Analise do discurso do mito da Torre de Babel:


 
"Torre de Babel" de Brueguel
“Torre de Babel” de Brueguel
 
Em “O Poder do Mito“, Joseph Campbell ensina que os mitos nos ajudam a interpretar os grandes temas da humanidade. Os mitos clássicos trazem reflexões importantes. Mesmo que agnte não concorde com elas. O mito da Torre de Babel, oriundo de uma passagem bíblica (Gênesis 11:1-9), sempre me deixou intrigado. Eu queria que vocês me ajudassem a decifrá-lo. E depois, se possível, queria tentar aplicar estas reflexões ao campo das relações internacionais.
 
Segue abaixo o trecho de Gênesis mas vale a pena ver tabém  em outros idiomas para entender melhor o que se queria dizer.
 

1 E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala

2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar [Babilônia]; e ali habitaram

3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa

4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra

"Torre de Babel" de Anderson ” 
Torre de Babel” de Anderson
 
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;

6 E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.

7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro

8 Assim o SENHOR os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade

9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o SENHOR a língua de toda a terra, e dali os espalhou o SENHOR sobre a face de toda a terra

 "Confusão de linguas" de Dore 
“Confusão de linguas” de Dore

 

O que se poderia inteligir do texto, em si, sem contextualizá-lo teológica ou historicamente?

  • Falar a mesma língua possibilita que os homens construam grandes torres e cidades.
  • Com torres e cidades os homens criam um nome para si e, assim. não ficam espalhados pelo mundo.
  • A edificação da cidade e da torre atraiu a atenção de Deus.
  • Deus concluiu que a identidade linguística forjou a unidade do povo e, assim, os homens fizeram a cidade e a torre  e não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
  • Deus entende que deve descer e confundir os homens através da linguagem para que um não pudesse entender o outro.
  • Assim, Deus impede a construção da cidade e da torre e com isso espalha os homens sobrea face da terra.

A minha primeira pergunta é: Por que Deus, todo poderoso, teria interesse em impedir a construção da Torre de Babel?

A resposta mais tradicional que encontrei   : O pecado do povo na terra de Sinar foi a ambição de dominar o mundo e dirigir o seu próprio destino, à parte de Deus, através da união política centralizada, poder e grandes conquistas. Esse desígnio era fruto do orgulho e rebeldia contra Deus. Deus frustrou o propósito deles, multiplicando idiomas em seu meio, de tal maneira que não podiam comunicar-se entre si (vv. 7,8). Isso deu origem à diversidade de raças e idiomas no mundo. Nesse tempo, a raça humana deixando a Deus, voltou-se para a idolatria, a feitiçaria e a astrologia (Is 47.12; ver Êx 22.18; Dt 18.10). As funestas conseqüências deste estado espiritual nos seres humanos é descrita em Rm 1.21-28. Deus os entregou à impureza dos seus próprios corações (Rm 1.24,26,28), e, com Abrão, Ele prosseguiu dando cumprimento ao propósito da salvação da raça humana (ver v.31). (desculpem, eu perdi a referência)

O que vocês acham desta explicação? Concordam? Discordam ?

Em segundo lugar, eu queria perguntar: a  que diferentes contextos históricos das relações internacionais poderíamos aplicar a metáfora da Torra de Babel?

E por fim, seria possível argumentar que em alguns momentos da história das relações internacionais, aconteceu de  grandes potência (“deuses”) se comportaram de modo a confundir, dividir e espalhar os homens (povos/países) ?

Participe deste debate! Deixe aqui a sua opinião.

Postado por

Luiz Albuquerque

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Sobre Luiz Albuquerque

O Núcleo de Estudos sobre Cooperação e Conflitos Internacionais (NECCINT) da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Faculdades Milton Campos, sob a coordenação do professor Luiz Albuquerque, criou o Observatório de Relações Internacionais para servir como banco de dados e plataforma de pesquisas sobre relações internacionais e direito internacional . O site alimenta nosso trabalho de análise de conjunturas, instrumentaliza nossas pesquisas acadêmicas e disponibiliza material para capacitação profissional. Mas, além de nos servir como ferramenta de trabalho, este site também contribui para a democratização da informação e a promoção do debate acadêmico via internet.

