vizinhos no mundo árabe e além deste vivem também uma grande agitação. A intromissão geopolítica de forças externas é muito grande. Ambos os países são relativamente pobres e precisam de ajuda financeira externa para combater o crescente e persistente desemprego, que se torna ainda mais severo devido à perda das entradas com o turismo, uma fonte central de receita.

Para onde se encaminha tudo isto? Existem apenas duas direções possíveis. Uma é o fim da revolução, pelo menos por enquanto. Os dois países poderiam ter governos de direita fortemente entrincheirados, apoiados (talvez até controlados) pelos militares, com Constituições socialmente conservadoras e políticas externas cautelosas. Outra, é o começo de uma revolução, na qual o espírito inicial de 1968 reconquiste forças, e tanto a Tunísia quanto o Egito se tornem novamente marcos de transformação social para si próprios, para o resto do mundo árabe e para todo o planeta.

Por enquanto, parece que as forças que pressionam pelo fim da revolução estão na frente. Mas, neste mundo caótico, é cedo demais para fechar o pano e pensar que já não há espaço para uma força revolucionária renovada nos dois países.

Fonte: CartaMaior

Guerra contra a Democracia

Vamos aproveitar o momento delicado na Venezuela para assistir a um documentário que traz uma visão um pouco diferente daquilo que é veiculado pela grande mídia internacional.

The War on Democracy” é um documentário de 2007 dirigido por Christopher Martin e Jonh Pilger.

O documentário se centra na intromissão dos EUA nos assuntos políticos da América Latina, grande parte da temática se desenvolve ao redor da figura de Hugo Chávez na Venezuela.

Igualmente se descreve a participação da CIA nos golpes de estado contra Jacobo Arbenz na Guatemala e Salvador Allende no Chile.

Também se aborda o tema da situação econômica no Chile depois da ditadura de Augusto Pinochet e a ascensão de Evo Morales na Bolívia.

A publicação dos vídeos pelo NECCINT serve para que o leitor possa se inteirar das diversas faces da moeda e decidir qual o papel de Chavez na construção da democracia venezuelana bem como o papel dos Estados Unidos da América no continente Sul-Americano.

ONU estima em 60 mil número de mortos na Síria

No mesmo dia em que diversas pessoas morreram em um ataque aéreo a um posto de gasolina nos arredores da capital da Síria, Damasco, a ONU divulgou nesta quarta-feira um relatório que estima em 60 mil o número de mortos em decorrência do conflito no país, iniciado em março de 2011.

Síria / AP

Ataque a posto de gasolina teria deixado pelo menos 70 mortos na Síria, afirmam ativistas

O estudo foi feito a pedido da Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, e coleta dados de sete fontes diferentes.Segundo a pesquisa, 59.648 pessoas morreram em meio ao confronto entre opositores e forças leiais ao presidente da Síria, Bashar al-Assad. As estatísticas foram contabilizadas até novembro de 2012. Pillay, entretanto, disse que a estimativa já pode ter superado a barreira dos 60 mil mortos e descreveu a matança como “verdadeiramente chocante”.

Grupos de oposição que atuam na Síria calculavam que 45 mil mortos haviam morrido em decorrência do levante revolucionário.

Fontes de referência

O relatório da ONU, intitulado “Análise Estatística Preliminar da Documentação das Mortes na Síria”, tomou como base estatísticas do governo e de grupos opositores. Os autores, do grupo de pesquisa Benetech, avaliaram 147.349 relatórios de mortes de sete fontes diferentes. Eles cruzaram as referências das pesquisas e excluíram dados duplicados, além de contabilizar apenas aqueles em que havia o primeiro nome e o sobrenome das vítimas, bem como a data e o local de sua morte.

Ao fim desse processo, os pesquisadores chegaram ao número de 59.648 mortos. Entretanto, eles alertaram que um número desconhecido de mortos não foi documentado por nenhuma das fontes pesquisadas.

“As estatísticas apresentadas nesse relatório devem ser considerados como valores-base”, informa o relatório das Nações Unidas.

Apenas quatro das fontes pesquisadas cobriram todo o período. Três são grupos de ativistas com ligações com a oposição: O Centro de Documentação das Violações, a Rede Síria para Direitos Humanos, e o site Syria Shuhada. A outra fonte é o grupo de ativistas baseado no Reino Unido Observatório Sírio para Direitos Humanos.

As estatísticas provenientes do governo estão disponível apenas de março de 2012 e até agora estimam o número de mortos em 2.539. Já o número de 59.648 também inclui muitas mortes relatadas por uma única fonte, explicou o órgão da ONU.

Por exemplo, em agosto de 2012, o mês mais mortal desde o início do levante revolucionário, os dados revelam que apenas pouco mais das 4 mil mortes foram confirmadas em duas ou mais fontes de referência.

