Nick Witney e Jeremy Shapiro

Os países europeus devem mudar a forma de se relacionar com os EUA se quiserem mudar a atitude atual de indiferença
Enquanto Barack Obama se prepara para ir à Noruega para receber seu prêmio Nobel da Paz, as celebrações expõem uma terrível verdade: a admiração da Europa por seu ideal de um presidente americano não é recíproca. Obama não parece nutrir má vontade em relação aos europeus. Mas ele aprendeu rapidamente a vê-los com a atitude que eles acham mais difícil de suportar – indiferença.
Estamos entrando em um mundo pós-americano – o mundo além do breve momento americano de dominação mundial. O governo Obama compreende isso e reage com o que chama de “estratégia de multiparceiros”. Seja com os chineses, em questões da economia mundial, ou com os russos, no desarmamento nuclear, os Estados Unidos trabalharão com quem quer que os ajude a conseguir os resultados que deseja – assegurando, portanto, que continuará sendo a “nação indispensável”.
Não se pretende nenhuma rejeição ou exclusão dos europeus. Os americanos entendem que a Europa, como o outro grande repositório de legitimidade, riqueza e poder militar democráticos, tem grande potencial como parceiro. Obama detalhou isso durante sua primeira viagem à Europa como presidente, na reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em abril. Mas se a Europa deixar de responder a isso, Obama se voltará a outros lugares em busca dos parceiros que precisa, sem ser impedido pelas invocações apreensivas da Europa sobre “relações especiais” ou a “comunidade de valores do Atlântico”.
A abordagem de Obama é confessadamente pragmática. Sua observação de que o relacionamento EUA-China moldará o século XXI não foi uma declaração de preferências, mas um reconhecimento da realidade.
Tudo isso é um choque brusco para a Europa. O fim do século XX desenrolou-se muito bem para os europeus. Em troca de solidariedade política, os EUA os protegeram e lhes deram o papel de associados juniores no comando do mundo.
Atitudes em circunstâncias tão cômodas são difíceis de mudar. Portanto, 20 anos depois do colapso da União Soviética, a Rússia gasta apenas metade do que os europeus em defesa – ainda assim, a Europa se aferra à ideia de que sua segurança depende da proteção americana. Com a mesma energia, os europeus recusam-se a aceitar que os EUA possam legitimamente ter interesses geopolíticos diferentes – então quando as políticas dos EUA divergem das suas, os europeus presumem que os americanos simplesmente entenderam errado e que, claramente, precisam dos sábios conselhos da Europa para endireitá-las.
Tal mentalidade naturalmente dá um imenso valor a relações transatlânticas próximas e harmoniosas, a ponto de que, para os europeus, a proximidade e harmonia tornaram-se um objetivo por si só, sem importar para que fim podem servir. Os europeus, em resumo, tratam as relações transatlânticas como objeto de fetiche.
Em relação à Rússia e China, os membros da União Europeia (UE), em geral, admitem que uma posição mais unida seria desejável. Não há esse reconhecimento, no entanto, em relação aos EUA. Ao contrário, as elites europeias parecem sentir que trabalhar juntos contra os EUA seria impróprio.
Portanto, para a maioria dos países europeus, as relações transatlânticas tratam-se primeiramente da Otan e de seus laços bilaterais com os EUA. Afinal, não são apenas os britânicos que acreditam ter um “relacionamento especial”; a maioria dos países da UE gosta de acreditar que possui uma proximidade em particular com a América, que lhes dá influência especial. Como consequência, predominam as abordagens nacionais, em vez de coletivas, baseadas em estratégias de aproximação – cada país europeu tenta apresentar-se como mais útil ou, pelo menos, mais compreensivo que seus concorrentes europeus.
Da perspectiva americana, isso pode ser frequentemente vantajoso. Se os europeus querem ser divididos e governados, os Estados Unidos estão satisfeitos em atendê-los. A América pode decidir com calma sobre a nova estratégia no Afeganistão, sem considerar as visões europeias, apesar da presença de mais de 30 mil soldados europeus no país. Da mesma forma, convém aos EUA que a Europa continue à margem no conflito entre Israel e Palestina enquanto paga € 1 bilhão por ano para financiar o impasse.
Ainda assim, apesar dessas vantagens, a América está irritada com o constante clamor europeu por acesso e atenção. Seria mais fácil lidar com tal carência se fosse acompanhada de uma maior disposição para agir de forma decisiva. Todos esses diferentes europeus são capazes de passar sinceridade, mas poucos estão dispostos a colocar a mão na massa. Vistos de Washington, a necessidade de atenção e o comportamento de evitar responsabilidades da Europa parecem infantis.
Se ao menos, então, os europeus aprendessem a dirigir-se à América com uma só voz. Não há falta de ideias sobre como encorajar isso por meio de novos processos e fóruns para diálogos estratégicos entre EUA e UE. Mas o problema é de psicologia política, não de arranjos institucionais. Poderá ser resolvido apenas quando os europeus avaliarem a forma como o mundo está mudando; decidirem que permitir que a ordem mundial futura seja definida por outros está longe de ser o ideal e desenvolverem atitudes e comportamentos de uma Europa pós-americana.
Isso exige uma Europa que conheça sua própria mente, para que possa abordar os EUA – e o resto do mundo – com uma visão mais clara e uma mentalidade mais convicta. Os países da UE terão de aprender a discutir grandes questões geopolíticas – a começar pela sua própria segurança – enquanto europeus, dentro da UE. Nem sempre concordarão uns com os outros. Quando o fizerem, terão melhores chances de expressar seus próprios interesses – e de agir como um parceiro mais comprometido e influente dos EUA em muitas questões internacionais em que os interesses americanos e europeus coincidem.
Os EUA, na verdade, prefeririam uma Europa assim. As expectativas dos americanos, no entanto, são tão pequenas, que eles mal se importam. Os europeus pós-americanos precisam despojar-se de sua deferência e complacência habituais em relação aos EUA – ou conformar-se com uma merecida indiferença americana.
Nick Witney é ex-executivo-chefe da Agência de Defesa Europeia e pesquisador sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Jeremy Shapiro é diretor de pesquisas do Centro dos Estados Unidos e Europa, na Brookings Institution. Project Syndicate, 2009. www.project-syndicate.org
Fonte: MRE – Valor Econômico´- http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=646244
Postado por Lais Niman










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