5 respostas em “Analise do discurso do mito da Torre de Babel:

  1. Interessante debate proposto pelo professor Luiz Albuquerque.
    Acredito que o interesse em impedir a construção da Torre de Babel seria, primeiramente, mostrar aos homens sua inferioridade e ingratidão.
    Deus deu aos homens a Terra, e estes na ambição de construir uma Torre cujo cume toque no céu, estariam demonstrando ingratidão com aquilo que lhes foi dado, pois, não estavam satisfeitos e buscavam mais. Mesmo não sendo um católico praticante, acredito que o Mundo foi criado por Deus, e de uma maneira cuidadosa, que para mim é a melhor explicação para as diversas belezas naturais que possuimos na Terra.
    O homem, desde o princípio foi ambicioso, o que não é um defeito, mas desde que seja uma ambição responsável. Assim, também, o homem nunca deu o valor necessário ao planeta em que vive.
    A primeira impressão que tenho é que o mito da Torre de Babel está ligado aos problemas ambientais que assolam a Terra cada vez mais. Essa busca desenfreada do homem por novas conquistas, sem dá o valor necessário aquilo que foi conseguido e conquistado.
    Também, em um segundo momento, me parece estar ligado às Guerras Mundiais e a quaisquer conflitos entre povos. Já que com o fracasso na construção da Torre de Babel o homem não conseguiu tocar no céu como desejado, e assim, o desejo teve que ser substituído, restando somente o desejo de conquistar todo o planeta, já que o céu não era mais possível.
    Com a diferença de idiomas, os homens não conseguiam mais se entender, e assim, perderam o objetivo comum, espalhando-se pela Terra. Desta maneira, foram formadas as diversas etnias, que até os dias atuais não conseguiram retomar um objetivo comum.
    Mas acredito que a intenção de Deus foi exatamente esta, dificultar em um primeiro momento o entendimento entre os homens, para que estes busquem retomar o entendimento apesar destas dificuldades. Com estas dificuldades de entendimento o homem já teria desencadeado profundos conflitos e problemas, o que realmente ocorreu, como podemos perceber nos desastres naturais, nas duas grandes guerras e nos múltiplos conflitos etnicos em todas as partes do mundo. Assim, o homem teria que buscar o entendimento para solucionar estes problemas de forma conjunta (todos falando a “mesma língua”), com um único objetivo em comum: viver em harmonia na Terra, seja com os diversos povos, seja com a natureza.
    Somente tendo perdido este entendimento durante todo este tempo, o homem vai estar preparado para dar valor e buscar objetivos comuns, agora menos ambiciosos e mais responsáveis, diferente do que aconteceu na tentativa de construir a Torre de Babel.
    Em relação a terceira pergunta, minha resposta é afirmativa. Nos movimentos separatistas e nos golpes de Estados, as grandes potências atuam como se fossem “deuses”, apoiando a discórdia entre um mesmo povo, para que este se divida e não consiga buscar objetivos comuns.
    Um marco significativo na busca por um objetivo comum foi a criação da Organização das Nações Unidas. Nos dias atuais quase a totalidade dos países fazem parte da ONU, e cada vez mais são criados organizações internacionais na busca de objetivos comuns, sejam em quaiquer das diversas áreas, como: segurança internacional, comércio, meio ambiente, entre outras.
    Com a globalização, os povos e não mais só os seus governos buscam esta interação buscando objetivos em comum, como o que ocorre na criação de ONGs internacionais.
    Com os diversos problemas criados pela falta de entendimento dos homens, estes já se deram conta que precisam se juntar para buscarem acordos que satisfaçam a necessidade de todos.

  2. Só uma pequena correção desejo fazer: Isso não é um mito, isto é história.
    E considero muito bem colocadas as colocações dess interpretação, como ja disse outrem “A ambição é o princípio de todos os males!”

  3. Gunnar Veríssimo,
    Agradecemos pela sua contribuição. Sejam você e todos os navegantes muito bem-vindos para corrigir as informações contidas no nosso website.
    Quanto a sua observação, eu gostaria de fazer o seguinte comentário como autor do post.
    A farta evidência historiográfica sobre a cidade da Babilônia com suas riqueza cultural e arquitetônica, no meu ponto de vista, não permite que se conclua que o episódio da Torre de Babel, como um todo, tenha sido uma “verdade histórica”. Aceito todas as opiniões, mas creio que haja um consenso linguístico entre acadêmicos da historiografia segundo o qual a ideia de tal intervenção divina em Babel faz parte do conjunto de dogmas pertecentes ao domínio de saberes de natureza religiosa e não de natureza científica. Portanto, eu respeitosamente discordo, por achar que é terminologicamente impreciso chamar isto de “história”. Mas aceito que pessoas que vem de uma perspectiva religiosa encarem esta questão como um “fato”, como uma “verdade”, daí a noção de “história”.
    Como este website faz parte de um programa universitário, nós continuaremos aqui adotando a palavra “mito” para nos referirmos à esta passagem. Mas fazemos isto com todo o respeito, consideração e carinho por aqueles que pensam diferente e mesmo participam construtivamente do nosso debate no Projeto ORBIS.
    Lucem accipe ut reddas!
    Luiz Albuquerque

