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Trilha sonora: Cavalgada das Valquírias de Wagner (Abra link em nova página )
Caros amigos,
Temos visto muita ação daqui do Observatório nos últimos dias. É difícil analisar cada uma delas a fundo em tão pouco tempo. Mas tendo em vista a proposta de trabalho desenvolvida no Projeto ORBIS, é necessário refletir sobre um fenômeno contemporâneo relacionado ao papel da mídia corporativa na compreensão social sobre as relações internacionais. Eu gostaria de usar este espaço para expor algumas considerações sobre a importância dos meios de comunicação – particularmente do jornalismo – na formação de opinião das pessoas sobre as relações internacionais.
De modo generalizado, pode-se dizer que existe muita boa fé na maneira como as pessoas recebem as notícias que vem das grandes empresas de comunicação. Reina uma certa credulidade perante os grandes veículos de comunicação de que as informações passadas são “dados”, e não “discursos” ou “propagandas”. A presunção de veracidade aplicadas às notícias advém da legitimidade popularmente atribuída aos meios de comunicação. O cidadão comum pensa: “Se eu vi isso no jornal ou na televisão, então isso deve ser verdade”. Poucas pessoas pensam que jornal também erra, também tem interesses, preferências e opiniões.
O jornalismo é o produto de um empreendimento econômico entre, de um lado, empresas que detém o controle societário dos veículos de comunicação que produzem informação pública e, do outro lado, empresas privadas que desejam divulgar seus produtos junto às pessoas que querem consumir as notícias.
Os programas de jornalismo na impressa, rádio ou televisão são mantidos, do ponto de vista econômico, pelos seus patrocinadores diretos ou indiretos. É inevitável pensar nos interesses econômicos que envolvem a produção de notícias. Ainda que os jornalistas se empenhassem pela neutralidade, existe todo um contexto de editores, diretores, sócios, patrocinadores, etc em que eles estão inseridos que molda a atuação do indivíduo no longo processo de produção da “notícia”.
A credibilidade que a grande mídia tem por ocupar o espaço público que ocupa na produção de informações faz com essas “notícias” sejam vendidas como verdades.
Na minha opinião, os grupos político-econômicos que operam os principais veículos da grande mídia impressa e televisiva na produção de programas “jornalísticos” no Brasil seguem um padrão de crítica generalizada ao Governo federal. Esta maneira de trabalhar a notícia já foi ironicamente batizada de “escandalização da tapioca”.
Quando as atenções se voltam para a arena das relações internacionais, as notícias circulam e são captadas pelos nossos radares aqui no Observatório de Relações Internacionais. Isto nos trouxe um problema metodológico.
Com todo respeito pelas respectivas instituições, eu pessoalmente acho que a Globo, Folha (UOL), Estadão, Veja, CBN e outros já operaram a produção da notícia de forma tendenciosa, incompleta ou descontextualizada tantas vezes, que eu achei necessário fazer um alerta metodológico para os nossos pesquisadores, colaboradores e observadores (+ de 28 mil visitas!!) para que reflitam criticamente sobre informações que estão sendo dadas sobre a política externa brasileira e sobretudo a crise em Honduras.
Longe de mim, exigir a neutralidade de alguém, se é que isso fosse possível. O que eu acredito é que é preciso que a gente se esforce mais para entender qual é a perspectiva de quem dá a notícia e qual seria a influência do background desta empresa de comunicação sobre a maneira como ele pode ver ou divulgar os “fatos” através dos seus programas de jornalismo. Parece prudente que doravante consideremos as notícias que nos são apresentadas por estas empresas – e por todas as outras – como opiniões e não como fatos; como discursos e não como verdades. Se é razoável supor que um político, ao se promover, está sendo tendencioso, ou que uma empresa ao divulgar seu produto esta sendo parcial, então também me parece razoável que nós tomemos as “notícias” como um ponto de vista e não como a realidade.
A taxa dos brasileiros que consideram a mídia parcial saltou de 26% para 39% em um ano, de acordo com os resultados de duas pesquisas do instituto Vox Populi feitas em julho de 2008 e julho de 2009. A porcentagem dos que julgam a mídia imparcial caiu de 60% para 42% no mesmo período.
A internet nos liberta dos oligopólios da grande mídia. Do ponto de vista metodológico, eu recomendo que vocês procurem pelas notícias nas mais variadas fontes, procurando evitar excessiva dependência de poucos veículos, ou apenas dos veículos que chegam até você. Vejam as mesmas coisas por diferentes olhos e procurem entender quais são os discursos que estão por traz de cada um deles.