Por outro lado, 2 mil mortes relatadas foram contabilizadas de apenas uma única fonte, apesar de terem sido incluídas na contagem final.

Detalhes

O estudo não discrimina se os mortos eram rebeldes, militares ou civis. Mas a pesquisa destaca que 76% das vítimas foram identificadas como homens.

O relatório também revela que as áreas mais afetadas pelo conflito são a parte rural de Damasco e a província de Homs.

Segundo Pillay, “dada a continuidade do conflito desde o fim de novembro, podemos estimar que mais de 60 mil pessoas foram mortas até o início de 2013″.

“O número de mortos é muito maior do que esperávamos, e isso é verdadeiramente chocante”.

Ela assinalou que as mortes foram causadas nos dois lados do conflito e alertou que o crescente sectarismo dificulta o estabelecimento de uma possível solução ao conflito. Manifestações reivindicando reformas modestas na Síria tiveram início em fevereiro de 2011.

Uma série de confrontos entre forças de segurança e manifestantes cresceu a ponto de se tornar um levante revolucionário contra a permanência do presidente Bashar al-Assad no poder.

Os rebeldes agora controlam grandes porções da Síria, mas o conflito parece longe de ter um fim breve.

Fonte: BBCBrasil

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A Primavera Árabe e suas contradições

Há dois anos surgiu o mais espetacular movimento de massas que o mundo árabe ja conheceu. Depois de amadurecer lentamente dentro de regimes ditatoriais, os povos tunisino e egípcio saíram às ruas de maneira rebelde e massiva, até conseguir derrubar duas ditaduras que tinham conseguido passar a ideia da sua perpetuidade.


Movimentos de jovens laicos foram a novidade de massas mais importante, quebrando a alternativa com que essas ditaduras tentavam perpetuar-se: ou elas ou regimes fundamentalistas islâmicos. 

Mas depois desse protagonismo espetacular dos povos tunisino e egípcio, a primavera não conseguiu se estender ao conjunto da região. Ou melhor, suas tentativas encontraram repressões duras e até mesmo de tropas estrangeiras, ou desembocaram em bombardeios militares – como no caso da Líbia -, que substituíram as manifestações de massa – ou em enfrentamentos militares de parte a parte – como na Síria, entre atos terroristas e bombardeios militares.

O fim de um regime crucial para os Estados Unidos e o risco de que esse precedente se estendesse por toda a região, fez com que as potências ocidentais interviessem de forma direta e militar, levando à queda do regime de Kadafi e desviando assim a natureza inicial da primavera árabe para outros objetivos. A crise na Síria é uma derivação dessas manobras, em que os povos ficam afastados da capacidade de intervenção e de dar inicio à construção de regimes democráticos.

Ao mesmo tempo, eleições colocam novas autoridades nos governos – como nos casos da Tunísia e do Egito – que ainda não expressam as novas forças populares nesses países. Partidos que haviam sido tolerados durante as ditaduras – especialmente muçulmanos – ganham as eleições, mesmo se não com suas expressões mais radicais e governam sem ainda refletir as maiores novidades da primavera árabe, particularmente suas formas laicas.

Para que sejam regimes transitórios, não deveriam, como no caso do Egito, elaborar imediatamente uma nova Constituição, que tem o risco de impor ao país um molde religioso conservador e bloquear um processo aberto de construção da democracia nesses países.

Ao mesmo tempo, esses novos regimes nascentes não podem cair na tentação de acordos com o FMI que, ao contrário de atender seus graves problemas econômicos e sociais, os levará a recessões e a ainda mais graves crises sociais.

São processos ainda abertos e tomara que permaneçam assim por um bom tempo, para que as forças novas, jovens, laicas, possam se organizar melhor e disputar a condução desses processos.

Fonte: CartaMaior/BlogdoEmir

Após cessar-fogo entrar em vigor, autoridades pedem paz duradoura em Gaza

Documento assinado nesta quarta-feira prevê novas negociações nos próximos dias

Em declarações posteriores ao anúncio do cessar-fogo estabelecido nesta quarta-feira (21/11), autoridades israelenses e palestinas confirmaram a validade do acordo e pediram avanços nas próximas negociações. A trégua foi implementada às 21h (horário local) e centenas de palestinos tomaram as ruas da Faixa de Gaza para comemorar o fim dos bombardeios, que tiveram início na última quarta-feira (14/11).

Desde o início do conflito, autoridades egípcias tentaram mediar uma solução com representantes do governo de Israel e da organização palestina Hamas. Depois de algumas propostas terem sido rejeitadas pelos oficiais israelenses, ambas as partes aceitaram nesta quarta (21/11) o texto elaborado pelo Egito, que estabelece o fim de todas as hostilidades.