  4. Considero que o mito da Torre de Babel retrata de maneira fidedigna certos comportamentos do homem e de sua relação com Deus, sobretudo o cultuado pelas religões cristãs e islâmicas. Daí decorre a resposta à primeira questão proposta: a conduta humana ao construir a torre revela a ambição inconsequente e irresponsável de controle do planeta e, quiçá, de todo o universo, traduzido no mito pelo desejo de alcance do céu. Esta vontade pode ser entendida ainda como metáfora da intenção do homem em tomar para si o papel desempenhado por Deus, de substituí-lo como ser onipotente, podendo ser contextualizada na problemática contemporânea, por exemplo, quanto ao debate científico-religioso de controle pela ciência da vida e da morte (aborto, eutanásia, etc). Por outro lado, o mito expressa a imagem do Deus próprio das religiões tradicionais, que pune aqueles que ousam desafiá-lo como o centro único de todos os poderes. Como fatos históricos aptos a responderem às questões seguintes, vislumbro pelo menos dois: a divisão do continente africano, obtida como resultado do imperialismo europeu no século XIX, causando a ruptura de tribos nativas e etnias locais pelos interesses políticos e econômicos das grandes potências da época; e, também, a questão da “terra prometida” aos judeus no pós-guerra, que hoje redunda em conflitos no Oriente Médio, sobretudo entre Israel e os palestinos, conflitos estes permeados sempre por interesses das potências atuais.

  5. A Torre de Babel é uma das fascinantes histórias contidas na bíblia. Deus criou os céus e a terra, a luz e as trevas, as águas debaixo do firmamamento e as águas sobre o firmamento, a relva e os seres viventes. Por último fez o homem a sua imagem e semelhança, e deu a este o poder de domínio sobre tudo que era vivo na terra. Existia apenas uma proibição: que não se alimentasse dos frutos da arvóre da meio do jardim. Mas porque não se alimentar de um fruto que quando comido os olhos se abriam, seriam conhecedores do bem e do mal? A primeira resposta é bem simples: Era proibido comer do fruto. Adão e Eva não se deram por satisfeitos por tudo o que Deus havia feito por eles. O mesmo se passa na história da Torre de Babel: tamanha foi a audácia dos homens em construir uma torre cujo cume alcançasse os céus, Deus. Alcançasse algo que por natureza era superior a tudo. Pois Ele criara tudo.

    O castigo imposto pelo senhor foi justamente por ter os homens tentado alcançar o Divino querendo se igualar a Deus e mostrar que também tinha superioridade e poder.

    Como não ficar satisfeito com todas as maravilhas que já foi providas pelo Senhor? Não ficaram. Se audaciaram a tentar se igualar ao Supremo.

    A segunda questão não é “tão simples” assim. A bíblia é construída em parábolas( o que pra mim sempre foi intrigante, pois para que parábolas se ela é para ser acessível a todos?), e sendo assim, a cada um é permitido uma interpretação. Talvez mais que isso, para incutir em todos a reflexão das palavras do senhor.

    A primeira pergunta do Professor Albuquerque foi porque Deus impediu a construção da Torre. Penso que seja um castigo por se querer chegar aos céus, uma vez que as ações dos céus estavam refletidas em coisas boas na terra. E segundo para se evitar uma auto destruição dos homens. Explico.

    Se o que havia de mais poderoso era Deus e este estava nos céus ( uma pena não enxergarem as dádivas Dele na Terra) , conseguindo o homem alcançar os céus se igualaria a Deus e começariam a ter atitudes de um ser divino. Como por exemplo, achar que tem o direito de suprimir vidas, ou de impor o autoritarismo.

    Em relação a segunda pergunta, as disputas de poder, as guerras e as intervenções de nações soberanas em países mais fracos demonstram a o pensamento e a convicção que algumas nações têm de mostrar sua superioridade querendo assim edificar seu poder pelo mundo e sua ideologia. Tal qual os homens da Torre de Babel. Os EUA é um bom exemplo disso, pois escondido sob o véu de defensor de uma democracia, utiliza-se dos meios mais cruéis para difundir seu poder e ideologia pelo mundo. Se em Sinar eles disseram: ” …tornemos célebre por nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra”, no contexto mundial é: ” tornemos mais célebres por nosso nome, e espalhemos nossa ideologia e separemos os homens por toda a terra”.

    Em relação a terceira pergunta, cuja resposta é intrinsecamente ligada às outras, toda forma de poder, ainda que pareça pequena, levou e leva muitas nações e autoridades políticas a buscarem um domínio cada vez maior para serem considerados verdadeiros Deuses da economia e política.

    A diferença da história de Sinar e os dias de hoje é que lá, queria-se encontrar Deus, e de certa forma, se igualar a ele. Aqui, se pressupõe Deus, e difunde seu poderio ao redor do mundo.

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