Há uma cruzada cívica acontecendo pela internet. Vejo o despertar de uma cidadania virtual extremamente informada, comunicativa e participativa. Se você está me lendo agora, é porque esse movimento revolucionário também é seu. Viva-o intensamente e deixe aqui seu comentário, crítica, dúvida ou opinião.
Nas próximas postagens, trarei alguns exemplos colhidos na chamada “grande “ mídia e na “mídia alternativa”.
Acompanhe, comente, critique, destranque as suas opiniões. As idéias diferentes também são sempre bem vindas, se fundamentadas.
Lucem accipe ut reddas
Luiz Albuquerque
4 Comentários
22 22UTC Outubro 22UTC 2009 às 17:01
[...] Alerta metodológico: mídia [...]
3 03UTC Novembro 03UTC 2009 às 7:58
Penso ser de uma pertinência ímpar o alerta metodológico. Vivemos na era das informações e o nosso grande desafio é encontrar a melhor maneira de interpretar as notícias que nos bombardeiam a todo momento. Nos atentarmos para a realidade das empresas que se encontram por trás das notícias é uma ótima sugestão, até mesmo porque a seleção das notícias que serão “transmitidas” (vendidas!!!) já é, de per si, uma maneira de direcionar a visão de mundo dos espectadores.
Definitivamente, a “escandalização da tapioca” não é jornalismo. Lembro das palavras de uma congressista da situação em relação à possível visita de Dilma à Lina Vieira: “Temos que parar de fazer canja com todo pé de galinha que aparece”. Oportunistas de plantão aparecem a todo momento. Em relação aos oportunistas de plantão, e à crise de Honduras, assisti no jornal da TV Gazeta um dos maiores absurdos jurídicos que já presenciei na vida: um advogado (presumivelmente especialista em direito internacional) afirmando com todas as letras que o Brasil era o grande responsável pela crise hondurenha. Talvez as forças armadas do Brasil tenham dado o golpe militar que desencadeou a crise.
Assim, ressalto mais uma vez a pertinência do alerta, principalmente quando tratamos de temas pertinentes ao direito internacional público, ramo do direito no qual as referências e fontes de pesquisa são extremamente escassas.
3 03UTC Novembro 03UTC 2009 às 16:51
Gostaria de acrescentar que, embora os interesses econômicos de fato envolvam a produção de notícias, não se deve deixar de lado outro ponto não menos importante: a parcialidade do espírito humano. Assim, salta aos olhos a impossibilidade de se realizar um trabalho que não contenha as opiniões pessoais do seu criador, pois não se trata de uma produção acadêmica, de modo que a parcialidade mostra-se inerente.
Para efeito de ilustração, tome-se uma revista contrária ao governo e outra transparentemente governista. Por se tratar de revistas de conteúdo político, cada uma tomará uma tendência ao veicular uma determinada informação. Aliás, não precisa necessariamente ser político, pois mesmo a mídia que trata exclusivamente da economia tomará uma posição: neoliberal ou partidário do estado controlador; a favor do excessivo controle estatal diante da atual crise econômica ou crítico da vultuosa injeção de recursos para controlá-la.
Por fim, não há como negar que os grupos financeiros ligados aos meios de informação influenciam a formação da opinião popular, no sentido de obterem vantagem. Porém, o próprio espírito humano age para que a produção da informação prescinda da imparcialidade necessária, pois é tarefa do receptor fazer o trabalho mental a fim de compreender o fato.
21 21UTC Dezembro 21UTC 2009 às 20:03
Gostaria de acrescentar que, embora os interesses econômicos de fato envolvam a produção de notícias, não se deve deixar de lado outro ponto não menos importante: a parcialidade do espírito humano. Assim, salta aos olhos a impossibilidade de se realizar um trabalho que não contenha as opiniões pessoais do seu criador, pois não se trata de uma produção acadêmica, de modo que a parcialidade mostra-se inerente.
Para efeito de ilustração, tome-se uma revista contrária ao governo e outra transparentemente governista. Por se tratar de revistas de conteúdo político, cada uma tomará uma tendência ao veicular uma determinada informação. Aliás, não precisa necessariamente ser político, pois mesmo a mídia que trata exclusivamente da economia tomará uma posição: neoliberal ou partidário do estado controlador; a favor do excessivo controle estatal diante da atual crise econômica ou crítico da vultuosa injeção de recursos para controlá-la.
Por fim, não há como negar que os grupos financeiros ligados aos meios de informação influenciam a formação da opinião popular, no sentido de obterem vantagem. Porém, o próprio espírito humano age para que a produção da informação prescinda da imparcialidade necessária, pois é tarefa do receptor fazer o trabalho mental a fim de compreender o fato.