Israel aceitou a obrigação de encerrar incursões e ataques no território palestino, mas não de finalizar outras iniciativas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Em contrapartida, grupos de resistência armada palestinos também devem parar de lançar projéteis em direção a Israel e de realizar ataques nas fronteiras.

De acordo com o texto divulgado pela presidência egípcia, o país assumiu a responsabilidade de verificar o cumprimento do acordo e “deve receber garantias de todas as partes de que cada uma se compromete com o que foi estabelecido”.

Ao lado da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, o ministro das Relações Exteriores egípcio, Mohammed Kamel Amr, anunciou o estabelecimento do cessar-fogo. “O Egito abriu contatos com todas as facções palestinas, com Israel e com os Estados Unidos, e esses esforços levaram a um acordo para o cessar-fogo e a volta à tranquilidade”, disse ele em conferência no palácio presidencial no Cairo.

O papel desenvolvido pelo Egito foi reconhecido pelas autoridades norte-americanas. Em comunicado, a Casa Branca afirmou que o presidente Barack Obama agradeceu o presidente egípcio, Mohamed Mursi, pelo seu desempenho e reiterou a parceria e colaboração entre os países. “O novo governo do Egito está assumindo um papel de responsabilidade e liderança que há muito tempo faz esse país ser uma pedra angular de estabilidade e paz regional”, disse Clinton.

Tanto Amr como Clinton destacaram que o acordo anunciado hoje deve ser o primeiro passo para uma paz duradoura na região. O documento assinado prevê, inclusive, negociações entre israelenses e palestinos a partir desta quinta-feira, 24 horas após o cessar-fogo.

Israel

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também agradeceu aos oficiais egípcios pela mediação. Em discurso de reconhecimento do acordo, o premiê acusou o Irã de armar o Hamas e afirmou que os EUA concordaram que mais deve ser feito para impedir a transferência do material bélico.

Ao confirmar o estabelecimento de um cessar-fogo, o primeiro-ministro de Israel disse que seu governo é “responsável”

“Eu sei que muitos esperavam uma resposta militar mais intensa ao lançamento de foguetes pelos palestinos, e isso pode ser necessário, mas, neste momento, a melhor coisa para Israel é pegar essa oportunidade a fim de atingir um cessar-fogo de longo prazo”, afirmou. “Isso é o que um governo responsável faz”, acrescentou ele.

Netanyahu foi acusado de ter utilizado a operação militar na Faixa de Gaza como forma de angariar votos para as próximas eleições legislativas, que acontecem em janeiro de 2013. “Estou orgulhoso de ser o seu primeiro-ministro”, disse ele aos cidadãos israelenses.

Durante seu discurso, o premiê reiterou a argumentação utilizada ao longo dos sete dias de ofensiva militar de que Israel está se defendendo dos foguetes disparados por organizações palestinas e disse que “a vida dos israelenses deve voltar ao normal”.

Hamas

O líder do Hamas, organização que administra a Faixa de Gaza depois de eleições democráticas em 2006, disse que os palestinos venceram depois de sete dias de luta. Khaled Meshaal descreveu o ataque israelense como “uma agressão despresível contra o povo de Gaza” que matou mais de 140 pessoas.

“Nós tínhamos que reagir”, disse ele se referindo ao lançamento de projeteis no território israelense. “Eu não posso negar que as forças de Israel fizeram muito. Nós não podemos contar quantos edifícios eles destruíram em Gaza; essa foi sua conquista”, acrescentou. Para Meshaal, a operação israelense foi motivada pelas próximas eleições legislativas.

O líder palestino ainda agradeceu ao governo egípcio e disse que a tentativa de Israel de testar as novas autoridades do país árabe falhou. “A conspiração de Israel acabou”, concluiu ele. Meshaal também explicou que qualquer atentado da Faixa de Gaza contra Israel será da responsabilidade do Hamas.

Bloqueio continua

O fim do bloqueio israelense à Faixa de Gaza não está entre os termos, como havia exigido o Hamas em sua proposta inicial. Forças israelenses controlam as entradas aéreas, terrestres e marítimas da Faixa de Gaza, impedindo a entrada de diversos produtos. As restrições impostas aos moradores do território palestino incluem itens militares, alimentos, vestimentas, utensílios de cozinha e materiais de construção.

Por conta do bloqueio, cerca de 75% dos edifícios do território palestino danificados na investida militar israelense de 2009 ainda não foram reconstruídos, afirmou uma pesquisa das Nações Unidas de setembro deste ano.

Histórico

Em oito dias de conflitos, ao menos 147 palestinos foram mortos, sendo que mais da metade deles era civil. Do lado israelense, foram confirmadas cinco mortes. Apenas nesta quarta-feira (21/11), Israel bombardeou 120 alvos, de acordo com o Ministério de Segurança Interna do Hamas. A partir de Gaza, foram lançados 81 foguetes contra Israel.

Fonte: OperaMundi